Trumpismo, bolsonarismo e a urgência de renovar a democracia antes que o ressentimento vire autoritarismo
Índice
- Introdução: a democracia entre a promessa e a frustração
- Uma história comum: quando a democracia chega — ou não chega — à mesa do trabalhador
- A tese central: democracia não é apenas votar, é viver sem medo do poder
- A crise contemporânea da democracia liberal
4.1 Crise econômica da vida cotidiana
4.2 Crise de representação política
4.3 Crise informacional e desinformação organizada
4.4 Crise institucional e ataque aos freios democráticos
4.5 Crise moral da política - Trumpismo: a captura do ressentimento norte-americano
- Bolsonarismo: a versão brasileira da política do inimigo
- O que une Trump e Bolsonaro: ressentimento, antipolítica e culto ao líder
- Para que serve a democracia na vida concreta do cidadão comum?
- Como renovar a democracia antes que ela seja capturada por projetos autoritários
- Conclusão: a democracia precisa voltar a ser sentida pelo povo
- Referências
Lide
A crise democrática contemporânea não nasce apenas da existência de líderes autoritários. Ela nasce antes: no salário que não alcança o fim do mês, na escola pública abandonada, na saúde que demora, na violência cotidiana, na desinformação que confunde, na política que parece distante e na sensação de que o cidadão comum vota, mas não governa nada. Trumpismo nos Estados Unidos e bolsonarismo no Brasil são expressões diferentes de um mesmo fenômeno: a captura do ressentimento popular por projetos políticos que transformam angústia social em guerra cultural, adversários em inimigos e instituições democráticas em obstáculos a serem destruídos. A pergunta decisiva, portanto, não é apenas por que a extrema direita cresce, mas por que tantos cidadãos deixaram de sentir a democracia como proteção, dignidade e pertencimento. Renovar a democracia exige devolvê-la à vida concreta do povo.
1. Introdução: a democracia entre a promessa e a frustração
A democracia vive um paradoxo histórico. Nunca se falou tanto em direitos, participação, transparência, cidadania e liberdade; ao mesmo tempo, nunca tantos cidadãos pareceram tão desconfiados das instituições democráticas. O voto continua existindo, os parlamentos continuam funcionando, os tribunais continuam julgando, os jornais continuam publicando, as eleições continuam sendo realizadas. Mas uma pergunta incômoda atravessa as ruas, os grupos de WhatsApp, as filas dos hospitais, os ônibus lotados, os supermercados e os lares endividados: para que serve a democracia na vida concreta do cidadão comum?
Essa pergunta é perigosa porque, quando fica sem resposta, abre espaço para respostas autoritárias. Quando a democracia parece incapaz de proteger a vida cotidiana, surgem líderes prometendo ordem, vingança e salvação. Eles não aparecem como inimigos da democracia. Pelo contrário: dizem falar em nome do “povo verdadeiro” contra elites, tribunais, imprensa, universidades, partidos, movimentos sociais e qualquer instituição que limite sua vontade. Essa é uma das marcas centrais do populismo autoritário contemporâneo.
Nos Estados Unidos, o trumpismo cresceu sobre uma base de frustração econômica, perda de status social, ressentimento racial, medo migratório, desindustrialização e desconfiança em relação a Washington. No Brasil, o bolsonarismo se alimentou de insegurança pública, antipetismo, crise econômica, moralismo religioso, descrédito da política tradicional, medo da corrupção e rejeição às instituições de mediação democrática. Em ambos os casos, a angústia social foi convertida em linguagem de guerra.
A tese deste artigo é direta: a democracia só será renovada se voltar a ser percebida pelo cidadão comum como experiência concreta de dignidade, proteção, justiça e voz pública. Democracia que se reduz à urna, mas não chega ao prato, ao salário, à escola, à saúde, à segurança e à verdade pública, torna-se vulnerável ao autoritarismo. O problema não é apenas Trump ou Bolsonaro. Eles são sintomas e aceleradores de uma crise maior: a incapacidade das democracias contemporâneas de responder, com eficácia e sensibilidade, às dores reais de suas populações.
2. Uma história comum: quando a democracia chega — ou não chega — à mesa do trabalhador
Imagine um trabalhador chamado Antônio. Ele acorda às cinco da manhã, pega dois ônibus, trabalha o dia inteiro, volta para casa cansado e ainda precisa escolher quais contas vai pagar. No supermercado, percebe que o dinheiro compra cada vez menos. A escola do filho tem professor dedicado, mas falta estrutura. A unidade de saúde atende, mas demora. A rua tem iluminação ruim. A internet mostra, todos os dias, políticos brigando, juízes sendo atacados, influenciadores gritando, notícias falsas circulando e pessoas dizendo que “nada presta”.
Antônio vota desde os 18 anos. Já acreditou em partidos, já se decepcionou com partidos. Já ouviu promessas sobre emprego, segurança, saúde, educação e moralização da política. Mas, quando olha para a própria vida, sente que continua sozinho. Então aparece alguém dizendo: “O problema não é complexo. O problema são eles. A culpa é da esquerda, da direita, dos comunistas, dos globalistas, dos imigrantes, dos professores, dos artistas, do Supremo, da imprensa, das universidades, dos corruptos, dos vagabundos, dos inimigos da pátria”.
Essa fala seduz porque simplifica a dor. A vida de Antônio é complexa, mas o autoritarismo oferece uma explicação simples. A democracia exige paciência, mediação, diálogo, instituições, negociação, políticas públicas e tempo. O autoritarismo oferece inimigos. E, quando alguém sofre, a promessa de vingança pode parecer mais imediata do que a promessa de reforma institucional.
É exatamente nesse ponto que a democracia precisa ser defendida de modo concreto. Não basta dizer a Antônio que a democracia é bonita, nobre ou civilizada. É preciso mostrar que ela serve para que ele não dependa do favor de um poderoso; para que tenha direitos; para que possa criticar o governo; para que possa trocar governantes sem violência; para que a lei proteja os fracos contra os fortes; para que seu filho tenha escola; para que sua família tenha atendimento de saúde; para que o Estado não vire propriedade de um grupo armado, religioso, econômico ou familiar.
A democracia começa a morrer quando o cidadão comum deixa de senti-la como escudo e passa a vê-la como teatro.
3. A tese central: democracia não é apenas votar, é viver sem medo do poder
A democracia não pode ser reduzida ao ato de votar. Eleições são fundamentais, mas não bastam. Regimes autoritários também podem realizar eleições controladas, manipuladas ou formalmente competitivas. A democracia, em sentido mais profundo, é um modo de organizar o poder para que ninguém esteja acima da lei e para que a vida coletiva não dependa da vontade pessoal de um governante.
Como ensinou Bobbio (1986), a democracia moderna deve ser compreendida como um conjunto de regras que permite a tomada coletiva de decisões com participação ampla e limites institucionais. Dahl (2001), ao discutir a poliarquia, mostrou que a democracia exige competição política, participação inclusiva, liberdade de expressão, fontes alternativas de informação e autonomia associativa. Em outras palavras, democracia é tanto o direito de escolher governantes quanto o direito de controlá-los.
Na vida concreta, isso significa que o cidadão comum não precisa se ajoelhar diante do poder para existir. Ele pode procurar a Justiça, organizar-se em sindicato, participar de associação, criticar o prefeito, denunciar corrupção, frequentar uma igreja sem perseguição, estudar em uma universidade livre, votar contra o governo e exigir políticas públicas. Democracia é o regime em que o governante deve explicações ao povo, e não o povo ao governante.
Por isso, a democracia serve para impedir que o Estado seja sequestrado por uma pessoa, uma família, uma facção, uma oligarquia, uma igreja, uma empresa ou uma ideologia. Serve para limitar o poder. Serve para distribuir voz. Serve para proteger minorias. Serve para garantir que a maioria governe, mas sem esmagar direitos fundamentais. Serve para permitir conflito político sem guerra civil.
Quando essa função se enfraquece, o ressentimento popular vira combustível para projetos autoritários. O cidadão passa a pensar: “Se a democracia não resolve, talvez seja preciso alguém forte”. Essa é a porta de entrada da barbárie política.
4. A crise contemporânea da democracia liberal
A crise democrática atual é ampla porque não se limita a um país, um partido ou uma liderança. Ela atravessa Estados Unidos, Brasil, França, Reino Unido, Itália, Hungria, Polônia, Argentina, Alemanha e diversas outras democracias ocidentais. Cada país possui sua história, mas há sintomas comuns: insatisfação popular, polarização extrema, erosão da confiança institucional, desinformação, desigualdade, ataques à imprensa, descrédito dos partidos e crescimento de lideranças antissistema.
Relatórios internacionais recentes têm apontado esse desgaste. O V-Dem descreve um processo global de autocratização, com deterioração de liberdades e enfraquecimento de mecanismos democráticos em diferentes regiões (V-Dem, 2025). A Freedom House registra declínio persistente da liberdade global e alerta para líderes eleitos que tentam superar freios institucionais em nome de seus objetivos políticos (Freedom House, 2025). O International IDEA também destaca que, em muitos países, retrocessos democráticos têm superado avanços, especialmente nos campos da representação, dos direitos e do Estado de Direito (International IDEA, 2024).
Essa crise possui pelo menos cinco dimensões.
4.1 Crise econômica da vida cotidiana
A democracia perde legitimidade quando a vida material se deteriora. O cidadão pode até valorizar a liberdade de expressão, mas, se o salário não paga a comida, a democracia começa a parecer abstrata. Inflação, desemprego, informalidade, endividamento, precarização do trabalho, moradia cara e desigualdade produzem uma sensação de abandono.
Nos Estados Unidos, essa crise aparece no custo de vida, na perda de segurança econômica da classe média, na desindustrialização de regiões inteiras e na percepção de que as elites financeiras e tecnológicas se beneficiaram mais da globalização do que o trabalhador comum. No Brasil, aparece na desigualdade histórica, no preço dos alimentos, na violência urbana, no transporte precário, na informalidade e na dificuldade de acesso a serviços públicos de qualidade.
A economia, nesse sentido, não é apenas um tema técnico. É uma experiência moral. Quando alguém trabalha muito e continua sem dignidade, nasce a sensação de injustiça. E a injustiça prolongada gera ressentimento.
4.2 Crise de representação política
Muitos cidadãos sentem que votam, mas não são ouvidos. Os partidos parecem distantes. O parlamento parece funcionar para interesses próprios. A política profissional parece falar uma língua incompreensível. A propaganda eleitoral promete proximidade, mas o cotidiano institucional entrega distância.
Essa crise é grave porque a democracia representativa depende de mediação. Partidos, sindicatos, movimentos sociais, associações, imprensa e parlamentos são pontes entre sociedade e Estado. Quando essas pontes se quebram, surgem lideranças que dizem falar diretamente em nome do povo, sem mediações. Essa promessa parece democrática, mas costuma ser perigosa. O líder que diz “eu sou o povo” tende a tratar qualquer oposição como inimiga do povo.
Foi assim com Trump ao atacar sistematicamente instituições norte-americanas, jornalistas, adversários e até resultados eleitorais. Foi assim com Bolsonaro ao atacar o Supremo Tribunal Federal, o sistema eleitoral, universidades, imprensa e opositores políticos. Nos dois casos, a representação institucional foi substituída pela ideia de identificação emocional direta entre líder e massa.
4.3 Crise informacional e desinformação organizada
A democracia depende de um mínimo comum de realidade. É possível discordar sobre soluções, mas é preciso compartilhar alguns fatos básicos. Quando a sociedade perde esse chão comum, a política vira delírio organizado.
As redes sociais ampliaram a liberdade de expressão, mas também criaram ambientes de manipulação algorítmica, bolhas ideológicas, teorias conspiratórias e radicalização afetiva. A mentira deixou de ser apenas erro ou boato; tornou-se método político. A desinformação organizada opera como indústria: produz dúvida, ataca adversários, distorce fatos, fabrica medo e mantém a militância em estado permanente de mobilização emocional.
Trumpismo e bolsonarismo usaram intensamente essa dinâmica. A suspeita permanente contra eleições, imprensa, ciência, universidades e tribunais não é acidental. Ela serve para deslocar a confiança do cidadão das instituições para o líder. Quando tudo é mentira, só resta acreditar em quem grita mais alto dentro da própria bolha.
4.4 Crise institucional e ataque aos freios democráticos
A democracia constitucional foi construída sobre a ideia de limites. Executivo, Legislativo e Judiciário devem se controlar reciprocamente. A imprensa deve fiscalizar. A sociedade civil deve participar. Órgãos eleitorais devem garantir regras. Universidades devem produzir conhecimento crítico. O Ministério Público, tribunais de contas e demais instituições devem impedir abusos.
O populismo autoritário considera esses limites obstáculos. Para esse tipo de liderança, qualquer instituição que contrarie o líder é acusada de traição, perseguição ou conspiração. Assim, a crítica legítima às instituições se transforma em campanha de destruição da confiança pública.
O problema não é criticar o Supremo, o Congresso, a imprensa ou qualquer órgão público. Em democracia, toda instituição deve ser criticável. O problema é negar sua legitimidade para abrir espaço ao poder sem controle. Quando o líder convence seus seguidores de que apenas ele representa a nação, qualquer freio institucional passa a ser visto como inimigo.
4.5 Crise moral da política
Há também uma crise ética. A mentira foi normalizada. A brutalidade verbal virou estilo. A humilhação do adversário virou entretenimento. A compaixão passou a ser ridicularizada como fraqueza. A ciência passou a ser tratada como opinião. A violência simbólica tornou-se instrumento de fidelização política.
Essa crise moral é talvez a mais profunda. Porque a democracia não depende apenas de regras; depende de costumes, valores e disposições morais. Montesquieu já compreendia que regimes políticos precisam de princípios que os sustentem. A democracia precisa de virtude cívica, respeito ao dissenso, autocontenção institucional e reconhecimento da legitimidade do adversário.
Quando o adversário vira inimigo absoluto, a democracia adoece.
5. Trumpismo: a captura do ressentimento norte-americano
O trumpismo não pode ser entendido apenas como apoio eleitoral a Donald Trump. Ele é um fenômeno político, cultural e afetivo. Mistura nacionalismo, ressentimento social, medo da perda de status, rejeição às elites liberais, hostilidade à imprensa, desconfiança institucional, conservadorismo moral e culto personalista à liderança.
A frase “Make America Great Again” é politicamente poderosa porque fala de perda. Ela sugere que houve uma grandeza roubada e que alguém precisa recuperá-la. Mas recuperá-la de quem? Dos imigrantes? Dos democratas? Da China? Dos globalistas? Da imprensa? Das universidades? Do “Estado profundo”? A força do slogan está justamente em permitir múltiplos inimigos.
O trumpismo transforma problemas estruturais em ressentimento direcionado. A desindustrialização, por exemplo, é um fenômeno complexo, ligado à globalização, automação, financeirização e mudanças produtivas. Mas a narrativa trumpista simplifica: alguém traiu o povo americano. A imigração, por sua vez, é fenômeno histórico, econômico e humanitário; mas, no discurso autoritário, vira ameaça existencial.
O ápice institucional dessa lógica apareceu em 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Trump invadiram o Capitólio após a contestação infundada do resultado eleitoral. A cena foi simbólica: a democracia mais influente do Ocidente viu sua sede legislativa atacada por uma multidão convencida de que a eleição havia sido roubada.
Esse é o ponto essencial: quando o líder mina sistematicamente a confiança nas regras do jogo, uma parte da sociedade deixa de aceitar a derrota como parte da democracia. A derrota passa a ser vista como fraude. O adversário passa a ser usurpador. A violência passa a ser justificada como “resistência”.
O trumpismo, portanto, revela a fragilidade de uma democracia quando milhões de cidadãos deixam de confiar nas instituições e passam a confiar apenas na palavra do líder.
6. Bolsonarismo: a versão brasileira da política do inimigo
O bolsonarismo é diferente do trumpismo porque nasce em outro contexto histórico, social e institucional. O Brasil tem desigualdade mais profunda, herança escravocrata, violência estatal persistente, instabilidade institucional recorrente, memória autoritária da ditadura militar e uma cultura política marcada por personalismo, patrimonialismo e antipolítica.
Mesmo assim, há semelhanças evidentes. O bolsonarismo também capturou ressentimentos. Capturou o medo da violência urbana, a revolta contra a corrupção, o antipetismo, a insegurança econômica, o moralismo religioso, o ressentimento contra universidades e movimentos sociais, a desconfiança em relação à imprensa e a nostalgia autoritária de setores que idealizam a ditadura.
Bolsonaro apresentou-se como homem simples, “contra tudo isso que está aí”, embora tenha sido parlamentar por quase três décadas. Sua força política não veio de um programa sofisticado de governo, mas de uma gramática emocional: inimigos claros, linguagem direta, agressividade, humor ofensivo, desprezo pelo politicamente correto e promessa de restauração moral.
O bolsonarismo organizou sua identidade em torno da guerra cultural. O adversário não era apenas alguém com outro projeto político; era comunista, corrupto, inimigo da família, inimigo de Deus, inimigo da pátria. Esse mecanismo é poderoso porque produz pertencimento. Quem adere ao movimento sente que faz parte de uma cruzada moral.
O 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores bolsonaristas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília, foi o equivalente brasileiro da recusa em aceitar a derrota democrática. A violência não surgiu do nada. Ela foi precedida por anos de ataques às urnas eletrônicas, ao Supremo Tribunal Federal, à imprensa e à legitimidade do processo eleitoral.
Assim como no trumpismo, a lógica era clara: se o líder perde, a eleição só pode ter sido fraudada; se as instituições confirmam a derrota, as instituições são inimigas; se a lei impede o retorno do líder, a lei deve ser desmoralizada. Esse é o roteiro clássico da erosão democrática contemporânea.
7. O que une Trump e Bolsonaro: ressentimento, antipolítica e culto ao líder
Trumpismo e bolsonarismo não são idênticos, mas compartilham uma arquitetura política semelhante.
Primeiro, ambos transformam ressentimento em identidade. O apoiador não apenas vota; ele pertence a um grupo que se vê como perseguido, moralmente superior e historicamente injustiçado.
Segundo, ambos constroem inimigos permanentes. A política deixa de ser disputa de projetos e vira batalha entre o bem e o mal. Isso simplifica o mundo e mobiliza emoções fortes.
Terceiro, ambos atacam instituições intermediárias. Imprensa, universidades, tribunais, órgãos eleitorais, ciência e partidos são apresentados como parte de um sistema corrupto.
Quarto, ambos personalizam a política. O líder vira símbolo absoluto. Criticar o líder passa a ser interpretado como atacar o povo, a pátria, a família ou Deus.
Quinto, ambos usam intensamente ecossistemas digitais. A militância conectada funciona como máquina de guerra informacional, produzindo indignação contínua.
Sexto, ambos tensionam os limites da democracia por dentro. Não chegam ao poder por golpe clássico, mas por eleições. Uma vez dentro do sistema, passam a corroer as regras que permitiram sua ascensão.
Essa é a grande novidade do autoritarismo contemporâneo: ele não precisa começar fechando o Congresso. Muitas vezes começa desacreditando a imprensa, atacando tribunais, desmoralizando eleições, perseguindo adversários, normalizando mentiras e convencendo a população de que só o líder pode salvar a nação.
8. Para que serve a democracia na vida concreta do cidadão comum?
A democracia serve para que o cidadão comum não dependa da boa vontade dos poderosos. Serve para transformar súditos em sujeitos de direitos. Serve para garantir que o Estado não seja propriedade privada de governantes. Serve para impedir que divergência política seja tratada como crime. Serve para proteger o fraco contra o arbítrio do forte.
Na vida concreta, democracia é poder votar e trocar governantes sem guerra. É poder criticar o prefeito, o presidente, o governador, o juiz, o deputado e o policial sem medo de perseguição. É ter imprensa livre para denunciar abusos. É ter escola pública que forme cidadãos. É ter universidade capaz de produzir ciência. É ter SUS, assistência social, previdência, direitos trabalhistas e políticas públicas. É ter a possibilidade de recorrer à Justiça. É ter liberdade religiosa. É ter direito de associação. É ter proteção contra a violência do Estado e contra a violência privada.
Mas a democracia também precisa ser material. Não basta liberdade formal se a vida cotidiana é marcada pela fome, pelo medo e pela humilhação. Uma democracia que não enfrenta desigualdade produz cidadãos formalmente livres, mas socialmente abandonados.
Por isso, a democracia deve servir para organizar a esperança pública. Não esperança ingênua, mas esperança institucional: a crença de que problemas coletivos podem ser enfrentados por meios coletivos, legais, participativos e racionais.
Quando essa esperança desaparece, o autoritarismo entra oferecendo atalhos. Promete resolver a violência com brutalidade, a corrupção com perseguição seletiva, a economia com slogans, a moral com repressão, a política com culto ao líder. Mas o preço é alto: menos liberdade, menos pluralismo, menos controle público e mais medo.
A democracia serve, portanto, para que o cidadão comum não precise escolher entre ordem e liberdade, entre segurança e direitos, entre fé e pluralismo, entre patriotismo e crítica. Democracia verdadeira é aquela que garante ordem com liberdade, segurança com direitos, fé com tolerância e patriotismo com soberania popular.
9. Como renovar a democracia antes que ela seja capturada por projetos autoritários
Renovar a democracia exige mais do que defender instituições em discursos solenes. É preciso reconstruir vínculos entre democracia e vida concreta. Essa renovação passa por pelo menos oito caminhos.
O primeiro é entregar dignidade material. Democracia precisa significar comida, renda, moradia, saúde, escola, transporte, segurança e trabalho decente. Sem isso, ela vira abstração de elite.
O segundo é reconstruir a representação política. Partidos precisam voltar a formar quadros, apresentar programas, dialogar com territórios e prestar contas. Parlamento não pode ser apenas balcão de emendas, marketing e autopreservação.
O terceiro é defender instituições com transparência. Judiciário, Legislativo, Executivo, Ministério Público, universidades e imprensa precisam ser protegidos de ataques autoritários, mas também precisam reconhecer seus próprios déficits de linguagem, acesso e accountability.
O quarto é regular democraticamente o ambiente digital. Liberdade de expressão não pode ser confundida com liberdade para destruir reputações, fraudar debate público, impulsionar mentiras e manipular eleições. A regulação deve ser transparente, proporcional e submetida ao controle democrático.
O quinto é fortalecer educação cidadã. Uma população que não compreende Constituição, direitos, deveres, separação de poderes, orçamento público, ciência e mídia torna-se vulnerável a charlatães políticos.
O sexto é combater desigualdades territoriais. A democracia precisa chegar às periferias, ao campo, às pequenas cidades, aos povos tradicionais, aos trabalhadores informais e aos jovens sem perspectiva. Onde o Estado só aparece como polícia ou burocracia, o autoritarismo encontra terreno fértil.
O sétimo é recuperar a ética pública. Mentira, cinismo, violência verbal e desumanização não podem ser tratados como estilo político normal. Democracia exige adversários, não inimigos; conflito, não extermínio simbólico; crítica, não destruição.
O oitavo é construir pertencimento democrático. As pessoas precisam sentir que fazem parte de algo comum. O autoritarismo oferece pertencimento pela exclusão: “nós contra eles”. A democracia precisa oferecer pertencimento pela cidadania: “nós, apesar das diferenças”.
No Brasil, isso significa defender a soberania nacional, as urnas, o Estado de Direito, a Constituição de 1988, o SUS, a educação pública, a ciência, a cultura, os direitos sociais e as liberdades civis. Nos Estados Unidos, significa enfrentar desigualdades, reconstruir confiança eleitoral, conter extremismos, proteger direitos civis e impedir que a política da conspiração substitua a política institucional.
Em ambos os casos, a democracia só vencerá se for mais convincente que o ódio.
10. Conclusão: a democracia precisa voltar a ser sentida pelo povo
A pergunta “para que serve a democracia?” não pode ser respondida apenas por juristas, cientistas políticos ou discursos oficiais. Ela precisa ser respondida na vida do cidadão comum. Democracia serve para que uma mãe tenha atendimento de saúde para o filho. Serve para que um trabalhador receba salário digno. Serve para que uma professora ensine sem medo. Serve para que um jornalista investigue corrupção. Serve para que uma pessoa pobre possa enfrentar um poderoso diante da lei. Serve para que uma eleição seja aceita sem violência. Serve para que a fé de um não seja imposta como lei sobre todos. Serve para que a crítica não seja confundida com traição.
Trumpismo e bolsonarismo mostram o que acontece quando essa resposta falha. O ressentimento não desaparece; ele é capturado. A dor social não se dissolve; ela é convertida em ódio político. A frustração econômica não vira automaticamente consciência democrática; pode virar desejo de punição, culto ao líder e desprezo por instituições.
Por isso, renovar a democracia é tarefa urgente. Não se trata de defender um sistema perfeito, mas de impedir que suas falhas sejam usadas como pretexto para destruir as liberdades que ainda permitem corrigi-lo. A democracia é lenta, imperfeita, conflituosa e muitas vezes frustrante. Mas é justamente nela que o povo pode reclamar, votar, fiscalizar, denunciar, organizar-se, resistir e reconstruir.
O autoritarismo promete atalhos. A democracia oferece caminho. O atalho parece sedutor, mas costuma terminar em silêncio. O caminho democrático é mais difícil, porém é o único que permite ao cidadão comum permanecer de pé diante do poder.
A democracia serve, no fim das contas, para isto: para que ninguém precise pedir licença a um chefe político para existir com dignidade.
Referências
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
CASTELLS, Manuel. Ruptura: a crise da democracia liberal. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
DAHL, Robert A. Sobre a democracia. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
FREEDOM HOUSE. Freedom in the World 2025: the uphill battle to safeguard rights. Washington, DC: Freedom House, 2025.
INTERNATIONAL IDEA. The Global State of Democracy 2024: strengthening the legitimacy of elections in a time of radical uncertainty. Stockholm: International IDEA, 2024.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
MOUNK, Yascha. O povo contra a democracia: por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
PEW RESEARCH CENTER. Dissatisfaction with democracy remains widespread in many nations. Washington, DC: Pew Research Center, 2025.
V-DEM INSTITUTE. Democracy Report 2025: 25 years of autocratization — democracy trumped?. Gothenburg: University of Gothenburg, 2025.
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