segunda-feira, 13 de abril de 2026

A crise que nasce nas caudas: José Kobori, o erro dos modelos de risco e por que um choque financeiro nos Estados Unidos pode atingir o Brasil antes mesmo de ser plenamente compreendido


A proposta defendida por José Kobori parte de uma crítica dura, mas intelectualmente relevante, ao modo como o mercado financeiro aprendeu a enxergar o risco. Em vez de tratar a instabilidade como uma possibilidade estrutural do sistema, boa parte dos modelos consagrados trabalha como se o mundo operasse dentro de margens relativamente previsíveis, organizadas pela lógica da distribuição normal, da liquidez presumida e da crença de que eventos extremos são exceções estatísticas administráveis. O problema, segundo Kobori, é que as crises realmente devastadoras não surgem do centro da curva, mas das suas bordas. Elas nascem das caudas, dos choques improváveis, das rupturas abruptas de confiança e das corridas simultâneas por liquidez. Quando isso ocorre, a matemática que parecia segura se revela insuficiente, e o sistema passa a operar sob outro regime: o da venda forçada, da propagação do medo e do contágio internacional. É esse o argumento central apresentado por Kobori no vídeo “A crise dos EUA chegará no Brasil? Entenda os canais de contágio”. 



1. O centro da tese: o risco real não está onde a planilha aponta


A ideia central de Kobori é simples de formular e difícil de ignorar: o mercado financeiro costuma medir risco olhando para o comportamento médio das séries históricas, quando deveria prestar muito mais atenção ao comportamento extremo. Em outras palavras, o sistema aprende a se defender do ordinário, mas permanece vulnerável ao extraordinário. Essa crítica não é apenas retórica. Ela dialoga com um debate técnico consolidado na literatura financeira sobre os limites dos modelos tradicionais de mensuração de risco, especialmente em ambientes de ruptura de liquidez e de forte correlação entre perdas. 


Em linguagem de mercado, isso significa o seguinte: durante longos períodos de aparente estabilidade, fundos, bancos e investidores passam a operar como se a volatilidade observada no passado recente fosse um bom guia para o futuro. Ocorre então um fenômeno clássico de complacência. O sistema se alavanca, reduz colchões de segurança, supõe que haverá compradores para quase tudo e acredita que a liquidez estará disponível no momento em que for necessária. Esse raciocínio funciona até o instante em que deixa de funcionar. E, quando deixa, o ajuste não é suave. Ele é violento. 


É justamente aqui que Kobori se opõe ao que chama de “cabeça de planilha”. A expressão é forte porque denuncia uma atitude intelectual específica: a de confiar mais na elegância do modelo do que na fragilidade concreta do mundo. Não se trata de rejeitar estatística, gestão de risco ou modelagem quantitativa. Trata-se de lembrar que nenhum modelo é inocente. Todo modelo embute premissas. E, se as premissas forem frágeis, a sofisticação matemática apenas mascara o erro.



2. A falácia da distribuição normal


O alvo mais evidente da crítica de Kobori é a dependência excessiva da chamada distribuição normal, a conhecida curva de sino. Esse instrumento estatístico é útil em muitos contextos, mas torna-se perigoso quando passa a ser tomado como retrato fiel de sistemas marcados por descontinuidades, pânico, efeitos em cascata e realimentação entre preços e comportamento coletivo.


No universo financeiro, a distribuição normal sugere que movimentos muito extremos são raros. Em condições ordinárias, isso permite estimar perdas prováveis, reservas necessárias e tolerâncias de risco. O problema é que crises financeiras sérias não se comportam como eventos ordinários. Elas se alimentam precisamente daquilo que o modelo trata como periferia estatística. Em vez de pequenos desvios em torno de uma média, surgem saltos abruptos, correlações inesperadas, travamento de mercado e busca desesperada por caixa. 


Essa crítica conversa diretamente com autores como Nassim Nicholas Taleb e Benoît Mandelbrot. Taleb tornou célebre a noção de Cisne Negro: acontecimentos raros, de grande impacto, que parecem improváveis antes de ocorrer, mas são racionalizados retrospectivamente depois que já causaram estrago. Mandelbrot, por sua vez, mostrou que séries financeiras frequentemente apresentam irregularidades, assimetrias e caudas pesadas que escapam à serenidade artificial dos modelos gaussianos. A leitura de Kobori se insere nesse mesmo terreno: os mercados não vivem apenas de normalidade; eles carregam em sua própria estrutura a possibilidade do não linear. 


O ponto decisivo aqui é filosófico e técnico ao mesmo tempo. Se o sistema calcula sua proteção a partir de um mundo suavizado, ele se torna estruturalmente vulnerável ao mundo real. A crise, então, não nasce apenas do choque externo. Ela nasce também do desenho interno da arquitetura financeira.



3. Quando o risco deixa de ser número e vira corrida


É nesse momento que a proposta de Kobori ganha densidade concreta. Seu argumento não para na crítica conceitual. Ele descreve um mecanismo preciso: o choque deixa de ser apenas uma hipótese estatística e se transforma em crise quando a confiança se converte em corrida por liquidez.


Em tempos normais, fundos e instituições não mantêm todos os recursos em caixa. Isso seria economicamente ineficiente. Eles operam com uma parcela líquida suficiente para atender resgates usuais e alocam o restante em ativos diversos. O problema aparece quando os pedidos de saque ultrapassam o padrão esperado. Se muitos investidores tentam sair ao mesmo tempo, os gestores precisam vender ativos para honrar compromissos. Só que, em crise, ativos que pareciam negociáveis deixam de ter compradores em volume suficiente. A liquidez, que parecia um atributo dado, evapora. 


É nesse cenário que se instala a dinâmica das vendas forçadas. Não se vende porque o fundamento de longo prazo mudou necessariamente, mas porque é preciso gerar caixa imediatamente. E vender com urgência, em ambiente de medo, significa aceitar descontos cada vez maiores. A queda de preços deteriora balanços, aciona chamadas de margem, obriga novas liquidações e aprofunda a espiral. O BIS descreve esse tipo de episódio como disfunção de mercado marcada por prejuízo ao processo de formação de preços, instabilidade dinâmica e enfraquecimento da intermediação entre compradores e vendedores. 


Essa é a contribuição mais forte da leitura de Kobori: a crise não é apenas “queda da bolsa”, nem simples pessimismo difuso. Ela é o travamento das engrenagens que permitem ao sistema transformar ativos em caixa sem destruição maciça de valor. Quando essa engrenagem falha, o risco deixa de ser abstração. Ele vira processo histórico.



4. O limite do VaR e a miopia do mercado em tempos anormais


A crítica de Kobori também se aproxima das objeções clássicas ao uso isolado do Value at Risk (VaR) como medida principal de perda potencial. O VaR foi amplamente adotado porque oferece uma linguagem aparentemente objetiva para quantificar risco sob determinado horizonte temporal e nível de confiança. O problema é que ele pode ser enganoso exatamente quando mais se precisa dele: em contextos de forte descontinuidade, iliquidez e perdas além do percentil escolhido. Foi por isso que o próprio debate regulatório internacional passou a dar maior atenção a medidas como o Expected Shortfall, mais sensíveis ao comportamento das caudas. 


Em termos simples, o VaR pode dizer quanto se espera perder em condições normais até um certo ponto. Mas ele não necessariamente informa bem o que acontece depois que esse ponto é rompido. Kobori chama atenção precisamente para esse “depois”. O colapso não vem do que a planilha já conhecia; vem do que ela tratava como improvável demais para merecer preocupação central.


Essa observação é importante porque desmonta uma crença recorrente no debate econômico: a de que o mercado é irracional apenas em momentos de pânico. Na verdade, o mercado também pode ser irracional em momentos de tranquilidade, quando subestima riscos sistêmicos e transforma premissas frágeis em rotina operacional.



5. Como uma crise americana alcança o Brasil


A tese de Kobori sobre o Brasil é menos nacionalista do que estrutural. Ela não diz apenas que “quando os Estados Unidos espirram o mundo pega gripe”. Essa metáfora, embora conhecida, é simplista. O que ele sustenta é algo mais específico: o Brasil participa de uma ordem financeira internacional hierarquizada, na qual a liquidez global se concentra nos grandes centros e é retirada das bordas quando o sistema entra em modo defensivo.


Esse ponto encontra respaldo importante no Fundo Monetário Internacional. O FMI destacou, no capítulo de 2026 do Global Financial Stability Report, que os fluxos transfronteiriços para mercados emergentes passaram a depender muito mais de investidores não bancários e de capital de portfólio desde a crise financeira global. Isso ampliou as opções de financiamento, mas também elevou a sensibilidade desses países a mudanças abruptas no humor do mercado e a choques globais de aversão a risco. Em 2025, os influxos acumulados desse tipo de capital para emergentes se aproximaram de US$ 4 trilhões, ao mesmo tempo em que cresceu a vulnerabilidade à reversão rápida desses fluxos. 


Em outras palavras: quando grandes fundos precisam recompor caixa, reduzir exposição ou cobrir perdas nos centros financeiros, eles não liquidam apenas ativos domésticos. Eles vendem o que for vendável. E mercados emergentes costumam entrar entre os primeiros sacrificados. O resultado pode aparecer em diversas frentes: desvalorização cambial, queda nos preços de ativos locais, aumento da volatilidade, encarecimento do crédito, pressão sobre o custo de financiamento e retração do investimento. 


Esse é o verdadeiro canal de contágio descrito por Kobori: a crise externa chega ao Brasil não como abstração midiática, mas como movimento material de liquidez, portfólio e reprecificação global do risco.



6. Petróleo, inflação e a amplificação do aperto


Outro eixo relevante da proposta é a relação entre geopolítica, petróleo e crise financeira. Kobori chama atenção para o fato de que choques no preço da energia podem atuar como detonadores ou amplificadores de instabilidade. Essa observação é importante porque recoloca a economia real dentro do debate financeiro.


Quando o petróleo sobe fortemente, o impacto não fica restrito ao setor energético. O aumento se transmite ao transporte, à logística, aos custos de produção e à inflação. Em economias já tensionadas, isso comprime renda disponível, corrói poder de compra e amplia a fragilidade financeira de famílias e empresas. O Federal Reserve tem mostrado, em estudos recentes, que choques de petróleo podem afetar de forma persistente a inflação agregada e influenciar o ambiente macroeconômico de maneira mais ampla, mesmo com intensidade variável conforme o contexto. 


Na leitura de Kobori, essa alta de custos pode ajudar a deslocar a crise do plano dos preços para o plano da liquidez. Se agentes econômicos precisam cobrir despesas mais elevadas, reduzir perdas ou ajustar suas posições rapidamente, vendem ativos. Essa venda, quando coletiva, reforça a tensão financeira. O que parecia ser apenas inflação vira mecanismo de drenagem de liquidez. O que parecia ser apenas geopolítica vira instabilidade sistêmica.


É essa articulação entre economia real e finanças que dá ao argumento uma densidade maior. Kobori não descreve a crise como mero jogo de tela. Ele a entende como processo em que guerra, energia, inflação, balanços, crédito e comportamento coletivo se entrelaçam.



7. O Fed como bombeiro do sistema


A proposta de Kobori também reconhece uma verdade fundamental da ordem financeira contemporânea: quando a engrenagem ameaça travar, o Federal Reserve entra em cena como estabilizador de última instância. Isso ficou evidente na crise de 2007–2009 e voltou a aparecer em momentos posteriores de estresse severo.


Estudo do Federal Reserve Bank de Nova York sobre a crise de 2007–2009 mostra que a autoridade monetária americana expandiu de forma inédita seus instrumentos de provisão de liquidez, criando e ampliando facilidades emergenciais para sustentar mercados e instituições em colapso de confiança. A lógica era clara: impedir que a falta de liquidez se transformasse em destruição sistêmica da intermediação financeira. 


O FMI também observa que, em crises, bancos centrais ampliam o escopo de suas operações, alongam prazos de financiamento, expandem o universo de contrapartes e aceitam um conjunto maior de colaterais para restaurar o funcionamento dos mercados. 


Isso confirma uma parte importante da leitura de Kobori: a estabilidade final do sistema não depende apenas da racionalidade privada dos mercados, mas da capacidade pública de evitar o colapso da circulação financeira. Em termos mais duros: quando a arquitetura privada falha, o Estado monetário entra para impedir que a ficção da liquidez permanente termine em ruína generalizada.


Mas há um detalhe crucial. O fato de o Fed poder amortecer o colapso não significa que o resto do mundo saia ileso. Países como o Brasil podem sofrer intensamente no intervalo entre o início do choque e a restauração parcial da normalidade. Podem sofrer, inclusive, mesmo que a intervenção funcione nos Estados Unidos.



8. A crítica ao analista que olha apenas o Banco Central


Ao cunhar a expressão “cabeça de planilha”, Kobori também faz uma crítica metodológica ao debate econômico cotidiano. Ele aponta para um tipo de analista excessivamente concentrado em antecipar decisões do Banco Central, trajetórias de juros ou reações esperadas do mercado, como se a economia pudesse ser reduzida a esse jogo de previsões marginais.


O problema dessa abordagem é que ela pode ignorar transformações estruturais em curso. Um sistema aparentemente bem calibrado para interpretar a próxima reunião do Fed ou do Banco Central do Brasil pode estar profundamente mal preparado para entender uma ruptura de liquidez, uma crise geopolítica, uma explosão de preços de energia ou um colapso simultâneo de confiança.


A crítica, portanto, vai além da caricatura. Ela chama atenção para um vício intelectual real: a tendência de transformar a análise econômica em monitoramento de indicadores imediatos, deixando em segundo plano a arquitetura do risco sistêmico. Em outras palavras, a planilha acerta o detalhe e perde o abismo.



9. O que há de sólido na tese de Kobori


A proposta de Kobori é persuasiva porque toca em pontos que encontram apoio em literatura séria e em experiências históricas recentes.


Primeiro, ela acerta ao insistir que eventos extremos não são ruído irrelevante, mas parte constitutiva da dinâmica financeira moderna. 


Segundo, acerta ao mostrar que liquidez não é apenas disponibilidade monetária, mas condição sistêmica de funcionamento do mercado. Quando ela desaparece, os preços deixam de ser meras cotações e passam a expressar urgência, medo e ausência de contraparte. 


Terceiro, acerta ao explicar que o contágio para emergentes é estrutural, não retórico. A crescente dependência de fluxos de portfólio e de investidores não bancários torna esses países mais expostos a reversões bruscas de humor internacional. 


Quarto, acerta ao lembrar que a crise financeira é inseparável de seus vetores reais, como petróleo, inflação, custo de vida e choques geopolíticos. 



Conclusão


A proposta de José Kobori merece atenção porque recusa a superficialidade com que parte do mercado costuma tratar o risco. Seu argumento central não é que uma crise específica seja inevitável em determinada data, nem que o Brasil esteja condenado a repetir automaticamente os traumas do centro financeiro global. O que ele sustenta é algo mais importante: o sistema financeiro internacional continua operando com forte dependência de modelos que funcionam melhor na calmaria do que na tempestade. E, quando a tempestade vem, o problema deixa de ser apenas a previsão errada. O problema passa a ser a própria arquitetura construída sobre premissas frágeis.


É por isso que sua leitura do contágio para o Brasil tem força. Numa ordem global hierarquizada, o aperto de liquidez nos Estados Unidos não fica restrito a Wall Street. Ele se propaga pelos circuitos do capital, pressiona emergentes, drena recursos, encarece proteção, desorganiza expectativas e testa a capacidade de defesa de economias periféricas. Nesse sentido, Kobori recoloca o debate no lugar certo: menos na obsessão por planilhas elegantes, mais na compreensão de como medo, liquidez e poder monetário realmente operam quando a normalidade se rompe.


No fundo, sua advertência é simples e incômoda: as maiores crises não chegam porque foram bem previstas. Elas chegam justamente porque o sistema se convenceu de que sabia medi-las.



Referências


BANCO DE COMPENSAÇÕES INTERNACIONAIS. Market dysfunction and central bank tools. Basel: BIS, 2022. Disponível em:  . Acesso em: 12 abr. 2026.


BANCO DE COMPENSAÇÕES INTERNACIONAIS. Fire sales of safe assets. Basel: BIS, 2024. Disponível em:  . Acesso em: 12 abr. 2026.


FEDERAL RESERVE BANK OF NEW YORK. Federal Reserve liquidity provision during the financial crisis of 2007–2009. New York: FRBNY, 2012. Disponível em:  . Acesso em: 12 abr. 2026.


FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. Global Financial Stability Report 2026: Capital flows to emerging markets: the role of global nonbank investors. Washington, DC: IMF, 2026. Disponível em:  . Acesso em: 12 abr. 2026.


FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. Addressing market dysfunction and liquidity stresses in core government bond markets. Washington, DC: IMF, 2025. Disponível em:  . Acesso em: 12 abr. 2026.


KOBORI, José. A crise dos EUA chegará no Brasil? Entenda os canais de contágio. YouTube, 2026. Disponível em vídeo público na plataforma YouTube. Acesso em: 12 abr. 2026.


REUTERS. Hot money increasingly dominates emerging markets financing, raising risks, IMF says. 7 abr. 2026. Disponível em:  . Acesso em: 12 abr. 2026.


REUTERS. Asian stocks exodus fuels largest emerging market outflows since 2020, IIF data shows. 8 abr. 2026. Disponível em:  . Acesso em: 12 abr. 2026.


domingo, 12 de abril de 2026

O dólar não caiu. Mas a guerra no Irã mostrou que o império já não controla o incêndio que acende

Ormuz, energia, sanções e desgaste estratégico: como a ofensiva liderada por Washington ajuda a corroer os próprios fundamentos da hegemonia monetária dos Estados Unidos


Lide


Durante décadas, a hegemonia do dólar foi apresentada como um dado quase natural da ordem mundial. Como se a moeda norte-americana ocupasse o centro do sistema por mérito técnico, neutralidade econômica e superioridade institucional incontestável. A guerra contra o Irã ajuda a desmontar essa ficção. O que se vê agora é algo mais duro e mais revelador: o dólar continua dominante, mas a ordem política, militar e energética que sustenta essa dominância está cada vez mais cara, mais instável e mais contestada. O centro ainda manda, mas já não organiza o mundo sem produzir fissuras no próprio chão em que pisa.


O conflito recolocou o Estreito de Ormuz no coração da geoeconomia global. Não como metáfora, mas como realidade material. Uma via marítima por onde passa cerca de um quinto do fluxo mundial de petróleo e gás liquefeito voltou a funcionar como gargalo do sistema. O resultado foi imediato: disparada dos preços da energia, temor inflacionário, pressão sobre cadeias logísticas, desconforto entre aliados dos Estados Unidos e reabertura de uma pergunta estratégica que Washington tentou adiar por anos: até quando a centralidade do dólar suportará a multiplicação de guerras, sanções e choques que o próprio poder norte-americano ajuda a produzir?


O mito da neutralidade do dólar


É preciso começar pelo essencial. O dólar nunca foi apenas moeda. Sempre foi poder armado, rede bancária, capacidade de sanção, profundidade financeira, controle institucional e presença militar. Sua força não decorre apenas de balanços, reservas e liquidez, mas da arquitetura geopolítica erguida pelos Estados Unidos desde o pós-guerra. O dólar tornou-se a linguagem principal do capitalismo internacional porque foi sustentado por porta-aviões, acordos estratégicos, mercados profundos, alianças militares, confiança regulatória e pelo papel dos EUA como garantidor — ao menos parcial — da circulação global de energia, mercadorias e capitais.


Os dados ainda mostram a dimensão dessa supremacia. No fim de 2025, o dólar permanecia com 56,77% das reservas cambiais oficiais identificadas no mundo. Em fevereiro de 2026, respondia por 57,49% dos pagamentos globais na rede Swift. E, segundo o BIS, esteve presente em 89,2% das operações do mercado cambial em abril de 2025. Isso significa que a moeda norte-americana continua sendo, com larga margem, o eixo monetário do sistema internacional. Mas esse é apenas o retrato estático. O filme em movimento é outro: a moeda segue central, porém a capacidade política dos Estados Unidos de manter o sistema coeso já não parece tão incontestável.


É aqui que a guerra no Irã adquire significado histórico. Ela não derruba o dólar. Ela expõe o custo crescente de sustentá-lo como centro obrigatório do sistema. Não se trata de colapso. Trata-se de erosão. E erosões imperiais raramente acontecem em um único choque. Elas se acumulam como rachaduras silenciosas até que o edifício, embora ainda imponente, já não inspire a mesma sensação de permanência.


Ormuz: a garganta energética do planeta


O Estreito de Ormuz não é um detalhe regional. É uma peça central da anatomia do capitalismo fóssil. Cerca de 20% do fluxo global de petróleo e gás liquefeito passa por ali. Isso significa que qualquer militarização prolongada, ameaça de bloqueio ou encarecimento do tráfego naquela região produz efeitos mundiais quase instantâneos. Não é preciso um fechamento total para o sistema tremer; basta o aumento do risco, do seguro, do medo e da imprevisibilidade.


Foi exatamente isso que aconteceu. A crise elevou rapidamente os preços físicos do petróleo, com mercados registrando patamares próximos de US$ 150 por barril em momentos de maior tensão. Bancos centrais, organismos multilaterais e governos passaram a rever expectativas de inflação e crescimento. O FMI e o Banco Mundial chegaram às reuniões de abril de 2026 sob a sombra desse novo choque energético, tratado já como mais uma perturbação sistêmica em sequência, depois da pandemia e da guerra da Ucrânia.


O dado decisivo aqui é simples: a hegemonia do dólar exige estabilidade suficiente para que capitais, comércio e reservas continuem orbitando ao redor dos Estados Unidos. Quando uma guerra liderada ou estimulada por Washington desorganiza justamente uma das artérias mais sensíveis da economia mundial, o problema deixa de ser apenas militar. Passa a ser monetário. Passa a ser civilizacional. A moeda do centro do sistema continua forte, mas o centro passa a parecer menos apto a garantir ordem e mais apto a fabricar choques.


O império que produz a própria inflação


Toda hegemonia monetária depende de uma promessa implícita: previsibilidade. O mercado aceita a centralidade de uma moeda não apenas porque ela é líquida, mas porque o mundo organizado ao seu redor parece relativamente funcional. A guerra no Irã tensiona exatamente esse ponto. Ao encarecer energia, transporte, fertilizantes, combustíveis e cadeias industriais, o conflito exporta inflação para o planeta e, ao mesmo tempo, devolve parte dela ao coração do próprio império.


Nos Estados Unidos, isso é politicamente explosivo. Energia cara pressiona a gasolina, o diesel, os fretes, os alimentos e o custo de vida. A inflação reaparece como ameaça doméstica, os juros tendem a permanecer mais altos, o crescimento fica mais frágil e a legitimidade interna da condução estratégica do país sofre desgaste. Jamie Dimon alertou que a guerra com o Irã poderia manter inflação e juros elevados por mais tempo. Em outras palavras, o império que emite a moeda do mundo se vê punido pelos próprios efeitos econômicos de sua projeção militar.


Esse é o ponto que muitos analistas evitam nomear com clareza. O dólar não é abalado porque deixou de ser importante. Ele é abalado justamente porque ainda é importante demais. Toda convulsão produzida pelo poder norte-americano atravessa o sistema inteiro, e isso gera uma contradição central: os EUA seguem no comando, mas o exercício do comando passou a impor custos crescentes aos aliados, ao mercado e à própria sociedade norte-americana. Quando liderar se torna sinônimo de inflacionar, sancionar, tensionar e desorganizar, a liderança continua existindo, porém sua legitimidade histórica encolhe.


Sanções: a arma que perde eficiência quando o mundo cansa


O poder do dólar como instrumento geopolítico depende da eficácia das sanções. Sanções funcionam não apenas porque os Estados Unidos têm musculatura financeira, mas porque o restante do sistema aceita, internaliza ou teme essa musculatura. O problema surge quando o custo da obediência começa a ficar alto demais.


A crise de Ormuz fez exatamente isso aparecer. Países aliados passaram a priorizar segurança energética e rotas alternativas de abastecimento. No caso da Coreia do Sul, o movimento mais visível foi o esforço para destravar embarcações na região e reforçar suprimentos vindos de outras origens, como Cazaquistão e Emirados Árabes Unidos. Não se trata ainda de ruptura aberta com Washington, mas de algo politicamente eloquente: em cenário de escassez e risco, aliados passam a agir pela lógica da sobrevivência material, não da fidelidade automática.


Esse é um problema sério para o regime do dólar. A moeda norte-americana é também uma infraestrutura de coerção. Ela pune, exclui, bloqueia e intimida. Mas coerção excessiva tende a gerar criatividade defensiva. Países passam a buscar pagamentos em moedas locais, fornecedores alternativos, bancos menos expostos à jurisdição dos EUA e mecanismos de liquidação que reduzam vulnerabilidades futuras. Nenhum desses movimentos, sozinho, substitui o dólar. Mas todos eles reduzem, na margem, sua condição de caminho único. E hegemonias monetárias vivem precisamente desse monopólio da inevitabilidade.


A rachadura no bloco atlântico


Há outro ponto menos comentado, mas igualmente relevante: a fadiga dos próprios aliados ocidentais. O dólar não se sustenta apenas em Wall Street ou no Tesouro dos EUA. Sustenta-se também no arranjo político-militar do Atlântico Norte, na confiança dos parceiros estratégicos e na percepção de que a liderança norte-americana ainda oferece mais benefícios do que custos. Essa equação está ficando mais difícil.


A posição da Espanha diante das metas de gasto da OTAN foi reveladora. Pedro Sánchez rejeitou a exigência de elevar o gasto militar a 5% do PIB, classificando essa meta como desproporcional. O gesto revela algo maior do que uma disputa orçamentária: há uma parte crescente da Europa que já não vê com naturalidade a exigência de financiar indefinidamente a escalada militar sob direção norte-americana enquanto escolas, hospitais e bem-estar social ficam comprimidos.


No contexto da guerra com o Irã, esse mal-estar se intensifica. A Itália chegou a defender que a União Europeia considerasse suspender regras fiscais caso a crise persistisse, por causa do impacto econômico e energético. Houve até alerta sobre risco de desabastecimento de combustível de aviação em aeroportos italianos, revertido por fornecedores locais. Isso tudo parece técnico, mas não é. São sinais de que o custo de uma ordem geopolítica centrada em Washington volta a ser pago na vida concreta de sociedades aliadas. E quando esse preço sobe demais, cresce também a tentação de autonomia.


O Irã venceu? Não exatamente. Mas mostrou o limite do poder americano


Seria simplista dizer que o Irã “venceu” apenas porque conseguiu impor custos. Guerras não se reduzem a slogans. O Irã sofreu danos, bombardeios, perda de infraestrutura e segue sob forte pressão internacional. Mas há um ponto incontornável: a tentativa de dobrar Teerã pela força revelou, mais uma vez, que a superioridade militar dos Estados Unidos não se converte automaticamente em capacidade de ordenar resultados políticos, econômicos e diplomáticos duradouros.


Esse é um padrão já conhecido do século XXI. Washington consegue destruir, punir, cercar e bloquear. O que se tornou muito mais difícil é estabilizar, reorganizar e convencer. A distância entre poder militar e poder político aumentou. E essa distância afeta diretamente o dólar, porque a moeda norte-americana depende de uma ecologia geopolítica na qual os EUA não sejam apenas temidos, mas reconhecidos como garantidores de funcionamento sistêmico.


Quando a principal potência do planeta parece capaz de incendiar mais do que de arbitrar, o mundo não abandona sua moeda de imediato. Mas começa a pensar, cada vez mais, em como reduzir dependências futuras. O verdadeiro risco para o dólar não é a substituição rápida por outra moeda milagrosa. O verdadeiro risco é a multiplicação lenta e pragmática de exceções ao seu domínio.


O que precisa ser dito com franqueza


Há exageros retóricos que precisam ser evitados. Não há evidência sólida de que o dólar esteja em colapso iminente. Também não é correto falar em controle jurídico absoluto do Irã sobre Ormuz. A própria ONU, por meio de sua agência marítima, classificou a hipótese de pedágios no estreito como precedente perigoso, e atores do Golfo contestaram a pretensão iraniana de monopólio sobre a passagem.


Mas corrigir os exageros não muda a conclusão central. Ao contrário: deixa a análise mais robusta. Sem precisar apelar para profecias grandiosas, os fatos já bastam. A guerra elevou preços, pressionou inflação, desgastou aliados, tensionou rotas vitais e expôs a dificuldade de Washington em sustentar sua supremacia sem transferir custos crescentes ao restante do mundo. Isso, por si só, já é uma notícia histórica.


O dólar continua no centro. Mas o centro está mais frágil


A grande questão, portanto, não é saber se o dólar cairá amanhã. A questão é outra: quanto tempo o mundo aceitará que a moeda central do sistema continue ancorada em uma potência que produz sanções em escala industrial, multiplica guerras por procuração, pressiona aliados a financiar sua máquina estratégica e transforma gargalos energéticos em instrumentos recorrentes de disputa?


O dólar continua dominante porque não existe, neste momento, um substituto único com a mesma escala, liquidez e profundidade institucional. O renminbi avança, moedas locais ganham espaço marginal, mecanismos alternativos aparecem, mas ninguém ocupa ainda o lugar de Washington. O problema é que a hegemonia já não é o que foi. Ela se tornou mais onerosa, mais coercitiva e menos elegante. Continua forte, porém menos convincente. Continua operacional, porém menos incontestável.


Talvez essa seja a imagem mais correta do presente. O dólar ainda é a grande ponte do sistema global, mas os pilares que a sustentam já mostram sinais visíveis de fadiga. E o mais grave: parte dessa fadiga vem justamente do excesso de peso imposto pela própria estratégia imperial dos Estados Unidos.


Conclusão


A guerra no Irã não destruiu a hegemonia do dólar, mas revelou seu desgaste estrutural. Mostrou que a moeda norte-americana continua poderosa, porém cada vez mais dependente de uma ordem política e militar que já não entrega estabilidade com a mesma eficácia de antes. O Estreito de Ormuz recolocou a geografia no centro da economia mundial e lembrou que moedas hegemônicas não vivem apenas de planilhas, bancos centrais e mercados; vivem também da capacidade de garantir circulação, previsibilidade e disciplina sistêmica. Quando essa capacidade falha, o poder monetário permanece, mas perde densidade histórica.


É esse o ponto decisivo. O século XXI não parece anunciar uma substituição súbita do dólar, e sim o fim da ilusão de sua invulnerabilidade. O mundo ainda gira em torno da moeda dos Estados Unidos, mas já não gira com a mesma fé. Cada guerra que encarece energia, cada sanção que incentiva rotas alternativas, cada aliado que hesita, cada sociedade que paga a conta dessa engrenagem amplia a percepção de que a hegemonia americana segue de pé, porém mais pesada, mais áspera e menos estável. O dólar continua no trono. Mas a guerra no Irã mostrou que o trono já não repousa sobre mármore; repousa sobre uma base tensionada por fissuras geopolíticas, energéticas e sociais que o próprio império insiste em aprofundar.


Referências


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