quinta-feira, 16 de abril de 2026

A campanha da simplificação

Como cinco estratégias coordenadas ajudam a explicar o bolsonarismo eleitoral, o risco de sua reprodução em 2026 e a vulnerabilidade de parte do eleitorado brasileiro


Índice

  1. Lide
  2. Introdução
  3. A primeira estratégia: saturação de conteúdos simples e emocionais
  4. A segunda estratégia: disseminação de desinformação e descontextualização
  5. A terceira estratégia: ataque sistemático ao Judiciário, à imprensa e ao sistema eleitoral
  6. A quarta estratégia: mobilização de bases por identidade e ressentimento
  7. A quinta estratégia: culto performático à força
  8. Como isso apareceu nas campanhas de Jair Bolsonaro
  9. Por que o modelo pode reaparecer com Flávio Bolsonaro em 2026
  10. A fragilidade do eleitorado: pouco conhecimento político e dissonância cognitiva
  11. Conclusão
  12. Referências


Lide

Em uma campanha presidencial contemporânea, não é difícil imaginar o uso articulado de cinco estratégias muito eficientes: inundar o debate com conteúdos simples e emocionais; espalhar desinformação ou peças descontextualizadas; atacar Judiciário, imprensa e sistema eleitoral; mobilizar bases por identidade, medo e ressentimento; e construir um culto performático à “força” contra crime, corrupção, inimigos internos ou supostos conspiradores. No Brasil, esse repertório não é hipótese abstrata. Ele ajuda a explicar o percurso eleitoral de Jair Bolsonaro, que venceu em 2018 e perdeu em 2022, mas ainda deixou uma base social e comunicacional ativa. Em 2026, o risco de reaparecimento desse modelo cresce porque Flávio Bolsonaro já aparece competitivo em pesquisas de segundo turno, o que cria incentivo real para reativar uma máquina de campanha fundada menos em deliberação racional e mais em guerra simbólica. 


1. Introdução


Campanhas eleitorais nem sempre são disputas de argumentos. Muitas vezes, são disputas de percepção. Quem consegue enquadrar a realidade antes do adversário já larga na frente. E é justamente aí que entram essas cinco estratégias. Elas não servem apenas para convencer. Servem para moldar o ambiente mental do eleitor, reduzir sua capacidade crítica, produzir respostas emocionais rápidas e transformar a política em confronto moral permanente.


Esse padrão se ajusta muito bem à extrema direita neoliberal. A razão é simples. Em vez de discutir com profundidade desigualdade, tributação, política industrial, trabalho, saúde, educação e proteção social, desloca-se o debate para medo, indignação, antipolítica, inimigos internos e exibição de dureza. A complexidade sai de cena; entra a adrenalina política. O eleitor deixa de ser chamado a refletir como cidadão e passa a reagir como torcedor, consumidor de conteúdo ou integrante de uma trincheira moral. A própria OCDE alerta que desinformação e misinformation prejudicam a confiança nas instituições, alimentam polarização e comprometem a participação democrática informada. 


2. A primeira estratégia: saturação de conteúdos simples e emocionais


A primeira estratégia consiste em ocupar o espaço público com mensagens curtas, repetitivas, facilmente memorizáveis e carregadas de emoção. É a política transformada em slogan. Em vez de apresentar programas detalhados, a campanha oferece frases de choque, vídeos curtos, peças de indignação e narrativas binárias. A lógica é simples: quanto mais complexo o problema, mais simplificada precisa parecer a resposta.


Essa técnica funciona porque o excesso de informação desorganiza o eleitor comum. Quando ele é bombardeado por conteúdos rápidos e emocionais, tende a reter não o que é mais verdadeiro, mas o que é mais forte afetivamente. Medo, raiva, humilhação, orgulho e ressentimento circulam melhor do que análise técnica. Em plataformas digitais, isso é ainda mais poderoso, porque algoritmos premiam engajamento, não necessariamente qualidade. O Painel TIC 2025 mostrou, por exemplo, que brasileiros reconhecem a lógica de visibilidade e publicidade das plataformas e que o consumo de informação está profundamente digitalizado, ambiente ideal para mensagens simplificadas se espalharem em alta velocidade. 


Numa campanha presidencial, essa saturação cumpre um papel decisivo: ela esgota a atenção do eleitor antes que ele consiga organizar criticamente o que vê. É como jogar poeira no ar durante uma batalha. Não se trata apenas de convencer; trata-se de impedir que o outro lado consiga estabelecer uma conversa racional mais demorada.


3. A segunda estratégia: disseminação de desinformação e descontextualização


A segunda estratégia é ainda mais corrosiva. Ela usa conteúdos falsos, meias-verdades, vídeos cortados, dados sem contexto, boatos e teorias conspiratórias para fabricar uma realidade paralela politicamente útil. Nem sempre a peça precisa ser totalmente falsa. Às vezes, basta ser descontextualizada, emocionalmente eficaz e suficientemente ambígua para gerar confusão.


Em 2018, Reuters reportou que o WhatsApp se tornou campo de batalha da eleição brasileira e que a plataforma foi inundada por falsidades e teorias conspiratórias, além de denúncias de bombardeio de propaganda enganosa por apoiadores empresariais de Bolsonaro, o que ele negava. A agência também observou que o aplicativo virou a linha de frente da campanha presidencial, num ambiente já altamente polarizado. 


Em 2022, o problema permaneceu central. O próprio TSE registrou “intensa proliferação” de fake news sobre o processo eleitoral, com acusações infundadas de fraude nas urnas, leituras erradas de boletins de urna e mentiras sobre o sistema de totalização. Ou seja, a desinformação não ficou apenas no campo moral ou cultural; ela atingiu diretamente o coração da confiança eleitoral. 


A força dessa estratégia está em dois pontos. Primeiro, ela cria confusão. Segundo, ela oferece ao eleitor uma explicação emocionalmente satisfatória para aquilo que ele já teme ou deseja acreditar. A mentira política bem-sucedida não é a mais sofisticada; é a mais funcional.


4. A terceira estratégia: ataque sistemático ao Judiciário, à imprensa e ao sistema eleitoral


A terceira estratégia é atacar os mediadores da realidade. Quando uma campanha desgasta Judiciário, imprensa profissional e sistema eleitoral, ela está fazendo algo muito calculado: desarmando previamente as instâncias que poderiam contradizê-la. Se o tribunal decide contra mim, digo que o tribunal está corrompido. Se a imprensa publica fatos incômodos, digo que a imprensa mente. Se perco a eleição, digo que a urna é suspeita. É uma blindagem política preventiva.


No caso de Jair Bolsonaro, isso foi muito visível. Em 2023, o TSE o tornou inelegível até 2030 por sua conduta no processo eleitoral de 2022. Reuters resumiu o caso dizendo que ele foi barrado por abuso de poder em razão do comportamento durante aquela eleição conturbada. O pano de fundo era a reunião com embaixadores em que atacou, sem provas, o sistema eleitoral brasileiro. 


Depois da derrota de 2022, Reuters também reportou que Bolsonaro contestou formalmente o resultado, pedindo invalidação de votos de determinadas urnas, reclamação recebida com ceticismo inicial pelas autoridades eleitorais. Isso é pedagogicamente importante: o ataque às instituições não é apenas discurso de campanha; pode continuar como estratégia pós-eleitoral para manter mobilização e suspeita. 


Essa tática é perigosíssima porque destrói a ideia de árbitro comum. Sem instituições minimamente confiáveis, a política vira puro conflito de versões, e quem grita mais alto pode parecer mais verdadeiro do que quem prova melhor.


5. A quarta estratégia: mobilização de bases por identidade e ressentimento


A quarta estratégia consiste em construir pertencimento político não tanto por programa, mas por identidade ferida. A campanha oferece ao eleitor a sensação de que ele pertence a um grupo moralmente superior, atacado por elites, minorias, intelectuais, imprensa, tribunais ou inimigos ideológicos. O voto deixa de ser apenas escolha racional e passa a ser gesto de defesa identitária.


Ressentimento é peça central aqui. Ele organiza emoções difusas — perda de status, medo social, frustração econômica, sensação de humilhação — e as converte em energia política. Em vez de perguntar por que a vida piorou materialmente, a campanha aponta culpados simbólicos. É um mecanismo muito útil para o neoliberalismo, porque desloca a raiva popular das estruturas econômicas para inimigos culturais ou políticos.


Esse tipo de mobilização se fortalece em ambientes de polarização afetiva. Estudos recentes descrevem polarização afetiva como antipatia e desconfiança entre grupos políticos, indo além da simples divergência ideológica. Quando isso acontece, o eleitor já não pensa apenas “discordo do outro”; ele sente “o outro me ameaça”. Nesse ponto, o ressentimento deixa de ser periférico e vira motor central da campanha. 


6. A quinta estratégia: culto performático à força


A quinta estratégia é o culto performático à força. Aqui, a campanha exibe dureza, agressividade, vocabulário de confronto, promessas de punição e estética de autoridade. O líder é apresentado como alguém que não hesita, não dialoga demais, não tem “fraqueza” e está disposto a esmagar crime, corrupção, “inimigos internos” ou conspiradores.


Esse culto tem forte apelo porque transforma brutalidade em autenticidade. Muita gente passa a ler violência verbal como coragem e grosseria como sinceridade. Em contextos de insegurança, crise econômica ou baixa confiança institucional, isso se torna ainda mais atraente. O eleitor cansado ou frustrado pode preferir o governante “duro” ao governante ponderado, como se ponderação fosse sinal de omissão.


Essa estratégia não precisa ser explicitamente golpista para ser funcionalmente autoritária. Basta insistir que o país está sitiado e que só a força o salvará. Quando isso se combina com fake news, descrédito das instituições e ressentimento identitário, forma-se um quadro político muito potente.


7. Como isso apareceu nas campanhas de Jair Bolsonaro


As duas campanhas presidenciais de Jair Bolsonaro ajudam a visualizar o modelo completo. Em 2018, ele venceu. O TSE confirmou sua eleição com 55,54% dos votos válidos contra 44,46% de Fernando Haddad. Foi uma campanha marcada por comunicação digital muito agressiva, forte circulação de mensagens simplificadas, uso intenso de redes e WhatsApp e ambiência de altíssima polarização. 


Em 2022, ele perdeu. O TSE proclamou Lula eleito com 50,83% dos votos válidos contra 49,17% de Bolsonaro. Mas a derrota não significa que o método tenha desaparecido. Pelo contrário: a eleição foi novamente atravessada por desinformação intensa, sobretudo contra o sistema eleitoral e a contagem de votos, a ponto de a Justiça Eleitoral precisar desmentir reiteradamente boatos sobre urnas e totalização. 


O que mudou, então? Em 2018, esse repertório encontrou um ambiente de rejeição elevada ao sistema político tradicional e ao PT, somado ao impacto das redes e da comunicação antiestablishment. Em 2022, embora a máquina de mobilização continuasse poderosa, houve maior resistência institucional, maior reação do TSE e um campo opositor mais organizado contra a tentativa de transformar o processo eleitoral em teatro de suspeição. A campanha perdeu a eleição, mas preservou base social, simbólica e digital.


8. Por que o modelo pode reaparecer com Flávio Bolsonaro em 2026


O risco de reaparição desse método em 2026 é alto porque o incentivo político existe. Reuters informou, em abril de 2026, que Flávio Bolsonaro aparece estatisticamente empatado com Lula em cenários de segundo turno em pesquisas Quaest e Datafolha, enquanto outra pesquisa CNT/MDA mostra Lula numericamente à frente, mas ainda com disputa apertada. Em termos políticos, isso significa uma coisa muito clara: há competição real. E onde há competição real, há incentivo para reutilizar métodos que já se provaram eficazes. 


Além disso, o TSE aprovou novas regras para 2026 justamente porque reconhece a centralidade do problema. A Corte destacou que combate desinformação eleitoral desde 2018 e, para este pleito, regulamentou o uso de IA para impedir conteúdos falsos, manipulados ou descontextualizados e combater deepfakes capazes de afetar o equilíbrio da eleição. O fato de o tribunal endurecer a regulação já revela o tamanho do risco. 


Não se pode afirmar, com honestidade, que determinada campanha usará necessariamente todas essas estratégias. Mas é intelectualmente legítimo dizer que o repertório está disponível, já foi testado, continua eficaz para mobilização identitária e encontra em 2026 um ambiente tecnológico ainda mais propício à circulação em massa.


9. A fragilidade do eleitorado: pouco conhecimento político e dissonância cognitiva


A parte mais desconfortável do problema talvez esteja aqui. Essas estratégias só funcionam porque encontram receptividade social. E essa receptividade sugere, em parte do eleitorado, fragilidade de letramento político, dificuldade de avaliar fontes, baixa familiaridade com o funcionamento institucional e forte exposição a mecanismos psicológicos de confirmação de crenças.


Os dados do DataSenado são eloquentes: 72% dos usuários de redes disseram ter visto notícias falsas ou suspeitas nos seis meses anteriores ao levantamento; 81% afirmaram que fake news podem influenciar muito o resultado das eleições; e metade declarou ter dificuldade para distinguir se uma notícia nas redes é verdadeira ou falsa. Isso não autoriza insultar “a população”, mas autoriza reconhecer uma vulnerabilidade cívica séria. 


A noção de dissonância cognitiva ajuda a explicar parte disso. Pesquisa recente em Frontiers in Social Psychology propõe que a persistência da desinformação decorre de um ciclo psicossocial em que conformidade social, excesso de autoconfiança e dissonância cognitiva interagem para proteger e reafirmar crenças falsas. Em outras palavras: quando a pessoa já investiu emocionalmente numa narrativa e num grupo, fatos contrários não entram facilmente; eles ameaçam a identidade construída. Então o sujeito racionaliza, relativiza ou nega. 


Isso explica por que, às vezes, mesmo diante de provas, parte do eleitorado continua aderindo a conteúdos sabidamente frágeis. Não é apenas falta de informação. É também um mecanismo de defesa identitária. O sujeito não quer apenas acreditar num fato; quer preservar a imagem de si mesmo como alguém lúcido, patriota, moralmente correto e leal ao seu grupo. A mentira política, nesse caso, funciona como abrigo psicológico.


10. Conclusão


As cinco estratégias — saturação de conteúdos simples e emocionais, desinformação e descontextualização, ataque sistemático às instituições mediadoras, mobilização por identidade e ressentimento, e culto performático à força — não são peças soltas. Formam um método. Um método de campanha, de poder e de degradação democrática.


Foi esse repertório, em grande medida, que marcou as campanhas presidenciais de Jair Bolsonaro: numa delas, com vitória; na outra, com derrota. O fato de ter perdido em 2022 não torna o método irrelevante. Apenas mostra que ele não é invencível. Como continua existindo base social, máquina digital e ambiente emocional favorável, o risco de reaproveitamento por Flávio Bolsonaro em 2026 é real, sobretudo diante de pesquisas que indicam disputa apertada. 


O ponto decisivo, porém, não está só nos candidatos. Está também na sociedade. Sem fortalecimento do conhecimento político, da alfabetização midiática e da confiança crítica — não ingênua, mas crítica — nas instituições democráticas, parte do eleitorado seguirá vulnerável à manipulação emocional e à dissonância cognitiva. E uma democracia vulnerável não cai apenas por tanques. Às vezes, ela se corrói por vídeos curtos, boatos repetidos e slogans furiosos.


Referências


BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Presidente do TSE confirma eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Brasília: TSE, 2018. 


BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Lula é eleito novamente presidente da República do Brasil. Brasília: TSE, 2022. 


BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Fato ou Boato: Justiça Eleitoral desmentiu as principais fake news sobre o processo eleitoral em 2022. Brasília: TSE, 2022. 


BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Por Dentro das Eleições: conheça as regras sobre uso de IA na campanha eleitoral de 2026. Brasília: TSE, 2026. 


BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. TSE aprova calendário eleitoral e regulamenta uso de IA nas Eleições 2026. Brasília: TSE, 2026. 


BRASIL. Senado Federal. Panorama Político 2024: notícias falsas e democracia. Brasília: DataSenado, 2024. 


CETIC.br. Painel TIC 2025: pesquisa online com usuários de internet no Brasil — integridade da informação. São Paulo: NIC.br, 2026. 


NASCIMENTO, I. K. D.; SILVA, G. C. The psychological cycle of misinformation: an integrative model of legitimation perception in social networks. Frontiers in Social Psychology, 2025. 


OECD. Drivers of trust in public institutions in Brazil. Paris: OECD, 2023. 


REUTERS. Facebook’s WhatsApp flooded with fake news in Brazil election. Reuters, 2018. 


REUTERS. Brazil election battle rages over Facebook’s WhatsApp. Reuters, 2018. 


REUTERS. Bolsonaro barred from holding public office in Brazil until 2030. Reuters, 2023. 


REUTERS. Bolsonaro challenges Brazil election he lost to Lula. Reuters, 2022. 


REUTERS. Lula, Flavio Bolsonaro tied in potential election runoff, poll shows. Reuters, 2026. 


REUTERS. Lula and Flavio Bolsonaro even in Brazil election second-round, Datafolha poll shows. Reuters, 2026. 


REUTERS. Lula narrowly ahead of Flavio Bolsonaro in potential Brazilian runoff, poll shows. Reuters, 2026. 



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