Medo, identidade, antipetismo, mercado, religião política e o mecanismo emocional que sustenta a permanência do bolsonarismo
Índice
- Introdução — A pergunta incômoda que precisa ser feita
1.1 A tese central do artigo
1.2 O eleitor não vota apenas com números: vota com medo, memória e identidade
1.3 O desafio de compreender sem absolver politicamente - Lide — A conversa no balcão da padaria e o Brasil dividido
- O voto como pertencimento: quando política vira identidade
3.1 A família Bolsonaro como marca política
3.2 O eleitor que vota para continuar pertencendo a um grupo
3.3 A blindagem afetiva diante das contradições - O antipetismo como cola emocional da direita brasileira
4.1 O PT como inimigo simbólico permanente
4.2 A memória seletiva da corrupção
4.3 Quando o voto é menos adesão e mais rejeição - O medo como método: segurança, comunismo, soberania e colapso moral
5.1 A política do inimigo móvel
5.2 A promessa de ordem em uma sociedade insegura
5.3 O uso eleitoral da ameaça externa - O eleitor econômico: mercado, austeridade e a promessa de “arrumar a casa”
6.1 Privatizações, corte de gastos e linguagem da eficiência
6.2 O pequeno empresário, o investidor e o trabalhador precarizado
6.3 O paradoxo: votar contra o Estado de que se depende - Religião, moralidade e guerra cultural
7.1 A defesa da família como linguagem política
7.2 Igrejas, redes e comunidades morais
7.3 O medo da mudança cultural - O Leviatã Digital: desinformação, redes e bolhas de confirmação
8.1 O algoritmo como organizador de afetos
8.2 O papel dos influenciadores e da comunicação permanente
8.3 A verdade como pertencimento tribal - O voto ressentido: humilhação social, frustração e desejo de revanche
9.1 Nietzsche, Fromm e Arendt como chaves interpretativas
9.2 Quando o eleitor procura um vingador, não um gestor
9.3 A política como catarse emocional - A contradição central: soberania performática e dependência externa
10.1 O candidato que se diz nacionalista, mas busca força em Washington
10.2 Tarifa, crime organizado e instrumentalização geopolítica
10.3 Patriotismo real versus patriotismo de espetáculo - Então, por que ainda votam nele? Uma síntese explicativa
- Conclusão — O voto em Flávio Bolsonaro como sintoma do Brasil ferido
- Cinco pontos relevantes do artigo
- Cinco perguntas comuns sobre o tema
- Indicação de três livros
- Referências
1. Introdução — A pergunta incômoda que precisa ser feita
A pergunta “por que ainda existem brasileiros que votam em Flávio Bolsonaro para presidente em 2026?” não pode ser respondida com ironia, desprezo ou superioridade moral. Essa seria a resposta fácil — e, justamente por ser fácil, seria insuficiente. O fenômeno é mais profundo. Há brasileiros que votam em Flávio Bolsonaro não apenas porque concordam racionalmente com todas as suas propostas, nem porque examinaram tecnicamente sua agenda econômica, sua visão de Estado ou suas articulações internacionais. Muitos votam porque enxergam nele uma continuidade simbólica, uma proteção emocional, uma identidade política, uma rejeição ao adversário e uma promessa de ordem em um país percebido como ameaçador.
A tese deste artigo é direta: o apoio a Flávio Bolsonaro em 2026 se explica pela combinação de identidade bolsonarista, antipetismo, medo social, ressentimento político, guerra cultural, promessa de segurança, adesão a uma agenda econômica liberal-fiscalista e funcionamento de ecossistemas digitais que transformam política em pertencimento afetivo. Esse apoio não é apenas programático; é emocional, moral, tribal e, em muitos casos, defensivo.
Isso não significa que todo eleitor de Flávio Bolsonaro seja extremista, irracional ou desinformado. Essa generalização seria intelectualmente pobre. Há diferentes tipos de eleitores: o liberal econômico que quer privatizações; o conservador religioso que teme mudanças culturais; o empresário que deseja redução de impostos; o antipetista que votaria em qualquer nome contra Lula; o bolsonarista fiel à família Bolsonaro; o eleitor assustado com a violência; o cidadão saturado pela crise econômica; o jovem capturado por influenciadores; o servidor ou trabalhador que, paradoxalmente, apoia uma agenda que pode reduzir a proteção estatal da qual depende.
Mas compreender não significa absolver. Entender os motivos do voto não exige aceitar suas consequências. A democracia exige que se compreenda por que as pessoas escolhem determinados caminhos, inclusive quando esses caminhos podem enfraquecer direitos, instituições e soberania nacional.
A questão, portanto, não é apenas eleitoral. É sociológica, filosófica, econômica, religiosa, comunicacional e histórica. O voto em Flávio Bolsonaro precisa ser lido como sintoma de um Brasil ferido: um país desigual, inseguro, cansado, ressentido, digitalmente intoxicado e ainda profundamente marcado pela disputa entre projetos de Estado.
2. Lide — A conversa no balcão da padaria e o Brasil dividido
Imagine uma manhã comum em uma cidade brasileira. O café sai quente, o pão francês estala no balcão e a televisão pendurada no canto transmite notícias sobre tarifas dos Estados Unidos contra o Brasil, violência urbana, inflação, corrupção, STF, crime organizado e eleições. Um homem comenta: “Esse país só melhora se voltar alguém da família Bolsonaro”. Outro responde: “Mas e essa história de depender dos Estados Unidos?”. O primeiro dá de ombros: “Pelo menos eles têm moral com Trump. Lula só arruma confusão”.
A conversa parece simples, mas contém quase todo o drama político brasileiro. Ali há medo econômico, ressentimento antipetista, fascínio por autoridade, confusão entre diplomacia e submissão, memória seletiva, desconfiança institucional e desejo de ordem. O eleitor não está fazendo uma análise geopolítica. Está tentando encontrar uma narrativa que dê sentido ao caos.
É assim que muitos votos se formam. Não no estudo do programa de governo, mas no cotidiano: na fila do supermercado, no grupo de WhatsApp, no culto, no vídeo curto, na conversa com o patrão, na fala do influenciador, no medo da violência, no ódio ao adversário, na sensação de que “o país está perdido”.
Flávio Bolsonaro herda exatamente esse terreno emocional. Ele não precisa convencer todos os eleitores de que é um grande estadista. Basta convencer uma parcela relevante de que representa continuidade, força, proteção e oposição ao inimigo. Em sociedades polarizadas, muitas pessoas não votam em quem amam; votam contra quem odeiam ou temem.
3. O voto como pertencimento: quando política vira identidade
Uma das primeiras razões pelas quais brasileiros ainda votam em Flávio Bolsonaro está no fato de que o bolsonarismo deixou de ser apenas uma preferência política e se transformou em identidade social. Para muitos eleitores, ser bolsonarista não é apenas apoiar um programa de governo. É pertencer a uma comunidade moral que se enxerga como patriota, religiosa, trabalhadora, conservadora, perseguida e injustiçada pelas elites culturais, pela imprensa, pelo Judiciário e pela esquerda.
Nesse sentido, Flávio Bolsonaro não aparece apenas como indivíduo. Ele aparece como sobrenome. A família Bolsonaro funciona como marca política, como símbolo de continuidade e como estrutura afetiva. Para parte da base, Jair Bolsonaro pode estar juridicamente impedido, politicamente desgastado ou institucionalmente isolado; ainda assim, o sobrenome permanece como emblema. Flávio, nesse contexto, não é apenas Flávio. É “o filho de Bolsonaro”. E, para o eleitor fiel, isso basta para manter a ponte emocional.
A política identitária não é exclusividade da direita. Todos os campos políticos constroem símbolos, pertencimentos e narrativas. A diferença é que o bolsonarismo organizou esse pertencimento em chave de guerra. Ser bolsonarista, para muitos, significa estar em combate permanente contra um conjunto de inimigos: comunistas, petistas, ministros do STF, jornalistas, artistas, professores, ambientalistas, feministas, organismos internacionais, universidades, movimentos sociais e, quando conveniente, até governos estrangeiros.
Esse tipo de identidade cria blindagem psicológica. Quando surgem denúncias, contradições ou riscos concretos da agenda política, muitos eleitores não avaliam o fato isoladamente. Eles perguntam primeiro: “quem está atacando?”. Se o ataque vem da imprensa, da esquerda ou de instituições vistas como inimigas, o fato pode ser imediatamente reinterpretado como perseguição.
É a política da imunização afetiva. O líder ou o grupo não precisa ser inocente em tudo; precisa parecer perseguido pelos inimigos certos. Quanto maior o ataque, maior pode ser a fidelidade da base. É por isso que escândalos que destruiriam outros candidatos nem sempre destroem lideranças populistas. O escândalo é absorvido pela narrativa: “estão tentando impedir o nosso lado de vencer”.
4. O antipetismo como cola emocional da direita brasileira
Outro fator decisivo é o antipetismo. Para uma parcela expressiva do eleitorado, o voto em Flávio Bolsonaro não nasce necessariamente de entusiasmo por Flávio, mas de rejeição ao PT, a Lula e ao campo progressista. Trata-se de um voto negativo: vota-se em alguém porque ele parece ser o principal instrumento para impedir a vitória do adversário.
O antipetismo se consolidou no Brasil como força política de longa duração. Ele se alimenta de episódios reais de corrupção, de crises econômicas, de rejeição ideológica à esquerda, de disputas morais, de ressentimento de classe e de uma narrativa construída ao longo de anos por meios de comunicação, lideranças políticas e redes digitais. O problema não está em criticar o PT — crítica política é legítima e necessária em qualquer democracia. O problema surge quando o antipetismo se torna explicação total do mundo.
Quando isso ocorre, tudo passa a ser reduzido a uma chave única: se há crise econômica, a culpa é do PT; se há tensão diplomática, a culpa é do PT; se há violência, a culpa é do PT; se há reação internacional, a culpa é do PT; se há problema fiscal, a culpa é do PT. A complexidade desaparece. O adversário vira causa universal.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que eleitores podem apoiar Flávio Bolsonaro mesmo diante de contradições. O raciocínio é menos “Flávio é o melhor projeto de país” e mais “qualquer alternativa é melhor do que Lula ou o PT”. É um voto de contenção, não necessariamente de construção.
Aqui aparece uma dimensão perigosa: quando a política é dominada pela rejeição, o programa de governo pode se tornar secundário. Privatizações, reformas previdenciárias, flexibilização trabalhista, política externa subordinada, riscos à soberania e tensões institucionais passam a ser relativizados, desde que o candidato cumpra a função principal: derrotar o inimigo.
5. O medo como método: segurança, comunismo, soberania e colapso moral
O bolsonarismo aprendeu a operar politicamente por meio do medo. Medo do comunismo. Medo da Venezuela. Medo da criminalidade. Medo da escola. Medo da sexualização das crianças. Medo do STF. Medo da imprensa. Medo da censura. Medo da China. Medo da ONU. Medo da perda da propriedade. Medo da perseguição religiosa. Medo do colapso econômico. Medo da desordem.
O inimigo muda, mas a estrutura permanece. Primeiro, apresenta-se uma ameaça existencial. Depois, aponta-se um culpado. Em seguida, oferece-se um salvador. Por fim, transforma-se o voto em ato de defesa pessoal.
Essa mecânica é antiga. Hobbes compreendeu que o medo da desordem pode levar os indivíduos a desejar autoridade forte (Hobbes, 2003). Maquiavel mostrou que o temor pode ser instrumento de poder (Maquiavel, 2010). Espinosa advertiu que indivíduos dominados por paixões tristes têm sua liberdade reduzida, pois deixam de agir pela razão e passam a reagir pelo medo (Espinosa, 2009). Arendt demonstrou que movimentos autoritários organizam massas por meio da fabricação de inimigos e da produção de narrativas totalizantes (Arendt, 2012).
No Brasil de 2026, a segurança pública se torna um dos eixos centrais dessa política do medo. O crime organizado é um problema real, grave e estrutural. PCC e Comando Vermelho não são invenções retóricas. O Brasil precisa enfrentá-los com inteligência, investigação financeira, cooperação federativa, controle de armas, sistema penitenciário eficiente, políticas sociais, repressão qualificada e combate à lavagem de dinheiro.
Mas uma coisa é enfrentar o crime organizado com Estado. Outra é transformar o crime organizado em espetáculo eleitoral. Quando a classificação dessas facções como organizações terroristas estrangeiras pelos Estados Unidos é celebrada como vitória política de um candidato brasileiro, abre-se uma questão delicada: trata-se de cooperação internacional ou de instrumentalização geopolítica da segurança pública?
Para o eleitor assustado com a violência, a resposta simples seduz: “alguém finalmente está fazendo alguma coisa”. Pouco importa se a medida pode gerar riscos diplomáticos, custos empresariais, tensões de soberania ou dificuldades na cooperação policial. O medo exige resposta rápida. A democracia, no entanto, exige resposta correta.
6. O eleitor econômico: mercado, austeridade e a promessa de “arrumar a casa”
Há também o eleitor econômico. Esse grupo pode incluir empresários, investidores, profissionais liberais, parte da classe média, pequenos comerciantes e trabalhadores que acreditam que o Estado brasileiro é inchado, ineficiente, caro e capturado por privilégios. Para esse eleitor, Flávio Bolsonaro aparece como candidato capaz de retomar uma agenda liberal: privatizar, cortar gastos, reduzir impostos, revisar regras trabalhistas e previdenciárias.
Essa linguagem tem força porque dialoga com problemas reais. O Estado brasileiro de fato possui ineficiências. Há desperdícios, burocracias, privilégios e má alocação de recursos. A carga tributária é complexa. O ambiente de negócios pode ser hostil. A produtividade brasileira é baixa. O país precisa de reformas.
O problema está no salto ideológico: transformar a necessidade de melhorar o Estado em defesa de sua redução estrutural. Uma coisa é combater desperdício. Outra é enfraquecer saúde, educação, ciência, previdência e capacidade de investimento público. Uma coisa é modernizar a administração. Outra é vender empresas estratégicas sem debate profundo sobre soberania, regulação e desenvolvimento nacional.
Mesmo assim, a promessa de “arrumar a casa” funciona eleitoralmente. Ela simplifica a economia. O Estado vira uma família endividada; o presidente vira o pai severo que corta despesas; o mercado vira o avaliador racional que premia ou pune o país; direitos sociais viram gastos; servidores viram custo; políticas públicas viram peso.
Essa metáfora doméstica é poderosa, mas limitada. Um Estado nacional não é uma residência. Ele emite moeda, arrecada tributos, investe, regula, planeja, coordena setores estratégicos e sustenta direitos. Cortar gastos pode melhorar indicadores fiscais no curto prazo e destruir capacidade nacional no longo prazo. Austeridade sem projeto de desenvolvimento pode produzir um país contabilmente mais “organizado” e socialmente mais frágil.
Ainda assim, muitos votam nessa promessa porque ela parece racional diante da instabilidade. Depois de anos de crise, inflação, juros altos, endividamento familiar e precarização, o discurso da eficiência soa como alívio. O eleitor cansado quer alguém que diga: “vou cortar, simplificar e fazer funcionar”. O problema é que raramente se pergunta: cortar de quem? simplificar para quem? funcionar para qual projeto de país?
7. Religião, moralidade e guerra cultural
Outro eixo importante é a moralidade religiosa. O bolsonarismo construiu forte presença em ambientes evangélicos, católicos conservadores e grupos moralmente orientados pela defesa da família tradicional. Para muitos eleitores, a eleição não é apenas disputa administrativa. É batalha espiritual, cultural e moral.
Nesse campo, temas como aborto, drogas, sexualidade, educação sexual, linguagem neutra, feminismo, direitos LGBTQIA+, papel da escola e autoridade dos pais são transformados em marcadores políticos. O candidato conservador aparece como defensor da família. O adversário progressista aparece como ameaça à infância, à fé e à ordem moral.
Essa dinâmica não pode ser tratada com desprezo. A religião é elemento legítimo da vida social. Milhões de brasileiros organizam suas escolhas, valores e esperanças a partir da fé. O problema surge quando a fé é instrumentalizada como medo político. Quando lideranças partidárias transformam adversários em inimigos de Deus, a democracia perde seu chão comum.
Flávio Bolsonaro se beneficia dessa gramática porque herda a coalizão moral do bolsonarismo. Ele pode não despertar o mesmo carisma popular do pai, mas carrega o mesmo campo simbólico: família, Deus, pátria, armas, ordem, autoridade, antipetismo e conservadorismo cultural.
Para o eleitor religioso conservador, contradições econômicas ou diplomáticas podem pesar menos do que a percepção de que o candidato está “do lado certo” da guerra moral. Essa é uma chave fundamental: muitos eleitores não escolhem primeiro pela economia. Escolhem pelo que entendem como defesa de valores. E, uma vez feita essa escolha moral, os demais temas são reinterpretados para caber nela.
8. O Leviatã Digital: desinformação, redes e bolhas de confirmação
Nenhuma análise sobre o voto em Flávio Bolsonaro será suficiente se ignorar o ecossistema digital. O bolsonarismo não é apenas movimento eleitoral; é uma infraestrutura comunicacional permanente. Ele opera por canais, influenciadores, grupos de WhatsApp, Telegram, cortes de vídeo, memes, lives, páginas religiosas, comentaristas, perfis anônimos, podcasts e redes de indignação.
A força desse sistema está na repetição. Não é necessário convencer o eleitor com um grande tratado político. Basta inundar seu cotidiano com sinais consistentes: o país está em perigo; Lula é culpado; o STF persegue; a imprensa mente; a esquerda quer destruir a família; o crime está fora de controle; só a direita tem coragem; Flávio é o herdeiro possível; Trump respeita Bolsonaro; o mercado confia; o povo precisa reagir.
A verdade, nesse ambiente, deixa de ser apenas correspondência com fatos e passa a ser pertencimento tribal. A pessoa acredita não apenas porque viu uma evidência, mas porque aquela narrativa confirma sua identidade. Se o conteúdo vem “do nosso lado”, parece confiável. Se vem “do lado deles”, parece manipulação.
Esse fenômeno é agravado pela lógica algorítmica. Plataformas digitais tendem a premiar engajamento, e conteúdos que provocam medo, raiva e indignação costumam circular com enorme força. A política deixa de ser discussão pública e se torna excitação emocional contínua. O eleitor passa a viver dentro de uma atmosfera de ameaça.
A inteligência artificial generativa amplia ainda mais esse risco. Textos, imagens, vídeos e áudios podem ser produzidos em massa, adaptados a públicos específicos e lançados em escala. A campanha deixa de falar com “o eleitorado” em geral e passa a falar com medos particulares: medo do crime para uns, medo da escola para outros, medo do comunismo para outros, medo da crise econômica para outros, medo da perseguição religiosa para outros.
O resultado é um eleitor politicamente saturado. Ele não necessariamente sabe mais; ele sente mais. E quem controla a emoção controla boa parte da decisão.
9. O voto ressentido: humilhação social, frustração e desejo de revanche
Existe ainda uma dimensão subjetiva mais profunda: o ressentimento. Nietzsche descreveu o ressentimento como força moral reativa, na qual o sujeito ferido constrói sua identidade a partir da negação do outro (Nietzsche, 2009). Fromm explicou que a liberdade pode gerar angústia e que muitos indivíduos buscam refúgio em autoridades fortes quando se sentem impotentes diante da complexidade do mundo (Fromm, 1983). Arendt mostrou que movimentos autoritários se alimentam da solidão, do desenraizamento e da sensação de abandono das massas (Arendt, 2012).
Essas chaves ajudam a compreender parte do voto bolsonarista. Muitos brasileiros se sentem humilhados pelo Estado, pela economia, pela cultura, pela escola, pelo discurso técnico e pela promessa não cumprida de mobilidade social. Sentem que trabalham muito e recebem pouco. Sentem que “ninguém os respeita”. Sentem que universidades, artistas, jornalistas e intelectuais falam de cima para baixo. Sentem que a política tradicional os enganou.
O bolsonarismo ofereceu a esses sujeitos uma forma de revanche simbólica. Ele disse: “vocês estavam certos; eles riam de vocês; agora vocês podem rir deles”. A grosseria virou autenticidade. A agressividade virou coragem. A falta de mediação virou sinceridade. O ataque às instituições virou libertação.
Flávio Bolsonaro herda esse capital emocional. Mesmo com imagem mais institucional, ele continua ligado à família que transformou ressentimento em força política. Para parte do eleitorado, votar nele é manter viva a revanche contra as elites progressistas, contra o PT, contra a imprensa, contra o STF, contra a universidade e contra todos os que foram colocados no campo do “sistema”.
Esse voto não busca apenas gestão. Busca compensação emocional. O eleitor ressentido quer ver o adversário sofrer, ser desmoralizado, perder espaço, ser “colocado em seu lugar”. É por isso que propostas concretas podem importar menos do que gestos de enfrentamento. O voto vira catarse.
10. A contradição central: soberania performática e dependência externa
Aqui está uma das grandes contradições da candidatura de Flávio Bolsonaro: o discurso soberanista convive com uma aproximação explícita com o trumpismo e com a tentativa de transformar relações com os Estados Unidos em ativo eleitoral.
Não há problema, em si, em dialogar com os Estados Unidos. Um país sério conversa com todas as potências. O problema aparece quando a relação externa é usada como instrumento de pressão interna. Se o eleitor brasileiro passa a ouvir que o país será punido, tarifado ou isolado caso não escolha determinado campo político, já não se trata de diplomacia. Trata-se de intimidação simbólica.
A soberania real exige que qualquer candidato brasileiro diga com clareza: divergências internas devem ser resolvidas pelo povo brasileiro, pelas instituições brasileiras e pela Constituição brasileira. Nenhuma potência estrangeira deve ser usada como árbitro informal de uma eleição nacional.
Quando um candidato se apresenta como alguém capaz de “resolver” tensões com Washington porque tem acesso privilegiado a Trump ou a autoridades norte-americanas, surge uma pergunta inevitável: o Brasil precisa de presidente ou de intermediário familiar junto ao poder estrangeiro?
O patriotismo verdadeiro não é subordinação com bandeira. Não é cantar o hino enquanto se aceita que outro país condicione a política nacional. Não é usar camisa verde-amarela enquanto se transforma pressão externa em argumento eleitoral. Patriotismo real é defender o interesse nacional inclusive quando isso contraria aliados ideológicos.
Esse ponto é decisivo porque muitos eleitores de Flávio Bolsonaro podem acreditar que estão votando em defesa da soberania. Mas a soberania defendida pelo bolsonarismo muitas vezes é performática: forte nos símbolos, frágil na estrutura; intensa no discurso, dependente na prática; barulhenta na bandeira, silenciosa diante do mercado e de potências estrangeiras alinhadas ideologicamente.
11. Então, por que ainda votam nele? Uma síntese explicativa
A resposta, portanto, é múltipla.
Há brasileiros que votam em Flávio Bolsonaro porque o sobrenome Bolsonaro ainda funciona como identidade política. Para eles, a família representa coragem, enfrentamento e continuidade.
Há brasileiros que votam nele por antipetismo. Não se trata necessariamente de adesão plena ao candidato, mas de rejeição ao adversário.
Há brasileiros que votam por medo da violência. A promessa de ordem, ainda que simplificadora, seduz uma sociedade cansada da insegurança.
Há brasileiros que votam por conservadorismo moral e religioso. Enxergam em Flávio uma barreira contra mudanças culturais que consideram ameaçadoras.
Há brasileiros que votam pela agenda econômica liberal. Acreditam que privatizações, corte de gastos e redução de impostos produzirão crescimento, eficiência e confiança.
Há brasileiros que votam por influência digital. Vivem em bolhas informacionais que reforçam diariamente a narrativa bolsonarista.
Há brasileiros que votam por ressentimento. Veem no bolsonarismo uma revanche contra elites políticas, culturais, acadêmicas e midiáticas.
Há brasileiros que votam por memória seletiva. Lembram dos erros do PT, mas relativizam os erros do bolsonarismo.
Há brasileiros que votam por desejo de autoridade. Em tempos de incerteza, lideranças duras parecem oferecer segurança.
Há brasileiros que votam porque a democracia liberal lhes parece lenta, abstrata e incapaz de resolver problemas concretos.
Essa complexidade não deve ser confundida com equivalência moral entre projetos. Explicar o voto não significa dizer que todas as escolhas produzem os mesmos efeitos. Uma agenda que reduz direitos sociais, enfraquece instrumentos de soberania, instrumentaliza medo e transforma política externa em ativo familiar precisa ser analisada com rigor crítico.
12. Conclusão — O voto em Flávio Bolsonaro como sintoma do Brasil ferido
A permanência de eleitores dispostos a votar em Flávio Bolsonaro em 2026 revela algo maior do que a força de um candidato. Revela a persistência de um modo de fazer política baseado em medo, identidade, ressentimento, antipetismo, guerra cultural e promessa de ordem. Revela também a incapacidade da democracia brasileira de responder, com eficácia e linguagem acessível, às dores reais de milhões de pessoas.
O erro seria imaginar que esses eleitores existem apenas porque foram enganados. Muitos foram, sim, atingidos por desinformação. Mas não apenas isso. Eles também vivem insegurança, frustração, endividamento, medo da violência, ressentimento cultural, desconfiança institucional e sensação de abandono. O bolsonarismo não criou todas essas dores; ele as organizou politicamente.
Flávio Bolsonaro se beneficia desse legado. Sua candidatura tenta combinar a herança emocional do pai, a promessa de moderação institucional, a agenda econômica desejada por setores do mercado e a gramática moral da direita conservadora. Essa combinação pode ser eleitoralmente poderosa porque fala a públicos diferentes: ao fiel bolsonarista, oferece continuidade; ao mercado, oferece austeridade; ao conservador religioso, oferece guerra cultural; ao eleitor inseguro, oferece ordem; ao antipetista, oferece instrumento de revanche.
Mas é exatamente aí que mora o risco. Um país não pode escolher seu futuro apenas pelo medo do adversário. Não pode reduzir soberania a espetáculo. Não pode transformar relação com potência estrangeira em chantagem eleitoral. Não pode tratar direitos sociais como obstáculos contábeis. Não pode substituir projeto nacional por fidelidade familiar. Não pode confundir patriotismo com submissão ideológica.
A pergunta “por que ainda votam em Flávio Bolsonaro?” deve ser acompanhada de outra: que Brasil precisa existir para que esse voto continue parecendo razoável para tanta gente? A resposta é dura: um Brasil desigual, inseguro, ressentido, polarizado, desinformado, cansado e ainda incapaz de transformar cidadania em experiência concreta para todos.
Portanto, enfrentar politicamente esse fenômeno não exige ridicularizar o eleitor. Exige disputar a realidade. Exige mostrar que segurança pública não se resolve com espetáculo, mas com Estado inteligente. Que economia não se resume a cortar gastos, mas a desenvolver o país. Que soberania não é proximidade com Trump, mas capacidade nacional de decidir o próprio destino. Que religião não deve ser usada como arma eleitoral. Que liberdade não existe sem direitos materiais. Que democracia não é fraqueza, mas o único caminho legítimo para transformar conflito em convivência.
O voto em Flávio Bolsonaro, mais do que uma preferência individual, é um espelho. E o que ele reflete é um Brasil que ainda precisa curar suas feridas históricas: desigualdade, medo, abandono, manipulação, dependência e baixa confiança pública. A saída não está em trocar um medo por outro. Está em reconstruir a política como projeto de país.
Porque, no fim, uma nação não se salva quando encontra um inimigo. Uma nação se salva quando encontra consciência.
13. Cinco pontos relevantes do artigo
- O apoio a Flávio Bolsonaro se explica por uma combinação de identidade política, antipetismo, medo social, conservadorismo moral, agenda econômica liberal e influência digital.
- Muitos eleitores não votam necessariamente por adesão plena ao programa do candidato, mas por rejeição ao PT, a Lula e ao campo progressista.
- O medo da violência, da crise econômica, da mudança cultural e da perda de valores funciona como poderoso combustível eleitoral.
- A candidatura de Flávio Bolsonaro combina soberanismo simbólico com aproximação ao trumpismo, produzindo uma contradição entre patriotismo discursivo e dependência geopolítica.
- Compreender o eleitor de Flávio não significa absolver os riscos de sua agenda; significa analisar o fenômeno com profundidade para enfrentá-lo democraticamente.
14. Cinco perguntas comuns sobre o tema
1. Todo eleitor de Flávio Bolsonaro é extremista?
Não. Há eleitores extremistas, mas há também antipetistas, liberais econômicos, conservadores religiosos, pessoas assustadas com a violência e cidadãos influenciados por redes digitais. Generalizar impede compreender o fenômeno.
2. O voto em Flávio Bolsonaro é apenas voto contra Lula?
Em muitos casos, sim; mas não apenas. Há também adesão ao sobrenome Bolsonaro, à agenda econômica liberal, ao conservadorismo moral e à promessa de ordem.
3. O medo da violência é uma razão legítima para votar na direita?
O medo da violência é legítimo porque a insegurança é real. O problema está em transformar esse medo em soluções simplistas, espetaculares ou autoritárias, sem enfrentar as causas estruturais do crime organizado.
4. A agenda econômica de Flávio Bolsonaro pode atrair eleitores?
Sim. Privatizações, corte de gastos e redução de impostos atraem setores do mercado, empresários e parte da classe média. A questão crítica é avaliar quem ganha, quem perde e quais direitos podem ser afetados.
5. Como enfrentar democraticamente esse tipo de voto?
Com informação clara, disputa de projeto, linguagem acessível, combate à desinformação, presença territorial, defesa concreta de direitos e demonstração prática de que democracia pode melhorar a vida das pessoas.
15. Indicação de três livros
- ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo.
Obra fundamental para compreender massas, propaganda, fabricação do inimigo e movimentos autoritários. - FROMM, Erich. O medo à liberdade.
Livro essencial para entender por que indivíduos, diante da angústia e da insegurança, podem buscar refúgio em lideranças autoritárias. - HOBBES, Thomas. Leviatã.
Clássico da filosofia política para compreender a relação entre medo, autoridade, ordem e formação do Estado.
16. Referências
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
ASSOCIATED PRESS. Experts say US targeting of Brazilian gangs is an attempt to sway election there. 2026.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Senado Federal. Senador Flávio Bolsonaro: perfil parlamentar. Brasília, DF: Senado Federal, 2026.
CNN BRASIL. Atlas Bloomberg: Lula empata com Flávio, Jair e Zema em eventual 2º turno. São Paulo: CNN Brasil, 2026.
ESPINOSA, Baruch de. Tratado político. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2014.
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Penguin Companhia, 2010.
NEOFEED. As promessas de Flávio Bolsonaro: privatização de 95% das estatais e corte de gastos e de impostos. São Paulo: NeoFeed, 2026.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
REUTERS. Trump administration proposes 25% tariff to punish Brazil over trade practices. Londres: Reuters, 2026.
REUTERS. U.S. terror label for Brazilian gangs risks derailing police cooperation, say sources. Londres: Reuters, 2026.
REUTERS. US terrorist label for Brazil gangs risks higher business costs. Londres: Reuters, 2026.
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