quinta-feira, 2 de abril de 2026

Do ladrão de celular ao saqueador do Estado: Por que o imaginário popular enxerga com nitidez o crime da rua, mas nem sempre percebe a dimensão do roubo político-institucional



Índice

  1. Lide
  2. O crime que a população vê e sente na pele
  3. Por que o celular virou símbolo do medo cotidiano
  4. O grande roubo que não parece roubo
  5. A diferença entre o assalto visível e a pilhagem sistêmica
  6. Corrupção, desvio e captura: quando o sistema drena a própria sociedade
  7. Por que a população pensa primeiro no celular e só depois no Estado
  8. O erro político de separar segurança pública e corrupção
  9. Conclusão




Lide


Em outras épocas, dizia-se “ladrão de galinha” para nomear o pequeno criminoso do cotidiano. Hoje, em muitos centros urbanos brasileiros, a imagem que ocupa esse lugar é a do “ladrão de celular”. A troca não é trivial. Ela revela uma mudança no objeto do medo popular e, ao mesmo tempo, expõe um limite da percepção social: quando se fala em roubo, a maioria das pessoas pensa primeiro no crime visível, imediato e individualizado, e muito menos no saque silencioso operado dentro dos próprios sistemas políticos e administrativos. O celular roubado dói na hora; o desvio sistêmico sangra o país lentamente. E talvez seja justamente por isso que o segundo, embora maior e mais destrutivo, nem sempre produza a mesma indignação instantânea.



O crime que a população vê e sente na pele


A sua percepção tem forte lastro na realidade brasileira. A preocupação com crime e violência segue entre as maiores do país. Em estudo da Ipsos publicado em novembro de 2025, “crime e violência” apareceu como a principal preocupação dos brasileiros, com 40%, tecnicamente empatada com “corrupção”, com 39%. A própria série histórica destacada pela pesquisa mostra que essa inquietação é crônica e estrutural, não episódica. 


Isso já revela algo importante: o brasileiro teme tanto o crime comum quanto a corrupção. Mas o modo como cada uma dessas ameaças entra no imaginário é diferente. O crime de rua é concreto, corporal, narrável. Ele tem cena. Tem gesto. Tem trauma. A pessoa sai de casa com o telefone na mão e volta sem ele. O prejuízo é instantâneo, mensurável e emocionalmente devastador. Já o roubo sistêmico, ainda que muito maior em escala, costuma se apresentar de forma burocrática, diluída e tecnicamente opaca. 



Por que o celular virou símbolo do medo cotidiano


Os dados recentes ajudam a explicar por que o celular se tornou quase um emblema do medo urbano. O infográfico do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 informa 917.748 aparelhos roubados ou furtados, taxa de 431,7 ocorrências por 100 mil habitantes, com forte concentração em via pública. O material também mostra que 79,6% dos roubos de celular acontecem em via pública, e que a cidade de São Paulo, sozinha, concentra 18,5% de todos os roubos e furtos de celular do país, embora tenha apenas 5,6% da população brasileira. 


O celular, portanto, não é apenas um objeto. Ele concentra vida bancária, mensagens, documentos, fotos, trabalho, memória, senha, identidade e rotina. Quando ele é tomado, não se rouba só um bem; rouba-se um pedaço funcional da vida moderna. Eis a razão pela qual o “ladrão de celular” ocupa hoje, no imaginário popular, o lugar que antes era do “ladrão de galinha”: ele simboliza o pequeno e médio crime urbano que invade a experiência comum. 



O grande roubo que não parece roubo


Mas há uma armadilha perceptiva aí. Enquanto o cidadão fixa os olhos no crime que corre pela rua, muitas vezes não percebe com a mesma nitidez o crime que circula pelos corredores do poder. E esse segundo tipo de roubo pode ser muito mais devastador.


Quando recursos públicos são desviados, quando contratos são manipulados, quando há cartelização, superfaturamento, captura regulatória, loteamento patrimonialista do Estado ou redes de favorecimento travestidas de normalidade institucional, o resultado não costuma aparecer na forma de um assalto com testemunhas. Ele aparece como posto de saúde precário, estrada inacabada, merenda insuficiente, hospital sem insumos, escola sem estrutura, obra parada, política pública ineficiente e perda generalizada de confiança social. Ou seja: o dano é difuso, mas profundamente real. 


É justamente esse tipo de dinâmica que a Transparência Internacional procura captar ao medir a percepção de corrupção no setor público. No Índice de Percepção da Corrupção de 2025, publicado em fevereiro de 2026, o Brasil ficou com 35 pontos, abaixo da média das Américas e da média global, ambas em 42, além de permanecer em trajetória de estagnação prolongada abaixo da média mundial. 



A diferença entre o assalto visível e a pilhagem sistêmica


O roubo do celular é um crime de contato. A pilhagem do Estado é um crime de estrutura. Esse contraste é decisivo.


No primeiro caso, há vítima identificável, tempo curto e nexo imediato entre ação e dano. No segundo, há mediações, camadas institucionais, linguagem técnica e um prolongamento temporal que torna o prejuízo menos teatral, embora frequentemente maior. Um assaltante leva o aparelho de uma pessoa. Um sistema de desvio e captura pode comprometer orçamento, serviços, confiança institucional e capacidade estatal para milhões. Isso não reduz a gravidade do crime de rua; apenas recoloca as proporções. 


A sociedade tende a reagir mais intensamente ao que vê do que ao que precisa interpretar. É quase uma lei da percepção pública: a violência concreta mobiliza mais rápido que a violência estrutural. Um empurrão, uma arma, uma corrida e um telefone levado são compreendidos em segundos. Já a corrupção sistêmica exige leitura de contexto, compreensão institucional, acompanhamento orçamentário e capacidade de relacionar causa e efeito. Nem sempre esse trabalho cognitivo acontece no cotidiano da maioria. Por isso, o assalto da esquina vira assunto imediato, enquanto o desvio milionário muitas vezes vira apenas manchete passageira. 



Corrupção, desvio e captura: quando o sistema drena a própria sociedade


O grande problema não é apenas moral. É civilizacional. Um Estado corroído por desvios recorrentes perde capacidade de entregar direitos e de organizar o futuro. O dinheiro que some da saúde não vira só estatística; vira consulta adiada, exame não realizado, leito que falta. O recurso drenado da educação não desaparece apenas do orçamento; ele reaparece como laboratório ausente, infraestrutura precária e oportunidade perdida. O orçamento capturado por interesses privados deixa de cumprir função pública. Nesse sentido, corrupção não é apenas “roubo de dinheiro público”; é roubo de tempo social, de dignidade coletiva e de horizonte histórico.


Essa leitura é compatível com o alerta da própria Transparência Internacional, que, ao comentar o IPC 2025, associou o cenário brasileiro à persistência de macrocorrupção, impunidade e fragilidades institucionais que comprometem a integridade do setor público. 



Por que a população pensa primeiro no celular e só depois no Estado


A resposta passa por três fatores: visibilidade, proximidade e linguagem.


O primeiro é a visibilidade. O roubo de celular é cinematográfico. A corrupção administrativa é documental. Um pode ser filmado por câmera de segurança; o outro está escondido em aditivo contratual, parecer enviesado, cláusula conveniente, emenda mal fiscalizada ou decisão opaca.


O segundo é a proximidade. O assalto pode atingir qualquer pessoa hoje, na saída do trabalho. Já o roubo sistêmico parece, à primeira vista, mais distante, como se fosse problema “da política” e não da vida real. Só que essa distância é enganosa: ele volta à vida concreta na forma de serviço público degradado e de desigualdade reproduzida.


O terceiro é a linguagem. O pequeno crime é narrado na linguagem comum. O grande roubo institucional costuma ser escondido sob jargões administrativos, jurídicos e financeiros. Quanto mais técnica a embalagem, menos intuitiva a percepção popular do dano. 


Em outras palavras: o celular roubado entra no imaginário porque é um choque; a corrupção sistêmica, porque é um processo, muitas vezes não entra com a mesma força. Isso não significa que a população seja indiferente à corrupção. A própria Ipsos mostra que ela está praticamente empatada com crime e violência entre as maiores preocupações nacionais. Significa apenas que, quando se fala genericamente em “roubo”, o reflexo mental ainda tende a ir primeiro para o delito visível do cotidiano. 



O erro político de separar segurança pública e corrupção


Há, porém, um erro recorrente no debate público: tratar segurança pública e corrupção como se fossem problemas separados. Não são.


Um Estado corroído por desorganização, patrimonialismo e desvio tende a oferecer piores condições de prevenção, investigação, inteligência, repressão qualificada e justiça. A própria dinâmica do crime patrimonial contemporâneo, como mostra o material do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, conecta o mundo físico ao digital, inclusive com crescimento de fraudes e golpes. Quando instituições falham, o ecossistema da criminalidade se expande. 


Dito de maneira direta: não há combate sério ao roubo de celular sem instituições eficientes; e não há instituições eficientes quando o sistema político-administrativo é atravessado por práticas de espoliação, captura e impunidade. O ladrão da esquina e o saqueador de gabinete não são equivalentes em método, mas se alimentam do mesmo ambiente de fragilidade estatal. Um aparece como sintoma visível; o outro, muitas vezes, como causa profunda.



Conclusão


Sim, a afirmação é verdadeira em grande medida. Quando se fala em roubo, a imagem que surge com mais rapidez na cabeça de muita gente ainda é a do celular tomado na rua, não a do orçamento drenado por dentro do Estado. Isso ocorre porque o crime comum é concreto, imediato e emocionalmente inteligível, ao passo que o grande roubo político-institucional costuma ser difuso, técnico e menos visível. Mas essa diferença de percepção não deve nos enganar: o fato de o assalto cotidiano ser mais facilmente imaginado não o torna necessariamente mais destrutivo que o desvio sistêmico. Ao contrário, o saque institucional, quando se naturaliza, produz danos de escala muito maior, porque corrói os instrumentos coletivos que deveriam proteger a sociedade. O ladrão de celular atinge uma vítima direta; o saqueador do sistema público multiplica vítimas em silêncio. Talvez o desafio brasileiro esteja justamente aí: aprender a reconhecer que a violência que arranca o telefone da mão e a violência que retira direitos do orçamento pertencem à mesma tragédia nacional, apenas em registros diferentes. A primeira assusta porque aparece. A segunda devasta porque se infiltra. E um país que enxerga apenas o crime da rua, mas não enxerga com igual rigor o roubo sofisticado do poder, corre o risco de combater o efeito e poupar a engrenagem.



A estupidez como fracasso da razão: Entre Descartes, Hannah Arendt, Kahneman e Jean-François Marmion



“O bom senso é o que há de mais universal no mundo”, escreveu Descartes no início do Discurso do Método. A frase, à primeira vista, parece uma celebração da racionalidade humana. Mas, lida à luz de obras contemporâneas como A psicologia da estupidez, organizada por Jean-François Marmion, ela adquire um tom quase irônico. Afinal, se o bom senso é tão universal, por que a irracionalidade, o autoengano, a cegueira moral e a adesão ao absurdo aparecem com tanta frequência na vida cotidiana, na política, nas instituições e até na ciência?


A pergunta é incômoda porque atinge o centro da experiência humana. O problema não é apenas que existam pessoas ignorantes. O problema é mais profundo: seres humanos inteligentes, instruídos, sofisticados e até brilhantes podem incorrer em formas graves de estupidez. E, não raramente, justamente por serem inteligentes, tornam-se ainda mais capazes de justificar o injustificável.


É nesse ponto que a reflexão de Marmion se torna particularmente fecunda. A estupidez, ali, não aparece como simples falta de inteligência, mas como falha do juízo, endurecimento do ego, recusa da dúvida, apego narcísico às próprias crenças e incapacidade de confrontar a realidade quando ela ameaça o conforto psicológico. Em outras palavras, a estupidez não é mera ausência de luz; às vezes, ela é uma luz mal orientada, usada para iluminar apenas aquilo que confirma o que já se queria ver.



Descartes e o ideal da razão disciplinada


Descartes jamais confundiu razão com opinião espontânea. Quando afirma a universalidade do bom senso, não está dizendo que todos pensam bem, mas que todos acreditam possuir a faculdade de julgar. A diferença é decisiva. Ter a faculdade da razão não significa exercê-la corretamente. Por isso, o filósofo francês propõe método, ordem, decomposição dos problemas, revisão cuidadosa e, sobretudo, dúvida.


Aqui surge uma primeira chave interpretativa importante: a estupidez talvez não seja o oposto da razão, mas o oposto do seu uso disciplinado. O erro humano não nasce apenas da ignorância; nasce também da pressa de concluir, da vaidade de acertar, da preguiça de revisar e do medo de admitir que talvez se esteja errado. Descartes apostava que a razão, quando submetida ao método, poderia corrigir essas tendências. Marmion, por sua vez, mostra o quanto essas tendências continuam operando, apesar de todo o aparato racional de que dispomos.


Há, portanto, menos contradição do que parece entre os dois. Descartes oferece o ideal normativo da razão. Marmion descreve sua degradação prática no cotidiano psicológico e social. Um mostra o caminho; o outro expõe os abismos.



Hannah Arendt e a banalidade da falha de pensar


A aproximação com Hannah Arendt aprofunda ainda mais o problema. Ao refletir sobre o totalitarismo e sobre o julgamento de Adolf Eichmann, Arendt formulou uma das ideias mais perturbadoras do pensamento contemporâneo: o mal nem sempre se apresenta como monstruosidade espetacular; ele pode emergir da banalidade, da incapacidade de pensar criticamente, da obediência sem reflexão, da adesão burocrática a rotinas desumanizantes (Arendt, 1999).


Esse ponto tem relação direta com a discussão sobre estupidez. A estupidez, em sua forma mais perigosa, não é necessariamente caricatural. Ela pode vestir terno, ocupar cargos, preencher formulários, assinar documentos, replicar slogans morais e agir dentro da mais aparente normalidade. Não se trata apenas de um déficit cognitivo, mas de um colapso ético do pensamento. A pessoa deixa de interrogar o sentido do que faz. Deixa de pensar a partir da perspectiva do outro. Deixa de submeter suas ações a um juízo interno.


Arendt ajuda a perceber que a estupidez pode ser socialmente organizada. Ela não depende apenas de indivíduos “tolos”, mas de ambientes que recompensam conformismo, punem a reflexão, estimulam a simplificação e transformam a repetição em virtude. Em tais contextos, pensar torna-se quase um ato de resistência.


É precisamente por isso que a estupidez não deve ser tratada apenas como tema humorístico ou psicológico. Ela também é questão política. Uma sociedade que enfraquece a educação crítica, que substitui argumentação por slogans e que incentiva pertencimentos tribais acima da verdade cria condições favoráveis para a expansão de formas coletivas de estupidez.



Kahneman e a arquitetura mental do erro


Se Arendt ilumina a dimensão ética e política do problema, Daniel Kahneman ajuda a explicar sua base cognitiva. Em Rápido e Devagar, o autor demonstra que o pensamento humano opera, em grande medida, por dois modos: um rápido, intuitivo, automático e associativo; outro lento, analítico, deliberativo e custoso (Kahneman, 2012). O primeiro é indispensável para a vida prática, mas também está na origem de inúmeros vieses, ilusões e julgamentos precipitados.


Essa formulação é decisiva porque revela que a estupidez não é uma anomalia rara. Ela está inscrita na economia normal da mente. O cérebro busca atalhos, simplifica, preenche lacunas, confirma expectativas e protege identidades. Isso significa que o erro não é exceção; é uma possibilidade estrutural da cognição humana.


O efeito Dunning-Kruger, por exemplo, mencionado em debates dessa natureza, mostra algo quase cruel: indivíduos menos competentes tendem a superestimar suas capacidades justamente porque lhes faltam os recursos para perceber sua própria insuficiência. Mas o fenômeno não se limita aos menos preparados. Em outros contextos, especialistas também podem cair em excesso de confiança, rigidez interpretativa e fechamento diante do inesperado.


Kahneman desmonta uma crença confortável: a de que pensamos como juízes frios e imparciais. Na prática, pensamos muitas vezes como advogados de nossas próprias convicções. Em vez de buscar a verdade, buscamos defender posições com as quais já nos identificamos. Marmion se move no mesmo terreno quando sugere que a estupidez floresce onde o ego atropela a lógica.



Marmion e a estupidez como poluição mental


A imagem da estupidez como “poluição mental” é particularmente feliz porque comunica três aspectos importantes. Primeiro, sua ubiquidade: ela está em toda parte. Segundo, sua invisibilidade relativa: nem sempre é facilmente percebida por quem a reproduz. Terceiro, seu caráter contagioso: ambientes intoxicados por desinformação, ressentimento, vaidade e simplificação tornam o pensamento mais opaco.


Essa perspectiva impede uma leitura moralista simplista. A estupidez não é propriedade exclusiva “dos outros”. Ela atravessa todos. Ela aparece quando alguém prefere preservar a autoestima a corrigir um erro; quando confunde convicção com verdade; quando transforma pertencimento grupal em critério de realidade; quando acredita que mudar de ideia é sinal de fraqueza, e não de maturidade intelectual.


Há aqui um ponto filosófico central: a estupidez não se reduz ao não saber, mas ao fechamento do pensamento. O ignorante que reconhece sua ignorância pode estar mais próximo da sabedoria do que o erudito incapaz de rever uma crença. Nesse sentido, a figura socrática permanece atual. A consciência do limite talvez seja uma das formas mais altas de inteligência.



Emoção, ego e autodefesa do erro


O mérito de autores como Antonio Damasio foi mostrar que emoção e razão não são esferas isoladas. Não pensamos apesar das emoções; pensamos com elas, a partir delas e, muitas vezes, sob sua influência. Isso significa que a irracionalidade não é um acidente externo ao pensamento, mas algo que o atravessa desde dentro.


Quando uma crença se funde à identidade, criticá-la deixa de ser simples debate intelectual e passa a ser vivido como ameaça pessoal. Daí a violência de tantas discussões contemporâneas. Não está em jogo apenas uma opinião; está em jogo a autoimagem, o lugar no grupo, a sensação de pertencimento, a necessidade de não parecer fraco. A estupidez, então, ganha um componente afetivo poderoso: ela protege o ego contra a dor de admitir equívoco.


Esse mecanismo ajuda a explicar por que fatos muitas vezes não bastam. A pessoa pode ter diante de si evidências robustas e, ainda assim, recusá-las. Não porque seja incapaz de compreendê-las em termos estritamente lógicos, mas porque aceitá-las implicaria perda simbólica, humilhação narcísica ou ruptura identitária. A estupidez, nesse caso, é uma defesa psíquica.



Redes sociais, pós-verdade e aceleração da estupidez


O mundo digital não inventou a estupidez, mas a amplificou em escala inédita. As redes sociais comprimem o tempo da reflexão, premiam respostas rápidas, estimulam indignação instantânea, reforçam bolhas cognitivas e transformam visibilidade em valor. Nesse ambiente, nuance perde espaço. A dúvida parece fraqueza. A prudência parece hesitação. O extremismo, ao contrário, circula com mais potência porque simplifica, mobiliza afetos intensos e oferece identidade imediata.


A pós-verdade não significa o desaparecimento dos fatos, mas sua subordinação crescente à lógica da adesão emocional. O que importa deixa de ser o que é verdadeiro e passa a ser o que confirma o grupo, reforça o ressentimento ou preserva o ego coletivo. A estupidez torna-se, então, uma tecnologia de coesão tribal.


E aqui reside um dos maiores perigos contemporâneos: não se trata apenas de pessoas enganadas, mas de comunidades inteiras estruturadas em torno de formas de erro socialmente recompensadas. Mentiras compartilhadas geram pertencimento. Indignações fabricadas geram engajamento. A simplificação brutal do real produz sensação enganosa de clareza.



O contrário da estupidez: inteligência ou humildade?


Talvez a pergunta decisiva não seja “como eliminar a estupidez?”, porque isso é impossível, mas “o que pode contê-la?”. E a resposta talvez não seja simplesmente mais inteligência, mais informação ou mais técnica. Pessoas altamente informadas continuam sendo capazes de autoengano, arrogância e cegueira moral.


O verdadeiro antídoto parece estar numa virtude menos celebrada: a humildade intelectual. A capacidade de dizer “posso estar errado”. A disposição de revisar argumentos. O reconhecimento de que perceber não é o mesmo que compreender. A aceitação de que inteligência sem autocrítica pode degenerar em sofisticação do erro.


Nesse ponto, o problema da estupidez encontra a ética do pensamento. Pensar bem não é apenas ter capacidade lógica; é cultivar uma relação honesta com a verdade, com o outro e com os próprios limites. É justamente por isso que a dúvida não é fraqueza. Ela é condição de lucidez.



Conclusão


A provocação “o bom senso é universal, mas e a estupidez?” toca uma verdade desconfortável: a condição humana é atravessada por uma tensão permanente entre razão e autoengano. Descartes acreditou na potência universal da razão; Hannah Arendt mostrou o risco da ausência de pensamento; Kahneman revelou os atalhos e vieses da mente; Marmion reuniu essas inquietações numa investigação multifacetada sobre a propensão humana à irracionalidade.


O resultado é uma lição dura, mas necessária: a estupidez não está apenas na ignorância alheia, e sim na vulnerabilidade compartilhada de todos os sujeitos ao ego, ao conformismo, à pressa, ao medo, à vaidade e à recusa de duvidar. Ela é menos um defeito de alguns do que uma possibilidade permanente de todos.


Por isso, a verdadeira inteligência talvez não consista em parecer sempre certo, mas em preservar a capacidade de pensar contra si mesmo. Onde essa capacidade desaparece, nasce a estupidez; onde ela permanece viva, ainda há esperança de razão.



Referências


Arendt, H. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.


Descartes, R. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2001.


Kahneman, D. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.


Marmion, J.-F. (org.). A psicologia da estupidez. Rio de Janeiro: Vestígio, 2020.