terça-feira, 2 de junho de 2026

Do Coronelismo Eletrônico ao Leviatã Digital

Como as dinastias políticas brasileiras reinventaram o controle da esfera pública na era das redes sociais


Lide

O Brasil mudou de tecnologia, mudou de Constituição, mudou de sistema eleitoral, criou Justiça Eleitoral, voto secreto, tribunais de contas, Ministério Público, redes sociais e plataformas digitais. Mas uma pergunta incômoda permanece: o poder realmente circula ou apenas troca de sobrenome, linguagem e ferramenta? O documentário As famílias que governam o Brasil, do canal Spotniks, ajuda a iluminar uma permanência histórica: a esfera pública brasileira ainda convive com estruturas patrimoniais que tratam o Estado como extensão da família, a política como herança e a comunicação como instrumento privado de dominação.

A tese deste artigo é direta: o coronelismo brasileiro não desapareceu; ele se modernizou. Saiu da fazenda, entrou na prefeitura; saiu do voto aberto, entrou na dependência administrativa; saiu da rádio local, entrou no algoritmo; saiu do jagunço visível, entrou na microcoerção digital. O velho coronelismo não morreu. Ele aprendeu a usar CNPJ, emenda parlamentar, Tribunal de Contas, concessão de radiodifusão, tráfego pago, WhatsApp, Instagram e TikTok.


1. O Brasil das capitanias que nunca terminaram

Há uma imagem histórica que ajuda a compreender o Brasil profundo: as Capitanias Hereditárias. Em 1534, a Coroa portuguesa dividiu o território colonial em grandes faixas de terra e as entregou a donatários, que passariam poder, território e privilégios por herança. Evidentemente, o Brasil republicano não é mais juridicamente uma colônia organizada por donatários. Mas a lógica simbólica permanece: em várias regiões, o acesso ao Estado, à terra, à mídia, às verbas públicas e à representação política continua mediado por famílias.

Essa é a força do argumento central do documentário. O Brasil formalmente moderno ainda abriga práticas políticas pré-modernas. A Constituição promete impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. A realidade local, porém, muitas vezes entrega sobrenome, compadrio, dependência, medo e silêncio.

Victor Nunes Leal, em Coronelismo, Enxada e Voto, mostrou que o coronelismo não era simplesmente a força bruta do latifundiário. Era uma engrenagem política baseada na fraqueza do Estado municipal, na dependência econômica do eleitor e no pacto entre poder local e poder estadual/nacional (Leal, 2012). A obra é reconhecida como um clássico da interpretação política brasileira.  

O coronel não dominava apenas porque tinha terra. Dominava porque, onde o Estado não chegava, ele chegava. Conseguia médico, caixão, emprego, comida, transporte, proteção. Em troca, cobrava lealdade. A cidadania era substituída pelo favor. O direito virava dívida moral.


2. Coronelismo: quando o favor substitui o direito

O núcleo do coronelismo é simples e perverso: transformar direitos públicos em favores privados. Quando uma família política controla o acesso ao emprego, ao atendimento médico, ao transporte, à creche, à estrada vicinal, à vaga terceirizada ou à nomeação temporária, ela não precisa pedir voto de forma explícita. A dependência fala por si.

O voto secreto e a Justiça Eleitoral reduziram o controle direto do voto. Mas não eliminaram a dependência social que sustenta o voto. A pergunta deixou de ser “em quem você votou?” e passou a ser “quem você curte, quem você defende, quem você evita criticar, quem você não pode desagradar?”.

É aqui que o coronelismo muda de roupa. A fazenda vira grupo empresarial. O curral eleitoral vira base municipal. O cabo eleitoral vira assessor parlamentar. O favor vira emenda. O jagunço vira operador digital. A rádio comunitária capturada vira ecossistema de comunicação. O medo permanece, mas agora com aparência institucional.

O coronelismo, portanto, não deve ser compreendido como folclore político. Ele é uma tecnologia social de dominação. Sua eficiência está justamente na capacidade de se adaptar às instituições modernas sem abandoná-las. Ele não atua necessariamente contra o Estado. Muitas vezes, atua por dentro do Estado.


3. Patrimonialismo: quando o público vira extensão da família

O patrimonialismo é uma chave decisiva para entender esse fenômeno. Em termos simples, patrimonialismo ocorre quando a fronteira entre o patrimônio público e o patrimônio privado se torna confusa. O cargo público passa a ser tratado como posse familiar. A prefeitura vira extensão da casa. A secretaria vira moeda de acomodação. O Tribunal de Contas vira abrigo de aliados. A concessão de rádio e TV vira escudo político.

Essa lógica se manifesta em práticas variadas: nomeação de parentes, controle de verbas, uso de símbolos públicos com sobrenomes familiares, domínio da comunicação local, concentração de contratos e manutenção de redes de dependência.

A Súmula Vinculante nº 13 do Supremo Tribunal Federal veda a nomeação de cônjuge, companheiro ou parente até o terceiro grau para cargos em comissão ou funções de confiança na administração pública direta e indireta, quando configurado nepotismo.   Porém, a discussão sobre cargos políticos e indicações para espaços estratégicos continua sendo uma zona de disputa jurídica e institucional. O próprio STF suspendeu, em abril de 2026, julgamento sobre os limites do nepotismo em cargos políticos do Executivo.  

Essa tensão mostra uma questão central: a lei pode proibir o nepotismo direto, mas as oligarquias frequentemente encontram formas sofisticadas de preservar influência familiar sem violar a regra de maneira evidente.


4. Tribunais de Contas: fiscalização ou blindagem?

Os Tribunais de Contas deveriam funcionar como órgãos de controle da legalidade, economicidade e legitimidade dos gastos públicos. Em tese, são instrumentos republicanos de fiscalização. Na prática, quando conselheiros possuem vínculos familiares fortes com governadores, parlamentares ou oligarquias regionais, surge uma suspeita estrutural: quem fiscaliza o fiscal?

Levantamento do UOL, repercutido pela Transparência Internacional Brasil, apontou que pelo menos 32% dos conselheiros de Tribunais de Contas no país têm parentes na política.   O dado é grave porque essas cortes analisam contas de governos, prefeituras, câmaras, contratos e políticas públicas. Quando o órgão de controle é ocupado por pessoas vinculadas aos próprios grupos controlados, a confiança pública se enfraquece.

Não se trata de afirmar culpa individual automática. O problema é institucional. Mesmo que um conselheiro atue corretamente, a aparência de captura já compromete a legitimidade do sistema. Em democracia, não basta que a fiscalização exista formalmente. Ela precisa ser percebida como independente, técnica e impessoal.


5. Coronelismo eletrônico: a antena como extensão do palanque

O coronelismo eletrônico é a apropriação política de concessões públicas de rádio e televisão por grupos políticos. A Constituição Federal impõe restrições a deputados e senadores quanto à relação com empresas concessionárias de serviço público. O art. 54 estabelece que parlamentares não podem firmar ou manter contrato com pessoa jurídica de direito público ou empresa concessionária de serviço público, salvo em condições específicas de cláusulas uniformes.  

Apesar disso, estudos e reportagens mostram que políticos e famílias políticas historicamente mantiveram influência sobre emissoras por meio de parentes, empresas associadas ou estruturas indiretas. O Ipea registrou que o controle de emissoras por políticos distorce a democracia e afeta direitos como informação, pluralismo político e eleições livres.  

O problema é evidente: rádio e televisão não são negócios comuns. São concessões públicas. Operam sobre um bem público: o espectro eletromagnético. Quando um grupo político controla a principal rádio ou televisão de uma região, ele não controla apenas uma empresa. Controla a visibilidade. Controla a pauta. Controla a reputação. Controla o silêncio.

No interior, onde a imprensa independente é frágil e a dependência econômica é intensa, a emissora local pode funcionar como tribunal informal. Ela absolve aliados pelo silêncio e condena adversários pela exposição seletiva.


6. Agenda-setting: quem controla a pauta controla o mundo percebido

A teoria do agenda-setting ensina que a mídia não diz apenas às pessoas “o que pensar”, mas sobretudo “sobre o que pensar”. Quando uma rádio local ignora uma denúncia, aquele fato desaparece da percepção pública de parte da população. Quando repete diariamente uma narrativa, essa narrativa se naturaliza.

Esse controle é decisivo nos municípios. Greves de professores podem ser apresentadas como “baderna”. Denúncias de corrupção podem ser tratadas como “perseguição”. Obras atrasadas podem virar “problemas técnicos”. Oposição pode virar “inimiga da cidade”. O líder local pode ser narrado como “pai do povo”.

A esfera pública, em sentido habermasiano, pressupõe debate aberto, plural e racional sobre assuntos de interesse comum. Habermas compreende a esfera pública como espaço de formação da opinião por meio do debate público.   Quando a comunicação local é capturada, não há debate público em sentido pleno. Há circulação controlada de versões.


7. Dinastias políticas: o sobrenome como partido informal

As dinastias políticas operam como partidos paralelos. Em muitos municípios, o eleitor não vota apenas em uma proposta; vota em uma linhagem. O sobrenome funciona como marca, memória, identidade e rede de proteção. A família substitui o programa. A lealdade substitui a avaliação.

O estudo Political Dynasties and the Quality of Government, de Bragança, Ferraz e Rios, analisou prefeitos dinásticos no Brasil. Os autores investigaram se políticos pertencentes a famílias com histórico de cargos públicos produzem diferenças na qualidade do governo. O trabalho encontrou evidências de que prefeitos dinásticos recebem mais transferências, gastam mais e realizam mais obras, mas sem produzir melhora proporcional em indicadores como educação, saúde, saneamento ou desenvolvimento local.  

Esse dado é fundamental. O problema das dinastias não é apenas moral ou simbólico. É também administrativo. Elas podem ser eficientes em capturar recursos, mas não necessariamente em transformar recursos em bem-estar coletivo.

Em outras palavras: tiram mais do sistema, mas não entregam mais à sociedade.


8. A prefeitura como máquina de reprodução política

A política municipal brasileira é profundamente dependente de transferências intergovernamentais. Estudos sobre finanças municipais indicam que boa parte da receita dos municípios brasileiros vem de transferências, especialmente federais e estaduais, e não de arrecadação própria.  

Essa dependência cria um ambiente propício ao controle político. Quem domina a ponte entre Brasília, governo estadual e município controla emendas, convênios, obras, máquinas, ambulâncias, ônibus, tratores e contratos. A população vê o recurso público chegar, mas muitas vezes não percebe que aquilo é direito, não favor.

A obra pública, nesse modelo, torna-se linguagem eleitoral. A praça, a ponte, o asfalto e a escola são apresentados como presentes do grupo político, não como resultado de orçamento público financiado pela sociedade.

Esse é o coração simbólico do patrimonialismo: transformar imposto coletivo em gratidão privada.


9. Do rádio ao algoritmo: nasce o Leviatã Digital municipal

A internet foi celebrada como promessa de democratização da palavra. Qualquer cidadão poderia publicar, denunciar, filmar, organizar, contestar. Em parte, isso ocorreu. Mas a história não parou aí. As oligarquias aprenderam rapidamente que a internet também poderia ser capturada.

O novo coronelismo não depende apenas da concessão de rádio. Depende de tráfego pago, impulsionamento, grupos de WhatsApp, páginas locais, influenciadores contratados, perfis anônimos, portais de notícias financiados indiretamente, cortes de vídeo, memes, ataques coordenados e monitoramento de engajamento.

A antena virou algoritmo.

O palanque virou feed.

O curral eleitoral virou bolha digital.

O voto de cabresto virou vigilância de comportamento.

A legislação eleitoral reconhece a relevância do impulsionamento de conteúdo e impõe regras para propaganda na internet. O TSE registra que a propaganda eleitoral digital deve respeitar identificação clara, limites legais e igualdade de oportunidades.   Ainda assim, entre a norma e a prática há um campo amplo de manipulação informal, especialmente antes do período eleitoral oficial.


10. Tráfego pago: a compra silenciosa da visibilidade

No município pequeno ou médio, impulsionar conteúdo digital pode ser barato e extremamente eficiente. Com poucos recursos, um grupo político consegue segmentar eleitores por localização, idade, interesse e comportamento. Se possui dinheiro, equipe e estrutura profissional, consegue ocupar o feed local de modo permanente.

O cidadão pensa que está “vendo o que todo mundo está falando”. Na verdade, muitas vezes está vendo o que alguém pagou para ele ver.

Essa é a nova assimetria democrática. A oposição pode ter argumentos, mas não tem alcance. Pode ter denúncia, mas não tem distribuição. Pode ter razão, mas não tem impulsionamento. O debate público deixa de ser arena de ideias e passa a ser leilão de atenção.

O algoritmo não é neutro. Ele favorece quem produz engajamento, quem paga, quem segmenta melhor, quem domina linguagem de plataforma. Quando uma oligarquia local combina dinheiro público indireto, máquina administrativa, equipe profissional e narrativa emocional, ela transforma a internet em extensão da velha máquina política.


11. Microcoerção digital: o novo voto de cabresto

A coerção contemporânea raramente precisa ser explícita. Em muitos municípios, servidores, contratados, fornecedores e comerciantes sabem exatamente o que podem ou não podem fazer nas redes. Curtir uma postagem da oposição pode gerar desconforto. Compartilhar uma crítica pode fechar portas. Não comparecer a uma live pode ser notado. Não elogiar pode ser interpretado como traição.

A dominação moderna opera pela antecipação do medo.

O servidor se autocensura. O comerciante evita se expor. O professor silencia. O líder comunitário mede palavras. O cidadão comum prefere não “mexer com política”. Assim se cria uma esfera pública amputada: formalmente livre, mas psicologicamente vigiada.

Aqui, a teoria do panóptico ajuda. O controle mais eficiente não é aquele que pune todo mundo o tempo inteiro. É aquele que faz cada pessoa se comportar como se estivesse sendo observada. Nas redes sociais municipais, essa vigilância é amplificada: curtidas, comentários, prints e grupos de WhatsApp produzem um arquivo informal de lealdade.


12. Astroturfing: a falsa multidão organizada

Outro mecanismo decisivo é o astroturfing: a fabricação artificial de apoio popular. O termo designa movimentos aparentemente espontâneos, mas coordenados por interesses políticos, econômicos ou institucionais.

No cotidiano municipal, isso aparece em grupos de WhatsApp hiperlocais, perfis falsos, páginas “independentes”, influenciadores alinhados e ondas coordenadas de comentários. Quando surge uma crítica contra o grupo dominante, a rede é acionada. A denúncia é relativizada. O denunciante vira inimigo. A conversa racional é soterrada por ruído.

O objetivo não é convencer todos. É cansar, intimidar, confundir e deslocar o foco.

O astroturfing local é a versão digital do velho ajuntamento de cabos eleitorais. Só que agora opera em tempo real, com aparência de opinião pública espontânea.


13. Rebranding oligárquico: o herdeiro como “gestor moderno”

As dinastias aprenderam que a imagem do coronel truculento envelheceu. O herdeiro contemporâneo precisa parecer técnico, jovem, eficiente, digital, simpático, empreendedor. Usa camisa social sem gravata, grava vídeos curtos, fala em inovação, gestão, tecnologia, empreendedorismo, “nova política”.

Mas a pergunta central permanece: o que mudou na estrutura?

Se o sobrenome continua abrindo portas, se a máquina pública continua servindo à reprodução familiar, se a mídia local continua blindando o grupo, se as emendas continuam alimentando redutos, se os cargos continuam distribuídos por lealdade, então a estética mudou, mas a lógica permaneceu.

A modernidade visual pode ser apenas maquiagem do atraso institucional.


14. Clãs territoriais e clãs ideológicos

O documentário propõe uma distinção importante: as oligarquias clássicas são territoriais; já alguns grupos contemporâneos funcionam como clãs ideológicos. No primeiro caso, o poder se ancora em terra, prefeitura, mídia local, família e domínio regional. No segundo, organiza-se em torno de identidade moral, redes digitais, mobilização afetiva e pertencimento ideológico.

Essa distinção é útil porque mostra que a dinastia política não depende mais apenas de território. Um clã pode ser nacionalizado por meio das redes. Pode formar comunidade política sem continuidade geográfica. Pode eleger membros em diferentes estados, desde que consiga converter identidade ideológica em capital eleitoral.

Esse modelo é compatível com a política de plataforma: menos partido, mais marca; menos programa, mais emoção; menos território, mais rede; menos mediação institucional, mais engajamento direto.


15. A esfera pública sufocada

O resultado de todos esses mecanismos é a asfixia da esfera pública. Uma democracia não vive apenas de eleições periódicas. Vive de debate livre, imprensa plural, fiscalização independente, alternância possível, transparência e coragem cívica.

Quando famílias controlam comunicação, orçamento, cargos, tribunais, símbolos públicos e redes digitais, a eleição continua existindo, mas a competição se torna desigual. A urna permanece, mas a formação da vontade popular chega contaminada por dependência, medo, saturação narrativa e manipulação emocional.

A questão, portanto, não é negar a legitimidade do voto. É perguntar em que condições sociais, informacionais e institucionais esse voto é formado.

Democracia sem pluralidade informacional vira ritual.

Eleição sem igualdade mínima de voz vira homologação.

Esfera pública sem proteção contra abuso econômico vira vitrine do mais forte.


16. O desafio institucional: como enfrentar o novo coronelismo?

Não existe solução simples. Mas alguns caminhos são indispensáveis.

Primeiro, é necessário fortalecer a transparência sobre gastos digitais de campanha e pré-campanha. O tráfego pago precisa ser rastreável, auditável e compreensível para o cidadão.

Segundo, concessões públicas de rádio e TV devem ser fiscalizadas com rigor, especialmente quando houver influência direta ou indireta de agentes políticos. O art. 54 da Constituição não pode ser tratado como enfeite normativo.

Terceiro, Tribunais de Contas precisam de critérios mais republicanos de escolha, com barreiras robustas contra aparelhamento familiar e político.

Quarto, a publicidade institucional municipal deve ser submetida a critérios técnicos, impedindo seu uso como prêmio a aliados e punição a veículos independentes.

Quinto, servidores públicos, professores, comerciantes e cidadãos precisam de proteção contra coerção política, inclusive no ambiente digital.

Sexto, a educação midiática deve ser tratada como política pública. Sem capacidade crítica, a população se torna refém da narrativa mais cara, mais agressiva ou mais repetida.


Conclusão: o coronelismo não morreu; ele aprendeu a parecer moderno

O Brasil não será plenamente republicano enquanto a esfera pública continuar capturada por sobrenomes, concessões, favores, medos e algoritmos. O problema das dinastias políticas não está apenas no fato de filhos sucederem pais. Em uma democracia, parentes de políticos podem disputar eleições como qualquer cidadão. O problema começa quando a sucessão familiar se apoia em assimetria estrutural: controle de mídia, dependência econômica, acesso privilegiado ao orçamento, aparelhamento institucional e sufocamento da oposição.

O coronelismo brasileiro atravessou o século XX porque soube se adaptar. Agora atravessa o século XXI porque aprendeu a falar a língua das plataformas. A velha capitania hereditária não precisa mais de sesmaria. Precisa de dados, impulsionamento, rede de influência, cargo estratégico, concessão pública e narrativa emocional.

A democracia brasileira não será defendida apenas com urnas. Será defendida com pluralidade informacional, instituições impessoais, fiscalização independente, liberdade real de crítica e coragem para romper a naturalização do poder hereditário.

No fundo, a pergunta decisiva é esta: o Estado brasileiro pertence ao povo ou continua sendo administrado como inventário de família?


5 pontos centrais do artigo

  1. O coronelismo não desapareceu; ele se modernizou institucional e digitalmente.
  2. Dinastias políticas funcionam como partidos informais baseados em sobrenome, dependência e memória local.
  3. O coronelismo eletrônico captura a esfera pública ao controlar rádio, TV e narrativas regionais.
  4. As redes sociais não eliminaram o poder oligárquico; muitas vezes ampliaram sua capacidade de vigilância e manipulação.
  5. A defesa democrática exige transparência, regulação, educação midiática e fortalecimento das instituições de controle.


Perguntas frequentes

1. Toda família com vários políticos é necessariamente uma oligarquia?
Não. O problema não é o parentesco em si, mas o uso de estrutura pública, mídia, orçamento e dependência social para manter poder hereditário.

2. O coronelismo ainda existe no Brasil?
Sim, mas em formas modernizadas. Ele pode aparecer em emendas, cargos, contratos, concessões de mídia, redes sociais e dependência administrativa.

3. O que é coronelismo eletrônico?
É o controle direto ou indireto de rádios e TVs por grupos políticos, usando concessões públicas para influenciar a opinião pública e proteger interesses eleitorais.

4. As redes sociais democratizaram a política local?
Parcialmente. Elas ampliaram vozes, mas também permitiram novas formas de manipulação por tráfego pago, vigilância, desinformação e ataques coordenados.

5. Como combater esse fenômeno?
Com transparência, fiscalização de concessões, controle do abuso econômico digital, proteção contra coerção política e fortalecimento da imprensa independente.


Referências

BRAGANÇA, Arthur; FERRAZ, Claudio; RIOS, Juan. Political dynasties and the quality of government. Stanford University, 2015.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

CASTELLS, Manuel. Ruína e reconstrução da política: a crise da democracia liberal. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações sobre uma categoria da sociedade burguesa. São Paulo: Editora Unesp, 1997.

LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 7. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL BRASIL. A Grande Família: casos de nepotismo nos Tribunais de Contas. 2026.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.


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