Por que a disputa entre crença e evidência virou um problema de escola, posto de saúde, prefeitura e bolso
O motorista de aplicativo encosta no posto, olha o painel e faz a conta mental: se encher o tanque hoje, perde a margem do dia; se não encher, corre risco de ficar preso na alta de amanhã. Enquanto decide, o celular vibra com um áudio de 1 minuto dizendo que “o preço subiu porque o governo fez acordo secreto” — e outro jurando que “é culpa de uma organização global”. Mais tarde, a mesma pessoa entra no grupo da escola do filho e encontra a mãe de um colega garantindo que “a virose é causada por comida industrializada” e que “médico não fala a verdade porque ganha por receita”. À noite, abre um vídeo curto no TikTok com legendas enormes: “A VERDADE QUE ESCONDERAM”. Fecha o vídeo com aquela sensação amarga: o mundo virou uma feira livre de versões.
Não é um debate filosófico abstrato. Essa bagunça muda comportamento, trava decisão, quebra confiança e custa dinheiro público. A Organização Mundial da Saúde chama de “infodemia” o excesso de informação — incluindo informação falsa ou enganosa — que atrapalha escolhas e prejudica respostas de saúde pública (WHO, 2020; WHO, 2022). E a UNESCO vem insistindo que o salto de conteúdos sintéticos (incluindo deepfakes) força educação e jornalismo a lidar com um problema de base: como as pessoas reconhecem o que vale como conhecimento quando até o “que se vê” pode ser fabricado (UNESCO, 2025).
No Brasil, a coisa ganha contorno próprio porque o ecossistema de desinformação não depende mais de uma plataforma só. Uma reportagem da Agência Brasil, baseada em relatório de observatório de checagem, registrou aumento forte de peças com IA entre 2024 e 2025 e aponta dispersão de circulação entre plataformas, incluindo redes de vídeo curto e mensageria (Agência Brasil, 2026).
No meio disso tudo, duas palavras antigas viraram munição moderna: fé e ciência. Uma parte do debate trata “fé” como licença para ignorar evidência; outra trata “ciência” como se fosse religião com jaleco. E quando isso acontece, o prejuízo aparece onde dói: na sala de aula, no posto de saúde, no orçamento da prefeitura, na pequena empresa que toma decisão errada porque acreditou em “certeza de internet”.
Este texto defende uma posição sem rodeio: fé é legítima como orientação moral e comunitária, mas decisão técnica que afeta coletivo precisa ser governada por evidência, método e transparência — não por convicção e autoridade informal. A forma mais sensata de organizar isso hoje é a combinação entre a prudência institucional de Tomás de Aquino e o princípio político de Spinoza: separar funções para reduzir guerra — e impedir que “teologia de grupo” vire política pública.
1. Quando crença vira “método”, o erro vira política pública
Existe uma diferença entre “acreditar” e “saber” que aparece em situações comuns:
No SUS: uma campanha de vacinação depende de calendário, cadeia de frio, cobertura por faixa etária, comunicação local e monitoramento. Se uma parte da população decide que “fé substitui vacina”, não é só decisão individual; vira risco coletivo. A OMS é direta: desinformação em saúde aumenta confusão, induz comportamento de risco e mina confiança em autoridades sanitárias (WHO, 2022).
Na escola: uma direção precisa decidir se mantém aulas, como reorganiza turmas, como lidar com surtos de virose e como comunicar pais. Se a decisão vira concurso de narrativas (“isso é castigo”, “isso é armação”, “isso é veneno”), o resultado é improviso e conflito.
Na prefeitura: obra de drenagem urbana, manutenção de bueiro, contenção de encosta e planejamento de mobilidade exigem engenharia, cronograma e fiscalização. Se o debate público vira “minha crença contra teu laudo”, a cidade perde o básico: executar.
A ironia é que, ao contrário do que se repete em rede social, a confiança em ciência não parece ter “acabado” no mundo. Um estudo com 71.922 respondentes em 68 países encontrou que, na maioria dos países, a maioria das pessoas confia em cientistas e apoia que cientistas se envolvam mais com sociedade e políticas; o trabalho reporta, por exemplo, média global de concordância 3,64/5 para esse envolvimento e alta aprovação para comunicação científica (Cologna et al., 2025). O problema, portanto, não é “todo mundo odeia ciência”; é que uma minoria barulhenta e bem distribuída em plataformas consegue contaminar decisões públicas, sobretudo quando o tema aciona medo, identidade e raiva.
2. Platão: o truque da convicção rápida (e por que isso funciona tão bem no feed)
Platão não conheceu redes sociais, mas descreveu o mecanismo psicológico que as redes exploram. Na República, ele distingue níveis de “conhecimento”: há o nível da imagem e da crença no visível, e há o nível do entendimento mais estável que procura o que não muda. A tradição costuma lembrar a “Linha Dividida” como uma forma de separar opinião e conhecimento: o sensível gera convicção, mas não garante verdade (Silverman, 2003).
O ponto prático: o que é muito convincente pode ser muito frágil. Um vídeo de 15 segundos com trilha dramática e legenda agressiva cria certeza instantânea. Platão chamaria isso de vitória da crença colada na aparência. Não é burrice; é engenharia do estímulo.
Aplicação direta:
- quando uma pessoa decide investimento da pequena loja porque viu “especialista” prometendo multiplicar lucro em 30 dias;
- quando um servidor altera procedimento porque um boato de grupo diz que “vai ter fiscalização pesada amanhã”;
- quando uma escola muda regra porque um recorte viral “provou” algo.
Platão não resolve tudo, mas dá um antídoto simples: a convicção mais barulhenta geralmente pertence ao nível mais baixo do conhecimento. Se o conteúdo está desenhado para te deixar com raiva em 5 segundos, provavelmente não foi desenhado para ser verdadeiro.
3. Aristóteles: “ciência” é saber o porquê — e opinião não paga a conta
Aristóteles desloca a discussão para um padrão que serve até hoje: conhecimento forte é aquele que explica “por que é assim”, por causas e encadeamento racional. A Posterior Analytics é o centro dessa ideia: demonstração como raciocínio que produz conhecimento, não apenas persuasão (Smith, 2000).
Isso parece distante, mas entra em qualquer conversa séria:
- se alguém afirma que “o preço subiu só por ganância”, Aristóteles perguntaria: qual o canal? câmbio? custo de energia? logística? imposto? margem?
- se alguém afirma que “a dengue explodiu por um único motivo”, ele pediria o mecanismo: clima, vetor, saneamento, manejo urbano, políticas de controle.
Aristóteles também ensina uma coisa que o Brasil esquece com frequência: nem tudo é “ciência” no mesmo sentido. Há decisões técnicas (vacina, engenharia, protocolo clínico) e decisões prudenciais (como negociar conflito na escola, como escolher prioridade orçamentária). Misturar os métodos é desastre: exigir “prova matemática” do que é prudência é paralisar; aceitar “achismo” no que é técnico é arriscar vidas.
4. Agostinho: fé pode organizar o caráter — mas não pode virar atalho técnico
Agostinho entra com o que a maioria entende por fé: confiança em Deus, sentido, orientação moral. Só que ele não transforma fé em desculpa para abandonar o pensamento. A tradição agostiniana insiste que fé e entendimento caminham juntos, com a ideia de que a busca da verdade envolve interioridade e “iluminação” — isto é, uma estrutura em que Deus aparece como fonte última da verdade e da inteligibilidade (Pasnau, 1999).
No cotidiano, Agostinho é útil para explicar por que algumas pessoas não “viram cínicas” no caos:
- a enfermeira que segura plantão pesado porque tem sentido moral;
- o professor que insiste em alfabetizar turma difícil porque acredita que vale a pena;
- o gestor público que não falsifica dado porque isso “fere” algo interno, mesmo que seja conveniente.
Mas aqui está a chave crítica: Agostinho ajuda quando fé vira eixo ético; atrapalha quando fé vira argumento técnico. A fé pode sustentar alguém no tratamento; não pode substituir o tratamento. Pode orientar honestidade na gestão; não pode definir vazão de drenagem.
Quando fé vira método técnico, a consequência é concreta:
- abandono de prevenção porque “Deus protege”;
- recusa de vacina por “convicção moral” sem base;
- hostilidade a profissionais de saúde e educação tratados como inimigos.
Isso não é “debate de crença”; é logística social.
5. Tomás de Aquino: a engenharia da convivência — separar domínios para evitar guerra
Aquinas faz o que falta no debate público atual: define jurisdição. Há verdades acessíveis à razão natural e há verdades que dependem de revelação; isso não implica contradição, implica método diferente. E ele afirma algo que desagrada tanto fanáticos quanto cínicos: a razão pode argumentar sobre Deus no plano filosófico e, ao mesmo tempo, reconhecer limites diante do que é mistério revelado (Pasnau, 2022).
Em termos civis, Aquinas entrega uma regra de ouro:
- deixar a engenharia ser engenharia;
- deixar a medicina ser medicina;
- deixar a teologia ser teologia;
- e impedir que uma área finja ser a outra para dominar debate.
Essa regra não é “bonita”; ela é útil. Ela evita que currículo escolar vire guerra de púlpito. Evita que política pública dependa de doutrina confessional. Evita que a ciência seja usada como martelo para humilhar crença — porque também reconhece que ciência não resolve o sentido da vida e não define sozinho o que é “bom”.
6. Spinoza: fé serve à paz civil; verdade é outra conversa
Spinoza é o ponto de ruptura que muita gente prefere ignorar porque ele é direto demais. No Tratado Teológico-Político, ele separa a finalidade da religião da finalidade da filosofia: religião visa obediência e boas obras; filosofia visa verdade. Essa tese aparece de forma explícita em leituras clássicas de sua filosofia política (Steinberg, 2008).
E ele vai além: o valor da fé não está em ser um pacote de “doutrinas verdadeiras”, mas em produzir justiça e caridade; o que interessa é o efeito moral e político, não a precisão metafísica das crenças — interpretação registrada por sínteses acadêmicas contemporâneas (Internet Encyclopedia of Philosophy, 2026).
Isso é de uma atualidade brutal num país plural:
- se cada grupo religioso quiser transformar doutrina em lei geral, o Estado vira arena de guerra permanente;
- se uma plataforma quiser substituir jornalismo e ciência por “carisma + indignação”, a verdade vira mercadoria.
Spinoza não está pedindo que ninguém abandone fé. Ele está dizendo que o Estado não pode ser refém de fé como critério de verdade. E, no século XXI, isso vale também para “fé secular” — a crença cega em influencer, em canal, em “especialista de vídeo curto”.
7. O problema novo: a crise do “saber o que viu” em época de IA
Aqui entra o componente que os filósofos antigos não enfrentaram, mas que conversa perfeitamente com Platão: o sensível agora pode ser fabricado em escala. A UNESCO trata o fenômeno como uma “crise do saber”: deepfakes e desinformação aumentada por IA exigem não só técnica de verificação, mas uma educação que ensine a pessoa a pensar sobre como sabe o que sabe (UNESCO, 2025).
No Brasil, o salto de peças com IA usadas como fraude e arma política é descrito em levantamento noticiado pela Agência Brasil: houve aumento de deepfakes e conteúdos gerados por IA entre 2024 e 2025 e maior dispersão de circulação entre plataformas (Agência Brasil, 2026).
O efeito concreto é simples:
- áudio falso com voz de autoridade cria pânico em bairro;
- vídeo falso com “celebridade” vendendo golpe drena dinheiro de aposentado;
- recorte falso com “prova” de conspiração vira justificativa para agressão.
E aqui Platão volta como tapa na cara: se o mundo já produzia ilusão, agora produz ilusão com orçamento e algoritmo.
8. A posição defendida: um acordo prático para o Brasil funcionar
A posição deste artigo não é “fé contra ciência”. É o contrário: é colocar cada coisa no seu lugar para reduzir dano coletivo.
- Decisões técnicas com efeito coletivo exigem padrão público de evidência. Isso inclui saúde pública, engenharia urbana, saneamento, política ambiental, currículo, segurança alimentar. “Acreditar” não basta; precisa de procedimento verificável.
- Fé é legítima como motor moral e comunitário, e faz diferença em luto, disciplina ética, solidariedade e resistência psíquica — mas não deve governar protocolos técnicos.
- Instituições devem ser desenhadas para aguentar desinformação, não para fingir que ela é “opinião”. A OMS lembra que infodemia mina confiança e prejudica resposta pública; isso exige comunicação de risco e ação coordenada (WHO, 2020).
- Plataformas não podem ser tratadas como praça neutra quando o modelo de negócio recompensa conteúdo que engaja por raiva e medo. Isso não é “censura”; é reconhecer arquitetura de incentivo.
O estudo global sobre confiança em cientistas ajuda a quebrar a caricatura de que “todo mundo virou anti-ciência”. O que existe é variação por contexto e, principalmente, uso político da desconfiança (Cologna et al., 2025). Ou seja: o Brasil não precisa de sermão; precisa de arranjo institucional.
9. A crítica esperada (e necessária): “isso é elitismo, ciência erra, e vocês querem um novo clero”
A crítica vem em dois blocos.
9.1 “Ciência erra e já foi usada para abuso”
Verdade. E justamente por isso ciência não pode ser vendida como autoridade fechada. O ganho civilizatório da ciência não é “ser perfeita”; é ter mecanismo de correção: revisão, dados, contestação, replicação. A resposta ao erro científico não é abandonar método; é exigir transparência e controle.
9.2 “Isso vira cientificismo: tudo vira número e técnico manda em tudo”
Aqui a resposta é aristotélica e tomista: política não é laboratório. Prioridade orçamentária, justiça distributiva, valores educacionais e critérios de risco aceitável exigem debate público e ética. Mas debate público não autoriza inventar fatos. A regra é simples: valores se deliberam; fatos se verificam. Misturar dá populismo epistêmico: a ideia de que a verdade depende de grito e plateia.
E, sim, existe abuso tecnocrático. Por isso, o padrão correto não é “calar o povo”; é abrir o método. Uma prefeitura que apresenta projeto de drenagem com planilha, memorial, cronograma e auditoria pública reduz a chance de narrativa capturar a obra. Uma secretaria que publica dados de aprendizagem com metodologia clara impede o “eu acho” de virar política. Isso é o oposto de elitismo: é tornar o processo verificável por qualquer cidadão interessado.
10. O que muda para quem está fora do debate “de livro”
No cotidiano, a tese deste texto vira decisões miúdas e repetidas:
- antes de repassar áudio sobre saúde, procurar fonte oficial e checagem;
- antes de comprar “cura” ou “milagre”, verificar se há evidência e registro;
- quando surgir “verdade proibida”, perguntar quem ganha com a indignação;
- em escola e prefeitura, cobrar método e transparência em vez de “discurso bonito”.
A UNESCO já publicou materiais e iniciativas de alfabetização midiática e combate à desinformação voltadas a jornalismo e educação (UNESCO, 2023). Não é glamour. É manutenção do mínimo: saber o que é fato antes de discutir o que deve ser feito.
Conclusão
Fé é direito e pode ser combustível moral. Só não pode virar régua de realidade quando a decisão mexe com saúde, escola, obra pública e dinheiro do mês. Se o Brasil quiser evitar ser governado por áudio e vídeo curto, a recomendação prática é banal e irritante: cobre fonte, cobre método, cobre transparência — e trate convicção como convicção. Quem acha isso “chato” provavelmente já foi convencido por alguma coisa que também era.
Referências bibliográficas
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