sábado, 25 de abril de 2026

Artigo 5: Smith vs. Fiori: O Leviatã Digital entre a Mão Invisível e a Acumulação de Poder



Introdução


Para entender o mundo digital, costumamos recorrer a manuais de tecnologia ou direito. No entanto, as chaves para decifrar o domínio das Big Techs e a crise da soberania nacional podem estar em dois pensadores cujas obras distam séculos e perspectivas: Adam Smith e José Luís Fiori. O fenômeno que chamamos de "Leviatã Digital" — esse sistema onipresente de dados e algoritmos — habita o centro de uma tensão fundamental. Seria ele o ápice da eficiência de mercado prevista por Smith ou a ferramenta definitiva de dominação geopolítica descrita por Fiori? Este artigo final sintetiza nossa série, confrontando a "Mão Invisível" com a "Acumulação de Poder".


A Mão Invisível foi Capturada?


Adam Smith (2003), em A Riqueza das Nações, propôs que o mercado, movido pelo interesse individual, levaria ao bem-estar coletivo através de uma "mão invisível". Para Smith, a livre concorrência entre muitos produtores era a garantia contra a tirania.

No entanto, no Leviatã Digital, a "mão" não é mais invisível, mas codificada em algoritmos proprietários. O que Smith chamaria de um "monopólio perigoso" que distorce o mercado é hoje a realidade das plataformas. O Leviatã Digital subverteu a lógica de Smith: ele não facilita a concorrência; ele a engole. Quando uma única empresa controla a infraestrutura onde todos os outros competem, a "liberdade" de mercado torna-se uma concessão do dono da plataforma.


O Leviatã como Sucesso da Acumulação


Onde a teoria de Smith encontra limites para explicar a concentração de poder, a tese de José Luís Fiori (2007) brilha com clareza. Para Fiori, o Leviatã Digital não é uma "falha" do livre mercado, mas o resultado vitorioso de uma estratégia de poder.

Fiori argumenta que o capital e o Estado operam em simbiose. Sob esta ótica, as gigantes digitais não são apenas empresas globais; são os novos "navios de guerra" das potências centrais. Elas expandem o território de influência de suas metrópoles sem disparar um único tiro, capturando a esfera pública, a economia e a subjetividade das nações periféricas. Enquanto o discurso smithiano de "eficiência" justifica a presença dessas empresas, a lógica fioriana revela sua função real: garantir que o centro do sistema continue acumulando riqueza e poder enquanto a periferia permanece como mera fornecedora de dados.


A Divisão do Trabalho na Era Algorítmica


Smith celebrou a divisão do trabalho como motor da produtividade. Contudo, a correlação com Fiori nos mostra o lado sombrio dessa especialização na era digital.

O Comando: Fica retido nos centros de poder que dominam a IA e o hardware avançado.

A Execução: É delegada aos países periféricos, que se tornam exportadores de dados brutos e consumidores de serviços digitais.


Essa nova divisão internacional do trabalho, sob o manto do Leviatã Digital, cristaliza o que discutimos no Artigo 3: o bloqueio ao desenvolvimento. O sistema usa a retórica de Smith sobre "vantagens comparativas" para convencer países como o Brasil de que é mais eficiente importar tecnologia do que desenvolvê-la, garantindo assim a dependência descrita por Fiori.


Conclusão: Além da Escolha Binária


O embate entre Smith e Fiori nos revela que o Leviatã Digital é um híbrido: ele usa a linguagem da liberdade e da eficiência de mercado (Smith) para realizar o projeto mais ambicioso de expansão de poder estatal-capitalista da história (Fiori).

Para o Brasil e para a Esfera Pública, a lição é clara: não basta "regular" o mercado como se estivéssemos na Inglaterra do século XVIII. É preciso reconhecer o Leviatã como uma força geopolítica. Superar a submissão digital exige retomar a função do Estado proposta por Smith — a proteção de "obras públicas" (como a infraestrutura de dados) — imbuída da "vontade de poder" e soberania defendida por Fiori. O futuro da nossa democracia depende da nossa capacidade de deixar de ser apenas um "mercado" para nos tornarmos, novamente, uma Nação.


Referências Bibliográficas


FIORI, José Luís. Uma teoria do poder global. Rio de Janeiro: Record, 2007.

SMITH, Adam. A riqueza das nações. São Paulo: Martins Fontes, 2003 [1776].


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