domingo, 12 de abril de 2026

Quando a dor do povo vira palanque

Como a extrema direita tenta transformar a alta dos combustíveis em arma eleitoral — e por que esse discurso simplista precisa ser enfrentado com verdade política e responsabilidade pública



Introdução


Toda crise de combustível produz duas explosões ao mesmo tempo. A primeira acontece no bolso. A segunda acontece no discurso político. Quando a gasolina sobe, o diesel encarece e o frete pressiona o preço dos alimentos, a revolta popular é legítima. O povo não está errado em sentir indignação. O erro começa quando essa indignação é capturada por agentes políticos que pegam um problema internacional real, arrancam dele a complexidade e o devolvem à sociedade em forma de slogan: “a culpa é toda do governo”, “é incompetência”, “é roubo”, “bastava negociar melhor”. Esse tipo de discurso não esclarece. Ele instrumentaliza a dor social.


No Brasil de 2026, esse movimento já tem direção política visível. Flávio Bolsonaro confirmou sua candidatura presidencial e, segundo apuração da CNN Brasil publicada em 18 de março de 2026, pretende centrar parte importante de sua estratégia eleitoral no alto custo de vida, com ênfase em alimentos, inflação e combustíveis, responsabilizando diretamente o governo Lula. Reuters também registrou a confirmação de sua candidatura e o apoio explícito de Jair Bolsonaro a esse projeto político.


O problema não está em criticar o governo. Em democracia, criticar governo é legítimo, necessário e saudável. O problema está em transformar uma crise geopolítica real em ferramenta de manipulação emocional, usando explicações simplórias para produzir ganho eleitoral. Quando isso acontece, a política deixa de organizar a inteligência coletiva da sociedade e passa a explorar a sua vulnerabilidade. É exatamente nesse ponto que o debate sobre combustíveis deixa de ser apenas econômico e passa a ser profundamente político.


A dor popular é real, mas isso não torna verdadeira qualquer explicação


O primeiro cuidado analítico é não cometer uma injustiça com o povo brasileiro. Quando uma família vê o combustível subir, ela sente o impacto imediatamente. O motorista de aplicativo, o caminhoneiro, o pequeno comerciante, o agricultor, a dona de casa, todos percebem a crise antes mesmo que ela apareça nas estatísticas. A revolta, portanto, não é ignorância. É experiência concreta. A política democrática séria começa exatamente aí: reconhecendo a legitimidade do sofrimento social.


Mas reconhecer a legitimidade da dor não significa aceitar como correta toda explicação que surge dela. A pesquisa PoderData divulgada em 26 de março de 2026 mostrou que 62% dos brasileiros atribuíam a alta recente dos combustíveis à guerra no Irã, enquanto 26% culpavam o governo federal e 8% responsabilizavam os postos. Esse dado é importante porque revela que o país percebe a centralidade do conflito externo, embora uma parcela expressiva da sociedade permaneça vulnerável à narrativa de culpabilização exclusivamente doméstica.


Em outras palavras, o problema não está no povo sentir a crise. O problema está em lideranças políticas transformarem uma sensação real em munição ideológica, oferecendo uma explicação falsa porque ela é eleitoralmente mais útil do que a verdade.


A extrema direita não explica a crise: ela a converte em combustível eleitoral


O que está em curso não é apenas oposição política. É uma operação discursiva típica do populismo de direita: pegar um fenômeno complexo, reduzir sua causa a um inimigo interno facilmente identificável e oferecer à população uma narrativa emocionalmente satisfatória. Em vez de explicar como o mercado global de petróleo reage a guerras, rotas marítimas, seguro internacional, importações complementares, câmbio, tributos e logística, essa retórica resume tudo a uma frase simples: “o governo não sabe governar”. Essa frase tem força porque é fácil de repetir, não porque seja suficiente para explicar a realidade.


A estratégia eleitoral atribuída a Flávio Bolsonaro pela CNN Brasil é reveladora exatamente nesse ponto. A reportagem informa que ele pretende mirar os indecisos explorando o alto custo de vida, com destaque para alimentos, combustíveis e inflação. Isto é, não se trata de um uso episódico do tema, mas de uma decisão estratégica de campanha. O combustível, aqui, deixa de ser apenas um problema econômico e vira um instrumento de mobilização política.


Nada disso seria problemático se viesse acompanhado de honestidade intelectual. Mas não é isso que ocorre quando se insinua que a guerra é apenas pretexto, que a alta seria um ato deliberado de confisco político ou que bastaria uma “negociação melhor” para o Brasil escapar de um choque internacional de energia. Essas narrativas são politicamente convenientes porque transferem toda a tensão do sistema global para a figura de um adversário interno. É uma pedagogia da simplificação: o mundo some, a geopolítica desaparece, e sobra um culpado doméstico pronto para ser odiado.


O fato central que a propaganda tenta apagar: a guerra no Irã alterou o mercado internacional


Há um dado duro que a retórica extremista não consegue remover: o choque internacional existiu. O Estreito de Ormuz é uma das rotas mais estratégicas do planeta para o fluxo mundial de petróleo. Quando o conflito com o Irã se intensificou, o risco geopolítico elevou preços, pressionou expectativas e levou países da Agência Internacional de Energia a coordenarem a liberação de reservas emergenciais. Isso não é narrativa partidária. É fato de mercado, reconhecido internacionalmente.


No Brasil, o próprio governo anunciou em 12 de março de 2026 um conjunto de medidas emergenciais para reduzir o impacto do choque internacional do petróleo sobre o diesel, incluindo zeragem de PIS/Cofins, autorização de subvenção e reforço de fiscalização. Em 6 de abril, uma nova medida provisória ampliou as ações de contenção, atingindo diesel, GLP e setor aéreo. A ANP, por sua vez, afirmou em 19 de março que intensificaria o monitoramento do mercado nacional de gasolina e diesel e que, embora não identificasse restrições imediatas ao abastecimento, acompanharia estoques e importações diante do cenário externo.


Esses fatos não absolvem automaticamente o governo de toda crítica. Mas desmontam a tese de que nada estava acontecendo no mundo e de que toda alta derivaria apenas de uma decisão política doméstica. A oposição pode discutir a qualidade das medidas, sua suficiência, sua temporariedade ou seu custo fiscal. O que não pode fazer sem entrar no terreno da manipulação é negar a existência do choque externo ou tratá-lo como mero teatro.


O populismo da extrema direita oferece um culpado fácil porque não quer explicar a realidade


Explicar a verdade custa mais trabalho político do que distribuir culpa. A verdade exige dizer ao povo algo desconfortável: mesmo produzindo petróleo, o Brasil não vive fora do mercado mundial; mesmo tendo Petrobras, o país não está imune a choques externos; mesmo com governo, não há presidente capaz de controlar sozinho guerra, risco marítimo, câmbio, seguro internacional e o preço global do barril. A propaganda extremista evita essa explicação porque ela não rende indignação instantânea.


É exatamente por isso que o argumento simplista tem tanta força eleitoral. Ele preserva a raiva popular, mas troca o seu objeto. Em vez de dirigir a indignação para a estrutura real do problema — um sistema energético mundial vulnerável a guerras e crises geopolíticas — ele a redireciona para um alvo partidário imediato. Trata-se de uma operação clássica de captura política do sofrimento social. A dor é popular; a utilidade é eleitoral.


Quando alguém diz “esse governo não sabe negociar”, parece estar fazendo uma crítica administrativa. Mas, na prática, essa frase apaga a natureza sistêmica da crise. Negociar com quem? Com o mercado futuro? Com a guerra? Com a rota de Ormuz? Com seguradoras marítimas? Com países produtores? O governo pode mitigar efeitos, reduzir impostos, conceder subsídios temporários, fiscalizar abuso e coordenar regulação. Foi precisamente nessa direção que caminharam as medidas anunciadas em março e abril. O que ele não pode fazer é anular, no grito, a lógica do mercado global de energia.


A apropriação da linguagem do povo pela extrema direita é politicamente calculada


Há um aspecto ainda mais delicado nessa disputa. A extrema direita raramente cria do zero suas palavras de ordem. Ela prefere capturar frases que já circulam no senso comum e lhes dar enquadramento político. “O que eu tenho a ver com essa guerra?”, “se o Brasil produz petróleo, isso é desculpa”, “estão roubando a gente”, “era só negociar”, “aumenta salário então”. Essas frases nascem de uma experiência legítima, mas são reorganizadas pelo discurso partidário para alimentar uma visão de mundo em que toda crise econômica se torna prova automática da falência do adversário político.


Essa operação é eficiente porque funciona como tradução ideológica do sofrimento. Ela não pede ao cidadão que estude geopolítica, apenas que reconheça a própria dor e aceite o culpado oferecido. É um atalho emocional. A política democrática, ao contrário, exige um esforço mais difícil: respeitar a dor do povo sem falsificar a explicação do problema.


Por isso, enfrentar essa narrativa não significa desprezar o povo, chamá-lo de manipulado ou reduzir sua revolta a ignorância. Significa precisamente o oposto: considerar o povo digno de uma explicação verdadeira. Tratar a população com respeito é não mentir para ela, mesmo quando a mentira é eleitoralmente rentável.


Combustível caro não pode virar licença para charlatanismo político


Em uma democracia madura, a oposição tem o dever de fiscalizar e contestar o governo. Mas existe uma fronteira entre crítica responsável e oportunismo desinformativo. Essa fronteira é cruzada quando uma liderança política usa um problema objetivo do custo de vida para vender soluções ilusórias ou diagnósticos falsos. O combustível sobe, a população sofre, e então surge o vendedor de certezas fáceis: “a culpa é toda deles”, “eu resolveria”, “é só querer”, “estão enganando você”. Esse tipo de retórica pode render palanque, mas deteriora a inteligência pública do país.


O caso brasileiro recente mostra por quê. O governo reagiu ao choque com medidas de alívio e fiscalização; a ANP reforçou monitoramento; a crise internacional foi reconhecida por fontes oficiais, pela imprensa e por agentes do mercado; e, ainda assim, a simplificação partidária seguiu circulando como se nada disso existisse. Não se está diante de ausência de informação. Está-se diante de recusa deliberada da complexidade, porque a simplificação produz mais retorno eleitoral do que a verdade.


Nesse sentido, a disputa sobre combustíveis é também disputa sobre método político. De um lado, há quem tente governar a crise com instrumentos imperfeitos, temporários e discutíveis, mas concretos. De outro, há quem use a crise como prova propagandística da própria tese, sem necessidade de demonstrar como o mundo real funcionaria sob seu comando. A primeira posição é passível de crítica. A segunda é pedagogicamente tóxica.


O desafio das forças democráticas: não ceder a mentira fácil


O erro das forças democráticas, muitas vezes, é imaginar que basta ter razão técnica. Não basta. A extrema direita trabalha com emoção, repetição e identificação simbólica. Ela fala como se estivesse apenas ecoando a rua, quando na verdade está moldando a rua politicamente. Combater esse processo exige mais do que notas técnicas e tabelas econômicas. Exige linguagem clara, coragem de confronto e capacidade de dizer ao povo, sem arrogância: a sua dor é real, mas estão tentando enganar você sobre a causa dela.


Isso vale especialmente quando a candidatura de Flávio Bolsonaro procura expandir-se para além do núcleo ideológico tradicional, mirando os indecisos justamente pelo tema do custo de vida. A escolha do combustível como eixo narrativo de campanha não é acidental. Ela é estratégica porque toca uma experiência social transversal. Quase todos os brasileiros, direta ou indiretamente, sentem o efeito da alta dos combustíveis. Quem controlar a explicação desse fenômeno conquista uma vantagem política decisiva.


É por isso que a resposta democrática não pode ser tímida. O debate não é apenas sobre preço na bomba. É sobre honestidade pública. Se a crise internacional é real, ela precisa ser dita. Se o governo erra, precisa ser criticado pelo que erra de fato. Se a oposição mente, precisa ser desmascarada. O que não se pode aceitar é que a população brasileira seja tratada como massa de manobra, útil apenas para absorver slogans e devolvê-los em forma de voto.


Conclusão


A alta dos combustíveis durante a guerra no Irã abriu uma janela clássica de exploração populista. O sofrimento popular, legítimo e palpável, tornou-se matéria-prima para uma narrativa política que busca converter complexidade internacional em culpa partidária doméstica. Flávio Bolsonaro, hoje pré-candidato à Presidência, já aparece associado a uma estratégia explícita de explorar eleitoralmente o alto custo de vida, incluindo combustíveis e inflação. Isso torna ainda mais urgente desmontar, com clareza e firmeza, os atalhos retóricos da extrema direita.


A defesa do povo não consiste em repetir a sua raiva sem filtro. Consiste em respeitar essa raiva, compreender sua origem material e impedir que ela seja capturada por projetos políticos que vivem de deformar a realidade. O povo brasileiro merece proteção econômica, informação honesta e debate político sério. Merece mais do que slogans. Merece mais do que oportunismo. Merece, sobretudo, não ser enganado por quem transforma sofrimento social em estratégia de poder.


Referências


AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS (ANP). ANP adota medidas para intensificar o acompanhamento do mercado de combustíveis. Brasília: ANP, 19 mar. 2026. Disponível em: portal oficial do governo federal. Acesso em: 11 abr. 2026.


BRASIL. MINISTÉRIO DA FAZENDA. Governo anuncia medidas para conter alta do diesel, evitando elevação de preços finais à população. Brasília: Ministério da Fazenda, 12 mar. 2026. Disponível em: portal oficial do governo federal. Acesso em: 11 abr. 2026.


BRASIL. MINISTÉRIO DA FAZENDA. As medidas do Governo para mitigar impactos da alta do petróleo e proteger a economia brasileira. Brasília: Ministério da Fazenda, 13 mar. 2026. Disponível em: portal oficial do governo federal. Acesso em: 11 abr. 2026.


BRASIL. MINISTÉRIO DA FAZENDA. Governo Federal edita nova MP para conter impacto da alta dos combustíveis. Brasília: Ministério da Fazenda, 6 abr. 2026. Disponível em: portal oficial do governo federal. Acesso em: 11 abr. 2026.


CNN BRASIL. Eleições: Flávio Bolsonaro mira críticas à economia para atrair indecisos. São Paulo: CNN Brasil, 18 mar. 2026. Disponível em: portal da CNN Brasil. Acesso em: 11 abr. 2026.


PODER360. PoderData: 62% culpam guerra no Irã por alta nos combustíveis. Brasília: Poder360, 26 mar. 2026. Disponível em: portal Poder360. Acesso em: 11 abr. 2026.


REUTERS. Bolsonaro’s son confirms presidential run, decision ‘irreversible’. Reuters, 9 dez. 2025. Acesso em: 11 abr. 2026.


REUTERS. Lula and Flavio Bolsonaro even in Brazil election second-round, Datafolha poll shows. Reuters, 11 abr. 2026. Acesso em: 11 abr. 2026.


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AGÊNCIA BRASIL. Países decidem liberar reservas de petróleo em meio à guerra no Irã. Brasília: EBC, 11 mar. 2026. Acesso em: 11 abr. 2026.


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