Ormuz, energia, sanções e desgaste estratégico: como a ofensiva liderada por Washington ajuda a corroer os próprios fundamentos da hegemonia monetária dos Estados Unidos
Lide
Durante décadas, a hegemonia do dólar foi apresentada como um dado quase natural da ordem mundial. Como se a moeda norte-americana ocupasse o centro do sistema por mérito técnico, neutralidade econômica e superioridade institucional incontestável. A guerra contra o Irã ajuda a desmontar essa ficção. O que se vê agora é algo mais duro e mais revelador: o dólar continua dominante, mas a ordem política, militar e energética que sustenta essa dominância está cada vez mais cara, mais instável e mais contestada. O centro ainda manda, mas já não organiza o mundo sem produzir fissuras no próprio chão em que pisa.
O conflito recolocou o Estreito de Ormuz no coração da geoeconomia global. Não como metáfora, mas como realidade material. Uma via marítima por onde passa cerca de um quinto do fluxo mundial de petróleo e gás liquefeito voltou a funcionar como gargalo do sistema. O resultado foi imediato: disparada dos preços da energia, temor inflacionário, pressão sobre cadeias logísticas, desconforto entre aliados dos Estados Unidos e reabertura de uma pergunta estratégica que Washington tentou adiar por anos: até quando a centralidade do dólar suportará a multiplicação de guerras, sanções e choques que o próprio poder norte-americano ajuda a produzir?
O mito da neutralidade do dólar
É preciso começar pelo essencial. O dólar nunca foi apenas moeda. Sempre foi poder armado, rede bancária, capacidade de sanção, profundidade financeira, controle institucional e presença militar. Sua força não decorre apenas de balanços, reservas e liquidez, mas da arquitetura geopolítica erguida pelos Estados Unidos desde o pós-guerra. O dólar tornou-se a linguagem principal do capitalismo internacional porque foi sustentado por porta-aviões, acordos estratégicos, mercados profundos, alianças militares, confiança regulatória e pelo papel dos EUA como garantidor — ao menos parcial — da circulação global de energia, mercadorias e capitais.
Os dados ainda mostram a dimensão dessa supremacia. No fim de 2025, o dólar permanecia com 56,77% das reservas cambiais oficiais identificadas no mundo. Em fevereiro de 2026, respondia por 57,49% dos pagamentos globais na rede Swift. E, segundo o BIS, esteve presente em 89,2% das operações do mercado cambial em abril de 2025. Isso significa que a moeda norte-americana continua sendo, com larga margem, o eixo monetário do sistema internacional. Mas esse é apenas o retrato estático. O filme em movimento é outro: a moeda segue central, porém a capacidade política dos Estados Unidos de manter o sistema coeso já não parece tão incontestável.
É aqui que a guerra no Irã adquire significado histórico. Ela não derruba o dólar. Ela expõe o custo crescente de sustentá-lo como centro obrigatório do sistema. Não se trata de colapso. Trata-se de erosão. E erosões imperiais raramente acontecem em um único choque. Elas se acumulam como rachaduras silenciosas até que o edifício, embora ainda imponente, já não inspire a mesma sensação de permanência.
Ormuz: a garganta energética do planeta
O Estreito de Ormuz não é um detalhe regional. É uma peça central da anatomia do capitalismo fóssil. Cerca de 20% do fluxo global de petróleo e gás liquefeito passa por ali. Isso significa que qualquer militarização prolongada, ameaça de bloqueio ou encarecimento do tráfego naquela região produz efeitos mundiais quase instantâneos. Não é preciso um fechamento total para o sistema tremer; basta o aumento do risco, do seguro, do medo e da imprevisibilidade.
Foi exatamente isso que aconteceu. A crise elevou rapidamente os preços físicos do petróleo, com mercados registrando patamares próximos de US$ 150 por barril em momentos de maior tensão. Bancos centrais, organismos multilaterais e governos passaram a rever expectativas de inflação e crescimento. O FMI e o Banco Mundial chegaram às reuniões de abril de 2026 sob a sombra desse novo choque energético, tratado já como mais uma perturbação sistêmica em sequência, depois da pandemia e da guerra da Ucrânia.
O dado decisivo aqui é simples: a hegemonia do dólar exige estabilidade suficiente para que capitais, comércio e reservas continuem orbitando ao redor dos Estados Unidos. Quando uma guerra liderada ou estimulada por Washington desorganiza justamente uma das artérias mais sensíveis da economia mundial, o problema deixa de ser apenas militar. Passa a ser monetário. Passa a ser civilizacional. A moeda do centro do sistema continua forte, mas o centro passa a parecer menos apto a garantir ordem e mais apto a fabricar choques.
O império que produz a própria inflação
Toda hegemonia monetária depende de uma promessa implícita: previsibilidade. O mercado aceita a centralidade de uma moeda não apenas porque ela é líquida, mas porque o mundo organizado ao seu redor parece relativamente funcional. A guerra no Irã tensiona exatamente esse ponto. Ao encarecer energia, transporte, fertilizantes, combustíveis e cadeias industriais, o conflito exporta inflação para o planeta e, ao mesmo tempo, devolve parte dela ao coração do próprio império.
Nos Estados Unidos, isso é politicamente explosivo. Energia cara pressiona a gasolina, o diesel, os fretes, os alimentos e o custo de vida. A inflação reaparece como ameaça doméstica, os juros tendem a permanecer mais altos, o crescimento fica mais frágil e a legitimidade interna da condução estratégica do país sofre desgaste. Jamie Dimon alertou que a guerra com o Irã poderia manter inflação e juros elevados por mais tempo. Em outras palavras, o império que emite a moeda do mundo se vê punido pelos próprios efeitos econômicos de sua projeção militar.
Esse é o ponto que muitos analistas evitam nomear com clareza. O dólar não é abalado porque deixou de ser importante. Ele é abalado justamente porque ainda é importante demais. Toda convulsão produzida pelo poder norte-americano atravessa o sistema inteiro, e isso gera uma contradição central: os EUA seguem no comando, mas o exercício do comando passou a impor custos crescentes aos aliados, ao mercado e à própria sociedade norte-americana. Quando liderar se torna sinônimo de inflacionar, sancionar, tensionar e desorganizar, a liderança continua existindo, porém sua legitimidade histórica encolhe.
Sanções: a arma que perde eficiência quando o mundo cansa
O poder do dólar como instrumento geopolítico depende da eficácia das sanções. Sanções funcionam não apenas porque os Estados Unidos têm musculatura financeira, mas porque o restante do sistema aceita, internaliza ou teme essa musculatura. O problema surge quando o custo da obediência começa a ficar alto demais.
A crise de Ormuz fez exatamente isso aparecer. Países aliados passaram a priorizar segurança energética e rotas alternativas de abastecimento. No caso da Coreia do Sul, o movimento mais visível foi o esforço para destravar embarcações na região e reforçar suprimentos vindos de outras origens, como Cazaquistão e Emirados Árabes Unidos. Não se trata ainda de ruptura aberta com Washington, mas de algo politicamente eloquente: em cenário de escassez e risco, aliados passam a agir pela lógica da sobrevivência material, não da fidelidade automática.
Esse é um problema sério para o regime do dólar. A moeda norte-americana é também uma infraestrutura de coerção. Ela pune, exclui, bloqueia e intimida. Mas coerção excessiva tende a gerar criatividade defensiva. Países passam a buscar pagamentos em moedas locais, fornecedores alternativos, bancos menos expostos à jurisdição dos EUA e mecanismos de liquidação que reduzam vulnerabilidades futuras. Nenhum desses movimentos, sozinho, substitui o dólar. Mas todos eles reduzem, na margem, sua condição de caminho único. E hegemonias monetárias vivem precisamente desse monopólio da inevitabilidade.
A rachadura no bloco atlântico
Há outro ponto menos comentado, mas igualmente relevante: a fadiga dos próprios aliados ocidentais. O dólar não se sustenta apenas em Wall Street ou no Tesouro dos EUA. Sustenta-se também no arranjo político-militar do Atlântico Norte, na confiança dos parceiros estratégicos e na percepção de que a liderança norte-americana ainda oferece mais benefícios do que custos. Essa equação está ficando mais difícil.
A posição da Espanha diante das metas de gasto da OTAN foi reveladora. Pedro Sánchez rejeitou a exigência de elevar o gasto militar a 5% do PIB, classificando essa meta como desproporcional. O gesto revela algo maior do que uma disputa orçamentária: há uma parte crescente da Europa que já não vê com naturalidade a exigência de financiar indefinidamente a escalada militar sob direção norte-americana enquanto escolas, hospitais e bem-estar social ficam comprimidos.
No contexto da guerra com o Irã, esse mal-estar se intensifica. A Itália chegou a defender que a União Europeia considerasse suspender regras fiscais caso a crise persistisse, por causa do impacto econômico e energético. Houve até alerta sobre risco de desabastecimento de combustível de aviação em aeroportos italianos, revertido por fornecedores locais. Isso tudo parece técnico, mas não é. São sinais de que o custo de uma ordem geopolítica centrada em Washington volta a ser pago na vida concreta de sociedades aliadas. E quando esse preço sobe demais, cresce também a tentação de autonomia.
O Irã venceu? Não exatamente. Mas mostrou o limite do poder americano
Seria simplista dizer que o Irã “venceu” apenas porque conseguiu impor custos. Guerras não se reduzem a slogans. O Irã sofreu danos, bombardeios, perda de infraestrutura e segue sob forte pressão internacional. Mas há um ponto incontornável: a tentativa de dobrar Teerã pela força revelou, mais uma vez, que a superioridade militar dos Estados Unidos não se converte automaticamente em capacidade de ordenar resultados políticos, econômicos e diplomáticos duradouros.
Esse é um padrão já conhecido do século XXI. Washington consegue destruir, punir, cercar e bloquear. O que se tornou muito mais difícil é estabilizar, reorganizar e convencer. A distância entre poder militar e poder político aumentou. E essa distância afeta diretamente o dólar, porque a moeda norte-americana depende de uma ecologia geopolítica na qual os EUA não sejam apenas temidos, mas reconhecidos como garantidores de funcionamento sistêmico.
Quando a principal potência do planeta parece capaz de incendiar mais do que de arbitrar, o mundo não abandona sua moeda de imediato. Mas começa a pensar, cada vez mais, em como reduzir dependências futuras. O verdadeiro risco para o dólar não é a substituição rápida por outra moeda milagrosa. O verdadeiro risco é a multiplicação lenta e pragmática de exceções ao seu domínio.
O que precisa ser dito com franqueza
Há exageros retóricos que precisam ser evitados. Não há evidência sólida de que o dólar esteja em colapso iminente. Também não é correto falar em controle jurídico absoluto do Irã sobre Ormuz. A própria ONU, por meio de sua agência marítima, classificou a hipótese de pedágios no estreito como precedente perigoso, e atores do Golfo contestaram a pretensão iraniana de monopólio sobre a passagem.
Mas corrigir os exageros não muda a conclusão central. Ao contrário: deixa a análise mais robusta. Sem precisar apelar para profecias grandiosas, os fatos já bastam. A guerra elevou preços, pressionou inflação, desgastou aliados, tensionou rotas vitais e expôs a dificuldade de Washington em sustentar sua supremacia sem transferir custos crescentes ao restante do mundo. Isso, por si só, já é uma notícia histórica.
O dólar continua no centro. Mas o centro está mais frágil
A grande questão, portanto, não é saber se o dólar cairá amanhã. A questão é outra: quanto tempo o mundo aceitará que a moeda central do sistema continue ancorada em uma potência que produz sanções em escala industrial, multiplica guerras por procuração, pressiona aliados a financiar sua máquina estratégica e transforma gargalos energéticos em instrumentos recorrentes de disputa?
O dólar continua dominante porque não existe, neste momento, um substituto único com a mesma escala, liquidez e profundidade institucional. O renminbi avança, moedas locais ganham espaço marginal, mecanismos alternativos aparecem, mas ninguém ocupa ainda o lugar de Washington. O problema é que a hegemonia já não é o que foi. Ela se tornou mais onerosa, mais coercitiva e menos elegante. Continua forte, porém menos convincente. Continua operacional, porém menos incontestável.
Talvez essa seja a imagem mais correta do presente. O dólar ainda é a grande ponte do sistema global, mas os pilares que a sustentam já mostram sinais visíveis de fadiga. E o mais grave: parte dessa fadiga vem justamente do excesso de peso imposto pela própria estratégia imperial dos Estados Unidos.
Conclusão
A guerra no Irã não destruiu a hegemonia do dólar, mas revelou seu desgaste estrutural. Mostrou que a moeda norte-americana continua poderosa, porém cada vez mais dependente de uma ordem política e militar que já não entrega estabilidade com a mesma eficácia de antes. O Estreito de Ormuz recolocou a geografia no centro da economia mundial e lembrou que moedas hegemônicas não vivem apenas de planilhas, bancos centrais e mercados; vivem também da capacidade de garantir circulação, previsibilidade e disciplina sistêmica. Quando essa capacidade falha, o poder monetário permanece, mas perde densidade histórica.
É esse o ponto decisivo. O século XXI não parece anunciar uma substituição súbita do dólar, e sim o fim da ilusão de sua invulnerabilidade. O mundo ainda gira em torno da moeda dos Estados Unidos, mas já não gira com a mesma fé. Cada guerra que encarece energia, cada sanção que incentiva rotas alternativas, cada aliado que hesita, cada sociedade que paga a conta dessa engrenagem amplia a percepção de que a hegemonia americana segue de pé, porém mais pesada, mais áspera e menos estável. O dólar continua no trono. Mas a guerra no Irã mostrou que o trono já não repousa sobre mármore; repousa sobre uma base tensionada por fissuras geopolíticas, energéticas e sociais que o próprio império insiste em aprofundar.
Referências
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