Como o poder molda percepções, organiza narrativas e transforma interesses particulares em aparente vontade coletiva
Índice
1. Lide
2. O que significa fabricação de consentimento
3. A origem do conceito e sua formulação teórica
4. Os cinco filtros do modelo de propaganda
1. Propriedade dos meios
2. Dependência da publicidade
3. Dependência de fontes
4. Flak, punição e disciplinamento
5. Ideologia, medo e inimigos úteis
5. Consentimento, democracia e poder simbólico
6. A fabricação de consentimento na era digital
7. Plataformas, algoritmos e economia da atenção
8. Desinformação, polarização e erosão do juízo crítico
9. Como o consentimento é produzido na prática
10. Educação crítica e defesa democrática
11. Conclusão
12. Referências
Lide
A fabricação de consentimento é um dos conceitos mais importantes para compreender como sociedades formalmente livres podem ser conduzidas a aceitar guerras, políticas econômicas regressivas, cortes de direitos, perseguições simbólicas e agendas de poder sem que isso pareça imposição. Em vez de coerção explícita, o que se vê é algo mais sofisticado: a construção paciente de narrativas, enquadramentos e silêncios capazes de tornar natural aquilo que, em outras circunstâncias, seria alvo de resistência. O ponto decisivo é simples e perturbador: em muitos casos, as pessoas não são convencidas apenas por argumentos; elas são conduzidas por estruturas de comunicação que selecionam o que pode ser visto, dito, repetido e legitimado. Essa é a engrenagem profunda da fabricação de consentimento. (Herman; Chomsky, 1988).
1. O que significa fabricação de consentimento
“Fabricação de consentimento” não significa apenas propaganda vulgar, mentira grosseira ou manipulação caricata. O conceito é mais refinado. Ele descreve o processo pelo qual instituições políticas, econômicas e midiáticas ajudam a produzir aceitação social para determinadas visões de mundo, interesses estratégicos e decisões de poder. Em outras palavras, não se trata apenas de fazer as pessoas acreditarem em algo falso, mas de organizar o ambiente simbólico dentro do qual certas posições parecem razoáveis, inevitáveis e até moralmente corretas, enquanto outras são tratadas como radicais, ingênuas ou perigosas. (Herman; Chomsky, 1988).
A força do conceito está em mostrar que o poder raramente precisa controlar cada consciência individual de forma direta. Basta influenciar os circuitos de visibilidade, credibilidade e repetição. Quem define quais fatos entram em cena, quais vozes merecem ser ouvidas, quais temas ocupam a agenda e quais interpretações são consideradas “sérias” já exerce enorme poder sobre a formação da opinião pública. A comunicação de massa, nesse sentido, não apenas informa: ela hierarquiza realidades. Ela escolhe o centro e empurra a periferia para a sombra. Britannica observa que os produtores de conteúdo dos meios de comunicação têm capacidade de definir a agenda do debate público ao determinar quais assuntos serão considerados relevantes.
É exatamente aí que a expressão ganha densidade política. Consentimento não é mera concordância espontânea. Muitas vezes, é concordância produzida em um ambiente previamente filtrado. É como entrar em uma sala em que a iluminação já foi montada, as janelas já foram fechadas e as perguntas já chegaram mutiladas. O indivíduo sente que está decidindo livremente, mas decide dentro de um espaço discursivo arquitetado por forças que ele nem sempre enxerga.
2. A origem do conceito e sua formulação teórica
A formulação contemporânea mais conhecida do conceito aparece no livro Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media, publicado em 1988 por Edward S. Herman e Noam Chomsky. A obra se tornou referência justamente por sustentar que, em democracias capitalistas avançadas, os meios de comunicação dominantes não operam prioritariamente como vigilantes independentes do poder, mas frequentemente como engrenagens sistêmicas de reprodução de interesses das elites políticas e econômicas. Penguin Random House resume o argumento central do livro dizendo que os autores apresentam o “modelo de propaganda”, uma estrutura explicativa para entender como vieses sistêmicos moldam as histórias contadas, as vozes ouvidas e as verdades que permanecem ocultas. Britannica também identifica a obra como um marco da crítica à mídia de massa e à sua vinculação estrutural a interesses dominantes.
O mérito do livro não está em afirmar que jornalistas conspiram secretamente em uma sala escura. Esse seria um raciocínio simplista. O argumento é mais estrutural: mesmo sem censura estatal explícita e mesmo sem coordenação central absoluta, as rotinas, dependências financeiras, modelos de negócio, relações com fontes poderosas e mecanismos de punição simbólica tendem a favorecer certos conteúdos e desfavorecer outros. O sistema funciona porque seus incentivos já apontam numa direção. É menos uma conspiração do que uma arquitetura. Menos um decreto do que um condicionamento.
Essa distinção é crucial. Quando se fala em fabricação de consentimento, muitas pessoas imaginam manipulação grosseira. Mas o conceito é mais profundo porque mostra que a produção de consenso ocorre também por seleção, omissão, enquadramento e repetição. Nem sempre é preciso inventar uma mentira; às vezes basta escolher o ângulo, omitir o contexto, amplificar uma fala, silenciar outra e repetir o procedimento até que o público passe a perceber o mundo a partir daquele recorte.
3. Os cinco filtros do modelo de propaganda
Herman e Chomsky propõem que a informação que circula nos grandes meios passa por cinco filtros centrais. Em retrospectiva, o próprio Herman sintetizou esses fatores como propriedade, publicidade, dependência de fontes, flak e ideologia anticomunista, ou, em formulações posteriores, medo e produção de inimigos.
3.1 Propriedade dos meios
O primeiro filtro é a estrutura de propriedade. Grandes empresas de mídia não existem no vazio. Elas pertencem a grupos econômicos, respondem a acionistas, operam em mercados concentrados e dependem de estabilidade institucional favorável aos negócios. Isso não significa que toda notícia seja falsa. Significa que há limites estruturais para a crítica quando ela ameaça interesses centrais do sistema do qual o próprio veículo faz parte. (Herman; Chomsky, 1988).
Aqui está um ponto delicado: a imprensa pode até denunciar escândalos pontuais, e frequentemente o faz, mas tende a ser menos propensa a questionar os fundamentos estruturais do arranjo econômico e político que sustenta sua própria existência. É como um espelho que reflete muito, mas não mostra a moldura.
3.2 Dependência da publicidade
O segundo filtro é a publicidade. Em sistemas midiáticos altamente mercantilizados, a audiência não é exatamente o produto final: muitas vezes, ela é a mercadoria oferecida aos anunciantes. O que isso produz? Um incentivo permanente à moderação seletiva. Conteúdos que afrontam profundamente interesses de grandes anunciantes, ou que tornam o ambiente “comercialmente hostil”, podem perder espaço. O problema, portanto, não é apenas editorial; é estrutural. (Herman; Chomsky, 1988).
Isso ajuda a entender por que certos temas aparecem despolitizados. Questões trabalhistas podem surgir como problema de “gestão”; colapsos ambientais como “acidentes”; desigualdades extremas como “desafios de mercado”. A linguagem já vem higienizada para não ferir demais os pilares do financiamento.
3.3 Dependência de fontes
O terceiro filtro é a dependência de fontes institucionais. O jornalismo em larga escala precisa de fluxo contínuo de informação. Quem oferece esse fluxo com regularidade? Governos, grandes empresas, forças armadas, especialistas credenciados, assessorias, think tanks, consultorias e instituições com alto poder organizacional. O resultado é previsível: essas fontes tendem a pautar o debate, definir prioridades e enquadrar eventos segundo seus interesses.
Não é preciso imaginar má-fé individual. O repórter sob pressão de tempo, orçamento e rotina tende a recorrer ao que está disponível, legitimado e prontamente citável. Só que esse atalho produz um efeito político poderoso: quem já tem poder de fala ganha ainda mais poder de fala. Quem está nas margens aparece menos, fala menos e é ouvido sob suspeita.
3.4 Flak, punição e disciplinamento
O quarto filtro é o flak, termo usado para designar pressões, ataques, campanhas de deslegitimação, ameaças jurídicas, boicotes e outras formas de retaliação contra conteúdos dissonantes. Herman descreveu o flak como mecanismo que, somado aos demais filtros, influencia decisivamente as escolhas midiáticas.
Hoje esse filtro parece ainda mais visível. Não se trata apenas de cartas indignadas ou telefonemas de gabinetes. Trata-se também de linchamentos digitais, campanhas coordenadas, assédio a jornalistas, pressões comerciais, cortes de patrocínio e guerrilhas permanentes de reputação. O resultado é um disciplinamento difuso: nem toda censura precisa proibir; muitas vezes basta intimidar.
3.5 Ideologia, medo e inimigos úteis
O quinto filtro, formulado originalmente em chave anticomunista, diz respeito à necessidade política de organizar o mundo a partir de ameaças mobilizadoras. Em contextos históricos diferentes, o rótulo muda, mas a lógica permanece: é preciso nomear inimigos, produzir pânico moral e simplificar conflitos complexos em dualismos emocionalmente eficazes. Herman observa que esse filtro opera como ideologia legitimadora, e interpretações posteriores o ampliaram para lógicas de medo e construção do “inimigo”.
Essa etapa é decisiva porque o consentimento se produz melhor quando se transforma debate em guerra moral. Se há um inimigo absoluto, toda dúvida parece traição; toda nuance, fraqueza; toda crítica, cumplicidade. O pensamento crítico passa a ser tratado como ameaça.
4. Consentimento, democracia e poder simbólico
A ideia de fabricação de consentimento é perturbadora porque incide no coração da democracia. Em tese, democracias dependem de cidadãos informados, pluralidade de vozes, liberdade de crítica e deliberação racional. Na prática, porém, a opinião pública não surge em estado puro. Ela é formada em ambientes comunicacionais atravessados por poder econômico, estruturas institucionais e disputas simbólicas. Britannica destaca que a opinião pública influencia limites de ação governamental, mesmo quando não define tecnicamente cada política. Quem molda a opinião pública, portanto, molda também o campo do politicamente possível.
É por isso que o consentimento fabricado não elimina formalmente a liberdade; ele a coloniza. O cidadão continua votando, opinando, debatendo e reagindo. O problema é que boa parte desse processo ocorre dentro de um horizonte previamente estreitado. A democracia permanece de pé em sua forma, mas pode ser corroída em seu conteúdo. O voto existe; a autonomia crítica, nem sempre.
Esse ponto exige uma observação filosófica importante. O poder moderno não atua apenas reprimindo corpos. Ele atua produzindo sentidos. Ele organiza o visível e o dizível. Ele não apenas impede certas falas, mas cria um ambiente em que determinadas falas soam absurdas antes mesmo de serem consideradas. A fabricação de consentimento, nessa chave, é também gestão das condições de inteligibilidade do mundo.
5. A fabricação de consentimento na era digital
Seria um erro pensar que esse conceito pertence apenas ao tempo dos jornais impressos e da televisão aberta. O ecossistema digital não superou a fabricação de consentimento; em muitos aspectos, ele a sofisticou. A UNESCO tem destacado que a integridade da informação está cada vez mais vulnerável em razão de modelos de negócio baseados em extração de dados e economia da atenção, combinados com concentração de mercado, bots, conteúdo gerado por IA e maior velocidade e viralidade nas plataformas.
O sonho inicial de que a internet democratizaria radicalmente a esfera pública revelou apenas parte da história. De fato, houve ampliação de vozes e redução de barreiras de entrada. Mas houve também uma nova centralização, agora mediada por plataformas privadas que definem alcance, relevância, monetização, visibilidade e moderação. O poder não desapareceu; mudou de forma. Saiu parcialmente das redações tradicionais e se redistribuiu entre corporações tecnológicas, influenciadores, redes de publicidade programática, sistemas de recomendação e mercados de atenção.
O que antes dependia da capa de um jornal, hoje pode depender de um ranking algorítmico. O que antes era enquadrado por um editor, hoje pode ser impulsionado por métricas de engajamento. E aqui está o problema central: engajamento não é sinônimo de verdade, relevância pública ou responsabilidade democrática. Muitas vezes, é apenas a medida da capacidade de um conteúdo gerar reação emocional.
6. Plataformas, algoritmos e economia da atenção
Na era das plataformas, a fabricação de consentimento não se dá apenas por censura ou seleção editorial clássica, mas também por arquitetura digital. O usuário imagina estar escolhendo livremente o que consome, mas seu ambiente informacional é continuamente ordenado por sistemas de recomendação, padrões de segmentação, publicidade comportamental e incentivos algorítmicos. A lógica comercial privilegia retenção, clique, recorrência e intensidade afetiva. A consequência é evidente: conteúdos moderados, complexos e lentos frequentemente perdem espaço para mensagens simples, polarizadoras, indignadas e altamente compartilháveis. A UNESCO relaciona esse quadro à economia da atenção e às tecnologias orientadas por dados; o Reuters Institute, no Digital News Report 2025, também aponta preocupação crescente com desinformação, redes sociais e o papel de influenciadores e plataformas na circulação de notícias.
Essa mudança altera a própria textura do consentimento. Antes, ele podia ser produzido por homogeneização vertical. Agora, muitas vezes é produzido por personalização massiva. Em vez de uma narrativa única para todos, entregam-se narrativas calibradas para grupos específicos, medindo linguagem, medo, identidade, ressentimento e aderência emocional. O resultado não é necessariamente consenso uniforme, mas consentimentos fragmentados, cada qual construído para públicos distintos. A sociedade, então, não apenas concorda; ela concorda por nichos, por bolhas, por segmentos afetivos.
Britannica observa que meios e plataformas tendem a reforçar atitudes e opiniões já estabelecidas. Esse dado ajuda a explicar por que a fabricação de consentimento contemporânea não depende apenas de convencer o indeciso; muitas vezes, ela opera reforçando crenças prévias, intensificando identidades e tornando a revisão de posição psicologicamente mais difícil.
7. Desinformação, polarização e erosão do juízo crítico
A fabricação de consentimento floresce especialmente quando a sociedade perde sua capacidade de distinguir informação, narrativa, propaganda e espetáculo. A própria definição de propaganda envolve disseminação deliberada de fatos, argumentos, rumores, meias-verdades ou mentiras para influenciar a opinião pública, distinguindo-se pela intenção manipuladora.
Contudo, o problema contemporâneo vai além da mentira direta. Muitas vezes a manipulação eficaz usa fragmentos verdadeiros, deslocados de contexto, reenquadrados por emoção, repetidos em ritmo industrial e inseridos em ecossistemas de confirmação recíproca. Não é a falsidade absoluta que convence mais; é a plausibilidade repetida.
O Reuters Institute registrou, em 2025, preocupação pública com desinformação, inclusive em contextos políticos, e chamou atenção para o papel das plataformas sociais como vias importantes de acesso a notícias em vários países. A UNESCO, por sua vez, tem tratado a desinformação online e o discurso de ódio como ameaças relevantes à integridade informacional, especialmente em períodos eleitorais.
Quando esse ambiente se consolida, o juízo crítico sofre desgaste. O cidadão exausto por excesso de informação, choque moral contínuo e guerra narrativa permanente passa a buscar atalhos cognitivos. Confia em slogans, identidades, autoridades afetivas e simplificações. O pensamento deixa de ser um trabalho e vira uma reação. E esse é talvez o ponto mais perigoso: a fabricação de consentimento não depende apenas de manipular conteúdos; depende também de produzir sujeitos cansados, ansiosos e apressados.
8. Como o consentimento é produzido na prática
Na prática, a fabricação de consentimento costuma seguir uma lógica reconhecível.
Primeiro, escolhe-se um tema que desperta medo, indignação ou urgência. Depois, selecionam-se fontes autorizadas, repetem-se enquadramentos, simplificam-se causalidades e opõem-se personagens morais claros: heróis, vítimas, inimigos, sabotadores. Em seguida, tudo é reforçado por volume, repetição e penalização pública do dissenso. Com o tempo, o que era uma tese passa a parecer senso comum.
Esse mecanismo funciona porque seres humanos não vivem apenas de fatos crus. Vivem de narrativas, pertencimentos, símbolos e afetos. O consentimento é fabricado quando o poder consegue se apresentar não como poder, mas como evidência; não como interesse, mas como normalidade; não como escolha histórica, mas como necessidade técnica.
É por isso que discursos como “não há alternativa”, “todo mundo sério sabe disso”, “quem discorda é extremista” ou “a nação precisa se unir contra o inimigo” são tão eficazes. Eles não apenas argumentam; eles delimitam o campo do argumentável. Criam uma cerca invisível em torno do pensamento.
9. Educação crítica e defesa democrática
Se o consentimento pode ser fabricado, ele também pode ser desfabricado. O antídoto não está em trocar uma propaganda por outra, nem em demonizar automaticamente toda mídia, toda instituição ou toda expertise. O caminho mais sólido é construir cidadania crítica.
Isso passa por educação midiática, formação filosófica, leitura histórica, pluralidade informacional e cultura argumentativa. Passa também por ensinar a perguntar: quem fala? a partir de qual posição? com quais interesses? quais fontes foram ouvidas? o que ficou de fora? qual emoção está sendo mobilizada? qual problema está sendo simplificado? quais dados sustentam a afirmação?
A UNESCO defende justamente a importância de fortalecer a integridade da informação e o enfrentamento qualificado da desinformação sem destruir a liberdade de expressão. Esse equilíbrio é decisivo: uma democracia não se salva com ingenuidade, mas também não se salva com autoritarismo cognitivo.
Em termos mais profundos, a defesa democrática exige restaurar o valor do pensamento demorado. A fabricação de consentimento prospera na pressa. A crítica precisa de pausa. A propaganda precisa de reação. A inteligência pública precisa de interpretação. Uma sociedade que desaprende a interpretar torna-se vulnerável a toda engenharia emocional do poder.
Conclusão
A fabricação de consentimento é uma das chaves mais poderosas para compreender o funcionamento político das sociedades contemporâneas. Seu valor teórico reside precisamente em desmontar a ingenuidade segundo a qual a opinião pública seria fruto espontâneo de indivíduos plenamente autônomos, informados em condições simétricas e deliberando em um espaço neutro. Não é assim que o mundo social opera. O que as pessoas pensam, temem, aceitam ou rejeitam é profundamente influenciado por estruturas de comunicação, relações de poder, modelos econômicos e arquiteturas simbólicas que antecedem a decisão individual.
O conceito formulado por Herman e Chomsky continua atual porque o problema que ele identifica não desapareceu; ele apenas migrou e se sofisticou. A mídia corporativa tradicional já não detém sozinha o monopólio da visibilidade, mas as plataformas digitais, os algoritmos, a segmentação comportamental e a economia da atenção ampliaram a capacidade de organizar afetos, moldar agendas e intensificar crenças. A fabricação de consentimento deixou de ser apenas centralizada e passou também a ser distribuída, personalizada e permanentemente otimizada.
Em sua forma mais perigosa, ela não obriga ninguém a obedecer. Ela faz algo mais eficiente: induz as pessoas a desejarem aquilo que as subordina, a repetirem discursos que as limitam e a defenderem enquadramentos que beneficiam poderes dos quais pouco participam. Por isso, o combate a esse processo não pode ser apenas técnico. Ele é intelectual, ético e político. Exige educação crítica, pluralidade informacional, instituições responsáveis e uma cultura pública menos fascinada pelo ruído e mais comprometida com a interpretação rigorosa do real.
No fim, a pergunta central não é apenas se existe manipulação. A pergunta realmente decisiva é outra: quem organiza as condições sob as quais o mundo se torna pensável? Enquanto essa pergunta não for levada a sério, a liberdade formal poderá coexistir com uma servidão simbólica silenciosa. E talvez esse seja o traço mais inquietante da modernidade comunicacional: o consentimento mais eficaz é justamente aquele que se parece com escolha.
Referências
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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 14724: informação e documentação: trabalhos acadêmicos: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2024.
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