Uma leitura crítica sobre o movimento que ultrapassou Jair Bolsonaro, reorganizou afetos conservadores, capturou medos sociais e transformou parte da democracia brasileira em campo permanente de batalha simbólica.
Lide
O bolsonarismo não nasceu do nada. Ele emergiu de fraturas antigas da sociedade brasileira: medo da mudança social, ressentimento contra instituições, antipetismo, insegurança econômica, conservadorismo religioso, nostalgia autoritária e rejeição às mediações tradicionais da política. Reduzi-lo apenas a Jair Bolsonaro é um erro analítico. Bolsonaro foi o rosto, o catalisador e o intérprete de uma energia social que já circulava no subterrâneo do país. O problema maior é compreender por que essa energia encontrou tanta força — e por que continua viva mesmo depois das derrotas eleitorais, judiciais e políticas de seu principal líder.
1. Introdução: o bolsonarismo como sintoma de uma sociedade fraturada
Falar sobre bolsonarismo exige cuidado. Não porque o tema seja intocável, mas porque ele costuma ser tratado com pressa. De um lado, há quem reduza o fenômeno a fanatismo puro. De outro, há quem o apresente como simples patriotismo popular. Nenhuma dessas leituras dá conta da complexidade do problema.
O bolsonarismo é, ao mesmo tempo, movimento político, linguagem moral, identidade coletiva, cultura digital, reação conservadora e forma de pertencimento. Ele organiza medos, ressentimentos e esperanças. Oferece explicações simples para problemas complexos. Cria inimigos nítidos. Promete restaurar uma ordem perdida. E, sobretudo, oferece a muitos sujeitos uma sensação de reconhecimento: “agora alguém fala por mim”.
O dado do Datafolha sobre o chamado núcleo fiel ajuda a dimensionar o fenômeno. Em 2020, a pesquisa identificou um grupo de aproximadamente 15% da população adulta que havia votado em Bolsonaro, avaliava seu governo como ótimo ou bom e dizia sempre confiar no que ele afirmava. Esse grupo foi chamado de base mais fiel ou “bolsonarista raiz” . A reportagem da BBC News Brasil também trabalhou essa distinção entre eleitores ocasionais de Bolsonaro e o núcleo ideológico mais duro do movimento .
Essa diferença é fundamental. Nem todo eleitor de Bolsonaro é bolsonarista no sentido forte. Há voto econômico, voto antipetista, voto religioso, voto por segurança pública, voto de rejeição ao sistema, voto pragmático e voto ideológico. O bolsonarismo, porém, nasce quando essas motivações deixam de ser apenas escolhas eleitorais e se convertem em identidade política rígida.
A tese central deste artigo é a seguinte: o bolsonarismo é um fenômeno político autônomo, maior que Jair Bolsonaro, sustentado por uma gramática do ressentimento, por uma reação cultural conservadora, por um imaginário religioso-moral e por uma nova forma de comunicação política mediada pelas redes digitais.
2. O “cardápio de valores”: como o bolsonarismo agregou grupos diferentes
Uma das características mais fortes do bolsonarismo é sua capacidade de funcionar como um “cardápio ideológico”. O apoiador não precisa aderir a todos os elementos do movimento. Pode entrar pela pauta da segurança pública, pela rejeição ao PT, pela defesa da família tradicional, pelo liberalismo econômico, pelo antipolítica, pelo anticomunismo, pela defesa das armas, pela religião ou pela crítica ao Supremo Tribunal Federal.
Essa elasticidade explica parte de sua força. O bolsonarismo não é uma doutrina fechada como os partidos ideológicos clássicos. Ele é uma coalizão afetiva e moral. Cada grupo encontra nele um espelho parcial de suas próprias angústias.
O antipetismo foi um dos pilares mais importantes. Ele não surgiu apenas dos escândalos de corrupção revelados no Mensalão e na Lava Jato. Também se alimentou de um incômodo mais profundo com políticas de inclusão social, ampliação de direitos e ascensão simbólica de grupos historicamente subalternizados. Parte da classe média e de setores populares passou a interpretar políticas redistributivas não como justiça social, mas como privilégio indevido concedido a “outros”.
Nesse ponto, a análise de Wendy Brown é útil. Para a autora, a racionalidade neoliberal corroeu a ideia de sociedade e substituiu a linguagem do bem comum por uma moralidade de mercado combinada com valores familiares tradicionais. Brown argumenta que a política antidemocrática contemporânea une desregulação econômica, ataque ao social e defesa moralista da tradição . No caso brasileiro, essa combinação aparece quando o Estado é visto como inimigo, exceto quando atua para punir, vigiar ou proteger interesses considerados legítimos por determinado grupo.
A pauta da segurança pública também ocupou lugar central. O discurso de que “direitos humanos defendem bandidos” simplifica uma questão complexa e perigosa: transforma garantias constitucionais em obstáculo moral. A consequência é grave. Quando uma sociedade passa a acreditar que determinados grupos não merecem direitos, ela normaliza a exceção. E a exceção, historicamente, nunca fica limitada ao inimigo inicial.
Outro eixo decisivo é o nacionalismo. Mas não se trata apenas de amor ao país. Trata-se de um patriotismo performático, visual, litúrgico: bandeira, hino, verde-amarelo, culto às Forças Armadas, nostalgia da ditadura e promessa de purificação moral da nação. O país real, desigual, contraditório e plural, é substituído por uma pátria imaginária: homogênea, cristã, ordeira, hierárquica e obediente.
É nesse ponto que o bolsonarismo se aproxima daquilo que Cas Mudde chama de direita radical populista: uma combinação entre populismo, autoritarismo e nacionalismo excludente. Mudde identifica essa família política pela construção de uma oposição moral entre “povo puro” e “elite corrupta”, associada à defesa de ordem rígida e de uma comunidade nacional imaginada como ameaçada por inimigos internos ou externos .
3. Ressentimento: a emoção política que organiza o movimento
O ressentimento não é simples inveja. É uma forma de sofrimento moral. É a sensação de que algo foi tomado, de que a ordem justa foi rompida, de que “eles” receberam demais enquanto “nós” fomos humilhados, esquecidos ou traídos.
No bolsonarismo, esse ressentimento aparece em várias camadas. Há ressentimento contra a política tradicional. Contra a imprensa. Contra o Supremo. Contra professores. Contra artistas. Contra universidades. Contra movimentos sociais. Contra feministas. Contra ambientalistas. Contra minorias que passaram a reivindicar voz pública. Contra qualquer grupo percebido como beneficiário de uma mudança cultural considerada ilegítima.
O ressentimento de direita costuma se dirigir menos contra a concentração econômica e mais contra mudanças culturais, instituições intermediárias e supostos privilégios simbólicos concedidos a grupos minoritários. Já o ressentimento de esquerda, em geral, se orienta contra elites econômicas, desigualdade social e exploração. Essa diferença não significa que um seja automaticamente legítimo e outro ilegítimo; significa apenas que eles constroem inimigos diferentes.
Rosana Pinheiro-Machado, em Amanhã vai ser maior, interpreta a crise brasileira recente como resultado de transformações profundas abertas desde as Jornadas de Junho de 2013, momento em que a insatisfação social se tornou explosiva, difusa e difícil de traduzir em projetos institucionais consistentes . Essa leitura é importante porque evita uma explicação simplista: o bolsonarismo não surgiu apenas da manipulação digital; ele se alimentou de uma crise real de representação.
O problema é que o ressentimento, quando não encontra elaboração política democrática, pode se converter em ódio organizado. E o ódio organizado precisa de inimigos permanentes. Por isso o bolsonarismo não sobrevive apenas de propostas. Ele sobrevive de conflito. Precisa de um “sistema” contra o qual lutar. Precisa de um inimigo para acusar. Precisa da sensação de cerco. Sem isso, perde energia.
4. A base evangélica e a política da exaltação dos humilhados
A relação entre bolsonarismo e evangélicos não deve ser tratada de modo grosseiro. O mundo evangélico brasileiro é plural. Existem evangélicos conservadores, progressistas, pentecostais, neopentecostais, históricos, periféricos, de classe média, lideranças midiáticas e comunidades locais profundamente comprometidas com assistência social. Reduzir tudo a manipulação seria erro.
Mas é inegável que o bolsonarismo encontrou em setores evangélicos uma base estratégica. O movimento ofereceu reconhecimento político, linguagem religiosa e promessa de defesa moral. Muitos fiéis passaram a se ver como grupo sitiado por uma cultura secular, progressista e hostil à sua fé.
A frase bíblica “os humilhados serão exaltados” ganhou sentido político. Ela deixou de ser apenas promessa espiritual e passou a funcionar como narrativa de ascensão pública. Grupos que se sentiam marginalizados culturalmente passaram a ocupar o centro do debate nacional. O bolsonarismo ofereceu a esses grupos não apenas representação, mas revanche simbólica.
Aqui aparece uma tensão delicada. A fé pode ser força de solidariedade, cuidado e justiça. Mas, quando capturada pela lógica da guerra cultural, pode ser convertida em instrumento de hostilidade. A política deixa de ser debate sobre o comum e passa a ser batalha entre salvos e condenados, povo de Deus e inimigos da nação, verdadeiros patriotas e traidores.
Essa fusão entre religião, moralidade e política é uma das marcas da nova direita global. Wendy Brown observa que a ascensão antidemocrática contemporânea combina neoliberalismo econômico com moralismo tradicional, formando uma política que enfraquece a igualdade democrática enquanto fortalece hierarquias familiares, religiosas e nacionais .
No Brasil, isso aparece de forma aguda: defesa do mercado, ataque ao Estado social, militarização simbólica da política e moralização religiosa dos costumes. É uma mistura poderosa porque fala ao bolso, ao medo e à alma.
5. A gênese: de parlamentar corporativo a líder da guerra cultural
Jair Bolsonaro não começou como líder de massas. Durante muitos anos, foi um deputado de atuação corporativa, ligado sobretudo a pautas militares, salários, disciplina e crítica aos direitos humanos. Sua transformação em fenômeno nacional ocorreu quando ele passou a ocupar o terreno da guerra cultural.
O ponto de inflexão ocorreu no início da década de 2010, especialmente nas controvérsias sobre educação sexual, gênero e o chamado “kit gay”. A partir dali, Bolsonaro deixou de ser apenas um representante de nichos militares e passou a vocalizar medos conservadores mais amplos. Ele percebeu que havia uma audiência disposta a ouvir alguém que falasse sem filtros contra feminismo, esquerda, direitos LGBTQIA+, políticas educacionais progressistas e imprensa.
As Jornadas de Junho de 2013 abriram uma fenda na política brasileira. A insatisfação começou contra tarifas e serviços públicos, mas rapidamente se transformou em crise geral de representação. A energia das ruas não tinha direção única. Parte dela foi para a crítica democrática do sistema; outra parte foi capturada por discursos antipolíticos e autoritários.
Entre 2014 e 2018, a crise econômica, a Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e o desgaste da Nova República criaram uma tempestade perfeita. O bolsonarismo entrou nesse cenário como promessa de limpeza, ordem e punição. Não oferecia um programa sofisticado. Oferecia uma emoção clara: basta.
Essa é uma chave weberiana. Max Weber define a liderança carismática como aquela sustentada pela crença extraordinária nas qualidades de um líder. O carisma não depende apenas do líder; depende da disposição dos seguidores em reconhecê-lo como portador de uma missão. No bolsonarismo, Bolsonaro foi construído como líder autêntico, incorruptível, perseguido e escolhido para enfrentar o sistema.
Essa imagem resistiu mesmo diante de contradições. Quanto mais era criticado, mais seu núcleo fiel interpretava as críticas como prova de perseguição. Quanto mais atacava instituições, mais parecia corajoso aos olhos de seus seguidores. Quanto mais simplificava problemas, mais parecia “falar a verdade”.
6. Fascismo, neofascismo ou novidade autoritária?
Uma das discussões mais difíceis é classificar o bolsonarismo. Chamá-lo de fascismo pode iluminar certos aspectos, mas também pode obscurecer outros.
Há traços que aproximam o bolsonarismo de tradições autoritárias: culto ao líder, militarismo simbólico, ultranacionalismo, produção de inimigos internos, desprezo por minorias, ataque à imprensa, nostalgia ditatorial e disposição para tensionar instituições. Esses elementos justificam comparações com experiências fascistas e neofascistas.
Ao mesmo tempo, o historiador Emilio Gentile alerta para o risco de usar “fascismo” como rótulo genérico para todo autoritarismo contemporâneo. Para Gentile, o fascismo histórico possuía características específicas: partido miliciano, projeto totalitário, destruição aberta do Estado liberal, militarização integral da política e ambição de criar uma nova civilização política. Ele argumenta que o perigo atual pode estar menos na repetição literal do fascismo e mais na transformação interna da democracia em repressão com apoio popular .
Essa advertência é importante. O bolsonarismo talvez seja mais bem compreendido como um fenômeno híbrido: possui elementos neofascistas, traços populistas, linguagem religiosa, moralismo tradicionalista, neoliberalismo seletivo e práticas de erosão democrática. Ele não precisa repetir o fascismo histórico para ser perigoso. Sua novidade está justamente em operar dentro das instituições enquanto as deslegitima por dentro.
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt chamam atenção para esse padrão contemporâneo: democracias raramente morrem hoje por golpes clássicos; morrem por erosão gradual, por líderes eleitos que atacam árbitros institucionais, deslegitimam adversários, toleram violência política e corroem normas democráticas. Estudos sobre erosão democrática no Brasil associaram Bolsonaro a esse tipo de liderança autoritária competitiva .
A imagem clássica do golpe com tanques na rua já não basta. O autoritarismo contemporâneo pode usar voto, redes sociais, judicialização estratégica, desinformação, pressão sobre instituições e mobilização permanente da base. Não é menos perigoso por ser mais difuso. Às vezes, é mais perigoso justamente por parecer democrático.
7. Guerra cultural: quando a política vira batalha entre bem e mal
O bolsonarismo prospera porque transforma divergência política em guerra moral. O adversário deixa de ser alguém com outro projeto de país e passa a ser inimigo da família, da fé, da liberdade, da pátria ou da infância.
Esse mecanismo é poderoso. Ele impede a negociação. Quem negocia com o mal? Quem dialoga com traidores? Quem respeita instituições dominadas pelo inimigo? A democracia depende da legitimidade do adversário. A guerra cultural destrói essa legitimidade.
A influência de Olavo de Carvalho nesse processo foi relevante. Seu pensamento ajudou a difundir a ideia de que a política brasileira era dominada por uma hegemonia cultural de esquerda, infiltrada em universidades, imprensa, artes, escolas e instituições. Essa visão transformou a disputa política em cruzada civilizacional. Não se tratava mais de administrar políticas públicas, mas de salvar o país de uma decadência espiritual.
Essa lógica também explica o ataque à ciência, à imprensa e à universidade. Instituições produtoras de conhecimento passam a ser vistas como aparelhos de doutrinação. O especialista vira suspeito. O jornalista vira inimigo. O professor vira militante. O pesquisador vira agente ideológico.
O resultado é uma sociedade que desconfia justamente das mediações que permitem algum grau de racionalidade pública. Quando tudo vira narrativa, a verdade perde força. E quando a verdade perde força, vence quem grita mais alto, emociona melhor ou mobiliza mais medo.
8. O mimetismo político: bolsonarismo e lulismo em espelho?
A comparação entre bolsonarismo e lulismo exige cautela. Eles não são equivalentes. Têm matrizes históricas, sociais e ideológicas diferentes. O lulismo nasceu associado à inclusão social, ao sindicalismo, à conciliação de classes e à expansão do consumo popular. O bolsonarismo nasceu associado ao antipetismo, ao conservadorismo moral, à militarização simbólica e à reação contra mudanças culturais.
Mas isso não impede observar simetrias funcionais. Idelber Avelar argumenta que o bolsonarismo extraiu do lulismo certos marcos retóricos e os preencheu com conteúdo de extrema direita, reinstalando-os em um sistema discursivo baseado no antagonismo permanente .
Entre essas simetrias estão a personalização extrema da política, a retórica de perseguição, o ataque à imprensa, a construção de um povo autêntico contra elites hostis e a dificuldade de parte dos seguidores em reconhecer erros do líder. O líder deixa de ser representante e passa a ser encarnação simbólica de uma causa.
Esse processo é perigoso para qualquer campo político. Quando a política se organiza ao redor de figuras infalíveis, instituições perdem centralidade. Partidos viram acessórios. Programas viram detalhes. A crítica interna vira traição. A lealdade pessoal substitui a deliberação racional.
A democracia precisa de lideranças, mas não suporta messianismos permanentes. Líderes democráticos devem ser criticáveis, substituíveis e limitados por regras. Quando se tornam mitos, deixam de pertencer ao campo normal da política e passam a operar no campo da fé.
9. Redes sociais, desintermediação e a fábrica de certezas
O bolsonarismo é inseparável das redes digitais. Ele cresceu em uma época em que Facebook, WhatsApp, YouTube, Telegram e outras plataformas alteraram profundamente a circulação de informação. A política deixou de depender apenas de partidos, jornais e televisão. Passou a circular em grupos fechados, vídeos curtos, memes, lives e correntes emocionais.
Essa desintermediação teve duplo efeito. Por um lado, ampliou vozes antes excluídas. Por outro, enfraqueceu filtros mínimos de verificação. O cidadão passou a receber “notícias” diretamente de pessoas em quem confia afetivamente: parentes, pastores, amigos, influenciadores. A confiança deixou de depender da qualidade da fonte e passou a depender da identidade do mensageiro.
O bolsonarismo soube explorar isso com eficiência. Sua comunicação é simples, emocional, repetitiva e combativa. Ela não busca convencer pela complexidade; busca produzir pertencimento. O objetivo não é apenas informar, mas alinhar afetos: indignação, medo, orgulho, raiva, esperança e desprezo.
Nesse ambiente, teorias conspiratórias encontram terreno fértil. Elas oferecem explicações totais para frustrações reais. Nada é acaso. Tudo é plano. A derrota eleitoral, a decisão judicial, a reportagem crítica, a pesquisa científica, o dado econômico: tudo pode ser reinterpretado como parte de uma conspiração do sistema.
Essa lógica é resistente à refutação. Quando uma prova contradiz a crença, a prova é absorvida como evidência da conspiração. Por isso o debate racional se torna tão difícil. Não se discute apenas informação; discute-se identidade.
10. O bolsonarismo depois de Bolsonaro
Uma das perguntas centrais é: o bolsonarismo sobreviverá a Bolsonaro? A resposta mais provável é sim, ainda que em formas diferentes.
Movimentos políticos personalistas dependem muito do líder, mas não desaparecem automaticamente com sua derrota. Eles deixam linguagem, redes, símbolos, lideranças secundárias, hábitos discursivos e comunidades de afeto. O bolsonarismo já formou parlamentares, influenciadores, canais de comunicação, grupos religiosos, empresários políticos e militantes digitais.
Além disso, as condições sociais que o alimentaram não desapareceram. A insegurança econômica continua. A crise de representação continua. A desconfiança nas instituições continua. A guerra cultural continua. A precarização do trabalho continua. A busca por pertencimento continua.
O bolsonarismo, portanto, pode se reorganizar sob outros nomes, outros líderes e outras plataformas. Pode se moderar em alguns momentos e radicalizar em outros. Pode disputar eleições, pressionar instituições, influenciar igrejas, mobilizar redes e pautar o debate público mesmo fora do Executivo.
A questão decisiva não é apenas o destino jurídico ou eleitoral de Jair Bolsonaro. É a persistência de uma cultura política que transforma adversários em inimigos, instituições em obstáculos e democracia em instrumento descartável quando o resultado não agrada.
11. Conclusão: o que o bolsonarismo revela sobre o Brasil
O bolsonarismo revela um Brasil ferido. Um país onde milhões se sentem traídos, humilhados, inseguros, deslocados ou ameaçados por mudanças sociais que não compreendem plenamente. Revela também uma democracia institucionalmente jovem, socialmente desigual e emocionalmente exausta.
Não se enfrenta esse fenômeno apenas com indignação. A indignação pode ser moralmente compreensível, mas é politicamente insuficiente. É preciso compreender as causas materiais e simbólicas que alimentam o ressentimento. É preciso reconstruir confiança pública. É preciso defender instituições sem transformá-las em castelos distantes. É preciso combater desinformação sem desprezar quem caiu nela. É preciso criticar lideranças autoritárias sem tratar todos os seus eleitores como caricaturas.
O bolsonarismo é perigoso não apenas pelo que defende, mas pelo que revela: a fragilidade de uma sociedade que não conseguiu transformar democracia em experiência concreta de dignidade para todos. Enquanto a política democrática não oferecer pertencimento, segurança, reconhecimento e futuro, movimentos autoritários continuarão oferecendo versões simplificadas desses desejos.
O desafio, portanto, não é apenas derrotar um líder. É reconstruir o pacto democrático em uma sociedade cansada, desigual e capturada por afetos de guerra. Sem isso, o bolsonarismo pode mudar de nome, de rosto e de partido — mas continuará falando ao coração ferido de um país que ainda não aprendeu a conversar consigo mesmo.
Referências
AVELAR, Idelber. A rebelião do eles: léxico, morfologia e sintaxe do fascismo bolsonarista. Estado da Arte, 2020.
BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente. São Paulo: Editora Politeia, 2019.
DATAFOLHA. Adeptos fiéis a Bolsonaro são 15% da população adulta, indica Datafolha. Folha de S.Paulo, São Paulo, 2 jul. 2020.
GENTILE, Emilio. Quem é fascista. Lisboa: Edições 70, 2019.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
MUDDE, Cas. Populist radical right parties in Europe. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.
PINHEIRO-MACHADO, Rosana. Amanhã vai ser maior: o que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual. São Paulo: Planeta, 2019.
WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.
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