A fantasia do “gênio geopolítico” seduz o debate, mas a realidade mostra que caos energético, dívida e poder imperial não obedecem a roteiros limpos
A hipótese de que Donald Trump estaria conduzindo, com método e frieza, uma grande estratégia de “colapso controlado” da ordem global é uma dessas ideias que ganham força porque parecem explicar tudo de uma só vez. Nela, o aparente improviso vira cálculo; a ruptura vira engenharia; o caos vira instrumento racional de reconstrução nacional. O problema é que essa narrativa, embora intelectualmente poderosa, começa a falhar quando confrontada com a materialidade da energia, com a arquitetura financeira dos Estados Unidos, com os limites do poder americano e com a capacidade de reação dos demais atores do sistema internacional. A tese funciona como lente. Não funciona, pelo menos não integralmente, como prova.
O charme da tese: o mundo voltou a ser movido por território, energia e gargalos
A leitura que apresenta Trump como um estrategista do colapso não surge do nada. Ela encontra terreno fértil numa transformação histórica real: a globalização desmaterializada, vendida durante décadas como se o mundo pudesse viver apenas de finanças, serviços, dados e cadeias “eficientes”, mostrou suas rachaduras. O sistema internacional voltou a girar em torno do que sempre sustentou o poder: petróleo, fertilizantes, semicondutores, terras raras, rotas marítimas, capacidade industrial e controle logístico. Isso não é impressão ideológica; é realidade empírica. O Estreito de Ormuz segue como um dos pontos centrais do metabolismo energético global: em 2024 e no início de 2025, mais de um quarto do comércio marítimo mundial de petróleo passou por ali, além de parcela decisiva do gás natural liquefeito destinado sobretudo à Ásia.
É justamente por isso que a tese do “colapso controlado” parece sedutora. Ela diz, em essência, que um líder americano poderia perceber antes dos demais que a velha ordem global está exausta e, em vez de sustentá-la, aceleraria sua decomposição para reposicionar os Estados Unidos como o centro de um novo arranjo mais duro, mais regionalizado, mais material e mais coercitivo. A narrativa tem força porque conversa com algo concreto: o mundo está, de fato, menos liberal, menos estável e mais orientado por segurança de abastecimento.
Onde a interpretação começa a exagerar
Reconhecer a volta da energia ao centro da política internacional é uma coisa. Concluir, a partir disso, que Washington conseguiria administrar esse choque como maestro de uma nova ordem é outra completamente diferente. Os Estados Unidos hoje têm, sem dúvida, uma posição energética muito mais forte do que no passado. A produção doméstica de petróleo se mantém em níveis historicamente elevados, e exportações americanas de combustíveis cresceram diante das disrupções em torno de Ormuz. Esse dado reforça a ideia de que o país pode ter ganhos relativos em cenários de crise.
Mas vantagem relativa não é sinônimo de invulnerabilidade. Os mercados de energia são integrados, os preços são globais, e choques em rotas estratégicas contaminam toda a estrutura de custos. Mesmo os Estados Unidos seguem expostos a efeitos inflacionários, pressões sobre derivados, desajustes entre tipos de petróleo e necessidades específicas de refino. A EIA deixa claro que Ormuz continua relevante para a segurança energética global como um todo, não apenas para “os outros”.
Esse detalhe desmonta uma parte central da imaginação estratégica maximalista: a ideia de uma “Fortaleza América” plenamente blindada é, no melhor cenário, uma metáfora útil. Não é uma descrição literal. Os EUA podem sofrer menos do que certos rivais em uma ruptura logística mais aguda. Não podem atravessar esse processo como se estivessem fora do mundo que pretendem reorganizar.
O império ainda é forte, mas seu poder não é mágico
Outro ponto em que a tese derrapa é na leitura financeira. A dívida federal dos Estados Unidos está hoje na casa dos US$ 39 trilhões, e a demanda estrangeira por títulos do Tesouro permanece gigantesca. Isso é real. Também é verdade que o dólar continua ocupando posição singular no sistema internacional. Mas transformar essa centralidade monetária em simples decorrência de coerção energética é intelectualmente preguiçoso. A força dos Treasuries decorre da profundidade do mercado americano, da liquidez, da institucionalidade, da presença do dólar no comércio e nas reservas globais e da ausência de um substituto com a mesma escala e confiança.
A narrativa do “eles continuarão financiando a dívida dos EUA porque precisarão do petróleo americano” simplifica demais um mecanismo mais sofisticado. E há mais: se Washington trocar previsibilidade estratégica por voluntarismo excessivo, esse mesmo capital de confiança pode começar a se desgastar na margem. Reuters destacou recentemente que, embora não haja evidência de abandono maciço dos Treasuries por bancos centrais, o debate sobre diversificação e vulnerabilidade ao risco político americano ganhou novo fôlego.
Em linguagem mais direta: o dólar ainda manda, mas não porque os demais ajoelham automaticamente diante do petróleo. Ele manda porque o sistema inteiro foi moldado em torno dele. Desorganizar demais esse sistema pode até gerar ganhos táticos de curto prazo. Também pode corroer fundamentos que sustentam o poder americano de longo prazo.
A sedução do plano total e a tentação de enxergar um roteiro em tudo
É compreensível que muitos analistas queiram ver coerência absoluta nas rupturas do trumpismo. Isso dá forma a um tempo histórico confuso. Tudo parece se encaixar: Ormuz, tarifas, pressão sobre aliados, ataques à ordem liberal, discurso nacionalista, reindustrialização, semicondutores, migração, fronteiras, minerais críticos. Quando essas peças são agrupadas, surge uma imagem poderosa: Trump não seria errático, mas metódico; não seria caótico, mas deliberadamente disruptivo.
Só que há uma diferença entre coerência retrospectiva e coerência real de formulação. Muitas vezes, o analista olha para movimentos heterogêneos e os reescreve como se fossem parte de um mesmo desenho estratégico. Isso é intelectualmente elegante, mas metodologicamente arriscado. A boa interpretação geopolítica não pode transformar todo ruído em sinal. Nem todo gesto abrupto é expressão de grande estratégia. Às vezes é apenas improviso, disputa doméstica, cálculo eleitoral ou reação conjuntural.
“Technate”: conceito estratégico ou reciclagem ideológica?
Um dos pontos mais frágeis desse imaginário é o uso contemporâneo do termo Technate como se ele designasse uma doutrina geopolítica robusta em operação. Historicamente, o conceito pertence ao velho movimento tecnocrático norte-americano do século XX, que imaginava uma reorganização continental baseada em energia, engenharia e administração técnica da sociedade. Trata-se de uma tradição intelectual real, mas antiga, carregada de traços utópicos e, em certos momentos, pseudocientíficos.
Isso não impede que o vocabulário seja reciclado hoje por setores que pensam a América do Norte como espaço produtivo integrado, do Ártico ao istmo centro-americano. O problema é tratar esse reaproveitamento como se fosse política de Estado consolidada ou doutrina estratégica plenamente articulada. Não é. O que há, mais concretamente, são tendências reais de nearshoring, disputa por minerais críticos, reforço de cadeias regionais e reindustrialização seletiva. Isso é importante e merece análise. Mas chamar isso de “Technate” como se estivéssemos diante de um projeto maduro, homogêneo e consensual é atribuir a uma colagem ideológica um grau de concretude que ela ainda não possui.
Dugin ajuda a iluminar o clima de época, mas não resolve a equação
A aproximação entre essa leitura do trumpismo e a obra de Aleksandr Dugin tem utilidade parcial. Ela ajuda a enxergar a volta dos “grandes espaços”, da autarquia regional, do revisionismo contra a ordem liberal e da guerra por esferas de influência. Nesse nível, a analogia tem valor. Mas ela perde rigor quando vira equivalência automática. Foundations of Geopolitics é uma obra ideológica, antiatlântica e fortemente associada ao imaginário neo-eurasianista russo; Stanford a trata como um texto influente em certos meios estratégicos russos, ligado a visões expansionistas e antiliberais.
O paralelo serve para mostrar um deslocamento mais amplo do debate internacional: menos universalismo liberal, mais civilização, território, soberania e antagonismo. Não serve para provar que Trump estaria simplesmente aplicando, em versão americana, uma matriz doutrinária equivalente à russa. A tentação de juntar tudo sob um único grande código interpretativo pode produzir textos impressionantes. Nem sempre produz análises corretas.
A Teoria dos Jogos ilumina a lógica, mas não garante o sucesso da estratégia
A parte mais sofisticada dessa hipótese talvez esteja no uso da Teoria dos Jogos. Faz sentido pensar que um ator pode abandonar um equilíbrio cooperativo que considera decadente e tentar reposicionar-se para maximizar sua sobrevivência relativa num cenário pior. Também faz sentido, em tese, ler a imprevisibilidade como forma de sinalização estratégica. Um líder que parece disposto a ultrapassar limites pode extrair concessões de rivais mais prudentes.
Mas a própria literatura sobre a chamada madman theory é bem mais cautelosa do que a mitologia popular. Estudos recentes mostram que parecer irracional pode gerar benefícios limitados em algumas barganhas coercitivas, mas acarreta custos sérios em confiança, coordenação, reputação e política doméstica. Em jogos complexos e repetidos, a imprevisibilidade não funciona apenas como arma; ela também funciona como corrosivo.
Em outras palavras: parecer perigoso pode intimidar. Também pode isolar, confundir aliados, aumentar o preço do financiamento, reduzir coordenação diplomática e ampliar o risco de erro de cálculo. A tese do “gênio geopolítico” costuma falar bastante das possíveis vantagens da instabilidade. Fala pouco dos custos acumulados de governar por instabilidade.
O maior problema da tese: os outros não são figurantes
A versão mais frágil da narrativa do colapso controlado transforma China, Europa, Índia, Rússia e potências médias em espectadores de um tabuleiro desenhado em Washington. Isso não resiste a uma análise estratégica minimamente séria. Quando pressionados, os atores do sistema adaptam rotas, reformulam estoques, diversificam fornecedores, aceleram substituições tecnológicas, aproximam-se de parceiros alternativos e, em certos casos, retaliam. A China, por exemplo, continua altamente sensível a fluxos energéticos marítimos, mas não se resume a eles: produção doméstica, gasodutos, contratos de longo prazo e outras formas de diversificação reduzem a ideia simplista de “asfixia imediata”.
Esse ponto é decisivo porque recoloca a questão onde ela deve estar: na interação estratégica, não no monólogo imperial. Em Teoria dos Jogos, nenhum ator pressionado escolhe apenas entre obedecer e quebrar. Ele pode coalizar, adaptar, atrasar, retaliar ou transferir custos. Quando essa pluralidade desaparece, a análise se converte em fantasia geopolítica de comando absoluto.
O verdadeiro núcleo da questão
A hipótese de que Trump tenta deslocar os Estados Unidos de uma hegemonia liberal-global para uma hegemonia mais regional, mais material e mais dura não deve ser descartada de antemão. Ela captura algo essencial do espírito do tempo. Mas esse deslocamento, se estiver de fato em curso, não se dá em laboratório. Ele ocorre num sistema denso, reativo, conflitivo e cheio de consequências não planejadas.
Por isso, a pergunta central não é se Trump é gênio ou louco. Essa oposição é atraente, mas pobre. A pergunta decisiva é outra: um império ainda dominante consegue instrumentalizar a decomposição da ordem que o sustentou sem ser também corroído por ela?
Até aqui, a evidência sugere cautela. Os Estados Unidos continuam extremamente poderosos. Têm dólar, energia, tecnologia, capacidade militar, profundidade financeira e centralidade institucional. Mas nenhuma dessas vantagens transforma o caos em ferramenta limpa. Choques energéticos não obedecem perfeitamente a planos. Dívida não se sustenta só por medo. Alianças não suportam indefinidamente o desgaste da imprevisibilidade. E o resto do mundo não permanece imóvel à espera de ser reorganizado.
O erro da fantasia imperial
Há uma diferença entre usar crises para aumentar poder relativo e acreditar que se pode arquitetar uma era inteira a partir da destruição controlada do ambiente internacional. A primeira é uma prática histórica de grandes potências. A segunda é uma fantasia recorrente do pensamento imperial.
É exatamente aí que a tese do “Trump estrategista do colapso” começa a tropeçar. Ela enxerga corretamente a volta brutal da geopolítica material. Mas, fascinada por essa descoberta, exagera a coerência do ator, subestima os custos sistêmicos e reduz os demais jogadores à condição de figurantes. O resultado é uma narrativa forte, sedutora e até elegante. Só não é, ainda, uma demonstração.
Conclusão
O mundo de fato entrou numa fase mais dura. Energia, comida, fertilizantes, rotas marítimas, semicondutores, minerais críticos e capacidade industrial voltaram a definir o poder com nitidez desconfortável. Nesse ambiente, é plausível que líderes tentem trocar universalismo por fortaleza, interdependência por resiliência e diplomacia normativa por barganha material. Trump se move dentro desse clima de época. Isso é evidente.
O que não está demonstrado é que ele, ou qualquer outro líder, consiga administrar esse processo como arquiteto lúcido de uma nova ordem. A história costuma ser menos generosa com projetos de “colapso controlado” do que seus teóricos imaginam. Crises podem ser aceleradas. Raramente podem ser possuídas.
No fim, talvez o traço mais perigoso dessa visão não seja sua dureza. Seja sua ilusão de controle. É aí que muitos líderes deixam de ser estrategistas do real e passam a ser prisioneiros do próprio enredo.
Referências
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