quarta-feira, 3 de junho de 2026

Dark Horse e a fabricação do mito: quando a extrema direita vende ilusão como salvação


Introdução — a tese


O caso Dark Horse não é apenas uma polêmica sobre um filme biográfico de Jair Bolsonaro. É um retrato quase didático da forma como a extrema direita bolsonarista tenta produzir uma mitologia política: transforma um líder comum em personagem messiânico, converte escândalos em perseguição, apresenta interesses familiares como destino nacional e vende propaganda como verdade histórica.


A tese deste artigo é direta: o episódio em que Flávio Bolsonaro teria pedido recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse revela a lógica profunda do bolsonarismo — a fabricação permanente do mito salvador. Não se trata apenas de cinema. Trata-se de engenharia simbólica. Trata-se de construir uma narrativa na qual Jair Bolsonaro aparece como vítima, herói, mártir e redentor, enquanto a realidade concreta de sua trajetória política, seus conflitos institucionais e os escândalos ao redor de seu grupo familiar são reorganizados como parte de uma epopeia moral.


Segundo reportagens da Associated Press, do The Guardian e da revista Veja, Flávio Bolsonaro admitiu ter buscado patrocínio privado para o filme, após a divulgação de áudios em que aparece solicitando recursos a Daniel Vorcaro, ex-CEO do Banco Master, envolvido em grave escândalo financeiro. As reportagens mencionam valores milionários, com diferentes cifras apuradas, e indicam que o filme teria como objetivo narrar a vida de Jair Bolsonaro em chave heroica, inclusive com pretensão de circulação política no contexto eleitoral de 2026.  


É aí que começa o problema político. Um grupo que se apresenta como antissistema recorre ao dinheiro de um banqueiro investigado para financiar a fabricação de um mito popular. A contradição é gritante. Mas não é acidental. Ela mostra que o bolsonarismo não vive apenas de votos. Vive de encenação.



1. O filme como instrumento de mitificação política


Todo movimento político precisa de narrativa. Isso é normal. O problema começa quando a narrativa deixa de organizar fatos e passa a substituí-los. No caso Dark Horse, a ideia de produzir um filme sobre Jair Bolsonaro não pode ser lida apenas como iniciativa cultural. Ela deve ser compreendida como peça de uma estratégia mais ampla de construção simbólica.


A expressão dark horse, em inglês, remete ao “azarão”, ao candidato improvável que surpreende. É uma escolha perfeita para a mitologia bolsonarista. Bolsonaro é apresentado como o homem simples, perseguido, subestimado, que teria vencido sozinho contra tudo e contra todos. Mas essa imagem esconde uma operação complexa: partidos, redes digitais, empresários, grupos religiosos, influenciadores, militares, parlamentares e financiadores.


O mito precisa parecer espontâneo. Mas ele é produzido.


Roland Barthes, ao analisar os mitos modernos, explica que o mito não elimina a realidade; ele a deforma. Ele pega um fato histórico e o apresenta como se fosse natural, inevitável, quase sagrado (Barthes, 2001). É exatamente isso que ocorre quando uma trajetória política é convertida em epopeia moral. O político deixa de ser avaliado por seus atos e passa a ser consumido como personagem.


No bolsonarismo, Jair Bolsonaro não é apenas ex-presidente. É tratado como “mito”. Essa palavra não é decorativa. Ela cumpre uma função. O mito está acima da crítica. O mito não erra; é traído. O mito não responde por seus atos; é perseguido. O mito não precisa explicar contradições; basta reafirmar sua missão.


É uma tecnologia emocional de poder.



2. A contradição central: antissistema com dinheiro do sistema


O aspecto mais revelador do caso está na contradição entre discurso e prática. O bolsonarismo sempre se apresentou como força contrária às elites políticas, econômicas e midiáticas. Construiu sua identidade pública sobre a ideia de combate ao “sistema”. No entanto, quando se trata de financiar sua própria narrativa heroica, aparece a figura de um banqueiro.


Essa contradição é pedagógica. Ela mostra que o antissistema bolsonarista é seletivo. O sistema é inimigo quando investiga, critica ou limita o poder do grupo. Mas torna-se aceitável quando financia, protege ou amplia sua influência.


A Associated Press informou que Flávio Bolsonaro negou irregularidades e afirmou que a busca por recursos teria sido uma iniciativa privada para um projeto privado. A questão, porém, ultrapassa a legalidade formal. Mesmo que se alegue tratar-se de patrocínio privado, permanece a pergunta política: por que uma família que se apresenta como símbolo do povo precisa de milhões de um banqueiro investigado para contar sua própria história?  


A resposta é incômoda: porque o mito custa caro.


Custa dinheiro. Custa marketing. Custa roteiro. Custa distribuição. Custa repetição. Custa blindagem simbólica.


Guy Debord, em A sociedade do espetáculo, mostrou que a política moderna pode ser capturada pela lógica da imagem. O espetáculo não é apenas aquilo que aparece na tela; é uma relação social mediada por imagens (Debord, 1997). No caso bolsonarista, o filme seria uma tentativa de organizar a percepção pública. Não para explicar a realidade, mas para domesticá-la.


É o espetáculo da vítima. O espetáculo do herói. O espetáculo do salvador.



3. O povo como plateia: quando a política vira cinema


Há algo profundamente perigoso quando a política passa a funcionar como cinema épico. O cidadão deixa de ser sujeito crítico e vira plateia. Ele não analisa programa de governo. Ele torce. Ele se emociona. Ele compartilha cenas, frases, cortes, símbolos e slogans.


É nesse ponto que a extrema direita opera com muita habilidade. Ela sabe que a política contemporânea não se disputa apenas no campo racional. Disputa-se no afeto, no medo, na raiva e no ressentimento. Cria-se uma sensação de ameaça permanente. Depois, oferece-se um salvador.


Ernst Cassirer, ao estudar o mito político moderno, mostrou que regimes autoritários são capazes de produzir linguagens simbólicas que simplificam a realidade e mobilizam massas por meio de imagens emocionais (Cassirer, 2003). O mito político não precisa ser verdadeiro no sentido factual. Ele precisa ser eficaz no plano psicológico.


O bolsonarismo compreendeu isso. E explorou isso.


O Brasil real é complexo: desigualdade, insegurança, corrupção histórica, precarização do trabalho, crise educacional, concentração de renda, violência urbana, fragilidade institucional. Mas a narrativa bolsonarista reduz tudo a uma dramaturgia simples: de um lado, o povo honesto; de outro, os inimigos da pátria. No centro, o líder que promete restaurar a ordem.


É sedutor. Principalmente para quem está cansado.


Mas é falso.



4. O “eu” político como ficção fabricada


Os anexos sobre Nietzsche ajudam a compreender uma dimensão mais profunda desse fenômeno. Quando Nietzsche critica a ideia de um “eu” estável, transparente e soberano, ele não está apenas fazendo um jogo filosófico. Está desmontando a ilusão de que o sujeito sempre sabe por que pensa o que pensa e por que deseja o que deseja.


Na política digital, essa crítica se torna ainda mais atual. O sujeito acredita estar escolhendo livremente suas opiniões, mas muitas vezes está apenas repetindo padrões reforçados por grupos, algoritmos, influenciadores e bolhas afetivas. A identidade política vira performance.


O bolsonarista típico não é apenas alguém que vota em Bolsonaro. Muitas vezes, é alguém que passa a existir publicamente como bolsonarista. O boné, a bandeira, a frase de efeito, a desconfiança contra a imprensa, o ódio ao Supremo, o desprezo pela universidade, a crença em conspirações e a devoção ao líder compõem um personagem social.


Nietzsche ajuda a perceber que esse “eu político” pode ser uma construção. Não uma essência. Uma fabricação.


E aqui está uma questão decisiva: quem fabrica esse sujeito?


A resposta passa pelas redes sociais, pela guerra cultural, pelos canais de desinformação, pelos grupos de WhatsApp, pelos discursos religiosos instrumentalizados e por uma indústria de ressentimento que lucra com a confusão entre fé, política e identidade.


O sujeito acredita defender a liberdade. Mas muitas vezes apenas obedece a comandos simbólicos. Acredita ser rebelde. Mas repete slogans. Acredita ser crítico. Mas rejeita qualquer fato que ameace o mito.



5. O mito salvador e a moral de rebanho


Nietzsche também criticou a chamada moral de rebanho, isto é, a tendência de indivíduos abrirem mão da própria força crítica para se dissolverem em valores coletivos repetidos de forma automática (Nietzsche, 2009). No bolsonarismo, essa moral de rebanho aparece de forma paradoxal. Seus adeptos se apresentam como livres, corajosos, “despertos”. Mas, em muitos casos, reagem de maneira previsível, padronizada e obediente.


Quando surge uma denúncia, dizem: perseguição.


Quando aparece uma contradição, dizem: narrativa da mídia.


Quando há investigação, dizem: sistema.


Quando há derrota, dizem: fraude.


Quando há escândalo, dizem: armação.


É sempre a mesma estrutura. A realidade nunca desmente o mito; apenas confirma que o mito está sendo atacado.


É assim que se constrói uma blindagem psíquica. O líder não precisa ser inocente; precisa parecer perseguido. Não precisa apresentar soluções; precisa encarnar a revolta. Não precisa convencer pela razão; basta ativar o pertencimento.


Hannah Arendt, ao analisar o totalitarismo e a banalidade do mal, mostrou como indivíduos comuns podem ser absorvidos por engrenagens ideológicas que reduzem a responsabilidade moral e substituem o julgamento pela obediência (Arendt, 1999; 2012). No caso brasileiro, não se trata de igualar mecanicamente fenômenos históricos distintos, mas de perceber uma advertência: quando o pensamento crítico é suspenso, a política se torna perigosa.


Muito perigosa.



6. A família como destino político


Outro elemento central do caso é a transformação de uma família em projeto nacional. O bolsonarismo não é apenas uma corrente ideológica. É também um empreendimento familiar. Jair, Flávio, Eduardo, Carlos e outros personagens orbitam uma estrutura na qual a política se mistura com herança, lealdade, influência e autopreservação.


O caso Dark Horse reforça esse traço. Um filho busca recursos para produzir um filme sobre o pai, que funciona como ativo político da família. A biografia do líder vira patrimônio narrativo. O passado é editado. A imagem é polida. A memória pública é disputada como mercado.


O editorial do Estadão, reproduzido nos anexos, captou bem essa tensão ao afirmar que a direita democrática precisa se libertar da família Bolsonaro se quiser reconstruir um campo conservador responsável. A crítica é relevante porque não parte necessariamente da esquerda, mas de um veículo historicamente associado ao liberalismo conservador brasileiro. O incômodo é evidente: a família Bolsonaro sequestrou uma parte da direita e a amarrou a uma lógica de escândalo permanente.


A direita democrática, se quiser existir, precisa romper com o culto familiar. Precisa substituir idolatria por programa. Precisa trocar ressentimento por responsabilidade institucional. Precisa abandonar a fantasia de que uma família representa o destino moral da nação.


Porque não representa.



7. A estética da perseguição


O bolsonarismo é extremamente eficiente em transformar qualquer denúncia em prova de perseguição. Esse mecanismo é simples e poderoso. Se ninguém denuncia, o mito permanece intacto. Se alguém denuncia, a denúncia confirma que o sistema teme o mito.


É uma estrutura fechada. Quase religiosa.


Nesse tipo de narrativa, a imprensa não informa: conspira. O Judiciário não investiga: persegue. A ciência não corrige: doutrina. A universidade não pesquisa: aparelha. A oposição não discorda: trai a pátria.


O resultado é uma comunidade política incapaz de lidar com fatos desconfortáveis. Tudo passa a ser absorvido pela lógica da guerra. E, numa guerra, o líder não pode ser questionado. Questionar vira traição.


É por isso que o caso Dark Horse é tão simbólico. O filme não seria apenas uma homenagem. Seria uma peça para consolidar a estética da perseguição. Bolsonaro como homem injustiçado. Bolsonaro como mártir. Bolsonaro como “azarão” que venceu as elites. Bolsonaro como salvador incompreendido.


Mas a realidade insiste em atrapalhar o roteiro.


Se o herói popular precisa de dinheiro milionário de banqueiro investigado, há algo errado na história. Se o antissistema depende do sistema financeiro, há algo falso na encenação. Se o mito precisa de produção cinematográfica para sobreviver, talvez o mito já esteja apodrecendo.



8. Ilusão, ressentimento e manipulação popular


A extrema direita bolsonarista trabalha com uma matéria-prima muito sensível: o ressentimento. Ela fala com pessoas reais, que vivem medos reais, dores reais e frustrações reais. O problema é que oferece respostas falsas.


Ao trabalhador precarizado, diz que o inimigo é o comunismo.


Ao pequeno empreendedor sufocado, diz que o problema é a universidade pública.


Ao religioso angustiado, diz que a fé está sob ataque permanente.


Ao cidadão inseguro, diz que direitos humanos protegem criminosos.


Ao eleitor cansado da corrupção, oferece uma família cercada de suspeitas como solução moral.


Essa é a grande fraude simbólica. O povo sofre por problemas estruturais, mas recebe inimigos imaginários ou seletivos. Em vez de discutir renda, tributação, serviços públicos, segurança baseada em inteligência, educação de qualidade e desenvolvimento nacional, a extrema direita oferece espetáculo moral.


É uma política de distração.


Um país desigual precisa de projeto. O bolsonarismo oferece mito.


Um país violento precisa de inteligência pública. O bolsonarismo oferece bravata.


Um país complexo precisa de instituições fortes. O bolsonarismo oferece líder providencial.


Um país democrático precisa de pluralidade. O bolsonarismo oferece culto.



9. O cinema como tentativa de reescrever a memória


Filmes políticos não são neutros. Nunca foram. O cinema pode documentar, criticar, emocionar, manipular, denunciar ou glorificar. No caso de Dark Horse, a questão não é negar o direito de produzir uma obra sobre Jair Bolsonaro. Esse direito existe. A questão é compreender a função política dessa obra em determinado contexto.


Se o filme é produzido para humanizar, heroificar e vitimizar Bolsonaro no momento em que sua família enfrenta desgaste político, então ele participa de uma disputa pela memória. Quer reorganizar o passado para influenciar o futuro.


Memória é poder.


Quem controla a narrativa sobre o passado controla parte das emoções disponíveis no presente. Por isso, regimes e movimentos autoritários sempre se preocuparam tanto com símbolos, monumentos, hinos, filmes, slogans e datas comemorativas. Eles sabem que a política não se sustenta apenas em argumentos. Sustenta-se em imagens.


Jacques Rancière lembra que a política também é disputa sobre o sensível: sobre o que pode ser visto, dito, sentido e reconhecido como legítimo (Rancière, 2009). Nesse sentido, Dark Horse não seria apenas um filme. Seria uma tentativa de organizar o sensível bolsonarista: quem é o herói, quem é o vilão, quem deve ser lembrado, quem deve ser odiado.


E isso tem consequências.



10. A direita diante de seu próprio veneno


O título do editorial do Estadão — “A direita diante de seu veneno” — é politicamente forte porque aponta para uma autointoxicação. Durante anos, parte da direita brasileira aceitou o bolsonarismo como instrumento útil contra o PT. Fez vista grossa para abusos, grosserias, ataques institucionais, teorias conspiratórias e degradação do debate público.


Agora, essa mesma direita percebe que o instrumento escapou do controle.


O bolsonarismo não apenas ocupou a direita. Ele a rebaixou. Transformou conservadorismo em gritaria. Liberalismo em oportunismo. Patriotismo em estética de rede social. Moralidade pública em seletividade tribal.


O caso Dark Horse aprofunda esse dilema. A direita brasileira precisa decidir se quer ser campo político ou torcida familiar. Se quer disputar projeto de país ou defender indefinidamente um clã. Se quer democracia constitucional ou messianismo eleitoral.


Não há maturidade política possível enquanto a direita democrática continuar orbitando o bolsonarismo como se fosse refém de seu próprio medo do lulismo. O antipetismo pode explicar alianças. Mas não pode justificar submissão moral.



11. O mito contra a democracia


Toda democracia saudável exige desconfiança crítica em relação ao poder. Nenhum líder deve ser tratado como salvador. Nenhuma família deve ser confundida com nação. Nenhum grupo político deve estar acima da crítica.


O mito salvador é antidemocrático porque infantiliza o povo. Ele diz: “não pense demais; confie no líder”. Ele substitui cidadania por devoção. Substitui fiscalização por fé. Substitui responsabilidade por obediência emocional.


Paulo Freire defendia que a educação libertadora passa pela consciência crítica, isto é, pela capacidade de ler o mundo, não apenas repetir palavras (Freire, 2019). Aplicado à política, isso significa que o cidadão precisa perguntar: quem ganha com essa narrativa? Quem financia essa imagem? Quem se beneficia da minha raiva? Quem lucra quando eu deixo de pensar e passo apenas a pertencer?


Essas perguntas são fundamentais.


Porque a extrema direita bolsonarista não quer apenas votos. Quer adesão subjetiva. Quer produzir um tipo de eleitor que não muda de opinião diante dos fatos, porque sua opinião já virou identidade. E identidade, quando se fecha sobre si mesma, torna-se impermeável à razão.



Conclusão — quando o mito precisa de banqueiro


O caso Dark Horse é uma síntese poderosa do bolsonarismo. Nele aparecem o clã familiar, o culto ao líder, o dinheiro privado, a tentativa de reescrever a memória, a estética da perseguição, a contradição antissistema e a fabricação do mito salvador.


A imagem é quase perfeita: um filho de Bolsonaro buscando milhões junto a um banqueiro investigado para financiar um filme sobre o pai. Não é apenas um episódio embaraçoso. É uma alegoria do próprio movimento. O bolsonarismo diz falar em nome do povo, mas circula entre elites. Diz combater o sistema, mas depende dele. Diz defender a verdade, mas investe em propaganda. Diz proteger a moral, mas relativiza escândalos quando envolvem os seus.


O mito salvador sempre cobra um preço. Cobra da razão pública. Cobra das instituições. Cobra da direita democrática. Cobra do povo, que passa a acreditar que seus problemas serão resolvidos não por políticas públicas, organização social, educação, trabalho, justiça fiscal e democracia, mas por um personagem providencial.


Essa é a ilusão mais perigosa.


O Brasil não precisa de um filme para canonizar líderes. Precisa de cidadãos capazes de pensar. Precisa de uma direita que não seja refém de uma família. Precisa de uma esquerda que também aceite crítica. Precisa de imprensa livre, Judiciário responsável, partidos programáticos, educação política e compromisso democrático.


O Dark Horse talvez pretendesse contar a história de um herói improvável. Mas, ao redor dele, revelou-se outra história: a de uma máquina política que tenta transformar ressentimento em fé, propaganda em memória e dinheiro privado em salvação popular.


No fim, a pergunta não é apenas quem financiaria o filme. A pergunta é mais profunda: quantas ilusões ainda serão vendidas ao povo brasileiro em nome de um mito que, para continuar parecendo popular, precisa ser produzido, financiado e roteirizado?


Essa é a questão. E ela não pode ser tratada como detalhe.



Referências


ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.


ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


BARTHES, Roland. Mitologias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.


CASSIRER, Ernst. O mito do Estado. São Paulo: Códex, 2003.


DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.


FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 68. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.


NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.


RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2009.


THE ASSOCIATED PRESS. Brazil presidential hopeful Flávio Bolsonaro denies wrongdoing after asking banker for millions. 2026. Disponível em: AP News. Acesso em: 17 maio 2026.


THE GUARDIAN. Tape shows Bolsonaro son asking jailed banker for $26.8m to fund film on father. 2026. Disponível em: The Guardian. Acesso em: 17 maio 2026.


VEJA. Flávio Bolsonaro confirma que pediu dinheiro a Vorcaro: “patrocínio privado para filme privado”. 2026. Disponível em: Veja. Acesso em: 17 maio 2026.

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