sábado, 4 de abril de 2026

Trump quer administrar o colapso?

A fantasia do “gênio geopolítico” seduz o debate, mas a realidade mostra que caos energético, dívida e poder imperial não obedecem a roteiros limpos



A hipótese de que Donald Trump estaria conduzindo, com método e frieza, uma grande estratégia de “colapso controlado” da ordem global é uma dessas ideias que ganham força porque parecem explicar tudo de uma só vez. Nela, o aparente improviso vira cálculo; a ruptura vira engenharia; o caos vira instrumento racional de reconstrução nacional. O problema é que essa narrativa, embora intelectualmente poderosa, começa a falhar quando confrontada com a materialidade da energia, com a arquitetura financeira dos Estados Unidos, com os limites do poder americano e com a capacidade de reação dos demais atores do sistema internacional. A tese funciona como lente. Não funciona, pelo menos não integralmente, como prova.



O charme da tese: o mundo voltou a ser movido por território, energia e gargalos



A leitura que apresenta Trump como um estrategista do colapso não surge do nada. Ela encontra terreno fértil numa transformação histórica real: a globalização desmaterializada, vendida durante décadas como se o mundo pudesse viver apenas de finanças, serviços, dados e cadeias “eficientes”, mostrou suas rachaduras. O sistema internacional voltou a girar em torno do que sempre sustentou o poder: petróleo, fertilizantes, semicondutores, terras raras, rotas marítimas, capacidade industrial e controle logístico. Isso não é impressão ideológica; é realidade empírica. O Estreito de Ormuz segue como um dos pontos centrais do metabolismo energético global: em 2024 e no início de 2025, mais de um quarto do comércio marítimo mundial de petróleo passou por ali, além de parcela decisiva do gás natural liquefeito destinado sobretudo à Ásia.


É justamente por isso que a tese do “colapso controlado” parece sedutora. Ela diz, em essência, que um líder americano poderia perceber antes dos demais que a velha ordem global está exausta e, em vez de sustentá-la, aceleraria sua decomposição para reposicionar os Estados Unidos como o centro de um novo arranjo mais duro, mais regionalizado, mais material e mais coercitivo. A narrativa tem força porque conversa com algo concreto: o mundo está, de fato, menos liberal, menos estável e mais orientado por segurança de abastecimento.



Onde a interpretação começa a exagerar



Reconhecer a volta da energia ao centro da política internacional é uma coisa. Concluir, a partir disso, que Washington conseguiria administrar esse choque como maestro de uma nova ordem é outra completamente diferente. Os Estados Unidos hoje têm, sem dúvida, uma posição energética muito mais forte do que no passado. A produção doméstica de petróleo se mantém em níveis historicamente elevados, e exportações americanas de combustíveis cresceram diante das disrupções em torno de Ormuz. Esse dado reforça a ideia de que o país pode ter ganhos relativos em cenários de crise.


Mas vantagem relativa não é sinônimo de invulnerabilidade. Os mercados de energia são integrados, os preços são globais, e choques em rotas estratégicas contaminam toda a estrutura de custos. Mesmo os Estados Unidos seguem expostos a efeitos inflacionários, pressões sobre derivados, desajustes entre tipos de petróleo e necessidades específicas de refino. A EIA deixa claro que Ormuz continua relevante para a segurança energética global como um todo, não apenas para “os outros”.


Esse detalhe desmonta uma parte central da imaginação estratégica maximalista: a ideia de uma “Fortaleza América” plenamente blindada é, no melhor cenário, uma metáfora útil. Não é uma descrição literal. Os EUA podem sofrer menos do que certos rivais em uma ruptura logística mais aguda. Não podem atravessar esse processo como se estivessem fora do mundo que pretendem reorganizar.



O império ainda é forte, mas seu poder não é mágico



Outro ponto em que a tese derrapa é na leitura financeira. A dívida federal dos Estados Unidos está hoje na casa dos US$ 39 trilhões, e a demanda estrangeira por títulos do Tesouro permanece gigantesca. Isso é real. Também é verdade que o dólar continua ocupando posição singular no sistema internacional. Mas transformar essa centralidade monetária em simples decorrência de coerção energética é intelectualmente preguiçoso. A força dos Treasuries decorre da profundidade do mercado americano, da liquidez, da institucionalidade, da presença do dólar no comércio e nas reservas globais e da ausência de um substituto com a mesma escala e confiança.


A narrativa do “eles continuarão financiando a dívida dos EUA porque precisarão do petróleo americano” simplifica demais um mecanismo mais sofisticado. E há mais: se Washington trocar previsibilidade estratégica por voluntarismo excessivo, esse mesmo capital de confiança pode começar a se desgastar na margem. Reuters destacou recentemente que, embora não haja evidência de abandono maciço dos Treasuries por bancos centrais, o debate sobre diversificação e vulnerabilidade ao risco político americano ganhou novo fôlego.


Em linguagem mais direta: o dólar ainda manda, mas não porque os demais ajoelham automaticamente diante do petróleo. Ele manda porque o sistema inteiro foi moldado em torno dele. Desorganizar demais esse sistema pode até gerar ganhos táticos de curto prazo. Também pode corroer fundamentos que sustentam o poder americano de longo prazo.



A sedução do plano total e a tentação de enxergar um roteiro em tudo



É compreensível que muitos analistas queiram ver coerência absoluta nas rupturas do trumpismo. Isso dá forma a um tempo histórico confuso. Tudo parece se encaixar: Ormuz, tarifas, pressão sobre aliados, ataques à ordem liberal, discurso nacionalista, reindustrialização, semicondutores, migração, fronteiras, minerais críticos. Quando essas peças são agrupadas, surge uma imagem poderosa: Trump não seria errático, mas metódico; não seria caótico, mas deliberadamente disruptivo.


Só que há uma diferença entre coerência retrospectiva e coerência real de formulação. Muitas vezes, o analista olha para movimentos heterogêneos e os reescreve como se fossem parte de um mesmo desenho estratégico. Isso é intelectualmente elegante, mas metodologicamente arriscado. A boa interpretação geopolítica não pode transformar todo ruído em sinal. Nem todo gesto abrupto é expressão de grande estratégia. Às vezes é apenas improviso, disputa doméstica, cálculo eleitoral ou reação conjuntural.



“Technate”: conceito estratégico ou reciclagem ideológica?



Um dos pontos mais frágeis desse imaginário é o uso contemporâneo do termo Technate como se ele designasse uma doutrina geopolítica robusta em operação. Historicamente, o conceito pertence ao velho movimento tecnocrático norte-americano do século XX, que imaginava uma reorganização continental baseada em energia, engenharia e administração técnica da sociedade. Trata-se de uma tradição intelectual real, mas antiga, carregada de traços utópicos e, em certos momentos, pseudocientíficos.


Isso não impede que o vocabulário seja reciclado hoje por setores que pensam a América do Norte como espaço produtivo integrado, do Ártico ao istmo centro-americano. O problema é tratar esse reaproveitamento como se fosse política de Estado consolidada ou doutrina estratégica plenamente articulada. Não é. O que há, mais concretamente, são tendências reais de nearshoring, disputa por minerais críticos, reforço de cadeias regionais e reindustrialização seletiva. Isso é importante e merece análise. Mas chamar isso de “Technate” como se estivéssemos diante de um projeto maduro, homogêneo e consensual é atribuir a uma colagem ideológica um grau de concretude que ela ainda não possui.



Dugin ajuda a iluminar o clima de época, mas não resolve a equação



A aproximação entre essa leitura do trumpismo e a obra de Aleksandr Dugin tem utilidade parcial. Ela ajuda a enxergar a volta dos “grandes espaços”, da autarquia regional, do revisionismo contra a ordem liberal e da guerra por esferas de influência. Nesse nível, a analogia tem valor. Mas ela perde rigor quando vira equivalência automática. Foundations of Geopolitics é uma obra ideológica, antiatlântica e fortemente associada ao imaginário neo-eurasianista russo; Stanford a trata como um texto influente em certos meios estratégicos russos, ligado a visões expansionistas e antiliberais.


O paralelo serve para mostrar um deslocamento mais amplo do debate internacional: menos universalismo liberal, mais civilização, território, soberania e antagonismo. Não serve para provar que Trump estaria simplesmente aplicando, em versão americana, uma matriz doutrinária equivalente à russa. A tentação de juntar tudo sob um único grande código interpretativo pode produzir textos impressionantes. Nem sempre produz análises corretas.



A Teoria dos Jogos ilumina a lógica, mas não garante o sucesso da estratégia



A parte mais sofisticada dessa hipótese talvez esteja no uso da Teoria dos Jogos. Faz sentido pensar que um ator pode abandonar um equilíbrio cooperativo que considera decadente e tentar reposicionar-se para maximizar sua sobrevivência relativa num cenário pior. Também faz sentido, em tese, ler a imprevisibilidade como forma de sinalização estratégica. Um líder que parece disposto a ultrapassar limites pode extrair concessões de rivais mais prudentes.


Mas a própria literatura sobre a chamada madman theory é bem mais cautelosa do que a mitologia popular. Estudos recentes mostram que parecer irracional pode gerar benefícios limitados em algumas barganhas coercitivas, mas acarreta custos sérios em confiança, coordenação, reputação e política doméstica. Em jogos complexos e repetidos, a imprevisibilidade não funciona apenas como arma; ela também funciona como corrosivo.


Em outras palavras: parecer perigoso pode intimidar. Também pode isolar, confundir aliados, aumentar o preço do financiamento, reduzir coordenação diplomática e ampliar o risco de erro de cálculo. A tese do “gênio geopolítico” costuma falar bastante das possíveis vantagens da instabilidade. Fala pouco dos custos acumulados de governar por instabilidade.



O maior problema da tese: os outros não são figurantes



A versão mais frágil da narrativa do colapso controlado transforma China, Europa, Índia, Rússia e potências médias em espectadores de um tabuleiro desenhado em Washington. Isso não resiste a uma análise estratégica minimamente séria. Quando pressionados, os atores do sistema adaptam rotas, reformulam estoques, diversificam fornecedores, aceleram substituições tecnológicas, aproximam-se de parceiros alternativos e, em certos casos, retaliam. A China, por exemplo, continua altamente sensível a fluxos energéticos marítimos, mas não se resume a eles: produção doméstica, gasodutos, contratos de longo prazo e outras formas de diversificação reduzem a ideia simplista de “asfixia imediata”.


Esse ponto é decisivo porque recoloca a questão onde ela deve estar: na interação estratégica, não no monólogo imperial. Em Teoria dos Jogos, nenhum ator pressionado escolhe apenas entre obedecer e quebrar. Ele pode coalizar, adaptar, atrasar, retaliar ou transferir custos. Quando essa pluralidade desaparece, a análise se converte em fantasia geopolítica de comando absoluto.



O verdadeiro núcleo da questão



A hipótese de que Trump tenta deslocar os Estados Unidos de uma hegemonia liberal-global para uma hegemonia mais regional, mais material e mais dura não deve ser descartada de antemão. Ela captura algo essencial do espírito do tempo. Mas esse deslocamento, se estiver de fato em curso, não se dá em laboratório. Ele ocorre num sistema denso, reativo, conflitivo e cheio de consequências não planejadas.


Por isso, a pergunta central não é se Trump é gênio ou louco. Essa oposição é atraente, mas pobre. A pergunta decisiva é outra: um império ainda dominante consegue instrumentalizar a decomposição da ordem que o sustentou sem ser também corroído por ela?


Até aqui, a evidência sugere cautela. Os Estados Unidos continuam extremamente poderosos. Têm dólar, energia, tecnologia, capacidade militar, profundidade financeira e centralidade institucional. Mas nenhuma dessas vantagens transforma o caos em ferramenta limpa. Choques energéticos não obedecem perfeitamente a planos. Dívida não se sustenta só por medo. Alianças não suportam indefinidamente o desgaste da imprevisibilidade. E o resto do mundo não permanece imóvel à espera de ser reorganizado.



O erro da fantasia imperial



Há uma diferença entre usar crises para aumentar poder relativo e acreditar que se pode arquitetar uma era inteira a partir da destruição controlada do ambiente internacional. A primeira é uma prática histórica de grandes potências. A segunda é uma fantasia recorrente do pensamento imperial.


É exatamente aí que a tese do “Trump estrategista do colapso” começa a tropeçar. Ela enxerga corretamente a volta brutal da geopolítica material. Mas, fascinada por essa descoberta, exagera a coerência do ator, subestima os custos sistêmicos e reduz os demais jogadores à condição de figurantes. O resultado é uma narrativa forte, sedutora e até elegante. Só não é, ainda, uma demonstração.



Conclusão



O mundo de fato entrou numa fase mais dura. Energia, comida, fertilizantes, rotas marítimas, semicondutores, minerais críticos e capacidade industrial voltaram a definir o poder com nitidez desconfortável. Nesse ambiente, é plausível que líderes tentem trocar universalismo por fortaleza, interdependência por resiliência e diplomacia normativa por barganha material. Trump se move dentro desse clima de época. Isso é evidente.


O que não está demonstrado é que ele, ou qualquer outro líder, consiga administrar esse processo como arquiteto lúcido de uma nova ordem. A história costuma ser menos generosa com projetos de “colapso controlado” do que seus teóricos imaginam. Crises podem ser aceleradas. Raramente podem ser possuídas.


No fim, talvez o traço mais perigoso dessa visão não seja sua dureza. Seja sua ilusão de controle. É aí que muitos líderes deixam de ser estrategistas do real e passam a ser prisioneiros do próprio enredo.



Referências



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A engenharia oculta do poder global

Como Gary Allen e Larry Abraham transformam crise, guerra e mídia em peças de uma mesma arquitetura conspiratória



Poucos livros condensam com tanta força a desconfiança política do século XX quanto Política, Ideologia e Conspirações. Na introdução e no primeiro capítulo da obra, Gary Allen e Larry Abraham constroem uma interpretação radical da história: os grandes acontecimentos políticos, econômicos e militares não seriam fruto de erro, acaso ou improviso, mas resultado de planejamento deliberado por uma elite discreta, financeira, política e intelectual. A força do texto está menos em “provar” empiricamente cada elo dessa cadeia e mais em oferecer ao leitor uma lente totalizante: a de que por trás da superfície dos fatos haveria sempre uma engrenagem oculta de poder. O que se segue é uma leitura jornalística, didática e crítica dessa posição autoral, restrita ao material efetivamente disponibilizado no arquivo: a introdução, o Capítulo 1 e a nota editorial da edição brasileira. 


O ponto de partida do livro: a desconfiança como método


A introdução do volume já anuncia o tom da obra. John G. Schmitz, responsável pelo texto introdutório, apresenta o livro como uma revelação incômoda, destinada a sofrer silêncio, ridicularização e ataques pessoais. Não se trata de um prefácio neutro. Ele prepara o leitor psicologicamente para uma batalha interpretativa: de um lado, o livro como portador de uma verdade reprimida; de outro, a mídia, os especialistas e os agentes do poder como operadores de uma grande cortina de fumaça. 


Esse enquadramento é decisivo. Antes mesmo de desenvolver argumentos, a obra estabelece uma blindagem discursiva. Em termos jornalísticos, é como se dissesse: “se vier contestação, isso já confirma o que está sendo denunciado”. É uma estratégia retórica poderosa, porque desloca o debate da verificação factual para a suspeita estrutural. A crítica, nessa lógica, deixa de ser apenas oposição e passa a ser indício de encobrimento.


Há, portanto, uma primeira chave de leitura indispensável: Allen e Abraham, respaldados pela introdução de Schmitz, não querem apenas contar uma história alternativa da política; querem ensinar o leitor a desconfiar do próprio ambiente em que a verdade circula. O problema, para eles, não seria apenas o poder oculto. Seria também a fabricação pública da ignorância.


A grande tese: a história não acontece, ela é feita


No Capítulo 1, o argumento central surge com clareza: a história não seria uma sequência de acidentes, improvisos e incompetências, mas um processo dirigido por vontade organizada. Os autores usam a metáfora da “imagem oculta” em uma ilustração infantil: a paisagem aparente esconde um desenho verdadeiro, e a tarefa do observador é enxergar o que sempre esteve ali. A mídia, segundo eles, atuaria exatamente assim, oferecendo ao público cenários vistosos que escondem a estrutura real dos acontecimentos. 


Essa metáfora é o coração do capítulo. Ela simplifica um raciocínio complexo e, ao mesmo tempo, o torna memorável. Para Allen e Abraham, o cidadão comum sente que “há algo errado”, mas não consegue localizar a causa porque foi treinado a olhar para a superfície. Promessas eleitorais mudam, governos se sucedem, crises se repetem, guerras reaparecem, inflação retorna, liberdades são restringidas, e ainda assim a explicação dominante continua sendo a do erro, da contingência ou da dificuldade inerente ao mundo moderno. Os autores rejeitam frontalmente essa leitura. 


O raciocínio deles é simples e contundente: se governantes de diferentes partidos repetem as mesmas diretrizes fundamentais; se os mesmos tipos de desastre reaparecem; se o prejuízo público parece recorrente e sistemático; então não se trata de uma coleção de equívocos. Trata-se, segundo a obra, de desenho, método e intenção. 


A recusa da “teoria acidental da história”


Allen e Abraham organizam o debate em torno de uma oposição binária: ou os fatos históricos relevantes acontecem por acidente, ou acontecem porque alguém os planejou. Para eles, a narrativa dominante nas universidades, na grande imprensa e nos círculos respeitáveis seria a “teoria acidental da história”, uma doutrina confortável porque absolve os responsáveis. Se tudo é complexo demais, se tudo decorre de forças impessoais, fluxos históricos ou erros inevitáveis, então ninguém precisa responder pelo resultado. 


A ousadia do capítulo está em inverter o estigma. Normalmente, o pensamento conspiratório é tratado como simplificação excessiva. Os autores, porém, sustentam o contrário: simplista seria acreditar que décadas de inflação, guerra, crise e autoritarismo resultaram apenas de coincidências sucessivas. Essa inversão é uma das marcas mais fortes do texto. Ela tenta retirar da teoria conspiratória o rótulo de delírio e transferi-lo para o pensamento institucional, acadêmico e jornalístico.


Do ponto de vista argumentativo, essa operação é eficiente porque transforma a suspeita em racionalidade e a confiança na ordem institucional em ingenuidade. O leitor passa a ser convidado a escolher entre duas posturas: permanecer confortável com o que lhe ensinaram ou encarar a hipótese de que a superfície democrática não passa de encenação parcial.


A crítica à mídia: informar ou camuflar?


O livro atribui à grande mídia um papel decisivo na manutenção dessa cegueira coletiva. Não se trata apenas de erro jornalístico, mas de ocultação deliberada. Os autores falam em “desenhistas” que montam cenários para esconder a “imagem verdadeira”, e voltam repetidamente à ideia de que jornais, rádio e televisão não contam toda a história. 


Aqui o argumento tem uma dimensão muito contemporânea. Mesmo sendo um texto originado nos anos 1970, ele antecipa um sentimento que hoje se ampliou: a percepção de que a notícia não entrega o processo inteiro, apenas sua face mais visível e administrável. Allen e Abraham radicalizam essa intuição. Para eles, omissões, enquadramentos seletivos, preconceitos de repórteres e interesses de establishment não seriam distorções marginais do sistema informativo; seriam parte funcional do modo como o poder opera. 


É importante notar que os autores não dizem apenas que a imprensa erra. Dizem que ela ajuda a produzir consenso em torno do erro. Isso altera completamente a natureza da crítica. Não se trata de aperfeiçoar a cobertura jornalística. Trata-se de romper com a própria confiança civilizacional no jornalismo dominante como mediador dos fatos.


A universidade e os “respeitáveis”: o problema da respeitabilidade social


Outro alvo central do capítulo é o meio acadêmico. Allen e Abraham afirmam que professores, colunistas e formadores de opinião rejeitam a explicação conspiratória não porque tenham refutado suas evidências, mas porque dependem social e profissionalmente da manutenção do consenso dominante. Em outras palavras: o obstáculo não seria epistemológico, mas sociológico. O problema não seria a falta de prova; seria o medo do ridículo, do ostracismo, da perda de prestígio e da ruptura com o rebanho intelectual. 


Esse trecho é especialmente revelador, porque mostra que o livro não está apenas discutindo fatos políticos. Ele está descrevendo uma teoria do comportamento das elites culturais. Segundo os autores, o mundo respeitável prefere a estabilidade simbólica da carreira e do status à honestidade intelectual. O acadêmico, o empresário, o profissional liberal e o jornalista apareceriam, nessa moldura, como personagens domesticados por uma estrutura de recompensa e punição social. 


Há aqui uma intuição sociológica importante, ainda que levada ao extremo: ideias hegemônicas não se mantêm apenas por sua coerência interna, mas também por instituições, reputações e mecanismos de reconhecimento. Allen e Abraham exploram isso para dizer que a conspiração se protege não apenas com dinheiro e poder, mas também com vergonha social. O riso, o deboche e a caricatura tornam-se armas políticas.


O uso do escárnio como tecnologia de poder


Um dos trechos mais interessantes do capítulo é justamente o que trata do riso. Os autores afirmam que, quando o silêncio não funciona, entram em cena a sátira, o escárnio e os ataques pessoais. É um mecanismo de neutralização: em vez de debater o argumento, ridiculariza-se o emissor. A intenção seria forçá-lo a se defender da caricatura, desviando o foco dos fatos que tentou expor. 


Essa observação merece atenção porque toca num ponto estrutural da disputa pública. O riso pode funcionar como uma forma de disciplina ideológica. Ao transformar determinada hipótese em objeto de vergonha, o sistema dispensa até mesmo a necessidade de refutá-la exaustivamente. Bastaria associá-la ao absurdo, ao excêntrico, ao desequilíbrio, ao socialmente inapresentável.


O próprio livro, aliás, reconhece que há exageros e deformações dentro do universo conspiratório, quando menciona versões racializadas, religiosas ou delirantes da tese. Mas os autores usam isso não para recuar, e sim para afirmar que tais exageros servem ao interesse do establishment, pois ajudam a desqualificar qualquer crítica mais ampla à engrenagem de poder. 


Carroll Quigley e a busca de legitimidade


Talvez o momento mais estratégico do capítulo seja o uso de Carroll Quigley. Allen e Abraham recorrem ao professor de Georgetown como uma espécie de testemunha qualificada, alguém que não poderia ser facilmente descartado como extremista. Segundo o texto, Quigley teria reconhecido a existência de uma rede de poder internacional e afirmado ter tido acesso a seus registros. Os autores destacam que a divergência dele não seria com os objetivos da rede, mas com seu caráter secreto. 


A função desse movimento é clara: emprestar respeitabilidade documental a uma tese que costuma ser marginalizada. Quigley surge como selo de admissibilidade. Se um acadêmico associado ao establishment admite a existência de uma rede, então, na lógica do capítulo, a hipótese deixa de ser fantasia e passa a ser um segredo parcialmente confessado.


A partir daí, Allen e Abraham explicitam o que consideram o objetivo da rede: “criar um sistema mundial de controle financeiro” em mãos privadas, capaz de dominar a política dos países e a economia mundial. E avançam ainda mais, afirmando que tal organização buscaria controlar recursos naturais, bancos, transportes, negócios e, no limite, restringir a liberdade individual por meio de formas amplas de monitoramento social. 


Em linguagem atual, esse trecho soa como uma combinação entre crítica ao capital financeiro transnacional, temor diante da governança global e angústia com sistemas de vigilância burocrática. O livro junta esses elementos sob um único guarda-chuva conspiratório.


Os “Adeptos”: a elite invisível como sujeito da história


Allen e Abraham nomeiam essa elite como “Adeptos”. O termo funciona como personagem político abstrato, mas também como eixo narrativo. Em vez de lidar com processos amplos, contraditórios e difusos, o texto concentra a causalidade em um círculo relativamente coeso, auto-perpetuado, rico, culto, influente e empenhado em redesenhar a ordem mundial. 


Essa personificação tem enorme força literária. Toda história precisa de protagonistas. Ao batizar o núcleo oculto do poder, o livro transforma tendências históricas complexas em ação inteligível. Guerras, crises, propaganda, erosão da liberdade, centralização financeira: tudo se torna legível quando há um sujeito dirigente por trás.


Ao mesmo tempo, essa estratégia é o que torna o livro intelectualmente sedutor e metodologicamente problemático. Sedutor, porque oferece unidade onde o mundo parece caótico. Problemático, porque tende a condensar em uma vontade única processos históricos que podem decorrer de múltiplos interesses concorrentes, instituições em conflito e dinâmicas não centralizadas. Essa tensão precisa ser reconhecida em qualquer leitura séria da obra.


Guerra, depressão e ódio: o caos como instrumento


Um dos pontos mais graves da tese dos autores é a afirmação de que os conspiradores não teriam escrúpulos em fomentar guerras, depressões e ódios para atingir seus objetivos monopolistas. A crise, portanto, deixa de ser fracasso do sistema e passa a ser seu combustível. Não seria a desordem contra o poder; seria a desordem a serviço do poder. 


Essa passagem ajuda a entender por que o livro continua atraente para leitores que buscam interpretar conflitos contemporâneos. Sua estrutura argumentativa permite ler qualquer guerra não apenas como confronto entre Estados, povos ou ideologias, mas como mecanismo de realocação de riqueza, expansão institucional, disciplinamento social e reorganização geoeconômica. A mesma chave pode ser usada para inflação, endividamento, emergência sanitária, censura, crise moral ou reconfiguração tecnológica.


É exatamente aí que reside o alcance e o risco da obra. O alcance: ela ensina a olhar para os interesses estruturais por trás do caos aparente. O risco: ela pode induzir a uma generalização totalizante, na qual toda crise já nasce previamente interpretada como fabricação intencional.


A psicologia da negação


Os autores também investem numa explicação psicológica para a rejeição de suas teses. O problema não seria só a manipulação externa, mas a resistência interna do próprio indivíduo em abandonar convicções confortáveis. Eles recorrem à analogia de Colombo: tal como muitos zombaram da ideia de que a Terra era redonda, o público contemporâneo zombaria da noção de que há planejamento por trás dos fatos políticos. 


A comparação é retoricamente forte. Seu efeito é deslocar o leitor para uma posição heroica: aceitar a tese conspiratória seria algo semelhante a romper com um paradigma antigo, apesar da pressão dos respeitáveis. Não é um convite pequeno; é quase uma convocação moral. O leitor é chamado a escolher entre respeitabilidade e verdade, entre acomodação social e coragem intelectual.


Essa dimensão moralizante aparece várias vezes no texto. O problema não seria apenas compreender ou não compreender os fatos. Seria ter ou não ter coragem de suportar suas implicações.


A posição ideológica dos autores


A nota editorial da edição brasileira esclarece que a noção de “conservador” usada no livro, originalmente dos anos 1970, aproxima-se mais do que hoje seria chamado de “liberal”. Esse dado importa porque ajuda a situar ideologicamente a obra. Allen e Abraham escrevem a partir de um campo anticomunista, antiestatizante e profundamente desconfiado de estruturas supranacionais e burocracias centralizadas. 


Não se trata, portanto, de uma crítica neutra ao poder. É uma crítica situada. O livro combate aquilo que entende como deriva coletivista, globalista e socialista da modernidade política. Sua denúncia de uma elite transnacional não é anticapitalista no sentido clássico; é uma denúncia do monopólio, da centralização e da captura da liberdade por uma aliança entre finança, burocracia, academia, mídia e engenharia política internacional.


Essa distinção é importante porque impede leituras simplificadoras. Allen e Abraham não estão atacando “o sistema” de maneira genérica. Estão defendendo uma concepção específica de liberdade, iniciativa privada, soberania moral e desconfiança em relação à concentração de poder global.


Como essa leitura ecoa nos conflitos contemporâneos


A atualidade do livro não depende de a tese conspiratória estar integralmente correta. Ela depende do fato de que muitos leitores contemporâneos reconhecem no mundo presente alguns dos medos que Allen e Abraham já exploravam: centralização financeira, integração entre poder político e econômico, opacidade decisória, influência transnacional sobre Estados, vigilância tecnológica e fabricação de narrativas públicas.


Aplicada aos conflitos recentes, essa lente produz uma leitura estrutural. Guerras como a da Ucrânia ou os sucessivos confrontos envolvendo EUA, Israel e Irã deixam de ser vistos apenas em termos de diplomacia, soberania, religião ou segurança. Passam a aparecer como episódios de uma engenharia maior de realocação de poder, mercados, rotas energéticas, dependências financeiras e controles institucionais.


É indispensável, porém, manter a distinção entre ler os conflitos à luz da obra e provar que a obra descreve literalmente esses conflitos. O arquivo fornecido não contém análise dos eventos atuais. O que ele oferece é uma matriz interpretativa: a ideia de que o caos internacional pode ser funcional à concentração de poder. 


O mérito do livro: ensinar a desconfiar da superfície


Mesmo para quem não aceita a totalidade da hipótese conspiratória, o livro tem um mérito inegável: recusa a ingenuidade política. Ele lembra que poder não é apenas discurso público; é também bastidor, interesse, rede, financiamento, influência e capacidade de moldar percepções. Em tempos de guerra informacional, plataformas digitais, lobby transnacional e sistemas opacos de decisão, essa advertência continua relevante.


Allen e Abraham acertam ao insistir que a notícia não esgota o acontecimento. Acertam também ao mostrar que narrativas oficiais podem proteger estruturas e que o prestígio social frequentemente pesa mais do que a busca da verdade. Seu texto funciona, nesse sentido, como antídoto contra a passividade cívica.


O limite do livro: quando a suspeita vira sistema fechado


Mas há um limite evidente. Quando toda recorrência histórica é automaticamente interpretada como prova de comando central; quando a crítica da mídia, da universidade e do Estado se converte em uma metanarrativa total; quando a complexidade do real é recodificada em torno de uma elite onipresente, o risco é cair num modelo explicativo que absorve tudo e, por isso mesmo, quase nada deixa de explicar.


Esse é o paradoxo do pensamento conspiratório forte: ele é atraente porque unifica; mas pode se tornar circular porque transforma contestação em confirmação, complexidade em máscara e contingência em teatro. Um modelo assim tem grande potência narrativa, mas exige cautela analítica.


Conclusão


A introdução e o primeiro capítulo de Política, Ideologia e Conspirações revelam um projeto intelectual nitidamente combativo: convencer o leitor de que a história moderna é menos produto de acidentes do que de arquitetura deliberada. Gary Allen e Larry Abraham constroem essa tese por meio de três movimentos complementares: denunciam a mídia como camuflagem, acusam a academia e os respeitáveis de protegerem a mentira por interesse ou covardia, e apresentam a existência de uma elite transnacional — os “Adeptos” — como eixo oculto das crises políticas, financeiras e militares. O resultado é um texto de enorme força retórica, que captura um sentimento persistente da vida moderna: a sensação de que os fatos visíveis não bastam para explicar o mundo. Seu poder está justamente aí. O livro oferece ao leitor uma gramática de suspeita, uma pedagogia da desconfiança e uma interpretação unificadora do caos. Mas é preciso lê-lo com maturidade: como documento ideológico, como artefato de combate político e como sintoma duradouro de uma época em que a confiança nas instituições se rompeu. Não se trata de aceitá-lo ingenuamente nem de descartá-lo com deboche. Trata-se de compreendê-lo em sua potência e em seu excesso. Porque, no fundo, a permanência desse tipo de obra diz menos apenas sobre seus autores e mais sobre uma ferida histórica que continua aberta: a dificuldade contemporânea de acreditar que o poder age às claras. 


Referência


ALLEN, Gary; ABRAHAM, Larry. Política, ideologia e conspirações: a sujeira por trás das ideias que dominam o mundo. Tradução de Eduardo Levy. [S. l.]: Faro Editorial, 2023.