sábado, 4 de abril de 2026

Soberania em tempos de transição: o que a entrevista de Robinson Farinazzo revela sobre o Brasil no novo tabuleiro geopolítico

Da crise da hegemonia ocidental ao desafio da autonomia estratégica brasileira



A entrevista de Robinson Farinazzo ao programa Juca Kfouri Entrevista recoloca no centro do debate brasileiro uma questão que há muito tempo vem sendo tratada de forma lateral: a soberania nacional em um sistema internacional em mutação. Ao analisar Ucrânia, Irã, BRICS, guerra híbrida, Forças Armadas e dependência tecnológica, Farinazzo sustenta que o mundo já não opera segundo a lógica estável do pós-Guerra Fria. O desafio brasileiro, nesse cenário, não é apenas escolher governos, mas decidir se continuará como ator periférico e reativo ou se construirá, enfim, uma estratégia nacional de autonomia. A entrevista, publicada pela Rede TVT, insere-se justamente nesse debate mais amplo sobre a redistribuição do poder global.





A entrevista como sintoma de uma mudança histórica



A força da entrevista de Robinson Farinazzo não está apenas nas respostas pontuais que oferece sobre Ucrânia, Irã ou Brasil. Sua relevância está, sobretudo, no enquadramento do problema: o comandante propõe que os acontecimentos recentes não sejam lidos como crises isoladas, mas como expressões de uma transformação mais profunda na arquitetura do poder mundial.


Essa hipótese encontra respaldo no ambiente internacional contemporâneo. A guerra da Ucrânia alterou o padrão de segurança europeu, impulsionou o aumento dos gastos militares entre países da OTAN e expôs limites logísticos e industriais das potências ocidentais, ainda que a aliança permaneça funcional e politicamente ativa. Ao mesmo tempo, o avanço do BRICS como agrupamento político ampliado, a centralidade da China na economia mundial e o protagonismo crescente de potências médias mostram que a ordem internacional se tornou mais disputada e menos automática.


É justamente nesse ponto que a entrevista ganha densidade. Ela não afirma apenas que existem conflitos. Ela sugere que o mundo entrou numa fase em que a antiga assimetria entre centro e periferia, entre Ocidente e não Ocidente, entre poder consolidado e poder emergente, já não opera com a mesma naturalidade de antes. O que está em curso não é um colapso instantâneo do Ocidente, mas uma erosão relativa de sua capacidade de impor unilateralmente a direção dos acontecimentos.





A “Terceira Guerra Mundial não convencional” como disputa de sistemas



Um dos conceitos mais provocativos utilizados por Farinazzo é o de “Terceira Guerra Mundial não convencional”. A expressão chama atenção porque rompe com a imagem clássica de guerra total entre grandes potências em linhas de frente contínuas. Na entrevista, a noção de guerra mundial não remete a um espetáculo cinematográfico, mas a um processo difuso de transformação estratégica.


Essa formulação, embora retórica, tem utilidade analítica. Os grandes conflitos contemporâneos já não são travados apenas por divisões blindadas, ocupações territoriais prolongadas ou declarações formais de guerra. Eles envolvem sanções econômicas, ataques cibernéticos, guerra informacional, pressão diplomática, bloqueios regionais, uso de drones, destruição seletiva de infraestrutura e disputa narrativa permanente. Em outras palavras, a guerra tornou-se também institucional, econômica, tecnológica e cognitiva.


Nesse sentido, a entrevista acerta ao indicar que o problema central não é apenas quem vence uma batalha, mas quem consegue redesenhar regras, corroer a capacidade do adversário e reorganizar dependências. A Ucrânia, o Oriente Médio, o Mar Vermelho, as cadeias energéticas e os sistemas financeiros não são episódios desconexos; são partes de uma mesma reorganização do tabuleiro global. A Reuters registrou, por exemplo, que a OTAN permanece engajada no apoio à Ucrânia, mas também evidenciou como o contexto geopolítico recente multiplicou frentes de tensão e exigiu reposicionamento estratégico dos aliados.


Portanto, a expressão usada por Farinazzo funciona menos como conceito fechado e mais como chave interpretativa: o mundo não atravessa uma simples crise, mas uma disputa prolongada pela redefinição da ordem internacional.





Irã, dissuasão e os limites do poder americano



Outro eixo decisivo da entrevista é a leitura sobre o Irã. Farinazzo sustenta que há um abismo entre a retórica política de Washington e a viabilidade concreta de uma submissão rápida de Teerã. O ponto é importante porque rompe com uma percepção ainda muito difundida no debate público: a de que superioridade militar agregada equivale, automaticamente, à capacidade de impor vontade política em qualquer teatro regional.


Essa equivalência não se sustenta. O Irã construiu, ao longo de décadas, uma estratégia de dissuasão baseada em profundidade territorial, descentralização de ativos, uso intensivo de mísseis e drones, alianças regionais assimétricas e capacidade de elevar o custo de qualquer intervenção externa. Estudos recentes e análises estratégicas mostram que a lógica iraniana não depende de superioridade convencional absoluta, mas de tornar a agressão adversária cara, incerta e prolongada.


A Associated Press também destacou os efeitos sistêmicos que qualquer agravamento regional envolvendo o Irã pode produzir, especialmente em rotas energéticas sensíveis, transporte marítimo, seguros e abastecimento internacional. Isso ajuda a entender a tese de Farinazzo de que Teerã, mesmo sem hegemonia global, pode “dar as cartas” em escala regional ao condicionar o custo da escalada.


A entrevista é perspicaz exatamente por isso: ela desmistifica a fantasia da guerra fácil. O problema não é saber se os Estados Unidos possuem mais poder bruto. É evidente que possuem. O problema é outro: saber se esse poder pode ser convertido, sem alto custo, em controle político estável. E é precisamente aí que entram os limites da força.





A decadência da hegemonia ocidental: diagnóstico válido, mas que exige nuance



A tese da decadência da hegemonia ocidental aparece na entrevista como pano de fundo para todos os demais argumentos. Trata-se de uma formulação forte, e por isso mesmo precisa ser tratada com rigor. O que está em declínio não é, necessariamente, o poder material do Ocidente em termos absolutos, mas sua capacidade de operar como centro incontestado da ordem mundial.


Essa distinção é crucial. Os Estados Unidos seguem sendo a maior potência militar do planeta. A OTAN continua sendo a mais robusta aliança militar contemporânea. O sistema financeiro internacional permanece fortemente ancorado no dólar e em instituições moldadas pelo eixo atlântico. Ainda assim, a margem de liberdade desse bloco diminuiu. Sua hegemonia tornou-se mais cara, mais contestada e menos automática.


A expansão do BRICS é um indicador relevante dessa transição. O agrupamento ganhou novos membros e passou a representar, de forma mais explícita, uma tentativa de coordenação entre potências emergentes e países do Sul Global. O Brasil, inclusive, exerceu a presidência rotativa do bloco em 2025, o que reforça a centralidade do tema para a política externa brasileira.


Farinazzo acerta ao perceber que a disputa contemporânea não ocorre apenas em torno de armas ou mercados, mas também em torno da capacidade de definir o que é legítimo, racional e universal. Hegemonia não é apenas força; é também poder de enquadrar a realidade. Quando esse enquadramento começa a falhar, abre-se espaço para múltiplos centros de barganha, contestação e reorganização.





Guerra híbrida, lawfare e soberania vulnerável



Talvez o trecho mais sensível da entrevista seja aquele em que Farinazzo trata das novas formas de ingerência. Sua tese é direta: o controle contemporâneo não depende necessariamente de tanques nas ruas. Pode operar por vias mais sutis, como manipulação informacional, cooperação seletiva entre agências, pressão jurídica, dependência digital e desequilíbrios institucionais internos.


Esse argumento dialoga com debates relevantes no Brasil recente. As revelações da Vaza Jato levantaram dúvidas sérias sobre práticas de coordenação entre magistrado e acusação, comprometendo a percepção de imparcialidade em processos de altíssimo impacto político. Paralelamente, a Reuters documentou episódios de interação de autoridades norte-americanas com o governo Bolsonaro em torno da confiança nas eleições brasileiras, o que alimentou discussões sobre pressão internacional e enquadramento institucional do debate doméstico.


Isso não significa aderir a uma visão conspiratória simplificadora, na qual todo processo político interno seria mera marionete externa. Uma leitura madura exige equilíbrio. Mas também seria ingênuo ignorar que soberania, no século XXI, passa por capacidades de proteção institucional contra formas indiretas de captura.


A entrevista, nesse ponto, oferece um alerta pertinente: a defesa nacional já não pode ser pensada apenas em termos territoriais. Ela inclui infraestrutura digital, autonomia tecnológica, robustez jurídica, independência decisória e integridade dos processos políticos internos. Soberania, portanto, não é somente controle de fronteiras; é capacidade real de autodeterminação.





Civis, militares e o vazio estratégico brasileiro



Quando Farinazzo aborda a relação entre a esquerda, a sociedade civil e os militares, a entrevista entra em terreno delicado, mas extremamente relevante. Seu argumento é que a ausência de diálogo consistente entre setores civis e a caserna ajudou a abrir espaço para a penetração de ideologias mais radicais e simplificadoras, especialmente no ciclo recente.


A referência ao olavismo, nesse contexto, funciona como exemplo de colonização ideológica de um vazio. Onde faltou debate republicano sobre defesa, projeto nacional e papel estratégico das Forças Armadas, sobrou espaço para doutrinas identitárias de direita, retórica antissistêmica e imaginários conspiratórios.


Essa crítica merece atenção porque não se reduz a uma disputa partidária. Ela toca num problema histórico brasileiro: a dificuldade de constituir uma relação estável, republicana e intelectualmente qualificada entre sociedade civil, mundo acadêmico, Estado e instituições militares. Quando essa mediação falha, as Forças Armadas deixam de ser pensadas como parte de um projeto nacional de longo prazo e passam a oscilar entre corporativismo, isolamento ou captura faccional.


A entrevista também é incisiva ao sugerir que a atuação de militares no governo Bolsonaro produziu desgaste público para a imagem institucional da caserna. Ao citar nomes ligados àquele ciclo político, Farinazzo não está apenas criticando indivíduos, mas indicando que a adesão a um projeto de poder de curto prazo corroeu a percepção de profissionalismo e neutralidade republicana das Forças Armadas.





Dissuasão e autonomia tecnológica: o coração da soberania



O conceito de dissuasão é provavelmente o núcleo mais estratégico da entrevista. Para Farinazzo, um país sem capacidade de dissuadir pressões externas é um país cuja soberania depende da benevolência alheia. Essa formulação tem longa tradição na teoria estratégica e permanece válida.


No caso brasileiro, falar em dissuasão não significa defender militarismo vulgar, aventura bélica ou delírio de potência. Significa reconhecer que soberania demanda meios concretos. Esses meios incluem indústria de defesa, autonomia em sistemas sensíveis, capacidade de monitoramento, segurança cibernética, infraestrutura energética, base científica e domínio tecnológico em setores críticos.


É por isso que a entrevista insiste na importância de tecnologia própria e, em alguns momentos, menciona o programa nuclear como elemento de autonomia. Mais do que a arma em si, o que está em discussão é o domínio do ciclo tecnológico e a capacidade de não depender estruturalmente de terceiros justamente nas áreas em que a dependência é mais vulnerável.


A crítica implícita de Farinazzo ao Brasil é severa: o país fala muito em soberania, mas investe pouco nos instrumentos materiais que a sustentam. Mantém retórica diplomática, mas não constrói densidade estratégica correspondente. Age como se o mundo fosse regido por normas estáveis e previsíveis, quando os próprios centros do sistema já operam segundo lógica de competição tecnológica, guerra econômica e reposicionamento permanente.





O Brasil diante do novo tabuleiro



A grande contribuição da entrevista está em recolocar o Brasil dentro do cenário, e não à margem dele. Em muitos debates nacionais, geopolítica aparece como assunto externo, quase decorativo, restrito a especialistas ou à política externa formal. Farinazzo rompe com isso ao mostrar que os deslocamentos globais afetam diretamente a autonomia brasileira.


Se a ordem mundial está se tornando mais fragmentada e disputada, o Brasil possui uma janela histórica ambígua. De um lado, pode ampliar margem de manobra, diversificar alianças, fortalecer vínculos com o Sul Global e ganhar centralidade em fóruns multilaterais. De outro, pode continuar preso à condição de exportador primário, dependente tecnologicamente, institucionalmente vulnerável e ideologicamente dividido.


A ampliação do BRICS, a disputa por energia, a reorganização das cadeias produtivas, a guerra tecnológica e a centralidade dos recursos estratégicos tornam o Brasil um país mais importante do que muitas elites nacionais parecem admitir. Mas importância potencial não é a mesma coisa que protagonismo efetivo. Sem estratégia, a relevância objetiva do território, dos recursos naturais e da posição geopolítica brasileira pode se converter apenas em nova forma de dependência.





Os méritos e os limites da entrevista



Como toda fala de forte densidade interpretativa, a entrevista de Farinazzo possui méritos claros e também pontos que pedem moderação.


Entre os méritos, destacam-se quatro. Primeiro, a recusa da ingenuidade geopolítica. Segundo, a compreensão de que soberania exige meios materiais. Terceiro, a crítica à visão infantilizada de guerra e poder. Quarto, a tentativa de reinserir o debate militar dentro de uma lógica de projeto nacional, e não apenas de disputa ideológica.


Entre os limites, está a tentação de por vezes apresentar tendências reais como se fossem conclusões definitivas. A retração relativa do Ocidente, por exemplo, não equivale ao seu desaparecimento. A ascensão do Sul Global tampouco implica coesão plena entre seus integrantes. O BRICS é relevante, mas abriga interesses distintos e, em alguns casos, contraditórios. A vulnerabilidade americana no Oriente Médio existe, mas isso não significa impotência estratégica absoluta.


Essas ressalvas, porém, não anulam o valor da entrevista. Ao contrário: ajudam a lê-la com maior rigor. O que Robinson Farinazzo oferece não é um mapa final do mundo, mas uma provocação estratégica séria sobre o fato de que o Brasil precisa abandonar o conforto analítico de uma ordem que já não existe.





Conclusão



A entrevista de Robinson Farinazzo ao Juca Kfouri Entrevista tem importância porque desloca o debate brasileiro de um plano puramente moral ou eleitoral para um plano propriamente estratégico. Seu ponto central é simples e duro: o mundo entrou em fase de transição, a hegemonia ocidental tornou-se mais contestada, e países como o Brasil terão de decidir se continuarão administrando a própria dependência ou se iniciarão, com atraso histórico, a construção de uma autonomia efetiva.


A discussão sobre Ucrânia, Irã, OTAN, BRICS, guerra híbrida e Forças Armadas converge para uma questão decisiva: soberania não é slogan, mas capacidade. Capacidade industrial, tecnológica, institucional, cognitiva e militar. Sem isso, o país seguirá proclamando independência enquanto negocia sua margem de ação a partir das limitações impostas por outros.


O maior mérito da entrevista está justamente em recordar que a defesa da soberania não é tarefa de uma facção ideológica, nem monopólio da caserna, nem mero ornamento diplomático. Trata-se de um problema de Estado, de projeto nacional e de inteligência histórica. Em um mundo mais conflitivo, mais assimétrico e mais instável, o Brasil precisará decidir se quer apenas sobreviver ao rearranjo global ou se pretende, finalmente, ocupar lugar próprio nele.





Referências



BRICS BRASIL. About the BRICS. Brasília: BRICS Brasil, 2025. Disponível em: https://brics.br/en/about-the-brics. Acesso em: 3 abr. 2026.


CONSELHO ON FOREIGN RELATIONS. What are Iran’s nuclear and missile capabilities? New York: CFR, 2026. Disponível em: https://www.cfr.org/articles/what-are-irans-nuclear-and-missile-capabilities. Acesso em: 3 abr. 2026.


REDE TVT. Netanyahu enganou o Trump, diz Robinson Farinazzo | Juca Kfouri Entrevista. YouTube, 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mUVjTDCYJg4. Acesso em: 3 abr. 2026.


REUTERS. Brazil’s Moro, prosecutors scramble to react to leaked messages. Reuters, 2019. Disponível em: Reuters. Acesso em: 3 abr. 2026.


REUTERS. NATO allies will keep supporting Ukraine despite situation in Iran, Rutte says. Reuters, 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 3 abr. 2026.


REUTERS. US official tells Bolsonaro government of confidence in Brazil election system. Reuters, 2022. Disponível em: Reuters. Acesso em: 3 abr. 2026.


AP NEWS. Why the Strait of Hormuz is important — and why it matters that Iran may threaten it. AP News, 2025. Disponível em: AP News. Acesso em: 3 abr. 2026.