Introdução — a tese deste artigo
Há cenas que parecem pequenas demais para explicar uma época, mas grandes o suficiente para revelar uma doença social. Quando alguém se dispõe a colocar a própria saúde em risco para defender uma narrativa política, já não estamos diante de uma opinião pública saudável. Estamos diante de um colapso da razão, de uma espécie de fanatismo performático em que a pessoa não quer mais convencer pelo argumento, mas impressionar pela coragem irracional.
A tese deste artigo é simples e incômoda: o Brasil entrou em uma fase em que parte da disputa política deixou de buscar a verdade e passou a exigir demonstrações públicas de fidelidade ideológica. Não basta mais defender uma ideia; é preciso performá-la. Não basta discordar de uma instituição; é preciso tratá-la como inimiga. Não basta questionar uma decisão técnica; é preciso transformá-la em conspiração. E, quando esse processo avança, o absurdo deixa de causar vergonha e passa a render aplauso dentro da bolha.
Essa lógica tende a se intensificar em períodos eleitorais. O próprio Tribunal Superior Eleitoral afirma que o combate à desinformação tem sido prioridade desde 2018 e que, para as eleições gerais de 2026, foram aprovadas regras específicas sobre propaganda eleitoral e uso de inteligência artificial por partidos, candidatos e plataformas digitais. A Justiça Eleitoral também mantém o Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação, criado para reduzir os efeitos nocivos de conteúdos falsos, manipulados ou descontextualizados no processo eleitoral.
O problema é que a desinformação não atua sozinha. Ela encontra terreno fértil em uma sociedade emocionalmente cansada, economicamente pressionada, cognitivamente fragmentada e politicamente dividida. As redes sociais transformam ressentimentos em identidade, medos em engajamento e ignorância em espetáculo. O algoritmo não pergunta se algo é verdadeiro; pergunta se aquilo prende atenção. E poucas coisas prendem mais atenção do que o absurdo.
É por isso que atos de ignorância extrema precisam ser repudiados com firmeza. Não por arrogância intelectual. Não por desprezo ao povo. Mas justamente por respeito à vida, à verdade e à dignidade humana. Uma sociedade que naturaliza pessoas se colocando em risco para defender político, partido ou narrativa perdeu a medida do que é debate público.
1. Quando a política deixa de ser ideia e vira identidade total
A política, em sentido nobre, deveria ser o espaço de construção coletiva da vida comum. Política é disputa de projetos, de valores, de prioridades públicas, de formas de organizar o Estado, a economia, a educação, a saúde, a segurança, a justiça e a dignidade social. Mas, no ambiente digital contemporâneo, a política muitas vezes deixou de ser debate e passou a funcionar como identidade total.
O sujeito já não diz apenas: “eu defendo determinada proposta”. Ele passa a dizer, ainda que indiretamente: “eu sou essa proposta”. A partir daí, qualquer crítica ao grupo é recebida como ataque pessoal. Qualquer dado contrário é visto como provocação. Qualquer instituição que contrarie a crença da bolha vira inimiga. Qualquer autoridade técnica passa a ser suspeita.
Esse fenômeno é conhecido nas ciências sociais e políticas como polarização afetiva. Não se trata apenas de discordar do outro campo político. Trata-se de odiá-lo, desumanizá-lo, interpretá-lo como ameaça moral. Estudos recentes sobre mídias sociais observam que a polarização pode ser compreendida como a segregação do público em circuitos informacionais homogêneos, nos quais pessoas passam a circular majoritariamente entre conteúdos que confirmam suas crenças.
É nesse ambiente que nasce a figura do militante performático. Ele não precisa estudar o tema. Não precisa conhecer a legislação. Não precisa entender o laudo técnico. Não precisa ler a nota oficial. Basta saber de que lado está. Se o fato prejudica o “meu lado”, então o fato deve ser falso. Se a instituição incomoda o “meu líder”, então a instituição deve estar corrompida. Se a ciência contraria a narrativa da bolha, então a ciência virou instrumento do inimigo.
Esse é o começo do abismo.
2. O absurdo como ritual de pertencimento
Algumas ações extremas não têm como objetivo demonstrar verdade. Elas têm como objetivo demonstrar pertencimento. É como um ritual público de fidelidade. A pessoa sabe que está sendo observada. Sabe que será filmada, compartilhada, comentada, aplaudida por uns e criticada por outros. Mas é exatamente isso que alimenta o ato.
O gesto absurdo vira senha de entrada na comunidade dos “fiéis”. A pessoa parece dizer: “eu acredito tanto na minha narrativa que sou capaz de desafiar o bom senso para prová-la”. O problema é que isso não é prova de verdade. É prova de captura emocional.
Leon Festinger, ao formular a teoria da dissonância cognitiva, mostrou que seres humanos tendem a reduzir o desconforto provocado por contradições entre crenças, atitudes e fatos. Quando a realidade ameaça uma convicção importante, a pessoa pode reinterpretar a realidade para preservar a crença. Em outras palavras: em vez de mudar de opinião diante da evidência, ela muda a interpretação da evidência para proteger sua identidade.
No campo político, isso é explosivo. Um cidadão ideologicamente capturado não pergunta mais: “o que aconteceu?”. Ele pergunta: “como posso interpretar isso para que meu grupo continue certo?”. O fato vem depois da identidade. A prova vem depois da crença. A razão vem depois da lealdade.
É assim que o absurdo se torna possível. Não porque as pessoas sejam incapazes de pensar, mas porque foram treinadas a pensar dentro de uma moldura emocional fechada. Essa moldura define antecipadamente quem são os bons, quem são os maus, quem mente, quem persegue, quem salva, quem ameaça.
Quando isso acontece, a política deixa de ser cidadania e vira seita.
3. A extrema direita e a fabricação permanente da perseguição
É preciso dizer com clareza: nos últimos anos, a extrema direita brasileira tem utilizado com frequência uma estratégia política baseada na ideia de perseguição permanente. Tudo vira prova de conspiração. Uma decisão judicial vira perseguição. Uma fiscalização sanitária vira ataque ideológico. Uma ação administrativa vira complô. Uma crítica jornalística vira censura. Uma derrota eleitoral vira fraude.
Essa lógica é eficiente porque oferece explicações simples para problemas complexos. Ela transforma a realidade em uma novela moral, com vilões e heróis. O líder nunca erra; ele é perseguido. O grupo nunca falha; ele é sabotado. A instituição nunca age tecnicamente; ela obedece a interesses ocultos.
O fascínio dessa narrativa está justamente em sua simplicidade. Ela dispensa estudo, nuance, mediação institucional e responsabilidade. Basta repetir: “estão contra nós”. E, se estão contra nós, qualquer reação passa a parecer legítima.
Esse mecanismo não é exclusivo da extrema direita, mas nela ganhou forma especialmente agressiva no Brasil recente. A política se converteu em batalha espiritual, guerra cultural, cruzada moral e combate existencial. Nesse ambiente, a verdade factual perde força diante da verdade tribal.
Hannah Arendt, ao analisar experiências totalitárias, advertiu sobre o perigo da destruição do mundo comum dos fatos. Quando uma sociedade perde a capacidade de reconhecer uma base mínima de realidade compartilhada, abre-se espaço para a manipulação em massa. A mentira política deixa de ser apenas ocultação de fatos e passa a ser construção de um universo paralelo.
É nesse universo paralelo que uma pessoa pode colocar a própria saúde em risco para defender uma narrativa. O ato deixa de ser lido como ignorância e passa a ser celebrado como coragem. A prudência vira covardia. A razão vira submissão. A ciência vira propaganda. A instituição vira inimiga.
4. Redes sociais: a máquina que premia o desequilíbrio
Nenhum fanatismo contemporâneo pode ser explicado sem as redes sociais. Elas não criaram o ódio político, mas deram ao ódio velocidade, estética, recompensa e palco.
O ambiente digital funciona como uma arena de estímulos permanentes. O que indigna circula mais. O que choca retém mais atenção. O que humilha o adversário gera mais compartilhamento. O que confirma a crença da bolha produz prazer cognitivo. E o que é moderado, prudente e complexo costuma parecer fraco diante da teatralidade do extremismo.
As plataformas digitais operam por métricas: curtidas, comentários, compartilhamentos, tempo de tela, retenção, engajamento. O algoritmo não possui compromisso moral com a verdade. Ele aprende padrões de comportamento. Se a indignação prende mais atenção, a indignação será estimulada. Se o medo gera mais interação, o medo será amplificado. Se a mentira performática viraliza, ela será reproduzida até ser contestada — e, muitas vezes, a contestação também aumenta sua circulação.
Esse é o paradoxo: o absurdo cresce tanto pelo aplauso quanto pela crítica. Quem pratica o gesto extremo ganha visibilidade entre apoiadores e opositores. Uns compartilham para defender. Outros compartilham para ridicularizar. No fim, a cena circula. A pessoa vira personagem. A ignorância ganha palco.
Por isso, a disputa política atual não é apenas disputa de ideias. É disputa de atenção. E, quando a atenção vira moeda, o absurdo vira investimento.
5. A eleição de 2026 como ambiente de risco
A eleição presidencial de 2026 tende a ocorrer em um ambiente ainda mais sofisticado tecnologicamente e ainda mais tenso emocionalmente. O TSE já sinalizou preocupação específica com desinformação e uso de inteligência artificial nas campanhas. O Ministério Público Federal também participou de capacitações do TSE voltadas à segurança e ao combate à desinformação nas eleições de 2026, dentro do Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação.
Isso significa que o problema não é imaginário. As instituições sabem que haverá disputa informacional intensa. E essa disputa não ocorrerá apenas por meio de textos falsos ou montagens grosseiras. Ela poderá envolver vídeos manipulados, áudios sintéticos, deepfakes, campanhas coordenadas, influenciadores pagos, disparos segmentados e narrativas fabricadas para públicos específicos.
O risco maior não é apenas alguém acreditar em uma mentira. O risco maior é a mentira se transformar em identidade coletiva. Quando isso acontece, desmentir não basta. A correção factual pode ser interpretada como mais uma prova da conspiração.
Em período eleitoral, esse fenômeno tende a se agravar porque as paixões se organizam em torno de vitória e derrota. O adversário deixa de ser concorrente democrático e passa a ser ameaça existencial. A eleição deixa de ser escolha institucional e passa a ser batalha final. Nesse clima, qualquer gesto simbólico pode ser usado como munição.
É nesse contexto que atos absurdos podem se multiplicar: desafios irresponsáveis, performances humilhantes, agressões simbólicas, boicotes irracionais, ataques a instituições, campanhas contra vacinas, contra urnas, contra universidades, contra imprensa, contra órgãos técnicos, contra qualquer estrutura que atrapalhe a narrativa do grupo.
A ignorância deixa de ser ausência de informação e passa a ser projeto político.
6. O corpo como palco da guerra ideológica
Há algo profundamente triste quando uma pessoa usa o próprio corpo como palco de uma disputa ideológica. O corpo deveria ser limite. A saúde deveria ser limite. A vida deveria ser limite. Nenhuma narrativa política, nenhum líder, nenhum partido, nenhuma militância deveria valer o risco físico de um cidadão.
Mas a política fanatizada apaga limites. Ela convence pessoas de que o sacrifício pessoal é demonstração de pureza. Quanto maior o risco, maior a prova de fidelidade. Quanto mais absurdo o gesto, mais forte a mensagem para a bolha.
Esse comportamento se aproxima de uma lógica sacrificial. A pessoa oferece a própria prudência em nome do grupo. Ela abdica do bom senso para se tornar símbolo. O gesto extremo vira uma espécie de martírio performático, mesmo quando não há causa justa, nem verdade demonstrada, nem benefício coletivo.
É necessário repudiar isso com firmeza.
Não há heroísmo em colocar a saúde em risco para defender narrativa política. Não há coragem em desafiar evidência técnica sem conhecimento. Não há inteligência em transformar ignorância em espetáculo. Não há cidadania em trocar prudência por viralização.
O verdadeiro ato político responsável é estudar, comparar fontes, cobrar transparência, fiscalizar instituições, exigir provas, respeitar procedimentos técnicos e reconhecer erros quando eles aparecem. Mas isso exige maturidade. Exige humildade intelectual. Exige algo raro em tempos de bolha: a capacidade de dizer “talvez eu esteja errado”.
7. A morte do bom senso e a pedagogia da estupidez
O Brasil precisa falar seriamente sobre a pedagogia da estupidez. Não uso essa expressão como insulto individual, mas como crítica a um sistema que educa as pessoas para reagirem antes de pensar, compartilharem antes de verificar e odiarem antes de compreender.
A estupidez pública não nasce apenas da falta de escola. Há pessoas escolarizadas reproduzindo absurdos. Há profissionais, empresários, religiosos, comunicadores e políticos alimentando delírios coletivos. Portanto, o problema não é apenas alfabetização formal. É formação crítica.
Paulo Freire defendia que educação não é depósito de informação, mas formação da consciência. Uma sociedade pode ter acesso a celulares, redes sociais, vídeos, podcasts, canais e grupos de mensagens, mas ainda assim permanecer vulnerável se não desenvolver consciência crítica. Informação sem reflexão pode virar munição para a manipulação.
A ignorância contemporânea é diferente da ignorância antiga. Antes, muitas pessoas erravam por falta de acesso à informação. Hoje, muitas erram soterradas por excesso de informação ruim. O problema não é silêncio; é ruído. Não é ausência de conteúdo; é intoxicação cognitiva.
Eis a tragédia: nunca tivemos tanto acesso a dados, documentos, especialistas, universidades, bibliotecas, pesquisas e fontes oficiais. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil uma mentira emocional derrotar uma explicação técnica.
8. A política como torcida organizada
Parte do debate público brasileiro se comporta como torcida organizada. O sujeito não avalia o lance; ele defende seu time. Se o juiz marca contra o adversário, é justo. Se marca contra o próprio time, é roubo. Se a regra favorece o grupo, é democracia. Se contraria o grupo, é ditadura. Se a instituição pune o outro lado, funciona. Se pune o próprio lado, está corrompida.
Essa mentalidade destrói a cidadania porque impede critérios estáveis. O cidadão maduro deve defender princípios mesmo quando eles incomodam seu campo político. Liberdade de expressão, devido processo legal, responsabilidade sanitária, transparência pública, respeito à ciência, proteção da vida e honestidade intelectual não podem depender do lado beneficiado.
Quando tudo vira torcida, a coerência morre. E, quando a coerência morre, qualquer absurdo pode ser justificado.
É por isso que o ato extremo não deve ser lido apenas como maluquice individual. Ele é sintoma de uma cultura política degradada. Uma cultura em que o sujeito prefere parecer fiel a parecer sensato. Prefere agradar a bolha a proteger a própria integridade. Prefere performar convicção a admitir complexidade.
9. O papel dos líderes e influenciadores
Nenhum processo de radicalização se sustenta sem lideranças formais ou informais. Políticos, influenciadores, comunicadores e líderes religiosos ou comunitários desempenham papel decisivo na produção do clima emocional das massas.
Quando uma liderança age com responsabilidade, ela reduz tensões, pede prudência, respeita instituições, orienta seus apoiadores a não caírem em boatos e reconhece a complexidade dos fatos. Quando age de forma irresponsável, ela lança suspeitas genéricas, estimula paranoia, transforma adversários em inimigos, desacredita órgãos técnicos e depois finge surpresa quando sua base pratica absurdos.
A manipulação política raramente funciona por ordem direta. Ela funciona por sugestão, insinuação, ironia, dúvida plantada, medo repetido. O líder não precisa dizer: “faça isso”. Basta criar o ambiente moral em que aquilo pareça aceitável.
Por isso, lideranças que lucram politicamente com a ignorância pública precisam ser responsabilizadas no debate democrático. Não se trata de censura. Trata-se de responsabilidade. Liberdade de expressão não pode ser licença para empurrar pessoas ao delírio coletivo.
10. A responsabilidade da imprensa, da escola e das famílias
A resposta a esse quadro não pode ser apenas jurídica. É também cultural, educacional e comunicacional.
A imprensa precisa resistir à tentação de transformar todo absurdo em espetáculo. Noticiar é necessário, mas amplificar sem contexto pode alimentar o ciclo de viralização. O jornalismo precisa explicar mecanismos, identificar interesses, checar informações e evitar transformar ignorantes performáticos em celebridades instantâneas.
A escola precisa formar leitores críticos do mundo digital. Não basta ensinar o aluno a usar tecnologia. É preciso ensinar a desconfiar de manipulações, reconhecer fontes, interpretar dados, compreender instituições, distinguir fato de opinião e perceber quando está sendo emocionalmente conduzido.
As famílias também precisam conversar sobre política sem fanatismo. É preciso ensinar crianças e jovens que discordar não é odiar, que mudar de opinião não é fraqueza, que perguntar não é trair, que evidência importa e que nenhum político merece adoração.
A democracia depende de cidadãos capazes de pensar. Sem isso, ela vira refém de multidões manipuladas por medo, ressentimento e espetáculo.
11. Repudiar a ignorância não é desprezar o povo
É importante fazer uma distinção fundamental. Criticar atos de ignorância política não significa desprezar o povo. Ao contrário: significa defender o povo contra aqueles que lucram com sua desinformação.
O povo brasileiro não é burro. O povo brasileiro trabalha, sofre, resiste, cria, educa filhos, atravessa dificuldades e carrega este país nas costas. O que existe é um sistema brutal de manipulação que explora angústias legítimas e as transforma em ódio mal direcionado.
Quando uma pessoa comum cai em uma narrativa absurda, muitas vezes ela não é a autora principal do problema. Ela é também vítima de uma máquina política, econômica e digital que fabrica medo, ressentimento e pertencimento. Mas reconhecer isso não significa absolver o ato. Significa compreender o mecanismo para combatê-lo melhor.
Repudiar a ignorância é proteger a dignidade popular. É dizer que o povo merece mais do que boatos. Merece mais do que manipulação. Merece mais do que ser usado como massa de manobra por líderes que jamais colocariam a própria saúde em risco para provar narrativa alguma.
12. A indignação necessária
Confesso minha indignação diante dessas cenas. Não consigo tratar como normal uma pessoa colocar a própria saúde em risco para sustentar uma disputa política. Não consigo achar engraçado. Não consigo chamar de “folclore da internet”. Não consigo reduzir a meme.
Há um limite moral que precisa ser recolocado na vida pública.
Uma coisa é discordar de governo, partido, agência, tribunal, jornalista, cientista ou pesquisador. Isso faz parte da democracia. Outra coisa é transformar toda discordância em conspiração e todo gesto irracional em demonstração de coragem.
A democracia precisa de crítica, não de delírio. Precisa de oposição, não de fanatismo. Precisa de fiscalização, não de paranoia. Precisa de cidadãos, não de devotos políticos.
A indignação, neste caso, não é descontrole emocional. É reação ética. É o mínimo que resta quando se vê a razão pública sendo humilhada em praça digital.
Conclusão — contra a política da ignorância performática
O Brasil não pode normalizar a política da ignorância performática. Não pode aceitar que pessoas se coloquem em risco para defender narrativas ideológicas. Não pode transformar fanatismo em entretenimento. Não pode permitir que a disputa eleitoral converta cidadãos em soldados emocionais de uma guerra fabricada por algoritmos, influenciadores e lideranças irresponsáveis.
O que está em jogo é maior do que um episódio isolado. Está em jogo a capacidade de uma sociedade distinguir verdade de mentira, prudência de covardia, coragem de irresponsabilidade, crítica de delírio, liberdade de manipulação.
A eleição de 2026 será, sem dúvida, um teste para a maturidade democrática brasileira. Não apenas pelo resultado das urnas, mas pela forma como a sociedade atravessará o processo. Haverá desinformação. Haverá manipulação emocional. Haverá uso político da inteligência artificial. Haverá bolhas tentando transformar qualquer fato em prova de perseguição. Haverá gente tentando lucrar com o caos.
Mas a resposta não pode ser a rendição ao absurdo.
É preciso defender uma política adulta, fundada em evidências, instituições, responsabilidade pública e respeito à vida. É preciso recusar o espetáculo da estupidez. É preciso dizer, com todas as letras, que nenhum projeto político vale a degradação da inteligência humana.
A democracia não morre apenas quando tanques ocupam ruas. Ela também adoece quando cidadãos passam a celebrar a ignorância como se fosse virtude. Morre um pouco quando a mentira vira identidade. Morre um pouco quando o fanatismo vira coragem. Morre um pouco quando o corpo humano vira palco de disputa ideológica.
Por isso, ações como essas devem ser repudiadas sem ambiguidade. Não são engraçadas. Não são heroicas. Não são prova de razão. São sintomas de um país intoxicado por ódio, bolhas e manipulação.
E se ainda há esperança, ela começa por recuperar algo aparentemente simples, mas hoje revolucionário: pensar antes de acreditar, verificar antes de compartilhar, duvidar antes de obedecer e jamais entregar a própria dignidade a qualquer projeto político que precise da ignorância para sobreviver.
Referências
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
FESTINGER, Leon. A theory of cognitive dissonance. Stanford: Stanford University Press, 1957.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.
JUSTIÇA ELEITORAL. Desinformação. Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação da Justiça Eleitoral. Disponível em: site da Justiça Eleitoral. Acesso em: 11 maio 2026.
LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: Edipro, 2018.
MPF. MPF participa de capacitação do TSE sobre segurança e combate à desinformação nas Eleições 2026. Brasília, 2026.
RIBEIRO, Márcio Moretto; ORTELLADO, Pablo. Polarização em mídias sociais. Matrizes, São Paulo, v. 19, n. 1, p. 281-295, 2025.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Por Dentro das Eleições: conheça as regras sobre uso de IA na campanha eleitoral de 2026. Brasília, 2026.
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