segunda-feira, 11 de maio de 2026

A democracia diante da fábrica de confusão digital

Como desinformação, redes sociais e IA podem empobrecer a escolha política em 2026


Introdução

A democracia não morre apenas quando tanques ocupam ruas, parlamentos são fechados ou eleições são canceladas. Ela também pode adoecer silenciosamente quando o eleitor perde a capacidade de distinguir fato, boato, medo, encenação e propaganda. Esse é o grande alerta para 2026: a disputa política brasileira tende a ocorrer em um ambiente informacional ainda mais contaminado por desinformação, manipulação emocional, uso de inteligência artificial generativa, microvídeos, memes, deepfakes, falsos escândalos e personagens cuidadosamente fabricados para parecerem simples, morais, patrióticos e familiares.

Desde 2018, o Brasil convive com uma transformação profunda na comunicação política. O WhatsApp, o Telegram, o YouTube, o Facebook, o Instagram, o TikTok e outras plataformas deslocaram parte do debate público para espaços de circulação rápida, fragmentada e emocional. Estudos sobre as eleições brasileiras de 2018 e 2022 apontam que aplicativos de mensagem e redes sociais tiveram papel decisivo na circulação de desinformação política, com destaque para estratégias ligadas a ecossistemas bolsonaristas e de direita radical (Evangelista; Bruno, 2019; Recuero; Soares; Zago, 2021; Rossini et al., 2023). Pesquisas também mostram que a desinformação eleitoral no Brasil não atua apenas pela mentira direta, mas pela produção de dúvida, suspeita, medo e descrédito institucional (Alves et al., 2023).  

O problema torna-se mais grave porque, em 2026, a inteligência artificial generativa amplia a escala e a velocidade dessa operação. Textos falsos podem ser produzidos em segundos. Vozes podem ser clonadas. Imagens podem ser fabricadas. Vídeos podem simular cenas que nunca aconteceram. Comentários podem ser automatizados. Perfis falsos podem parecer gente comum. Por isso, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou regras específicas para o uso de IA nas campanhas de 2026, incluindo exigência de identificação de conteúdo produzido por inteligência artificial e restrições a deepfakes e materiais manipulados que possam afetar a integridade do processo eleitoral.  

O objetivo deste artigo é fazer um alerta: quando a política é reduzida à imagem do “bom garoto”, do “homem simples”, do “defensor da família”, do “patriota sem complexidade” ou do “candidato que fala fácil”, o eleitor pode ser empurrado para uma escolha superficial. A democracia exige mais do que simpatia pessoal. Exige análise de projeto de país, compromisso institucional, responsabilidade social, respeito aos direitos, compreensão econômica, maturidade política e capacidade de governar sociedades complexas.

1. A desinformação não quer apenas convencer: quer confundir

A desinformação política moderna não funciona somente dizendo: “acredite nisto”. Ela funciona, muitas vezes, dizendo: “não acredite em mais nada”. Esse é o seu mecanismo mais perigoso. O eleitor passa a desconfiar da imprensa, da universidade, da Justiça Eleitoral, dos dados oficiais, dos cientistas, dos professores, dos especialistas e até da própria realidade.

Claire Wardle e Hossein Derakhshan (2017) explicam que a desordem informacional envolve diferentes formas de conteúdo problemático: informação falsa compartilhada sem intenção de dano, informação deliberadamente fabricada para causar dano e informação verdadeira usada fora de contexto para manipular percepções. Essa distinção é essencial, porque nem toda mentira política aparece como mentira grosseira. Muitas vezes, ela aparece como meia verdade, recorte emocional, imagem descontextualizada ou frase verdadeira colocada dentro de uma narrativa falsa.

No Brasil, esse método ganhou força porque combina três elementos explosivos: baixa confiança institucional, alto uso de redes sociais para consumo de notícias e forte polarização política. Rossini et al. (2023) analisam crenças em desinformação eleitoral no Brasil e mostram que fatores como ideologia, confiança política, redes sociais e aplicativos de mensagem influenciam a adesão a falsas alegações eleitorais.  

A confusão, portanto, não é falha do sistema: é parte da estratégia. Um eleitor confuso tende a buscar atalhos emocionais. Em vez de perguntar “qual é o programa econômico?”, pergunta “quem parece mais sincero?”. Em vez de avaliar políticas públicas, pergunta “quem fala como eu?”. Em vez de verificar dados, pergunta “quem defende os meus valores?”. Assim, a política deixa de ser debate sobre estruturas sociais e vira uma competição de aparência moral.

2. A fabricação do candidato superficial

Uma das estratégias mais eficientes da comunicação política contemporânea é fabricar personagens simples para problemas complexos. O candidato é apresentado como alguém “do povo”, “de família”, “patriota”, “religioso”, “honesto”, “espontâneo”, “sem frescura” e “contra tudo isso que está aí”. Nada disso é, por si só, um problema. O problema aparece quando essas imagens substituem o debate público real.

A defesa da família, da pátria, da fé ou da moralidade pode ser legítima em qualquer democracia plural. Porém, quando esses símbolos são usados como cortina de fumaça para esconder ausência de projeto, desprezo institucional, autoritarismo, negacionismo ou submissão a interesses econômicos específicos, deixam de ser valores republicanos e passam a funcionar como embalagem política.

Essa é a lógica do marketing da superficialidade: construir um candidato emocionalmente reconhecível, mas politicamente pouco examinado. O eleitor não é convidado a pensar o país; é convidado a gostar de uma figura. Não se debate financiamento da saúde, qualidade da educação, política industrial, reforma tributária, soberania digital, meio ambiente, segurança pública, desigualdade, ciência ou trabalho. Debate-se se o candidato “parece bom”, “fala bonito”, “tem coragem” ou “defende a família”.

Nesse ponto, a reflexão de Hannah Arendt é importante. Para Arendt (2012), a política se degrada quando perde o espaço público do julgamento, da pluralidade e da responsabilidade. Quando o debate vira culto à imagem, perde-se a dimensão propriamente política da convivência democrática.

3. Redes sociais: o palco perfeito da simplificação

As redes sociais foram desenhadas para capturar atenção, não para aprofundar a compreensão política. O conteúdo que mais circula não é necessariamente o mais verdadeiro, mas o mais emocional, indignante, engraçado, agressivo ou identitário. Shoshana Zuboff (2021) argumenta que o capitalismo de vigilância transforma comportamento humano em matéria-prima para previsão, modulação e lucro. No campo político, isso significa que emoções coletivas podem ser exploradas como ativos de mobilização.

O eleitor não recebe apenas informação: recebe estímulos. Um vídeo curto, uma frase de efeito, uma montagem, uma música dramática, um corte de entrevista, um meme agressivo ou uma acusação sem contexto podem ter mais impacto do que uma análise séria de vinte páginas. Esse é o paradoxo da democracia digital: nunca houve tanta informação disponível, mas também nunca foi tão fácil produzir ignorância em escala industrial.

O Fórum Econômico Mundial apontou a desinformação e a informação falsa impulsionadas por IA como um dos maiores riscos globais de curto prazo, especialmente em contextos eleitorais. O relatório também relaciona desinformação, polarização social e instabilidade institucional como riscos interligados.  

4. A inteligência artificial como multiplicadora da confusão

A IA generativa muda a escala da propaganda política. Antes, produzir uma peça de desinformação exigia tempo, equipe, edição, texto, imagem e distribuição. Agora, um pequeno grupo pode gerar centenas de mensagens, imagens, vídeos, áudios e comentários em pouco tempo. Isso cria uma nova assimetria: a mentira se industrializa, enquanto a checagem continua lenta, humana e trabalhosa.

A UNESCO e o PNUD alertam que a IA afeta diretamente liberdade de expressão e eleições, tanto por suas oportunidades quanto por seus riscos: automação de campanhas, manipulação informacional, deepfakes, redução da confiança pública e dificuldade de responsabilização.  

No Brasil, o TSE reconheceu esse risco ao regulamentar o uso de IA em propaganda eleitoral. As regras para 2026 indicam preocupação institucional com conteúdos sintéticos, deepfakes, manipulação de imagem e voz, além da necessidade de transparência quando materiais forem produzidos por inteligência artificial.  

O perigo não está apenas no deepfake perfeito. Muitas vezes, basta uma peça visual ambígua, um áudio duvidoso ou um vídeo “quase convincente” para gerar o efeito desejado: dúvida, raiva e compartilhamento. A desinformação não precisa vencer no tribunal da verdade. Basta vencer no tribunal da velocidade.

5. O eleitor cansado e o atalho emocional

A política brasileira encontra uma população cansada. Cansada do preço dos alimentos, do endividamento, da insegurança, da precarização do trabalho, da corrupção, da violência, da burocracia, da promessa não cumprida e da sensação de abandono. Esse cansaço é real. O risco é que ele seja capturado por discursos simplistas.

Quando a vida está difícil, a promessa fácil seduz. Quando a sociedade está angustiada, o “salvador” parece solução. Quando o debate público está saturado, o candidato superficial parece descanso. É nesse terreno que prosperam discursos autoritários: eles oferecem clareza falsa para problemas verdadeiramente complexos.

O populismo contemporâneo costuma operar com uma oposição moral entre “povo puro” e “elite corrupta”. Cas Mudde (2004) define o populismo como uma ideologia de baixa densidade que divide a sociedade entre dois campos moralmente homogêneos e antagônicos. Essa estrutura combina bem com redes sociais, porque transforma política em guerra moral permanente.

O problema é que sociedades reais não são tão simples. Não há política pública séria feita apenas com indignação. Governar exige orçamento, negociação, ciência, planejamento, instituições e responsabilidade. Quem transforma tudo em luta entre “bem” e “mal” pode até emocionar, mas dificilmente educa politicamente.

6. Família, pátria e moral: valores legítimos ou instrumentos de manipulação?

Família, pátria e moral são temas importantes. Nenhuma democracia deve desprezá-los. O problema começa quando esses valores são usados como escudo retórico para impedir perguntas concretas: qual política de emprego? Qual plano para a educação? Qual projeto de saúde pública? Qual compromisso com a democracia? Qual relação com as Forças Armadas? Qual política ambiental? Qual modelo de desenvolvimento? Qual posição sobre desigualdade? Qual estratégia para ciência e tecnologia?

O eleitor precisa desconfiar quando uma campanha fala muito de valores abstratos e pouco de políticas públicas concretas. Valores sem projeto podem virar propaganda. Patriotismo sem soberania econômica pode virar teatro. Defesa da família sem renda, escola, saúde, moradia e segurança alimentar pode virar frase vazia.

Paulo Freire (1996) lembrava que a educação exige leitura crítica do mundo. Em termos políticos, isso significa não aceitar passivamente a embalagem emocional da propaganda. É preciso perguntar: quem financia essa mensagem? A quem ela interessa? Que medo ela tenta produzir? Que inimigo ela está inventando? Que dado ela esconde? Que política pública ela evita discutir?

7. O ataque às instituições como método

Um traço recorrente de campanhas desinformativas é o ataque preventivo às instituições. Antes mesmo da eleição, lança-se suspeita sobre urnas, tribunais, imprensa, universidades, pesquisas eleitorais e órgãos públicos. Se o resultado favorece determinado grupo, a eleição foi legítima. Se não favorece, foi fraudada. Esse raciocínio destrói a democracia por dentro.

Pesquisas sobre o contexto brasileiro de 2022 mostram que a desinformação eleitoral envolveu ataques à confiabilidade das urnas, às instituições eleitorais e ao processo democrático. Alves et al. (2023) analisam a experiência brasileira de 2022 e destacam que o enfrentamento à desinformação depende de ação institucional, checagem, colaboração entre atores públicos e privados e fortalecimento da integridade informacional.  

A democracia não exige confiança cega nas instituições. Exige crítica responsável, com prova, método e compromisso com a verdade. Questionar é democrático. Sabotar a confiança pública com boatos fabricados é outra coisa.

8. O papel dos influenciadores e da falsa espontaneidade

Outro elemento decisivo é o uso de influenciadores. Muitas mensagens políticas não aparecem como propaganda eleitoral. Aparecem como opinião espontânea, piada, indignação, conselho religioso, comentário familiar ou “alerta de cidadão comum”. Isso dificulta a identificação da estratégia.

A propaganda política contemporânea aprendeu a se esconder dentro da linguagem cotidiana. Ela não precisa parecer comício. Pode parecer conversa de grupo de família. Pode parecer vídeo de humor. Pode parecer “desabafo”. Pode parecer testemunho pessoal. O eleitor vê uma pessoa comum falando e pensa: “isso não é campanha, é opinião sincera”. Mas, em muitos casos, há redes coordenadas, interesses políticos e lógica profissional de comunicação.

Essa informalidade é poderosa porque reduz a defesa crítica. Quando a propaganda vem com logotipo de partido, o eleitor desconfia. Quando vem como áudio de alguém “bem informado”, a resistência cai.

9. A guerra contra a complexidade

A extrema simplificação é uma forma de violência contra a realidade. Problemas estruturais não cabem em slogans. Desigualdade, inflação, desemprego, segurança pública, educação, saúde, reforma do Estado, política externa e desenvolvimento tecnológico exigem análise séria.

Mas a política digital premia quem simplifica com agressividade. Uma proposta complexa exige tempo. Uma mentira emocional exige segundos. Um plano de governo exige leitura. Um ataque moral exige compartilhamento. É por isso que a desinformação prefere destruir reputações a discutir soluções.

Norberto Bobbio (1986) defendia que a democracia depende de procedimentos, regras, transparência e participação informada. Sem informação minimamente confiável, a escolha popular perde qualidade. O voto continua existindo, mas pode ser capturado por manipulações que impedem o eleitor de avaliar a realidade com autonomia.

10. Como resistir à confusão organizada

O enfrentamento à desinformação não pode depender apenas do TSE, da imprensa ou das plataformas digitais. Também exige educação política da sociedade. Algumas atitudes são fundamentais:

  1. Desconfiar de conteúdo que provoque raiva imediata.
  2. Verificar a fonte antes de compartilhar.
  3. Não tomar vídeo curto como prova definitiva.
  4. Procurar dados oficiais e veículos diversos.
  5. Diferenciar crítica política de destruição institucional.
  6. Perguntar sempre qual política pública está sendo proposta.
  7. Observar se o candidato tem projeto ou apenas personagem.
  8. Identificar uso abusivo de religião, família e pátria como blindagem emocional.
  9. Evitar transformar política em torcida.
  10. Valorizar debate público, ciência, imprensa responsável e instituições democráticas.

Essa resistência não significa votar em determinado campo político. Significa proteger a própria capacidade de escolher. Um eleitor manipulado pode até votar, mas vota dentro de uma realidade fabricada por outros.

Conclusão crítica

O maior perigo de 2026 talvez não seja apenas a mentira isolada. O maior perigo é a construção de um ambiente inteiro de confusão. Um ambiente em que tudo parece duvidoso, todos parecem corruptos, toda instituição parece inimiga, todo dado parece manipulado e toda escolha racional parece inútil. Nesse cenário, vence quem oferece a imagem mais simples, a emoção mais forte e o inimigo mais conveniente.

A democracia brasileira precisa estar atenta à fabricação artificial de candidatos superficiais. O “bom garoto”, o “patriota”, o “defensor da família” ou o “homem simples” podem ser apenas personagens políticos. O eleitor tem o direito — e o dever democrático — de perguntar o que existe por trás da imagem. Quem governa não é o sorriso da campanha. Quem governa é o projeto político, a equipe, os interesses, as alianças, as ideias e o compromisso real com a Constituição.

A inteligência artificial e as redes sociais não são inimigas naturais da democracia. Podem informar, educar, ampliar vozes e fortalecer participação. Mas, sem regulação, transparência, educação midiática e responsabilidade coletiva, podem se tornar máquinas de desorientação pública. O alerta é simples e profundo: quando a política vira espetáculo de superfície, a democracia perde densidade; quando o eleitor vota movido por medo fabricado, perde autonomia; quando a mentira se torna método, a liberdade de escolha vira aparência.

Defender a democracia, em 2026, exigirá mais do que escolher candidatos. Exigirá defender a verdade possível, a dúvida responsável, a leitura crítica e a coragem de não ser manipulado pela primeira emoção que aparece na tela.

Referências

ALVES, Marcelo et al. Disinformation and 2022 elections in Brazil. Rio de Janeiro: NetLab/UFRJ; UFF, 2023.

ARENDT, Hannah. A condição humana. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

EVANGELISTA, Rafael; BRUNO, Fernanda. WhatsApp and political instability in Brazil: targeted messages and political radicalisation. Internet Policy Review, v. 8, n. 4, 2019.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

MUDDE, Cas. The populist zeitgeist. Government and Opposition, v. 39, n. 4, p. 541-563, 2004.

RECUERO, Raquel; SOARES, Felipe Bonow; ZAGO, Gabriela. Discursive strategies for disinformation on WhatsApp and Twitter during the 2018 Brazilian presidential election. First Monday, v. 26, n. 1, 2021.

ROSSINI, Patrícia et al. Explaining beliefs in electoral misinformation in the 2022 Brazilian election: the role of ideology, political trust, social media, and messaging apps. Harvard Kennedy School Misinformation Review, 2023.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Por Dentro das Eleições: conheça as regras sobre uso de IA na campanha eleitoral de 2026. Brasília: TSE, 2026.

UNESCO; UNDP. Artificial Intelligence, Freedom of Expression and Elections: Safeguarding Democratic Processes. Paris: UNESCO, 2025.

WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information disorder: toward an interdisciplinary framework for research and policy making. Strasbourg: Council of Europe, 2017.

WORLD ECONOMIC FORUM. The Global Risks Report 2024. Geneva: WEF, 2024.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.


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