segunda-feira, 11 de maio de 2026

A democracia diante da fábrica de confusão digital

Como desinformação, redes sociais e IA podem empobrecer a escolha política em 2026


Introdução

A democracia não morre apenas quando tanques ocupam ruas, parlamentos são fechados ou eleições são canceladas. Ela também pode adoecer silenciosamente quando o eleitor perde a capacidade de distinguir fato, boato, medo, encenação e propaganda. Esse é o grande alerta para 2026: a disputa política brasileira tende a ocorrer em um ambiente informacional ainda mais contaminado por desinformação, manipulação emocional, uso de inteligência artificial generativa, microvídeos, memes, deepfakes, falsos escândalos e personagens cuidadosamente fabricados para parecerem simples, morais, patrióticos e familiares.

Desde 2018, o Brasil convive com uma transformação profunda na comunicação política. O WhatsApp, o Telegram, o YouTube, o Facebook, o Instagram, o TikTok e outras plataformas deslocaram parte do debate público para espaços de circulação rápida, fragmentada e emocional. Estudos sobre as eleições brasileiras de 2018 e 2022 apontam que aplicativos de mensagem e redes sociais tiveram papel decisivo na circulação de desinformação política, com destaque para estratégias ligadas a ecossistemas bolsonaristas e de direita radical (Evangelista; Bruno, 2019; Recuero; Soares; Zago, 2021; Rossini et al., 2023). Pesquisas também mostram que a desinformação eleitoral no Brasil não atua apenas pela mentira direta, mas pela produção de dúvida, suspeita, medo e descrédito institucional (Alves et al., 2023).  

O problema torna-se mais grave porque, em 2026, a inteligência artificial generativa amplia a escala e a velocidade dessa operação. Textos falsos podem ser produzidos em segundos. Vozes podem ser clonadas. Imagens podem ser fabricadas. Vídeos podem simular cenas que nunca aconteceram. Comentários podem ser automatizados. Perfis falsos podem parecer gente comum. Por isso, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou regras específicas para o uso de IA nas campanhas de 2026, incluindo exigência de identificação de conteúdo produzido por inteligência artificial e restrições a deepfakes e materiais manipulados que possam afetar a integridade do processo eleitoral.  

O objetivo deste artigo é fazer um alerta: quando a política é reduzida à imagem do “bom garoto”, do “homem simples”, do “defensor da família”, do “patriota sem complexidade” ou do “candidato que fala fácil”, o eleitor pode ser empurrado para uma escolha superficial. A democracia exige mais do que simpatia pessoal. Exige análise de projeto de país, compromisso institucional, responsabilidade social, respeito aos direitos, compreensão econômica, maturidade política e capacidade de governar sociedades complexas.

1. A desinformação não quer apenas convencer: quer confundir

A desinformação política moderna não funciona somente dizendo: “acredite nisto”. Ela funciona, muitas vezes, dizendo: “não acredite em mais nada”. Esse é o seu mecanismo mais perigoso. O eleitor passa a desconfiar da imprensa, da universidade, da Justiça Eleitoral, dos dados oficiais, dos cientistas, dos professores, dos especialistas e até da própria realidade.

Claire Wardle e Hossein Derakhshan (2017) explicam que a desordem informacional envolve diferentes formas de conteúdo problemático: informação falsa compartilhada sem intenção de dano, informação deliberadamente fabricada para causar dano e informação verdadeira usada fora de contexto para manipular percepções. Essa distinção é essencial, porque nem toda mentira política aparece como mentira grosseira. Muitas vezes, ela aparece como meia verdade, recorte emocional, imagem descontextualizada ou frase verdadeira colocada dentro de uma narrativa falsa.

No Brasil, esse método ganhou força porque combina três elementos explosivos: baixa confiança institucional, alto uso de redes sociais para consumo de notícias e forte polarização política. Rossini et al. (2023) analisam crenças em desinformação eleitoral no Brasil e mostram que fatores como ideologia, confiança política, redes sociais e aplicativos de mensagem influenciam a adesão a falsas alegações eleitorais.  

A confusão, portanto, não é falha do sistema: é parte da estratégia. Um eleitor confuso tende a buscar atalhos emocionais. Em vez de perguntar “qual é o programa econômico?”, pergunta “quem parece mais sincero?”. Em vez de avaliar políticas públicas, pergunta “quem fala como eu?”. Em vez de verificar dados, pergunta “quem defende os meus valores?”. Assim, a política deixa de ser debate sobre estruturas sociais e vira uma competição de aparência moral.

2. A fabricação do candidato superficial

Uma das estratégias mais eficientes da comunicação política contemporânea é fabricar personagens simples para problemas complexos. O candidato é apresentado como alguém “do povo”, “de família”, “patriota”, “religioso”, “honesto”, “espontâneo”, “sem frescura” e “contra tudo isso que está aí”. Nada disso é, por si só, um problema. O problema aparece quando essas imagens substituem o debate público real.

A defesa da família, da pátria, da fé ou da moralidade pode ser legítima em qualquer democracia plural. Porém, quando esses símbolos são usados como cortina de fumaça para esconder ausência de projeto, desprezo institucional, autoritarismo, negacionismo ou submissão a interesses econômicos específicos, deixam de ser valores republicanos e passam a funcionar como embalagem política.

Essa é a lógica do marketing da superficialidade: construir um candidato emocionalmente reconhecível, mas politicamente pouco examinado. O eleitor não é convidado a pensar o país; é convidado a gostar de uma figura. Não se debate financiamento da saúde, qualidade da educação, política industrial, reforma tributária, soberania digital, meio ambiente, segurança pública, desigualdade, ciência ou trabalho. Debate-se se o candidato “parece bom”, “fala bonito”, “tem coragem” ou “defende a família”.

Nesse ponto, a reflexão de Hannah Arendt é importante. Para Arendt (2012), a política se degrada quando perde o espaço público do julgamento, da pluralidade e da responsabilidade. Quando o debate vira culto à imagem, perde-se a dimensão propriamente política da convivência democrática.

3. Redes sociais: o palco perfeito da simplificação

As redes sociais foram desenhadas para capturar atenção, não para aprofundar a compreensão política. O conteúdo que mais circula não é necessariamente o mais verdadeiro, mas o mais emocional, indignante, engraçado, agressivo ou identitário. Shoshana Zuboff (2021) argumenta que o capitalismo de vigilância transforma comportamento humano em matéria-prima para previsão, modulação e lucro. No campo político, isso significa que emoções coletivas podem ser exploradas como ativos de mobilização.

O eleitor não recebe apenas informação: recebe estímulos. Um vídeo curto, uma frase de efeito, uma montagem, uma música dramática, um corte de entrevista, um meme agressivo ou uma acusação sem contexto podem ter mais impacto do que uma análise séria de vinte páginas. Esse é o paradoxo da democracia digital: nunca houve tanta informação disponível, mas também nunca foi tão fácil produzir ignorância em escala industrial.

O Fórum Econômico Mundial apontou a desinformação e a informação falsa impulsionadas por IA como um dos maiores riscos globais de curto prazo, especialmente em contextos eleitorais. O relatório também relaciona desinformação, polarização social e instabilidade institucional como riscos interligados.  

4. A inteligência artificial como multiplicadora da confusão

A IA generativa muda a escala da propaganda política. Antes, produzir uma peça de desinformação exigia tempo, equipe, edição, texto, imagem e distribuição. Agora, um pequeno grupo pode gerar centenas de mensagens, imagens, vídeos, áudios e comentários em pouco tempo. Isso cria uma nova assimetria: a mentira se industrializa, enquanto a checagem continua lenta, humana e trabalhosa.

A UNESCO e o PNUD alertam que a IA afeta diretamente liberdade de expressão e eleições, tanto por suas oportunidades quanto por seus riscos: automação de campanhas, manipulação informacional, deepfakes, redução da confiança pública e dificuldade de responsabilização.  

No Brasil, o TSE reconheceu esse risco ao regulamentar o uso de IA em propaganda eleitoral. As regras para 2026 indicam preocupação institucional com conteúdos sintéticos, deepfakes, manipulação de imagem e voz, além da necessidade de transparência quando materiais forem produzidos por inteligência artificial.  

O perigo não está apenas no deepfake perfeito. Muitas vezes, basta uma peça visual ambígua, um áudio duvidoso ou um vídeo “quase convincente” para gerar o efeito desejado: dúvida, raiva e compartilhamento. A desinformação não precisa vencer no tribunal da verdade. Basta vencer no tribunal da velocidade.

5. O eleitor cansado e o atalho emocional

A política brasileira encontra uma população cansada. Cansada do preço dos alimentos, do endividamento, da insegurança, da precarização do trabalho, da corrupção, da violência, da burocracia, da promessa não cumprida e da sensação de abandono. Esse cansaço é real. O risco é que ele seja capturado por discursos simplistas.

Quando a vida está difícil, a promessa fácil seduz. Quando a sociedade está angustiada, o “salvador” parece solução. Quando o debate público está saturado, o candidato superficial parece descanso. É nesse terreno que prosperam discursos autoritários: eles oferecem clareza falsa para problemas verdadeiramente complexos.

O populismo contemporâneo costuma operar com uma oposição moral entre “povo puro” e “elite corrupta”. Cas Mudde (2004) define o populismo como uma ideologia de baixa densidade que divide a sociedade entre dois campos moralmente homogêneos e antagônicos. Essa estrutura combina bem com redes sociais, porque transforma política em guerra moral permanente.

O problema é que sociedades reais não são tão simples. Não há política pública séria feita apenas com indignação. Governar exige orçamento, negociação, ciência, planejamento, instituições e responsabilidade. Quem transforma tudo em luta entre “bem” e “mal” pode até emocionar, mas dificilmente educa politicamente.

6. Família, pátria e moral: valores legítimos ou instrumentos de manipulação?

Família, pátria e moral são temas importantes. Nenhuma democracia deve desprezá-los. O problema começa quando esses valores são usados como escudo retórico para impedir perguntas concretas: qual política de emprego? Qual plano para a educação? Qual projeto de saúde pública? Qual compromisso com a democracia? Qual relação com as Forças Armadas? Qual política ambiental? Qual modelo de desenvolvimento? Qual posição sobre desigualdade? Qual estratégia para ciência e tecnologia?

O eleitor precisa desconfiar quando uma campanha fala muito de valores abstratos e pouco de políticas públicas concretas. Valores sem projeto podem virar propaganda. Patriotismo sem soberania econômica pode virar teatro. Defesa da família sem renda, escola, saúde, moradia e segurança alimentar pode virar frase vazia.

Paulo Freire (1996) lembrava que a educação exige leitura crítica do mundo. Em termos políticos, isso significa não aceitar passivamente a embalagem emocional da propaganda. É preciso perguntar: quem financia essa mensagem? A quem ela interessa? Que medo ela tenta produzir? Que inimigo ela está inventando? Que dado ela esconde? Que política pública ela evita discutir?

7. O ataque às instituições como método

Um traço recorrente de campanhas desinformativas é o ataque preventivo às instituições. Antes mesmo da eleição, lança-se suspeita sobre urnas, tribunais, imprensa, universidades, pesquisas eleitorais e órgãos públicos. Se o resultado favorece determinado grupo, a eleição foi legítima. Se não favorece, foi fraudada. Esse raciocínio destrói a democracia por dentro.

Pesquisas sobre o contexto brasileiro de 2022 mostram que a desinformação eleitoral envolveu ataques à confiabilidade das urnas, às instituições eleitorais e ao processo democrático. Alves et al. (2023) analisam a experiência brasileira de 2022 e destacam que o enfrentamento à desinformação depende de ação institucional, checagem, colaboração entre atores públicos e privados e fortalecimento da integridade informacional.  

A democracia não exige confiança cega nas instituições. Exige crítica responsável, com prova, método e compromisso com a verdade. Questionar é democrático. Sabotar a confiança pública com boatos fabricados é outra coisa.

8. O papel dos influenciadores e da falsa espontaneidade

Outro elemento decisivo é o uso de influenciadores. Muitas mensagens políticas não aparecem como propaganda eleitoral. Aparecem como opinião espontânea, piada, indignação, conselho religioso, comentário familiar ou “alerta de cidadão comum”. Isso dificulta a identificação da estratégia.

A propaganda política contemporânea aprendeu a se esconder dentro da linguagem cotidiana. Ela não precisa parecer comício. Pode parecer conversa de grupo de família. Pode parecer vídeo de humor. Pode parecer “desabafo”. Pode parecer testemunho pessoal. O eleitor vê uma pessoa comum falando e pensa: “isso não é campanha, é opinião sincera”. Mas, em muitos casos, há redes coordenadas, interesses políticos e lógica profissional de comunicação.

Essa informalidade é poderosa porque reduz a defesa crítica. Quando a propaganda vem com logotipo de partido, o eleitor desconfia. Quando vem como áudio de alguém “bem informado”, a resistência cai.

9. A guerra contra a complexidade

A extrema simplificação é uma forma de violência contra a realidade. Problemas estruturais não cabem em slogans. Desigualdade, inflação, desemprego, segurança pública, educação, saúde, reforma do Estado, política externa e desenvolvimento tecnológico exigem análise séria.

Mas a política digital premia quem simplifica com agressividade. Uma proposta complexa exige tempo. Uma mentira emocional exige segundos. Um plano de governo exige leitura. Um ataque moral exige compartilhamento. É por isso que a desinformação prefere destruir reputações a discutir soluções.

Norberto Bobbio (1986) defendia que a democracia depende de procedimentos, regras, transparência e participação informada. Sem informação minimamente confiável, a escolha popular perde qualidade. O voto continua existindo, mas pode ser capturado por manipulações que impedem o eleitor de avaliar a realidade com autonomia.

10. Como resistir à confusão organizada

O enfrentamento à desinformação não pode depender apenas do TSE, da imprensa ou das plataformas digitais. Também exige educação política da sociedade. Algumas atitudes são fundamentais:

  1. Desconfiar de conteúdo que provoque raiva imediata.
  2. Verificar a fonte antes de compartilhar.
  3. Não tomar vídeo curto como prova definitiva.
  4. Procurar dados oficiais e veículos diversos.
  5. Diferenciar crítica política de destruição institucional.
  6. Perguntar sempre qual política pública está sendo proposta.
  7. Observar se o candidato tem projeto ou apenas personagem.
  8. Identificar uso abusivo de religião, família e pátria como blindagem emocional.
  9. Evitar transformar política em torcida.
  10. Valorizar debate público, ciência, imprensa responsável e instituições democráticas.

Essa resistência não significa votar em determinado campo político. Significa proteger a própria capacidade de escolher. Um eleitor manipulado pode até votar, mas vota dentro de uma realidade fabricada por outros.

Conclusão crítica

O maior perigo de 2026 talvez não seja apenas a mentira isolada. O maior perigo é a construção de um ambiente inteiro de confusão. Um ambiente em que tudo parece duvidoso, todos parecem corruptos, toda instituição parece inimiga, todo dado parece manipulado e toda escolha racional parece inútil. Nesse cenário, vence quem oferece a imagem mais simples, a emoção mais forte e o inimigo mais conveniente.

A democracia brasileira precisa estar atenta à fabricação artificial de candidatos superficiais. O “bom garoto”, o “patriota”, o “defensor da família” ou o “homem simples” podem ser apenas personagens políticos. O eleitor tem o direito — e o dever democrático — de perguntar o que existe por trás da imagem. Quem governa não é o sorriso da campanha. Quem governa é o projeto político, a equipe, os interesses, as alianças, as ideias e o compromisso real com a Constituição.

A inteligência artificial e as redes sociais não são inimigas naturais da democracia. Podem informar, educar, ampliar vozes e fortalecer participação. Mas, sem regulação, transparência, educação midiática e responsabilidade coletiva, podem se tornar máquinas de desorientação pública. O alerta é simples e profundo: quando a política vira espetáculo de superfície, a democracia perde densidade; quando o eleitor vota movido por medo fabricado, perde autonomia; quando a mentira se torna método, a liberdade de escolha vira aparência.

Defender a democracia, em 2026, exigirá mais do que escolher candidatos. Exigirá defender a verdade possível, a dúvida responsável, a leitura crítica e a coragem de não ser manipulado pela primeira emoção que aparece na tela.

Referências

ALVES, Marcelo et al. Disinformation and 2022 elections in Brazil. Rio de Janeiro: NetLab/UFRJ; UFF, 2023.

ARENDT, Hannah. A condição humana. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

EVANGELISTA, Rafael; BRUNO, Fernanda. WhatsApp and political instability in Brazil: targeted messages and political radicalisation. Internet Policy Review, v. 8, n. 4, 2019.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

MUDDE, Cas. The populist zeitgeist. Government and Opposition, v. 39, n. 4, p. 541-563, 2004.

RECUERO, Raquel; SOARES, Felipe Bonow; ZAGO, Gabriela. Discursive strategies for disinformation on WhatsApp and Twitter during the 2018 Brazilian presidential election. First Monday, v. 26, n. 1, 2021.

ROSSINI, Patrícia et al. Explaining beliefs in electoral misinformation in the 2022 Brazilian election: the role of ideology, political trust, social media, and messaging apps. Harvard Kennedy School Misinformation Review, 2023.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Por Dentro das Eleições: conheça as regras sobre uso de IA na campanha eleitoral de 2026. Brasília: TSE, 2026.

UNESCO; UNDP. Artificial Intelligence, Freedom of Expression and Elections: Safeguarding Democratic Processes. Paris: UNESCO, 2025.

WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information disorder: toward an interdisciplinary framework for research and policy making. Strasbourg: Council of Europe, 2017.

WORLD ECONOMIC FORUM. The Global Risks Report 2024. Geneva: WEF, 2024.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.


O messias de bolso, o Leviatã Digital e a fabricação do povo obediente


Introdução — A mulher que carrega o Brasil nas costas

Maria acorda todos os dias às 4h50 da manhã. Não porque gosta do silêncio antes do sol nascer, mas porque o ônibus passa às 5h40 e, se ela perder aquele horário, perde também a tolerância do gerente do supermercado onde trabalha como operadora de caixa. Tem 39 anos, dois filhos, um aluguel pequeno demais para três pessoas e uma saudade grande demais para caber dentro de casa.

O marido morreu de COVID-19. Não foi apenas uma morte. Foi uma ruptura. Antes, mesmo com dificuldade, havia duas rendas, duas presenças, duas forças tentando empurrar a vida para frente. Depois, sobrou ela. Sobrou o salário mínimo. Sobrou o carnê da loja. Sobrou o gás no fim. Sobrou a conta de luz. Sobrou a escola pública. Sobrou o SUS. Sobrou a fila. Sobrou a fé.

Aos domingos, Maria vai à igreja com Lucas, de 13 anos, e Ana Clara, de 9. Ela não vai apenas para rezar. Vai porque acredita que aquele espaço pode proteger os filhos do que ela chama de “mundo perdido”. Na cabeça dela, a igreja é abrigo, escola moral, escudo contra as drogas, contra a violência, contra o inferno. Maria não tem tempo para ler relatórios econômicos, comparar séries históricas do IPCA ou entender política monetária. Ela entende outra coisa: o arroz subiu, o botijão pesa, o cartão virou extensão do salário, e o mês termina antes do dinheiro.

O paradoxo brasileiro começa aí. Os indicadores podem dizer que a inflação está sob relativo controle, que o salário mínimo teve reajustes nominais e que alguns programas sociais ajudam a segurar a queda dos mais pobres. O IPCA especial do IBGE registrou 1,49% no primeiro trimestre de 2026, e o Banco Central projetava inflação de 4,0% para o segundo trimestre de 2026 no horizonte relevante da política monetária. Ao mesmo tempo, a CNC apontou alta persistente do endividamento das famílias, chegando a patamares recordes em 2026. Ou seja: a macroeconomia pode respirar melhor, mas a vida concreta continua sufocada.  

Maria não sente a inflação média. Ela sente a inflação da vida dela.

É nesse vão entre o dado técnico e a dor cotidiana que entra o líder messiânico. Ele não precisa explicar juros compostos, orçamento público, produtividade, câmbio, dependência tecnológica, informalidade ou globalização financeira. Basta dizer: “eu resolvo”. Basta apontar um inimigo. Basta prometer ordem. Basta transformar medo em voto.


1. A economia melhora no papel, mas a vida aperta no bolso

A primeira afirmação precisa ser tratada com cuidado: é possível que a inflação esteja menos descontrolada e, ainda assim, a população se sinta mais pobre. Isso não é contradição. É experiência social.

A inflação oficial mede uma cesta média. A vida real não é média. Para uma família de baixa renda, alimentos, transporte, gás, aluguel, remédios e energia elétrica pesam proporcionalmente muito mais do que para famílias de renda alta. Assim, mesmo quando o índice geral desacelera, a sensação de aperto permanece.

Além disso, salário mínimo maior não significa necessariamente poder de compra confortável. O salário mínimo de 2025 foi de R$ 1.518, e a regra de reajuste para 2026 incorporou o INPC acumulado e o crescimento do PIB de 2024, segundo a Agência Brasil. Mas a renda corrigida entra numa casa já comprometida por dívidas, juros, parcelamentos e necessidades adiadas.  

É aqui que o endividamento vira variável política. A CNC define sua pesquisa de endividamento como instrumento para medir dívidas, contas em atraso, comprometimento da renda e capacidade futura de consumo. Não se trata apenas de número: trata-se de subjetividade social. Uma família endividada pensa com medo. Compra com culpa. Vota com ressentimento.  

Daniel Kahneman mostrou que os seres humanos não decidem apenas por cálculo racional; decidem por percepção, perda, medo e memória recente (Kahneman, 2012). Richard Thaler reforça que a vida econômica cotidiana é cheia de atalhos mentais, erros previsíveis e decisões tomadas sob pressão (Thaler, 2019). Por isso, quando Maria vê o salário cair na conta, ela não compara com uma série histórica. Ela compara com o carrinho do supermercado.

E o carrinho parece cada vez mais vazio.


2. O desconforto econômico vira desconfiança política

A consequência é quase direta: quando a vida não melhora de modo perceptível, a confiança no governo diminui. Mesmo que existam avanços parciais, eles são engolidos pela sensação de insuficiência.

Governos governam sobre expectativas. E expectativas são frágeis. Uma pessoa pode reconhecer que existe Bolsa Família, SUS, escola pública, Vale Gás e política de salário mínimo, mas ainda assim sentir que a vida está pior. A política, nesse caso, não é julgada apenas pelo que entrega. É julgada pelo que promete, pelo que comunica e pelo que a população sente.

Esse ponto é decisivo. A extrema direita compreendeu algo que setores progressistas muitas vezes subestimam: a política contemporânea é também disputa de sensação. Não basta melhorar indicadores. É preciso disputar o significado da melhora.

Quando a população está endividada, cansada e emocionalmente instável, ela se torna mais vulnerável à narrativa do “fracasso total”. Mesmo uma melhora relativa pode ser descrita como desastre absoluto. Mesmo um problema mundial pode ser apresentado como culpa exclusiva do governo nacional. Mesmo uma crise estrutural pode ser reduzida a uma frase de WhatsApp.

É o triunfo da simplificação.


3. A fabricação do salvador

O Brasil tem uma longa tradição de busca por figuras providenciais. Em momentos de crise, parte da população procura alguém que pareça acima da política, acima das instituições e acima da complexidade. Esse personagem aparece como pai, guerreiro, profeta, justiceiro ou enviado.

Max Weber chamou esse fenômeno de dominação carismática: a obediência não nasce da lei nem da razão burocrática, mas da crença nas qualidades extraordinárias do líder (Weber, 2004). O líder carismático não precisa demonstrar competência técnica. Precisa parecer escolhido.

No Brasil recente, isso ganhou contornos messiânicos. O líder não é apenas candidato. É “mito”. É “ungido”. É “homem simples”. É “perseguido”. É “único capaz de salvar a nação”. Quanto mais atacado, mais santificado. Quanto mais contraditório, mais protegido pela fé política.

Essa lógica é perigosa porque desloca a política do campo da responsabilidade para o campo da crença. Se o líder erra, não errou: foi sabotado. Se mente, não mentiu: foi mal interpretado. Se fracassa, não fracassou: o sistema não deixou governar.

A culpa nunca chega ao messias.


4. O Leviatã Digital: a nova máquina de captura da consciência

Thomas Hobbes imaginou o Leviatã como poder soberano capaz de conter a guerra de todos contra todos (Hobbes, 2003). Mas o século XXI produziu outro tipo de monstro: o Leviatã Digital.

Esse Leviatã não usa apenas exército, polícia ou burocracia. Ele usa dados, algoritmos, redes sociais, plataformas, vídeos curtos, notificações, bolhas emocionais e microdirecionamento de conteúdo. Ele não precisa obrigar a pessoa a acreditar. Ele organiza o ambiente para que ela acredite sozinha.

Shoshana Zuboff chama esse processo de capitalismo de vigilância: um modelo econômico baseado na extração de dados comportamentais para prever, induzir e modificar condutas (Zuboff, 2020). Byung-Chul Han observa que o poder contemporâneo é mais eficiente quando se apresenta como liberdade; o sujeito acredita estar escolhendo, quando está sendo conduzido por arquiteturas invisíveis de atenção (Han, 2018).

É exatamente isso que ocorre nas redes. Maria abre o celular depois do trabalho. Está cansada. Quer ver um vídeo, uma oração, uma receita, uma notícia rápida. O algoritmo não entrega apenas informação. Entrega reforço emocional. Se ela assiste a um vídeo dizendo que “o país está acabando”, recebe outro. Depois outro. Depois um pastor falando de guerra espiritual. Depois um influenciador dizendo que vacina mata. Depois um político dizendo que bandido bom é bandido morto. Depois alguém dizendo que criança precisa trabalhar para virar gente.

Em poucos meses, a tela vira mundo.

E o mundo vira ameaça.


5. Ideologias rasas para problemas profundos

As lideranças autoritárias prosperam quando conseguem transformar problemas complexos em slogans simples. A inflação vira “roubo do governo”. O desemprego vira “preguiça do povo”. A violência vira “falta de bala”. A educação vira “doutrinação”. A ciência vira “opinião”. A vacina vira “controle”. A pobreza vira “falta de mérito”.

Essa simplificação não é inocente. É método.

Hannah Arendt mostrou que movimentos totalitários dependem da dissolução da realidade comum. Quando os fatos deixam de importar, a lealdade ao grupo passa a valer mais do que a verdade (Arendt, 2012). Umberto Eco descreveu traços do fascismo eterno, entre eles o culto da tradição, o medo da diferença, o apelo às classes frustradas, o machismo, o anti-intelectualismo e a construção permanente de inimigos (Eco, 2018).

A extrema direita contemporânea opera exatamente nessa zona cinzenta: não precisa declarar-se fascista em termos clássicos. Basta mobilizar afetos fascistizantes: ódio ao pluralismo, desprezo pelos direitos humanos, culto da força, desejo de purificação moral, hostilidade à imprensa, perseguição a professores, suspeita contra universidades e exaltação da violência estatal.

O resultado é um povo que se sente politicamente ativo, mas pensa por frases prontas.


6. Religião, medo e controle simbólico

É preciso separar duas coisas: fé e exploração política da fé.

A fé de Maria é legítima. Ela encontra na igreja acolhimento, comunidade e sentido. A religião pode ser espaço de solidariedade, reconstrução moral e esperança. O problema surge quando lideranças políticas e religiosas transformam essa fé em tecnologia de obediência.

Pierre Bourdieu chamou atenção para o poder simbólico: a capacidade de impor sentidos como se fossem naturais (Bourdieu, 1989). Quando uma autoridade religiosa diz que determinado candidato é “de Deus”, ela não está apenas opinando. Está reorganizando o campo moral do fiel. Discordar do candidato passa a parecer discordar da vontade divina.

Essa fusão entre religião e política produz um bloqueio cognitivo. O debate deixa de ser sobre políticas públicas e passa a ser sobre salvação. O adversário deixa de ser concorrente democrático e vira agente do mal.

É nesse ambiente que pautas absurdas se tornam aceitáveis. Trabalho infantil aparece como “formação de caráter”. Violência policial indiscriminada aparece como “limpeza”. Negacionismo científico aparece como “liberdade”. Ataque à escola pública aparece como “defesa da família”.

A fé, que deveria libertar, é capturada para domesticar.


7. Por que a classe trabalhadora vota contra si mesma?

Essa pergunta é incômoda, mas necessária.

Como entender que trabalhadores apoiem lideranças que defendem flexibilização extrema de direitos trabalhistas, naturalizam trabalho precoce, atacam sindicatos, desprezam políticas sociais e tratam pobreza como falha moral?

A resposta passa pela alienação. Marx mostrou que, no capitalismo, o trabalhador pode perder a consciência das condições reais de sua exploração (Marx, 2013). Mas, no século XXI, essa alienação ganhou uma camada digital e cultural. O trabalhador não apenas vende força de trabalho. Ele consome narrativas que o convencem a defender os interesses de quem o explora.

Gramsci ajuda a entender isso com o conceito de hegemonia. A classe dominante não governa apenas pela força; governa produzindo consenso, moldando valores, naturalizando desigualdades e fazendo com que sua visão de mundo pareça senso comum (Gramsci, 2002).

Assim, o trabalhador pobre passa a acreditar que o problema do país não é a concentração de renda, a precarização, a financeirização ou a desigualdade histórica. O problema seria o “comunismo”, o “professor doutrinador”, o “direito humano para bandido”, o “artista degenerado”, a “mulher feminista”, o “jovem que não quer trabalhar”.

Ele olha para baixo e para os lados, nunca para cima.


8. Antivacina, terra plana e a crise da autoridade do conhecimento

O apoio a discursos antivacina ou terraplanistas não pode ser tratado apenas como ignorância individual. É também sintoma de uma crise social da confiança.

Durante décadas, ciência, universidade, imprensa, Estado e escola funcionaram como instituições mediadoras da verdade pública. Hoje, essas instituições são atacadas sistematicamente. No lugar delas, surgem influenciadores, grupos fechados, canais conspiratórios e líderes carismáticos que oferecem “verdades alternativas”.

O problema não é a dúvida. A dúvida é parte da ciência. O problema é transformar desinformação em identidade política.

Quando alguém diz “eu não acredito em vacina”, muitas vezes não está apenas falando de imunologia. Está dizendo: “eu pertenço a um grupo que não aceita ser mandado por especialistas”. O conteúdo falso vira símbolo de autonomia.

Paulo Freire já advertia que a educação libertadora exige consciência crítica, leitura do mundo e superação da ingenuidade (Freire, 1987). Sem isso, o sujeito pode ser alfabetizado tecnicamente e continuar politicamente manipulável.

Sabe ler, mas não sabe interpretar poder.


9. A defesa da violência e o prazer autoritário

Outro ponto doloroso é a adesão popular a massacres, chacinas ou operações policiais extremamente letais. Parte da população, inclusive pobre e periférica, apoia ações violentas do Estado porque acredita que a violência trará ordem.

Esse fenômeno tem raízes profundas. Em sociedades marcadas por medo, desigualdade e insegurança, a violência estatal aparece como vingança simbólica. A pessoa que se sente abandonada pelo Estado passa a desejar que o Estado apareça, nem que seja pela força.

Achille Mbembe descreve a necropolítica como o poder de decidir quem pode viver e quem pode morrer (Mbembe, 2018). No Brasil, essa lógica atravessa raça, classe e território. A morte de determinados corpos é tratada como aceitável porque esses corpos já foram socialmente desumanizados.

O discurso messiânico autoritário se alimenta disso. Ele diz: “eu protegerei os cidadãos de bem”. Mas nunca define com honestidade quem são esses cidadãos. Na prática, “cidadão de bem” vira senha moral para separar vidas protegidas de vidas descartáveis.

A tragédia é que muitos trabalhadores apoiam essa lógica sem perceber que seus próprios filhos podem ser confundidos com o inimigo.


10. Famílias divididas: quando a política vira seita

O Brasil recente viu famílias se romperem por política. Pais deixaram de falar com filhos. Irmãos se bloquearam. Amizades terminaram. O almoço de domingo virou campo de batalha.

Isso acontece porque a política deixou de ser apenas disputa de projetos e virou identidade total. O líder messiânico não pede voto. Pede pertencimento. Quem discorda não é apenas adversário; é traidor.

Erich Fromm, em sua análise sobre o medo à liberdade, explicou que indivíduos inseguros podem buscar refúgio em autoridades fortes (Fromm, 1983). A liberdade exige responsabilidade, dúvida e maturidade. A submissão oferece conforto: basta obedecer.

Nesse sentido, o líder messiânico funciona como anestesia psicológica. Ele organiza o caos. Diz quem é bom e quem é mau. Diz em quem confiar. Diz quem odiar. Diz o que pensar.

E pensar por conta própria, para muita gente, é mais assustador do que obedecer.


11. O retrocesso sociocultural: de onde ele vem?

O retrocesso não nasce de uma única causa. Ele é resultado da combinação de fatores:

desigualdade histórica; baixa educação crítica; precarização do trabalho; endividamento; medo urbano; crise de confiança nas instituições; manipulação religiosa; algoritmos de engajamento; cultura de ódio; ressentimento social; e ausência de projetos coletivos de futuro.

O Brasil é um país em que milhões trabalham muito e continuam pobres. Isso gera frustração. Quando essa frustração não encontra explicação estrutural, ela procura culpados visíveis. O líder autoritário oferece esses culpados: o comunista, o professor, o artista, o Supremo, a imprensa, a universidade, a mulher independente, o jovem periférico, o estrangeiro, o beneficiário de programa social.

É uma pedagogia do ódio.

E essa pedagogia é eficiente porque é emocionalmente barata. Ela dispensa estudo. Dispensa nuance. Dispensa contradição. Basta repetir.


12. Como reagir de forma pacífica e efetiva

A reação não pode reproduzir a lógica do ódio. Combater autoritarismo com desumanização apenas reforça o ciclo. É preciso firmeza democrática, mas também inteligência estratégica.

Primeiro: educação crítica. Não basta ensinar matemática, português ou história como conteúdos isolados. É preciso ensinar leitura de mundo, interpretação de dados, análise de discurso, lógica argumentativa e ética pública.

Segundo: alfabetização midiática. A população precisa compreender como funcionam algoritmos, bolhas digitais, fake news, monetização do ódio e manipulação emocional.

Terceiro: reconstrução comunitária. O campo democrático precisa voltar a falar com Maria. Não apenas com especialistas, universidades e bolhas progressistas. É preciso falar na igreja, no bairro, no mercado, na escola, na fila do SUS, no transporte público.

Quarto: disputar valores. A extrema direita não pode monopolizar palavras como família, Deus, ordem, liberdade e trabalho. É preciso mostrar que família também precisa de salário digno, escola pública, vacina, moradia, cultura, saúde e segurança sem extermínio.

Quinto: defender instituições sem perder sensibilidade social. Democracia não pode ser apenas uma palavra bonita. Precisa aparecer no prato, no remédio, no ônibus, na creche, no gás e na esperança.


Conclusão — O Brasil entre Maria e o messias

Eu volto a Maria.

Ela não é caricatura. Não é massa de manobra por essência. Não é ignorante por natureza. Ela é uma mulher atravessada por perdas, dívidas, fé, medo, trabalho e esperança. O problema começa quando alguém transforma essa dor em instrumento político.

O líder messiânico não inventa o sofrimento de Maria. Ele o captura. Ele pega sua insegurança econômica, sua fé religiosa, seu medo pelos filhos, sua dependência do SUS, sua desconfiança das instituições e reorganiza tudo em uma narrativa simples: “eu sou a solução; meus inimigos são a causa do seu sofrimento”.

Essa é a grande armadilha.

O Brasil não vive apenas uma disputa eleitoral. Vive uma disputa pela capacidade de pensar. O Leviatã Digital ampliou a força dos manipuladores. As redes transformaram ressentimento em comunidade, ignorância em orgulho, medo em voto e ódio em espetáculo.

Mas nada disso é irreversível.

A resposta passa por educação, presença, diálogo, organização social, proteção institucional e coragem moral. Não se trata de ridicularizar Maria. Trata-se de disputar o mundo de Maria com mais verdade, mais cuidado e mais inteligência.

Porque, enquanto o campo democrático não compreender a dor concreta da trabalhadora endividada, o messias continuará aparecendo com respostas falsas, mas emocionalmente eficientes.

E o Brasil continuará correndo o risco de trocar cidadania por obediência, política pública por milagre, democracia por culto e pensamento crítico por frases prontas.

A tarefa histórica é impedir que o medo continue vencendo a razão.


Referências

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