A matemática invisível do voto, a ilusão do candidato isolado e o poder das legendas no Brasil
Índice
- Introdução: a tese central
- Uma cena comum: o eleitor diante da urna
- Como funciona o sistema eleitoral brasileiro
- Sistema majoritário: quando vence o mais votado
- Sistema proporcional: quando o partido vem antes da pessoa
- Quociente eleitoral, quociente partidário e sobras
- Voto nominal, voto de legenda e federações partidárias
- O “bolão” do voto proporcional
- Carisma, marketing e programa político
- Neutralidade, descrença e desmobilização
- O mito do salvador
- O que há de correto e de exagerado na crítica dos anexos
- Conclusão crítica
- Referências
Lide
No Brasil, o eleitor costuma dizer que vota “na pessoa, não no partido”. A frase parece razoável, mas é tecnicamente incompleta. Nas eleições proporcionais — para deputado federal, deputado estadual, deputado distrital e vereador — o voto dado a um candidato também entra na conta do partido ou da federação. A cadeira não nasce apenas da votação individual; nasce de uma equação coletiva. A tese deste artigo é que a ignorância sobre essa matemática eleitoral transforma milhões de eleitores em participantes de um jogo político cujas regras eles não dominam.
1. Introdução: a tese central
Há frases que parecem inocentes, mas carregam uma visão inteira de mundo. Uma delas é repetida em toda eleição brasileira: “eu voto na pessoa, não no partido”.
Ela nasce de uma desconfiança legítima. O brasileiro aprendeu, muitas vezes pela dor, a desconfiar de partidos, promessas, alianças e discursos eleitorais. Viu políticos mudarem de lado, partidos defenderem uma coisa na campanha e outra no governo, candidatos se apresentarem como “novos” enquanto se apoiam em velhas estruturas. Então, como reação, muita gente passa a dizer: “partido não importa; o que importa é o candidato”.
O problema é que o sistema eleitoral brasileiro não funciona assim.
Nas eleições proporcionais, utilizadas para escolher deputados e vereadores, o voto em um candidato ajuda também o partido ou a federação partidária. A Câmara dos Deputados explica que o voto dado a determinado candidato contribui para os demais candidatos do mesmo partido. O Tribunal Superior Eleitoral também esclarece que deputados e vereadores são eleitos pelo sistema proporcional, enquanto presidente, governadores, senadores e prefeitos são escolhidos pelo sistema majoritário.
A tese deste artigo é direta: votar em uma pessoa sem compreender o partido é como comprar uma casa olhando apenas a fachada. Pode até parecer bonita, mas o que sustenta a construção está na estrutura. E, na política, essa estrutura se chama partido, federação, programa, financiamento, alianças e comportamento parlamentar.
2. Uma cena comum: o eleitor diante da urna
Imagine Dona Lúcia, trabalhadora, mãe de dois filhos, moradora de uma cidade média do interior. Durante a campanha, ela vê um candidato a deputado nas redes sociais. Ele fala bem, parece simples, diz que veio “do povo”, promete defender a saúde, a escola pública e o preço justo dos alimentos.
Dona Lúcia gosta. O candidato parece humano. Parece diferente. Parece confiável.
No dia da eleição, ela digita o número dele e confirma. Sai da seção eleitoral com a sensação de ter votado apenas naquela pessoa.
Mas a urna não registra apenas uma escolha individual. Nas eleições proporcionais, esse voto entra em uma contabilidade partidária. Se o candidato de Dona Lúcia não for eleito, o voto dela pode ajudar outro candidato do mesmo partido ou federação. E esse outro candidato pode defender pautas completamente diferentes daquelas que tocaram o coração dela.
É aí que nasce a contradição: o eleitor vota movido por uma narrativa pessoal, mas o sistema transforma o voto em força coletiva de legenda.
3. Como funciona o sistema eleitoral brasileiro
O Brasil usa dois grandes modelos de eleição: o majoritário e o proporcional.
O sistema majoritário é usado para presidente da República, governador, prefeito e senador. Em linhas gerais, vence quem recebe mais votos. Para presidente, governador e prefeito de municípios com mais de 200 mil eleitores, exige-se maioria absoluta dos votos válidos; se ninguém alcança esse patamar, há segundo turno. Para senador, vence quem obtém mais votos, sem segundo turno.
Já o sistema proporcional é usado para deputado federal, deputado estadual, deputado distrital e vereador. O objetivo desse sistema é distribuir as cadeiras conforme a força eleitoral dos partidos ou federações. O TSE afirma que o sistema proporcional é adotado para eleger membros do Poder Legislativo, como deputados federais, estaduais, distritais e vereadores.
Portanto, quando se vota para presidente, governador, prefeito ou senador, a lógica é mais direta: compara-se a votação dos candidatos. Quando se vota para deputado ou vereador, a lógica é outra: primeiro se observa a força do partido ou federação; depois se verifica quais candidatos ocuparão as cadeiras conquistadas.
Essa diferença é fundamental.
4. Sistema majoritário: quando vence o mais votado
No sistema majoritário, a eleição é centrada no candidato. Para presidente, governador e prefeito, o eleitor escolhe uma chapa. Para senador, escolhe uma candidatura ao Senado.
A lógica é simples: quem obtém mais votos vence, respeitadas as regras de maioria absoluta quando houver segundo turno.
Por isso, quando alguém vota para presidente, o voto vai diretamente para aquela candidatura. Não há cálculo de quociente eleitoral. Não há distribuição proporcional de cadeiras. Não há lista partidária definindo quem entra depois.
Mas esse raciocínio não pode ser aplicado automaticamente às eleições parlamentares proporcionais.
É justamente aí que muita gente se confunde.
5. Sistema proporcional: quando o partido vem antes da pessoa
Nas eleições proporcionais, o voto não é apenas uma escolha individual. Ele é parte de uma soma coletiva. A Câmara dos Deputados resume esse ponto com clareza: nem sempre o candidato bem votado tem vaga garantida; para isso, é necessário que o partido também tenha recebido votação suficiente.
O Brasil adota o sistema proporcional de lista aberta. Isso significa que o eleitor pode votar diretamente em um candidato. Porém, a quantidade de cadeiras que cada partido ou federação terá depende da votação total obtida pela legenda.
Jairo Nicolau, uma das principais referências brasileiras em sistemas eleitorais, explica que a lista aberta combina representação proporcional com competição individual entre candidatos. Isso cria um paradoxo: o sistema depende dos partidos, mas estimula o eleitor a olhar para indivíduos.
Esse paradoxo ajuda a explicar por que o brasileiro vota personalizando, mas elege proporcionalmente.
6. Quociente eleitoral: a primeira conta
A primeira conta importante é o quociente eleitoral.
Ele indica quantos votos são necessários para conquistar uma cadeira.
A fórmula é:
Quociente eleitoral = votos válidos ÷ número de cadeiras
Exemplo:
Uma eleição para vereador tem 100.000 votos válidos e 10 cadeiras em disputa.
100.000 ÷ 10 = 10.000.
Logo, o quociente eleitoral será de 10.000 votos.
Isso significa que, em princípio, cada grupo de 10.000 votos dá direito a uma cadeira.
O TRE-MG define o quociente eleitoral como o número mínimo de votos que partido ou federação deve obter para participar da distribuição de vagas para Câmara dos Deputados, Assembleias Legislativas, Câmara Legislativa do Distrito Federal e Câmaras Municipais.
Aqui já aparece uma questão decisiva: quem precisa alcançar esse número não é necessariamente o candidato sozinho, mas o partido ou a federação.
7. Quociente partidário: a segunda conta
Depois vem o quociente partidário.
A fórmula é:
Quociente partidário = votos do partido ou federação ÷ quociente eleitoral
Se o partido recebeu 30.000 votos e o quociente eleitoral é 10.000, ele conquista inicialmente 3 cadeiras.
30.000 ÷ 10.000 = 3.
Essas três cadeiras serão ocupadas pelos candidatos mais votados daquele partido ou federação, desde que cumpram as exigências legais de votação mínima individual.
É por isso que o voto em um candidato pode ajudar outro. O eleitor escolhe um nome, mas a conta soma todos os votos do partido.
A FGV explica que, na eleição para deputados, as cadeiras são distribuídas entre os partidos de forma proporcional ao apoio recebido nas urnas; se um partido recebe cerca de 15% dos votos, tende a eleger aproximadamente 15% das cadeiras em disputa naquele estado.
8. As sobras eleitorais
Nem sempre a primeira distribuição preenche todas as vagas. Quando restam cadeiras, ocorre a distribuição das chamadas sobras eleitorais.
As sobras são calculadas por médias, conforme regras previstas na legislação eleitoral. O objetivo é distribuir as vagas restantes entre partidos ou federações que ainda tenham desempenho suficiente para participar da etapa seguinte.
Esse ponto é mais técnico, mas é importante porque mostra que a eleição proporcional não termina no simples “quem teve mais votos”. Ela envolve etapas sucessivas:
Primeiro, contam-se os votos válidos.
Depois, calcula-se o quociente eleitoral.
Depois, calcula-se o quociente partidário.
Depois, distribuem-se as cadeiras iniciais.
Depois, calculam-se as sobras.
Por fim, verificam-se os candidatos mais votados dentro de cada partido ou federação.
É uma engenharia institucional. E, como toda engenharia, produz efeitos concretos.
9. Voto nominal, voto de legenda e federações partidárias
Nas eleições proporcionais, o eleitor pode votar nominalmente em um candidato ou votar apenas na legenda.
O voto nominal é aquele em que se digita o número completo do candidato. Ele conta para o candidato e também para o partido ou federação.
O voto de legenda é aquele em que se digita apenas o número do partido. Ele não vai para um candidato específico, mas entra na soma da legenda.
Desde o fim das coligações proporcionais, o voto não se espalha mais por coligações eleitorais ocasionais como antes. A Emenda Constitucional nº 97/2017 vedou coligações nas eleições proporcionais e estabeleceu regras de desempenho para os partidos.
Além disso, surgiram as federações partidárias, que funcionam como união mais estável entre partidos. Diferentemente das antigas coligações proporcionais, as federações exigem atuação conjunta por período mais longo, o que pretende dar maior coerência programática à associação entre legendas.
Mesmo assim, a questão central permanece: o eleitor não vota em uma pessoa isolada. Vota em uma pessoa situada em uma estrutura coletiva.
10. O “bolão indesejado”
Os anexos usam uma expressão provocativa: “bolão indesejado”.
A imagem é forte. E funciona.
Quando alguém vota em um candidato de um partido, esse voto entra no total da legenda. Se o candidato escolhido não for eleito, ainda assim o voto pode ajudar outro candidato do mesmo partido ou federação.
Isso não é fraude. Não é erro da urna. Não é manipulação secreta. É a regra do sistema proporcional.
O problema é outro: a regra é pouco compreendida.
O eleitor pensa estar fazendo uma aposta individual. Mas, na prática, entra em uma aposta coletiva. Ele compra uma carta, mas o jogo é de baralho inteiro.
Por isso, escolher uma “pessoa boa” dentro de uma legenda com projeto político contrário ao que o eleitor defende pode produzir um resultado oposto ao desejado.
A pergunta correta não é apenas: “esse candidato é simpático?”
A pergunta correta é: “esse candidato fortalece qual partido, qual bancada e qual projeto de sociedade?”
11. Os puxadores de voto
O sistema proporcional brasileiro também produziu o fenômeno dos puxadores de voto.
Um candidato muito votado pode ajudar a eleger outros candidatos do mesmo partido. O Senado já explicou esse fenômeno usando o exemplo de Enéas Carneiro, que, em 2002, recebeu votação expressiva para deputado federal e ajudou a eleger outros candidatos de seu partido.
Esse tipo de fenômeno mostra como o voto individual pode gerar efeitos coletivos inesperados.
O puxador de votos funciona como locomotiva. Ele recebe uma votação enorme e aumenta a quantidade de cadeiras do partido. Depois, os candidatos mais votados dentro da legenda ocupam essas vagas.
Do ponto de vista técnico, isso é coerente com a representação proporcional.
Do ponto de vista político, pode causar estranhamento. Afinal, candidatos com menos votos individuais podem ser eleitos, enquanto candidatos de outros partidos, com votação maior, podem ficar de fora.
Esse aparente paradoxo não é defeito operacional. É consequência lógica do sistema.
12. “95% só foram eleitos por causa do partido”: cuidado com a frase
Uma das imagens afirma que 95% dos parlamentares só foram eleitos porque o partido somou votos de milhares de pessoas.
A ideia geral está correta: a maioria dos deputados não alcança sozinha o quociente eleitoral. Portanto, depende da votação coletiva do partido ou da federação.
Mas a frase precisa de precisão técnica.
Não se deve dizer simplesmente que “o partido elegeu sozinho” ou que “o candidato não teve importância”. O candidato importa. A votação nominal define a posição dele dentro da lista aberta. O ponto é outro: a eleição dele depende da combinação entre votação individual e votação coletiva da legenda.
Assim, a formulação mais correta seria:
Nas eleições proporcionais brasileiras, a maioria dos candidatos eleitos não alcança individualmente o quociente eleitoral; sua eleição depende da votação total obtida pelo partido ou federação, somada à sua posição entre os mais votados da legenda.
Essa distinção é importante porque uma crítica forte não precisa ser imprecisa. Pelo contrário: quanto mais rigorosa, mais contundente.
13. Carisma não é programa
Outra frase dos anexos merece destaque: “O carisma não baixa o preço do feijão”.
Essa frase é politicamente poderosa porque desloca o debate da aparência para a estrutura.
O candidato pode ser simpático. Pode falar bonito. Pode sorrir bem. Pode gravar vídeos emocionantes. Pode parecer humilde. Mas nada disso responde às perguntas centrais:
Qual política econômica ele defende?
Como seu partido vota em temas trabalhistas?
Qual sua posição sobre saúde, educação, orçamento público e tributação?
Quem financia sua campanha?
Com quem ele se alia depois da eleição?
Que bancada ele ajuda a fortalecer?
A política contemporânea transformou candidatos em marcas. O eleitor é tratado como consumidor. A campanha vende imagem, emoção, pertencimento e identidade. Mas mandato não é produto de supermercado.
Mandato é poder de votar leis, fiscalizar orçamento, aprovar reformas, sustentar governos e bloquear políticas públicas.
Por isso, carisma sem programa é embalagem sem conteúdo.
14. Quem pagou a festa quer dançar
Campanha eleitoral custa dinheiro.
Mesmo com as restrições ao financiamento empresarial direto, o poder econômico continua presente na política por meio de fundos públicos, doações individuais, estrutura partidária, redes de apoio, marketing digital e capital simbólico.
O TSE define o Fundo Especial de Financiamento de Campanha como fundo público destinado ao financiamento das campanhas eleitorais. A distribuição desses recursos dentro dos partidos é uma decisão politicamente relevante, porque influencia quem aparece mais, quem consegue viajar mais, quem produz melhor comunicação e quem chega ao eleitor.
Aqui, a frase “quem pagou a festa quer dançar” ganha sentido.
Não significa que todo financiamento determine automaticamente o comportamento do eleito. Mas significa que campanhas não acontecem no vazio. Há interesses, redes, alianças e compromissos.
Um eleitor consciente precisa olhar além do vídeo bonito. Precisa perguntar: quem está por trás? Quem apoia? Quem se beneficia? Quem será ouvido depois da posse?
15. A mentira da neutralidade
Os anexos criticam o discurso do “nem esquerda, nem direita”.
Essa crítica deve ser tratada com cuidado. Nem todo eleitor que rejeita rótulos políticos está agindo de má-fé. Muitas vezes, ele apenas está cansado da polarização. O problema é quando a neutralidade vira fuga da análise concreta.
Decisões econômicas têm lado.
Reduzir investimento público tem efeito.
Privatizar tem efeito.
Ampliar gasto social tem efeito.
Mudar regra trabalhista tem efeito.
Alterar política tributária tem efeito.
Cortar orçamento da educação tem efeito.
Subsidiar determinados setores tem efeito.
Norberto Bobbio argumenta que a distinção entre esquerda e direita permanece relevante porque expressa diferentes atitudes diante da igualdade e da desigualdade social.
Portanto, dizer “não tenho lado” não elimina os lados existentes na realidade. Apenas pode impedir que o eleitor perceba qual lado está sendo beneficiado.
A neutralidade absoluta, em política, quase sempre é uma ficção confortável.
16. A descrença como desmobilização
“A descrença é a meta”, dizem os anexos.
A frase é dura. Mas há nela um ponto importante.
Quando a população passa a acreditar que “todo mundo é igual”, “política não presta” e “não adianta votar”, quem ganha espaço são os grupos mais organizados. As elites econômicas, religiosas, midiáticas e partidárias não deixam de atuar porque o cidadão comum desistiu. Pelo contrário: atuam com mais liberdade.
A desmobilização popular não esvazia a política. Ela apenas muda quem ocupa o espaço.
Paulo Freire defendia que a consciência crítica é condição para que os sujeitos compreendam a realidade e atuem sobre ela. Sem consciência, o povo não deixa de sofrer os efeitos da política; apenas deixa de disputar seus rumos.
Desistir da política pode parecer um gesto de protesto. Mas, muitas vezes, é uma entrega silenciosa.
17. O mito do salvador
O Brasil tem longa tradição de personalismo político.
Em diferentes momentos históricos, depositou esperanças em líderes fortes, figuras carismáticas, “homens providenciais”, outsiders, gestores técnicos ou messias morais.
O problema do mito do salvador é que ele infantiliza a democracia. Faz o povo esperar por alguém que resolva tudo de cima, quando a transformação real exige organização coletiva, instituições sólidas e participação permanente.
Max Weber descreveu a dominação carismática como forma de autoridade fundada na crença nas qualidades extraordinárias de um líder. O carisma mobiliza, mas também pode obscurecer o julgamento.
No sistema proporcional, o mito do salvador é ainda mais perigoso. Um candidato carismático pode não apenas se eleger, mas ajudar a eleger outros nomes de sua legenda. Assim, o eleitor que pensava votar em uma figura excepcional pode estar fortalecendo uma bancada inteira.
18. Programa versus biografia
A biografia importa. Honestidade importa. Competência importa. História de vida importa.
Mas nada disso substitui programa.
Um candidato pode ter uma história bonita e defender políticas ruins. Pode ser pessoalmente simpático e integrar uma bancada prejudicial ao trabalhador. Pode falar em povo e votar com interesses econômicos concentrados. Pode se apresentar como independente e seguir orientação partidária em votações decisivas.
Por isso, a pergunta fundamental é:
Esse candidato pertence a qual projeto?
Não basta olhar o rosto. É preciso olhar o bloco político.
Não basta ouvir o discurso. É preciso verificar voto, programa, partido, alianças e financiamento.
19. O papel dos partidos
Muitos brasileiros odeiam partidos. Mas a democracia representativa moderna depende deles.
Partidos organizam disputas, agregam interesses, formam bancadas, apresentam programas, estruturam governos e dão alguma inteligibilidade à competição política.
O problema brasileiro não é simplesmente haver partidos. O problema é haver partidos frágeis, fisiológicos, pouco programáticos e excessivamente dependentes de lideranças pessoais.
Quando partidos não têm identidade clara, o eleitor se agarra ao candidato. Quando o eleitor se agarra apenas ao candidato, o partido continua operando nos bastidores. Essa é a armadilha.
A solução não é fingir que partido não existe. É exigir partidos mais transparentes, programáticos e responsáveis diante da sociedade.
20. O que há de correto nos anexos
Os anexos acertam em pontos importantes.
Acertam ao dizer que o voto proporcional não é puramente individual.
Acertam ao afirmar que o partido importa.
Acertam ao criticar o personalismo eleitoral.
Acertam ao denunciar o uso do carisma como substituto do programa.
Acertam ao lembrar que descrença política favorece quem já tem poder organizado.
Acertam ao dizer que o eleitor precisa sair da posição de espectador e recuperar agência política.
Esses pontos têm sólida sustentação na ciência política e na legislação eleitoral.
21. O que precisa ser ajustado
Mas também é preciso corrigir alguns exageros.
Primeiro: o sistema proporcional não é uma fraude contra o eleitor. É uma regra pública, prevista em lei, adotada para tentar representar proporcionalmente diferentes forças políticas.
Segundo: não é exato dizer que “o voto não é do candidato”. O voto nominal conta para o candidato, sim. Mas também conta para o partido ou federação.
Terceiro: não se deve afirmar que todo discurso de neutralidade é necessariamente manipulação. Muitas vezes, é desinformação, cansaço ou rejeição à polarização. Ainda assim, a neutralidade pode favorecer a manutenção do poder existente.
Quarto: a crítica ao sistema precisa distinguir problema técnico, problema político e problema cultural.
O problema técnico está na complexidade do sistema.
O problema político está na fragilidade programática de muitos partidos.
O problema cultural está no personalismo do eleitorado e no baixo investimento em educação política.
22. Como votar com mais consciência
Votar com consciência exige mais trabalho.
É preciso pesquisar o candidato, mas também o partido.
É preciso verificar:
- programa partidário;
- federação;
- histórico de votações;
- financiamento;
- alianças;
- atuação parlamentar anterior;
- coerência entre discurso e prática.
Também é necessário acompanhar o eleito depois da eleição. Democracia não termina no botão “confirma”. O voto é apenas uma autorização inicial. A cidadania continua na fiscalização do mandato.
Quem vota e desaparece entrega cheque em branco.
Conclusão crítica
A frase “eu voto na pessoa, não no partido” é compreensível, mas perigosa. Ela traduz a frustração de uma sociedade cansada de partidos frágeis, alianças contraditórias e promessas quebradas. Mas, ao mesmo tempo, revela desconhecimento sobre o funcionamento real do sistema eleitoral brasileiro.
Nas eleições proporcionais, o voto é individual na aparência e coletivo na consequência. O eleitor escolhe um nome, mas fortalece uma legenda. Digita o número de uma pessoa, mas participa da construção de uma bancada. Acredita estar premiando uma biografia, mas ajuda a viabilizar um projeto político.
Essa é a matemática invisível da democracia brasileira.
O problema não está apenas na fórmula eleitoral. Está na distância entre a regra e a consciência popular. Está no marketing que vende candidatos como produtos. Está na mídia que transforma eleição em espetáculo. Está nos partidos que escondem seus programas. Está na escola que pouco ensina sobre política. Está no cidadão que, cansado, prefere acreditar em salvadores.
Mas democracia não combina com ingenuidade.
Votar bem exige compreender o sistema, desconfiar da embalagem, investigar o partido, examinar o programa e acompanhar o mandato. Exige sair da posição de espectador e assumir a condição de cidadão.
Porque, no fim, votar na pessoa e ignorar o partido é entrar em um jogo de cartas olhando apenas uma carta da mesa. O problema é que a política nunca é jogada com uma carta só. Ela é jogada com o baralho inteiro.
Referências
BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Editora Unesp, 1995.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965. Institui o Código Eleitoral. Brasília, DF: Presidência da República, 1965.
BRASIL. Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997. Estabelece normas para as eleições. Brasília, DF: Presidência da República, 1997.
BRASIL. Emenda Constitucional nº 97, de 4 de outubro de 2017. Altera a Constituição Federal para vedar coligações nas eleições proporcionais e estabelecer normas sobre acesso dos partidos políticos ao fundo partidário e ao tempo de propaganda. Brasília, DF: Presidência da República, 2017.
CÂMARA DOS DEPUTADOS. Deputados são eleitos pelo voto proporcional; entenda a lógica desse sistema. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2022.
DUVERGER, Maurice. Os partidos políticos. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
MAINWARING, Scott. Sistemas partidários em novas democracias: o caso do Brasil. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2001.
NICOLAU, Jairo. Sistemas eleitorais. Rio de Janeiro: FGV, 2012.
NICOLAU, Jairo. Representantes de quem? Os (des)caminhos do seu voto da urna à Câmara dos Deputados. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.
NICOLAU, Jairo. O sistema eleitoral de lista aberta no Brasil. Dados: Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 49, n. 4, p. 689-720, 2006.
SAMUELS, David. Money, elections, and democracy in Brazil. Latin American Politics and Society, Miami, v. 43, n. 2, p. 27-48, 2001.
SPECK, Bruno Wilhelm. Financiamento de campanhas e sistema político no Brasil. Curitiba: UFPR, 2016.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Como funciona o sistema proporcional? Brasília, DF: TSE.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Sistemas eleitorais brasileiros. Brasília, DF: TSE.
TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DE MINAS GERAIS. Sistema proporcional de votação. Belo Horizonte: TRE-MG.
WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1999.
Nenhum comentário:
Postar um comentário