Introdução
Nas três primeiras partes desta série, exploramos como o poder global exige expansão constante, como o Estado e o Mercado operam em simbiose e por que o sistema internacional bloqueia a ascensão de novos atores. Agora, convergimos esses conceitos para um fenômeno que define o nosso tempo: o surgimento do Leviatã Digital. Longe de ser apenas um avanço técnico ou um dilema de privacidade, o Leviatã Digital é a forma mais sofisticada de controle e acumulação de poder já registrada. Sob a ótica de José Luís Fiori, ele representa a fusão final entre a soberania política e a infraestrutura tecnológica de dados.
O Leviatã como Instrumento de Expansão
Para Fiori (2007), o sistema interestatal é movido por Estados que buscam projetar sua vontade para além de suas fronteiras. O Leviatã Digital — composto por redes de cabos submarinos, constelações de satélites, datacenters e algoritmos de Inteligência Artificial — é a ferramenta contemporânea dessa projeção.
Diferente dos impérios do passado, que precisavam de ocupação física permanente, o Leviatã Digital permite uma "ocupação imaterial". Ele captura a esfera pública de outras nações, moldando o comportamento de seus cidadãos, controlando seus fluxos financeiros e extraindo sua riqueza informacional em tempo real. Como Fiori argumenta, a expansão do poder exige sempre uma nova base técnica; hoje, essa base é a codificação da própria vida social.
A Simbiose Algorítmica: Estado e Big Tech
Se no Artigo 2 discutimos a simbiose entre Estado e Mercado, o Leviatã Digital é a prova cabal dessa tese. Não há autonomia real entre o governo de uma grande potência e suas gigantes tecnológicas. As Big Techs fornecem a infraestrutura de inteligência e vigilância que o Estado necessita, enquanto o Estado oferece a proteção diplomática, jurídica e militar para que essas empresas dominem os mercados globais.
Sob a perspectiva de Fiori, o Leviatã Digital não é um ente privado que desafia o Estado, mas sim um braço do poder estatal das grandes potências. Quando uma plataforma digital decide o que pode ou não ser dito na esfera pública de um país como o Brasil, ela está exercendo uma forma de jurisdição extraterritorial. É o "Poder Soberano" exercido através de termos de uso e algoritmos opacos.
O "Digital" como Muralha ao Desenvolvimento
Para a periferia do sistema, o Leviatã Digital aprofunda o dilema discutido no Artigo 3. A concentração de dados e de capacidade computacional nas mãos de pouquíssimos atores cria uma barreira de entrada quase intransponível.
Segundo a lógica de Fiori, o sistema é desenhado para que os novos atores sejam apenas "usuários" da infraestrutura alheia. Ao aceitarmos o Leviatã Digital estrangeiro como a base da nossa governança, educação e economia, estamos, na prática, terceirizando a nossa soberania. A "Soberania Digital" deixa de ser um tema técnico e passa a ser uma luta pela sobrevivência política: sem o controle sobre o próprio Leviatã (ou a capacidade de resistir ao alheio), um país deixa de ser um sujeito da história para se tornar um mero conjunto de dados a ser processado.
Conclusão: O Desafio da Esfera Pública Brasileira
A série dedicada à obra de José Luís Fiori nos conduz a uma conclusão inevitável: o poder global é um jogo de soma zero onde a passividade equivale à submissão. O fenômeno do Leviatã Digital nos mostra que a disputa pelo controle dos dados e da inteligência artificial é a disputa pelo controle do próprio futuro das nações.
Para o Brasil, o desafio é hercúleo. Requer superar a ingenuidade de acreditar que a tecnologia é um campo neutro e entender que a construção de uma esfera pública verdadeiramente soberana exige autonomia técnica, capacidade industrial e, acima de tudo, uma "vontade de poder" que não se curve às pressões do sistema internacional. O Leviatã Digital já está entre nós; a pergunta que fica é se seremos seus súditos ou se teremos a coragem de construir nossas próprias ferramentas de liberdade.
Referências Bibliográficas
FIORI, José Luís. Uma teoria do poder global. Rio de Janeiro: Record, 2007.
FIORI, José Luís. O poder global e a nova estratégia das nações. Rio de Janeiro: Boitempo, 2003.
SCHWAB, Klaus; MALLERET, Thierry. O Grande Recomeço (The Great Reset). Genebra: World Economic Forum, 2020. (Para contextualização da governança digital global).
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