Uma leitura histórico-estrutural da industrialização tardia, da fragilidade institucional e dos dilemas contemporâneos da inovação
Resumo
Este artigo analisa criticamente o diagnóstico de Maria da Conceição Tavares acerca do desenvolvimento brasileiro, tomando como eixo interpretativo sua reflexão sobre industrialização tardia, endividamento estatal, fragilidade institucional e baixa propensão sistêmica do empresariado à inovação. O problema de pesquisa que orienta o estudo é o seguinte: em que medida a interpretação tavaresiana sobre o Estado, o progresso técnico e a heterogeneidade estrutural continua explicativa para compreender os impasses contemporâneos da modernização brasileira, especialmente no contexto da digitalização e da inteligência artificial? O objetivo geral consiste em reconstruir e atualizar esse diagnóstico, articulando-o ao debate estruturalista latino-americano e às transformações recentes da economia brasileira. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, ancorada em leitura interpretativa de obras de Maria da Conceição Tavares e Celso Furtado, em diálogo com literatura especializada e com indicadores recentes de inovação e produção industrial. Sustenta-se que a atualidade do pensamento de Tavares decorre do fato de que o Brasil segue preso a uma modernização incompleta: amplia repertórios técnicos e incorpora tecnologias avançadas, mas não consolida, na mesma medida, capacidade estatal coordenadora, densidade inovativa sistêmica e autonomia produtiva. Conclui-se que os desafios da economia digital não substituem os bloqueios históricos do desenvolvimento brasileiro; antes, os reconfiguram sob formas mais sofisticadas de dependência.
Palavras-chave: Maria da Conceição Tavares; desenvolvimento brasileiro; industrialização tardia; inovação; Estado; dependência.
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Abstract
This article critically examines Maria da Conceição Tavares’s diagnosis of Brazilian development, focusing on her reflections on late industrialization, public indebtedness, institutional fragility, and the business sector’s weak systemic commitment to innovation. The research problem guiding the study is: to what extent does Tavares’s interpretation of the State, technical progress, and structural heterogeneity remain analytically relevant for understanding the contemporary deadlocks of Brazilian modernization, particularly in the context of digitalization and artificial intelligence? The general objective is to reconstruct and update this diagnosis, connecting it to the Latin American structuralist tradition and to recent transformations in the Brazilian economy. Methodologically, this is a qualitative, bibliographic, and documentary study based on an interpretive reading of works by Maria da Conceição Tavares and Celso Furtado, in dialogue with specialized scholarship and recent indicators on innovation and industrial production. The article argues that Tavares’s thought remains highly relevant because Brazil continues to be trapped in an incomplete modernization process: it expands technical repertoires and adopts advanced technologies, yet fails to consolidate, at the same pace, coordinating state capacity, systemic innovative density, and productive autonomy. The conclusion is that the challenges of the digital economy do not replace the historical obstacles to Brazilian development; rather, they reconfigure them into more sophisticated forms of dependence.
Keywords: Maria da Conceição Tavares; Brazilian development; late industrialization; innovation; State; dependency.
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1 Introdução
Poucos intérpretes do Brasil conseguiram combinar densidade teórica, senso histórico e capacidade de formulação crítica com a potência intelectual de Maria da Conceição Tavares. Sua obra não apenas interpretou fases da economia brasileira; ela decifrou a lógica contraditória de uma modernização que ampliou a complexidade material do país sem estabilizar, na mesma proporção, autonomia tecnológica, coordenação institucional e capacidade de transformação social abrangente. Em Acumulação de capital e industrialização no Brasil, Tavares formulou uma leitura histórica da industrialização tardia brasileira como processo atravessado por dependência, heterogeneidade e assimetria estrutural, recusando explicações lineares ou evolucionistas sobre o desenvolvimento periférico (Tavares, 1998).
O ponto de partida deste artigo é que a atualidade de Tavares não reside em um mero valor memorialístico. Ao contrário, sua interpretação continua fecunda porque ajuda a compreender o presente. O Brasil ainda convive com baixa intensidade relativa de investimento em pesquisa e desenvolvimento quando comparado a economias tecnologicamente mais densas. No dado mais recente reportado pelo Banco Mundial, o dispêndio em P&D correspondeu a 1,15% do PIB no Brasil, enquanto a Coreia do Sul atingiu 4,96% do PIB. Essa diferença não é apenas numérica: ela remete a formas distintas de articulação entre Estado, sistema de pesquisa e setor produtivo.
Ao mesmo tempo, os dados mais recentes do IBGE mostram um quadro ambivalente. Em 2024, a taxa de inovação das empresas industriais brasileiras com 100 ou mais pessoas ocupadas caiu para 64,4%, terceira queda consecutiva da série iniciada em 2021. Ainda assim, o uso de tecnologias digitais avançadas se ampliou, e a adoção de inteligência artificial nas empresas industriais desse grupo saltou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024. Em paralelo, a indústria nacional fechou 2025 com crescimento de 0,6%, mas seguia abaixo do pico observado em 2011. O país, portanto, move-se, moderniza segmentos e incorpora novas ferramentas, mas o faz sem evidência equivalente de reconstrução estrutural ampla.
1.1 Problema de pesquisa
O problema de pesquisa que orienta este estudo pode ser formulado nos seguintes termos: em que medida a interpretação de Maria da Conceição Tavares sobre o Estado, o progresso técnico, a industrialização tardia e a heterogeneidade estrutural continua explicativa para compreender os impasses contemporâneos da modernização brasileira, especialmente no cenário da economia digital e da inteligência artificial?
1.2 Objetivo geral
O objetivo geral consiste em reconstruir e atualizar criticamente o diagnóstico tavaresiano sobre o desenvolvimento brasileiro, articulando-o ao debate estruturalista latino-americano e às transformações recentes da economia nacional, com ênfase na relação entre Estado, inovação, empresariado e soberania tecnológica.
1.3 Tese do artigo
A tese defendida é que o Brasil permanece preso a uma modernização incompleta. O país incorporou infraestrutura, indústria, conhecimento técnico e, mais recentemente, ferramentas digitais avançadas; contudo, não consolidou, na mesma intensidade, um arranjo durável de capacidade estatal coordenadora, densidade inovativa sistêmica e compromisso empresarial amplo com a transformação produtiva. Em consequência, a modernização brasileira tende a reaparecer como atualização dependente, e não como conversão estável da técnica em projeto nacional de desenvolvimento. Essa leitura é coerente com a fortuna crítica sobre Tavares e com releituras contemporâneas do subdesenvolvimento em Celso Furtado.
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2 Metodologia
Este estudo caracteriza-se como pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, orientada por uma abordagem histórico-estrutural. O procedimento metodológico central consistiu na leitura interpretativa de obras de Maria da Conceição Tavares, com destaque para Acumulação de capital e industrialização no Brasil, articulada a textos de Celso Furtado e a contribuições analíticas sobre ambos os autores. Complementarmente, foram examinados documentos e estudos históricos sobre o papel do BNDES e do II Plano Nacional de Desenvolvimento, bem como indicadores recentes de inovação e produção industrial divulgados por órgãos oficiais.
Do ponto de vista analítico, a pesquisa combina três movimentos. O primeiro é reconstrutivo, pois busca explicitar o núcleo conceitual da interpretação tavaresiana. O segundo é relacional, já que coloca esse núcleo em diálogo com a tradição estruturalista latino-americana, sobretudo com Celso Furtado. O terceiro é atualizador, uma vez que confronta esse repertório teórico com evidências contemporâneas relativas à inovação, à desindustrialização e à digitalização. Não se trata, portanto, de estudo empírico-experimental, mas de investigação interpretativa fundada em triangulação entre teoria clássica, documentação histórica e indicadores recentes.
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3 O núcleo do diagnóstico de Maria da Conceição Tavares
A força do pensamento de Tavares está em recusar leituras superficiais do desenvolvimento brasileiro. Em vez de reduzir o problema a “falta de modernidade” ou “escassez de mercado”, sua análise mostra que a industrialização nacional foi historicamente impulsionada por uma combinação específica de ação estatal, acumulação dependente e heterogeneidade produtiva. O Estado brasileiro, sobretudo entre as décadas de 1950 e 1970, assumiu a responsabilidade por tarefas estruturantes: expansão de infraestrutura, formação de setores de base, integração material do território e suporte ao aprofundamento industrial. Em sua obra, Tavares interpreta esse movimento como expressão da própria lógica da industrialização tardia em uma economia periférica (Tavares, 1998).
Nessa moldura, o endividamento público não aparece como mera imprudência fiscal. Ele surge como mecanismo histórico de viabilização de um salto industrial que a burguesia interna, isoladamente, não possuía condições de liderar de forma suficiente. O drama, porém, estava na forma dessa construção. Ao recorrer intensamente ao financiamento externo, o Estado brasileiro ampliava sua capacidade de intervenção, mas também aprofundava sua vulnerabilidade aos ciclos internacionais de juros, crédito e liquidez. Essa ambivalência torna-se central em Tavares: a mesma estratégia que constrói também expõe; a mesma via que amplia capacidade pode produzir fragilidade futura.
Outro eixo decisivo do diagnóstico é a percepção de que o Brasil tentou completar a segunda revolução industrial quando a fronteira dinâmica do capitalismo já se deslocava para formas produtivas mais flexíveis, articuladas à eletrônica, à integração tecnológica e à crescente centralidade do conhecimento. O problema, portanto, não era apenas “chegar tarde”, mas chegar de modo estruturalmente incompleto. Sem base suficientemente consolidada de ciência, tecnologia e coordenação produtiva, a passagem para novos paradigmas técnicos tornou-se irregular, dependente e seletiva. Essa leitura é reiterada por estudos sobre a economia política de Tavares, que destacam a centralidade do investimento, da demanda efetiva e da estrutura de acumulação em sua interpretação da industrialização brasileira.
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4 Estado desenvolvimentista, II PND e crise da dívida
A crítica de Tavares ganha pleno sentido quando inscrita no longo ciclo do desenvolvimentismo brasileiro. Desde os anos 1950, o país organizou parte substancial de sua transformação econômica por meio de forte protagonismo estatal. O BNDES ocupou papel central nesse processo, financiando infraestrutura, energia, indústria de base e investimentos de longo prazo associados à expansão da capacidade produtiva nacional. A documentação histórica do próprio Banco é convergente ao reconhecer sua importância para a estruturação material do país, do Plano de Metas às etapas posteriores de aprofundamento industrial.
O II Plano Nacional de Desenvolvimento, lançado em 1974, representou um dos momentos mais ambiciosos desse projeto. Segundo a reconstrução histórica apresentada em obras do BNDES, o II PND constituiu resposta ao primeiro choque do petróleo, priorizando ampliação da capacidade energética, insumos básicos e bens de capital, em um esforço de modificação estrutural da economia brasileira comparável, em envergadura, ao Plano de Metas. Essa estratégia de “marcha forçada” produziu densificação industrial real e consolidou segmentos importantes da indústria pesada.
Seria analiticamente pobre negar essas conquistas. O problema não está em afirmar que “nada foi feito”, mas em reconhecer que a forma da expansão carregava um princípio de instabilidade. Como a poupança doméstica era insuficiente para sustentar sozinha aquele esforço, o financiamento externo tornou-se componente decisivo. Enquanto a liquidez internacional favorecia o endividamento, a estratégia parecia exequível. Mas a elevação dos juros internacionais no fim dos anos 1970 transformou rapidamente a alavanca financeira em vetor de crise. O que se seguiu foi compressão fiscal, inflação elevada, ajuste macroeconômico e erosão da capacidade de investimento estatal.
É justamente aqui que Tavares oferece uma interpretação mais rica do que as leituras binárias entre êxito e fracasso. O II PND não foi simples erro, nem simples triunfo. Foi um esforço histórico real de construção de capacidade industrial, realizado sob condições de dependência financeira que limitaram sua sustentação de longo prazo. O ponto crucial é esse: a industrialização brasileira ampliou a complexidade do país, mas não conseguiu estabilizar, em bases soberanas, a coordenação que a tornaria duradoura. A crise da dívida revelou a face mais dura dessa modernização sob tutela financeira.
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5 Empresariado, heterogeneidade estrutural e inovação insuficiente
Um dos méritos mais agudos de Tavares está em deslocar o foco da crítica exclusivamente estatal. O problema brasileiro não pode ser explicado apenas pela insuficiência ou pela crise do Estado; ele envolve também a forma histórica de constituição do empresariado nacional. Tavares insistiu na heterogeneidade dessa classe, marcada por diferenças de origem, capitalização, inserção internacional, cultura econômica e horizonte estratégico. Em lugar de uma burguesia amplamente convergente em torno da inovação e da transformação produtiva, consolidou-se um mosaico de agentes com comportamentos muito distintos, frequentemente incapazes de sustentar projeto tecnológico compartilhado. Essa interpretação aparece de forma recorrente na fortuna crítica sobre sua obra.
Essa heterogeneidade tem consequências práticas. Ela ajuda a explicar por que a modernização brasileira se fez por “ilhas de excelência”, sem difusão sistêmica suficientemente robusta. Há, no país, empresas e segmentos notáveis, tecnicamente sofisticados e internacionalmente competitivos. Mas há também vastas zonas empresariais de baixa densidade tecnológica, fortemente dependentes de proteção, crédito subsidiado, renda financeira ou estratégias de curto prazo. O resultado é uma modernização desigual, que convive com atraso persistente e não se converte em tecido produtivo nacional coeso.
Os dados recentes do IBGE reforçam a atualidade desse problema. Em 2024, a taxa de inovação das empresas industriais com 100 ou mais pessoas ocupadas caiu para 64,4%, o menor patamar da série iniciada em 2021. Ao mesmo tempo, a adoção de inteligência artificial cresceu de maneira expressiva, saltando de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024. Há aí um dado revelador: o país incorpora tecnologias digitais em ritmo acelerado, mas isso não se traduz automaticamente em fortalecimento estrutural do sistema inovativo. Adoção tecnológica e autonomia inovadora não são sinônimos.
A comparação internacional aprofunda o contraste. A distância entre Brasil e Coreia do Sul em dispêndio relativo em P&D indica formas distintas de articulação entre Estado, empresas e sistema científico. Quando o esforço de pesquisa permanece relativamente baixo e a inovação se concentra mais na absorção de tecnologias prontas do que na geração endógena de capacidades, o risco é cristalizar modernização dependente. Usa-se tecnologia, mas não se comanda tecnologia; opera-se a inovação, mas não se consolida soberania sobre seus fundamentos.
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6 Maria da Conceição Tavares e Celso Furtado: convergências estruturais
O diálogo entre Tavares e Celso Furtado amplia a inteligibilidade do problema. Embora partam de ênfases distintas, ambos recusam a ideia de que o subdesenvolvimento seja apenas atraso cronológico em relação às economias centrais. Em Furtado, o subdesenvolvimento aparece como estrutura histórica própria, derivada de inserção desigual no capitalismo mundial e marcada por heterogeneidade produtiva, concentração de renda e padrões imitativos de consumo. Em releituras contemporâneas de sua obra, essa compreensão continua central para pensar o Brasil.
Tavares converge com essa perspectiva ao mostrar que a industrialização brasileira não dissolve automaticamente a dependência; muitas vezes, ela a reconfigura. Há crescimento, diversificação e adensamento produtivo, mas sem ruptura plena com a vulnerabilidade externa, a desigualdade estrutural e a insuficiência inovativa. Isso faz de sua obra uma interpretação da modernização periférica não como simples processo inacabado, mas como processo contraditório, em que construção e limitação se interpenetram.
O conceito furtadiano de mimetismo de consumo ajuda a iluminar um aspecto importante da crítica tavaresiana ao empresariado. Em economias periféricas, as elites tendem a reproduzir padrões simbólicos e materiais das sociedades centrais antes de consolidar base produtiva equivalente. Isso realimenta dependências externas e enfraquece a transformação do excedente em investimento produtivo de longo prazo. Sem recorrer ao mesmo vocabulário, Tavares observa fenômeno semelhante ao denunciar a distância entre consumo de modernidade e compromisso efetivo com modernização tecnológica. Releituras recentes de Furtado têm insistido justamente na conexão entre excedente, estrutura social e bloqueios históricos ao desenvolvimento.
A aproximação entre ambos, portanto, não é apenas bibliográfica. Ela é substantiva. Furtado e Tavares ajudam a compreender que o problema brasileiro está menos em “não ter crescido o bastante” e mais em ter crescido de modo estruturalmente deformado: com modernização restrita, difusão desigual do progresso técnico e persistente dificuldade de converter capacidade material em projeto nacional de longo prazo.
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7 Da desindustrialização precoce à dependência digital
Se a obra de Tavares ajuda a interpretar a industrialização tardia, ela também fornece chaves para compreender o esvaziamento posterior dessa trajetória. Parte relevante da literatura do Ipea sustenta a tese de que o Brasil experimentou desindustrialização precoce, isto é, perda de participação relativa da indústria de transformação em momento em que a renda per capita ainda era modesta e a estrutura produtiva não havia alcançado o nível de complexidade típico das economias desenvolvidas. Tal processo compromete encadeamentos produtivos, difusão tecnológica e capacidade de absorver ganhos de produtividade de forma ampla.
Os dados mais recentes do IBGE confirmam que o problema não foi simplesmente superado. Embora a indústria tenha crescido 0,6% em 2025, após 3,1% em 2024, a produção seguia abaixo do pico registrado em 2011. Isso significa que há recuperação conjuntural, mas não recomposição estrutural plena da capacidade industrial perdida. A economia brasileira continua operando sobre um piso produtivo rebaixado, o que limita sua capacidade de transformar inovação em adensamento industrial mais abrangente.
No século XXI, esse quadro se reconfigura sob a forma de dependência digital. Se a dependência do século XX estava fortemente associada a máquinas, financiamento externo e tecnologia industrial importada, a atual envolve dados, semicondutores, plataformas, infraestrutura de nuvem, modelos algorítmicos e capacidade computacional. O ponto crucial é que a digitalização pode renovar a dependência sob aparência de modernização. Um país pode digitalizar processos, adotar IA e ampliar automação sem deter, por isso, massa crítica própria em ciência, engenharia, software avançado, regulação e produção de conhecimento estratégico.
É precisamente aí que a leitura de Tavares mantém sua atualidade. O problema não é simplesmente acessar a nova onda tecnológica; é fazê-lo em condições de coordenação soberana. Uma economia periférica pode consumir tecnologias avançadas e, ainda assim, aprofundar sua subordinação se não controlar de forma mais robusta as bases materiais, cognitivas e institucionais de sua produção e uso. Em linguagem direta: a técnica pode circular; a soberania, não necessariamente.
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8 Inteligência artificial, capacidade estatal e coordenação estratégica
A ascensão da inteligência artificial tornou ainda mais visível o núcleo do problema brasileiro. A nova fronteira tecnológica não reduz a importância do Estado; ela a intensifica. Em economias periféricas, a incorporação significativa de IA depende de infraestrutura digital, governança de dados, sistema de pesquisa, formação científica, poder regulatório e articulação entre conhecimento e produção. Sem isso, a difusão tecnológica tende a ocorrer de forma segmentada, subordinada e pouco transformadora.
Os dados do IBGE sobre a expansão do uso de IA na indústria brasileira são relevantes e mostram disposição empresarial de adoção. No entanto, eles não autorizam, por si, a conclusão de que o país esteja consolidando soberania tecnológica. A expansão no uso pode refletir mais ampliação do acesso a soluções prontas do que fortalecimento endógeno de ecossistemas nacionais robustos de inteligência artificial. Trata-se de diferença decisiva: operar tecnologia não equivale a comandar tecnologia.
Nesse cenário, a capacidade estatal volta ao centro do debate. O Estado pode atuar por meio de financiamento à pesquisa, compras públicas tecnológicas, fortalecimento de universidades e institutos, regulação de dados, integração entre sistemas e promoção de ambientes de inovação orientados ao interesse público. Mas tudo isso exige continuidade institucional, coordenação intersetorial e densidade estratégica. Quando prevalece a fragmentação decisória — a “balcanização” denunciada por Tavares — a tecnologia corre o risco de ser incorporada de forma dispersa, sem produzir transformação estrutural.
Ao mesmo tempo, seria equivocado desqualificar o potencial administrativo dessas ferramentas. Tecnologias de análise de dados, rastreabilidade, automação e detecção de anomalias podem contribuir para maior transparência, melhor monitoramento e redução de assimetrias informacionais na gestão pública. A questão é que sua eficácia depende de arquitetura institucional, controle democrático e finalidade estratégica. Sem esses elementos, a técnica pode apenas sofisticar rotinas sem alterar os bloqueios de fundo. A lição de Tavares permanece, portanto, rigorosamente válida: modernização técnica, desacompanhada de projeto nacional e institucionalidade robusta, tende a reproduzir dependência em forma atualizada.
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9 Conclusão
A releitura de Maria da Conceição Tavares realizada neste artigo permite afirmar que sua interpretação do desenvolvimento brasileiro conserva elevada potência explicativa. O Brasil não se encontra diante de um simples déficit de inovação, de um atraso conjuntural ou de uma insuficiência pontual de políticas públicas. O que se observa é uma configuração histórica mais profunda, marcada por industrialização dependente, endividamento estatal, heterogeneidade empresarial, fragilidade da coordenação pública e dificuldade persistente de converter técnica em soberania.
A contribuição de Tavares permanece decisiva porque recusa os atalhos intelectuais mais comuns. Ela não transforma o Estado em vilão abstrato, nem idealiza o mercado como solução espontânea. Também não supõe que o progresso técnico, por si só, dissolva desigualdade, dependência e fragmentação. Sua obra mostra que o desenvolvimento exige articulação histórica entre capacidade estatal, estrutura produtiva, sistema científico e horizonte coletivo de transformação. Quando essa articulação falha, a modernização ocorre, mas de forma truncada, desigual e vulnerável.
O presente confirma esse diagnóstico. O país amplia o uso de inteligência artificial, reage industrialmente em alguns momentos e preserva nichos sofisticados de competência. Ainda assim, mantém investimento relativamente baixo em P&D quando comparado a economias mais densas, registra queda recente na taxa de inovação industrial e continua operando com base produtiva fragilizada em relação ao seu próprio passado recente. Não se trata de ausência de movimento, mas de movimento sem ruptura estrutural suficiente.
Em última instância, a atualidade de Tavares reside em lembrar que desenvolvimento nacional não é coleção de ferramentas, obras ou indicadores dispersos. Desenvolvimento é capacidade histórica de coordenar técnica, produção, Estado e sociedade em torno de um projeto compartilhado. Sem essa coordenação, a modernização brasileira tende a continuar oscilando entre avanço parcial e dependência renovada.
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Referências
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