quarta-feira, 3 de junho de 2026

A burocracia da obediência: como carreirismo, medo e mediocridade sustentam regimes autoritários

Ditaduras não se mantêm apenas por ditadores: elas dependem de funcionários comuns, ambições pequenas, instituições capturadas e carreiras construídas sobre a renúncia moral.


Lide

A tese é incômoda porque desloca o olhar do tirano para o funcionário. Uma ditadura não sobrevive apenas pela vontade de um líder brutal, pela força de generais ou pelo delírio de fanáticos ideológicos. Ela precisa de gente comum operando a máquina: servidores, militares, policiais, burocratas, técnicos, juízes, informantes e agentes intermediários que transformam ordens políticas em procedimentos administrativos. A pesquisa de Adam Scharpf e Christian Gläßel sobre a ditadura argentina mostra que muitos agentes da repressão não eram necessariamente extremistas, mas profissionais de desempenho mediano, pressionados por carreiras estagnadas e seduzidos pela possibilidade de promoção em estruturas autoritárias. A notícia publicada pelo InfoMoney, a partir de reportagem de Amanda Taub para o The New York Times, é verdadeira e está fundamentada em pesquisa acadêmica publicada no American Journal of Political Science e no livro Making a Career in Dictatorship, da Oxford University Press.  

Sumário

  1. A notícia e sua veracidade
  2. A tese central: nenhum autocrata governa sozinho
  3. Como funciona o sistema autoritário por dentro
  4. Carreira, medo e promoção: a engrenagem invisível da repressão
  5. A banalidade do mal e o funcionário obediente
  6. A ditadura argentina como laboratório político
  7. O autoritarismo como organização de incentivos
  8. O risco para as democracias contemporâneas
  9. Conclusão crítica
  10. Referências


1. A notícia e sua veracidade

A notícia é verdadeira. O texto divulgado pelo InfoMoney foi publicado em 21 de maio de 2026, na editoria internacional, com o título “Ditaduras são sustentadas por profissionais medianos em busca de promoção, diz estudo”, assinado por Amanda Taub, do The New York Times. A matéria apresenta os achados de uma pesquisa sobre a ditadura argentina e sobre o papel de agentes intermediários na sustentação de regimes autoritários.  

O fundamento acadêmico principal é o livro Making a Career in Dictatorship: The Secret Logic behind Repression and Coups, de Christian Gläßel e Adam Scharpf, publicado pela Oxford University Press. A obra analisa como pressões de carreira, incentivos institucionais e oportunidades de ascensão ajudam a explicar por que indivíduos de baixo desempenho podem se engajar em aparelhos repressivos de regimes autoritários.  

Essa tese também aparece no artigo “Why Underachievers Dominate Secret Police Organizations: Evidence from Autocratic Argentina”, publicado no American Journal of Political Science, em 2020. O estudo examinou dados de 4.287 oficiais que serviram na Argentina autoritária entre 1975 e 1983 e concluiu que oficiais com baixo desempenho estavam mais propensos a ingressar na polícia secreta porque enfrentavam bloqueios na carreira, risco de desligamento e poucas chances de promoção pelas vias tradicionais.  

Portanto, a notícia não é boato, não é interpretação solta de rede social e não é opinião sem base empírica. Trata-se de uma reportagem jornalística baseada em pesquisa acadêmica reconhecida.


2. A tese central: nenhum autocrata governa sozinho

A imagem clássica da ditadura costuma concentrar tudo no ditador. O líder aparece como centro absoluto da violência política. É ele quem grita, ameaça, persegue, ordena, concentra poder e destrói instituições. Essa imagem não está errada, mas é incompleta.

Nenhum autocrata governa sozinho.

Para que um regime autoritário funcione, é necessário um ecossistema inteiro de colaboração. Há quem escreva o decreto. Há quem classifique o opositor como inimigo. Há quem organize listas. Há quem vigie. Há quem interrogue. Há quem julgue de forma parcial. Há quem arquive denúncias. Há quem promova os leais. Há quem puna os independentes. Há quem diga, no fim do expediente, que apenas “cumpriu ordens”.

É aí que o problema se torna mais grave. O autoritarismo não se sustenta apenas pela brutalidade visível, mas pela normalidade administrativa. A violência política precisa se tornar rotina. Precisa entrar no fluxo do trabalho. Precisa parecer procedimento.

A ditadura, portanto, não é apenas um governo de exceção. É também uma tecnologia organizacional. Ela transforma pessoas comuns em operadores do abuso. E faz isso por meio de incentivos muito conhecidos: medo, promoção, prestígio, estabilidade, proteção, pertencimento e obediência.


3. Como funciona o sistema autoritário por dentro

Um regime autoritário costuma operar por três camadas articuladas.

A primeira camada é a camada de comando. Nela estão os líderes políticos, militares ou partidários que definem os inimigos, estabelecem a narrativa oficial e autorizam a repressão. Essa camada produz a linguagem do regime: “ordem”, “segurança”, “pátria”, “inimigo interno”, “ameaça”, “subversão”, “limpeza”, “defesa nacional”.

A segunda camada é a camada institucional. Nela estão ministérios, forças de segurança, tribunais, órgãos de inteligência, administrações públicas, empresas estatais, repartições e estruturas legais. Essa camada transforma a vontade política em norma, circular, despacho, relatório, investigação, processo, sentença e operação.

A terceira camada é a camada operacional. Nela estão os agentes intermediários: policiais, oficiais, escrivães, técnicos, burocratas, funcionários administrativos, informantes, supervisores e gestores. São esses indivíduos que fazem a máquina se mover no cotidiano.

A pesquisa de Scharpf e Gläßel interessa justamente porque ilumina essa terceira camada. O foco não está apenas no ditador, mas no funcionário que faz o sistema funcionar. A pergunta muda: não apenas “por que líderes autoritários reprimem?”, mas “por que tantos agentes aceitam participar da repressão?”.

A resposta encontrada pelos autores é desconfortável: muitas vezes, não se trata de convicção ideológica profunda. Trata-se de carreira.


4. Carreira, medo e promoção: a engrenagem invisível da repressão

O ponto mais forte da pesquisa é mostrar que o autoritarismo cria um mercado interno de lealdade.

Em organizações hierárquicas, indivíduos com baixo desempenho tendem a enfrentar limites claros. Eles não conseguem ascender pelos critérios tradicionais. Ficam presos em postos intermediários. Perdem acesso a cursos avançados. Passam a ser vistos como descartáveis. Podem ser ameaçados de desligamento.

Nesse contexto, o aparelho repressivo aparece como uma oportunidade. O agente que não se destaca pela competência pode tentar se destacar pela obediência. O profissional mediano pode oferecer ao regime aquilo que o regime mais valoriza: disposição para fazer o trabalho moralmente sujo.

É uma troca perversa. O regime oferece promoção, proteção e pertencimento. O agente oferece lealdade, silêncio e ação.

Scharpf e Gläßel mostram que, no caso argentino, oficiais de baixo desempenho tinham maior probabilidade de ingressar na polícia secreta. Esses agentes estavam bloqueados na carreira e viam no trabalho repressivo uma chance de recuperar sua trajetória profissional.  

Essa lógica ajuda a entender por que ditaduras podem atrair não apenas fanáticos, mas também oportunistas. O autoritarismo oferece atalhos. E atalhos são especialmente sedutores para quem se sente fracassado dentro das regras normais.

A mediocridade, quando encontra uma estrutura que recompensa a violência, torna-se perigosa.


5. A banalidade do mal e o funcionário obediente

A conexão com Hannah Arendt é inevitável. Em Eichmann em Jerusalém, Arendt formulou a ideia de banalidade do mal ao analisar um burocrata nazista que não se apresentava como monstro demoníaco, mas como funcionário obediente, incapaz de pensar criticamente sobre as consequências morais de seus atos (Arendt, 1999).

O conceito é frequentemente mal compreendido. Arendt não quis dizer que o mal é pequeno ou irrelevante. O que ela mostrou foi algo mais perturbador: grandes crimes podem ser cometidos por pessoas comuns quando elas deixam de pensar, de julgar e de assumir responsabilidade moral.

O mal moderno pode ter mesa, carimbo, memorando e horário de expediente.

É exatamente isso que torna a discussão atual. A violência política não depende apenas de monstros excepcionais. Depende também de pessoas normais que aceitam pequenas concessões morais todos os dias. Primeiro, uma omissão. Depois, uma assinatura. Depois, uma ordem cumprida. Depois, uma promoção. Depois, o hábito.

A burocracia permite que o indivíduo se esconda atrás da função. Ele já não diz “eu fiz”. Diz “o sistema exigiu”. Não diz “eu persegui”. Diz “eu instruí o processo”. Não diz “eu fui injusto”. Diz “eu apenas cumpri a norma”.

Essa é a zona cinzenta onde a democracia apodrece.


6. A ditadura argentina como laboratório político

A ditadura argentina, especialmente no período da chamada Guerra Suja, tornou-se um dos casos mais estudados de repressão estatal na América Latina. O regime militar perseguiu opositores, desarticulou movimentos sociais, destruiu garantias jurídicas e produziu um aparato de terror sustentado por forças militares, policiais e órgãos de inteligência.

O estudo de Scharpf e Gläßel investiga justamente como certos agentes foram incorporados ao aparelho repressivo. O dado central é que oficiais com desempenho inferior na trajetória militar tradicional tinham maior probabilidade de servir em organizações secretas de repressão.  

Isso não significa que todos os agentes fossem ideologicamente neutros ou moralmente inconscientes. Também não significa que a ideologia não importava. Significa que a explicação puramente ideológica é insuficiente.

O autoritarismo funciona porque combina crença, medo, interesse e oportunidade.

Há quem reprima por convicção. Há quem reprima por obediência. Há quem reprima por medo. Há quem reprima por ambição. Há quem reprima porque percebe que, naquele sistema, a crueldade virou capital profissional.

Essa é a grande contribuição do estudo: mostrar que regimes autoritários não apenas selecionam pessoas violentas; eles criam incentivos para que pessoas comuns participem da violência.


7. O autoritarismo como organização de incentivos

Toda instituição produz comportamentos. Algumas produzem cooperação, responsabilidade e transparência. Outras produzem medo, bajulação e servilismo.

A ditadura é uma instituição que recompensa a lealdade acima da verdade. Recompensa a obediência acima da competência. Recompensa a dureza acima da justiça. Recompensa o silêncio acima da consciência.

Por isso, a pergunta central não é apenas moral. É organizacional.

Como um sistema faz pessoas aceitarem o inaceitável?

A resposta passa por cinco mecanismos.

O primeiro é a hierarquia rígida. Quanto mais vertical é a organização, maior a tendência de deslocar responsabilidade para cima. O subordinado diz que apenas obedece. O superior diz que apenas administra. O líder diz que age em nome da nação.

O segundo é a linguagem desumanizante. O opositor deixa de ser cidadão e passa a ser ameaça. Deixa de ser adversário e passa a ser inimigo. Quando a linguagem muda, a consciência relaxa.

O terceiro é a normalização gradual. Nenhum sistema autoritário começa exigindo tudo de uma vez. Ele testa limites. Primeiro pede silêncio. Depois pede adesão. Depois exige cumplicidade.

O quarto é a premiação da lealdade. Cargos, promoções e reconhecimento são distribuídos a quem demonstra submissão. A carreira deixa de depender da qualidade técnica e passa a depender da disponibilidade moral.

O quinto é a punição da independência. Quem resiste é isolado, transferido, perseguido, ridicularizado ou removido. Assim, o sistema ensina que pensar custa caro.

Quando esses mecanismos se combinam, o autoritarismo deixa de ser apenas imposição. Ele se transforma em cultura institucional.


8. O risco para as democracias contemporâneas

O tema não interessa apenas aos historiadores. Ele fala diretamente às democracias atuais.

Hoje, a erosão democrática nem sempre ocorre por golpes clássicos. Muitas vezes, ela acontece por dentro das instituições. Um governo eleito pode enfraquecer órgãos de controle. Pode atacar a imprensa. Pode intimidar universidades. Pode transformar servidores em militantes. Pode nomear leais para postos estratégicos. Pode estimular perseguições administrativas. Pode usar a máquina pública contra adversários.

Tudo isso exige operadores.

O autoritarismo moderno não precisa apenas de tanques. Precisa de sistemas de dados, assessorias jurídicas, comunicação digital, servidores obedientes, burocracias capturadas e carreiras dependentes da lealdade política.

É por isso que a pesquisa de Scharpf e Gläßel é tão importante para o nosso tempo. Ela mostra que a democracia pode ser ameaçada não apenas por líderes autoritários, mas por funcionários comuns que preferem a promoção à integridade.

Esse é o ponto mais duro: regimes injustos prosperam quando pessoas medianas descobrem que podem subir na vida servindo à injustiça.


9. Conclusão crítica

A notícia é verdadeira, a pesquisa é sólida e o tema é urgente.

O que está em jogo não é apenas compreender a ditadura argentina. É compreender a mecânica profunda de todo autoritarismo. Nenhum regime de exceção se mantém apenas pela figura do líder. O ditador é o rosto. Mas a burocracia é o corpo. A repressão precisa de mãos, arquivos, relatórios, planilhas, assinaturas, chefias, promoções e gente disposta a não pensar.

A descoberta mais perturbadora é que o mal político nem sempre nasce da monstruosidade. Às vezes nasce da carreira. Às vezes nasce da inveja. Às vezes nasce da frustração. Às vezes nasce da pequena ambição de quem aceita trair princípios para ocupar um cargo.

Por isso, defender a democracia exige mais do que defender eleições. Exige proteger instituições, formar consciências críticas, valorizar servidores íntegros, limitar o poder dos chefes, garantir transparência e impedir que a lealdade política substitua o mérito republicano.

A pergunta decisiva não é apenas: “como surgem os ditadores?”. A pergunta mais profunda é: “por que tanta gente comum aceita trabalhar para eles?”.

Enquanto essa pergunta não for enfrentada, toda democracia continuará vulnerável. Porque o autoritarismo não começa apenas quando alguém dá uma ordem injusta. Ele começa quando alguém, em nome da carreira, decide obedecê-la.


Referências

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BROWNING, Christopher R. Ordinary men: Reserve Police Battalion 101 and the final solution in Poland. New York: Harper Perennial, 1998.

GLÄSSEL, Christian; SCHARPF, Adam. Making a career in dictatorship: the secret logic behind repression and coups. New York: Oxford University Press, 2025.

SCHARPF, Adam; GLÄSSEL, Christian. Why underachievers dominate secret police organizations: evidence from autocratic Argentina. American Journal of Political Science, v. 64, n. 4, p. 791-806, 2020.

TAUB, Amanda. Ditaduras são sustentadas por profissionais medianos em busca de promoção, diz estudo. InfoMoney, 21 maio 2026. Originalmente publicado por The New York Times.


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