domingo, 26 de abril de 2026

Quando o bolso vota: economia, medo e desgaste político no governo Trump

A alta dos combustíveis nos Estados Unidos mostra que, mesmo em tempos de polarização, redes sociais e guerra de narrativas, a vida material continua sendo uma força decisiva na política.


Lide

A frase atribuída ao professor Leonardo Trevisan toca em um ponto central da política moderna: governos podem tentar controlar a narrativa, mobilizar símbolos nacionais, explorar crises externas e acionar emoções coletivas, mas há um limite duro para a propaganda quando o custo de vida começa a corroer o cotidiano. Nos Estados Unidos de 2026, a alta da gasolina e do diesel, em meio à guerra envolvendo Irã, EUA e Israel, expõe uma tensão clássica entre percepção e realidade: o eleitor pode até se comover com discursos patrióticos, mas tende a punir quem governa quando sente que seu salário compra menos, que o combustível pesa mais e que a promessa de estabilidade virou incerteza.


1. O “voto do estômago” e a política da vida real

Na ciência política, esse fenômeno é conhecido como voto econômico retrospectivo. A ideia é simples: o eleitor olha para trás e pergunta, ainda que sem formular teoricamente: “minha vida melhorou ou piorou sob este governo?”. Morris Fiorina mostrou que o voto muitas vezes funciona como julgamento retrospectivo do desempenho do incumbente, mais do que adesão sofisticada a programas ideológicos (Fiorina, 1978).  

Quando a gasolina sobe, o diesel encarece, os alimentos ficam mais caros e o orçamento familiar aperta, a política deixa de ser abstrata. Ela entra no tanque do carro, na conta do supermercado, no frete, no preço do pão, na mensalidade, no remédio, na rotina.

Segundo a Reuters, em abril de 2026, o preço médio da gasolina nos Estados Unidos chegou a US$ 4,04 por galão, contra US$ 3,15 um ano antes, em meio aos efeitos da guerra com o Irã e das tensões no Estreito de Hormuz.   Já o El País registrou que a gasolina estava acima de US$ 4 por galão, quase 35% mais cara do que antes dos bombardeios no Golfo Pérsico, enquanto o diesel se aproximava de máximas históricas, acima de US$ 5,50 por galão.  

Esse dado é politicamente explosivo porque combustível não é apenas combustível. Ele é preço de transporte, logística, inflação indireta, sensação de descontrole e percepção de incompetência governamental.


2. Trump, guerra e o limite da narrativa

Governos em crise costumam tentar deslocar a atenção pública. Em ciência política, há o conhecido efeito “rally around the flag”, isto é, o aumento temporário de apoio ao governante em momentos de crise externa, guerra ou ameaça nacional. Estudos clássicos indicam que crises internacionais podem elevar a aprovação presidencial, ao menos por algum tempo (Baker; Oneal, 2001).  

Mas esse efeito tem prazo de validade. A comoção patriótica pode unificar parte da sociedade por alguns dias ou semanas. Porém, se a crise se converte em inflação, escassez, instabilidade energética e perda de renda real, o eleitor volta para a pergunta básica: “quem está pagando essa conta?”.

É nesse ponto que a política da percepção encontra a política da realidade. O governante pode dizer que a crise é externa. Pode culpar inimigos, adversários, imprensa, burocracia, bancos centrais, governos anteriores ou potências estrangeiras. Mas, para o cidadão comum, a cadeia causal raramente importa tanto quanto o efeito imediato: o preço subiu.

A Reuters informou que Trump contradisse seu próprio secretário de Energia, Chris Wright, ao afirmar que esperava queda nos preços da gasolina assim que a guerra com o Irã terminasse, enquanto Wright indicava que preços abaixo de US$ 3 por galão poderiam demorar até o fim de 2026 ou mesmo 2027.   A divergência revela um problema típico de governos pressionados: a comunicação política tenta acelerar uma solução que a realidade econômica não entrega.


3. A psicologia do eleitor irritado

A economia não pesa apenas de forma racional. Ela pesa emocionalmente. Daniel Kahneman e Amos Tversky demonstraram, pela Teoria da Perspectiva, que as pessoas sentem perdas de maneira mais intensa do que ganhos equivalentes. Em termos simples: perder poder de compra dói mais do que ganhar um pequeno aumento alivia (Tversky; Kahneman, 1991).  

Isso ajuda a explicar por que a inflação é tão politicamente destrutiva. Ela é percebida todos os dias. Não aparece apenas em relatórios técnicos. Aparece na bomba de combustível, na prateleira, no aplicativo de transporte, no frete, na conta de energia.

Quando o eleitor sente que está perdendo, ele entra em modo defensivo. A raiva substitui a paciência. A frustração substitui a confiança. A promessa política passa a ser julgada não pelo discurso, mas pela experiência concreta.

Nesse cenário, o eleitor não precisa compreender geopolítica do petróleo, sanções internacionais, Estreito de Hormuz ou dinâmica dos mercados futuros. Basta perceber que antes abastecia com determinado valor e agora abastece menos. A política passa a ser mediada por uma sensação: “minha vida piorou”.


4. Tecnopolítica: redes sociais não abastecem o carro

A tecnopolítica contemporânea elevou a disputa narrativa a um nível sofisticado. Algoritmos, bolhas digitais, influenciadores, vídeos curtos, slogans emocionais e campanhas de desinformação ajudam a moldar percepções. Mas há uma fronteira que a propaganda não atravessa com facilidade: a experiência material repetida.

Redes sociais podem convencer parte do eleitorado de que um líder é forte, perseguido, patriota ou salvador. Podem transformar crise em espetáculo. Podem fabricar inimigos. Podem produzir engajamento. Mas não reduzem o preço da gasolina.

Essa é a grande contradição dos governos populistas em tempos de crise econômica. Eles dependem da gestão permanente da percepção, mas são julgados pela gestão concreta da realidade. Quando os dois planos se separam demais, a narrativa começa a rachar.

A política, nesse sentido, não é apenas disputa simbólica. É administração do cotidiano. E o cotidiano é cruel com governos que prometem grandeza, mas entregam instabilidade.


5. O erro de subestimar o custo de vida

Há uma ilusão recorrente nas lideranças políticas: acreditar que a fidelidade ideológica supera indefinidamente a deterioração econômica. Não supera. Pode resistir por algum tempo, especialmente em bases radicalizadas, mas o eleitor médio é mais pragmático do que militante.

A literatura sobre voto econômico mostra que cidadãos tendem a recompensar governos em períodos de prosperidade e punir incumbentes em períodos de deterioração econômica. Essa relação não é automática, mas é persistente nas democracias eleitorais.  

No caso norte-americano, a pressão sobre Trump torna-se maior porque sua retórica política sempre esteve associada à promessa de força, eficiência, energia barata, proteção econômica e restauração nacional. Quando o combustível sobe, a inflação pressiona e a guerra externa encarece a vida interna, a promessa começa a se voltar contra o próprio governo.

A crise deixa de ser apenas econômica. Torna-se crise de credibilidade.


6. A lição política para qualquer democracia

O caso norte-americano oferece uma lição mais ampla: nenhuma democracia pode ser compreendida apenas pelo discurso de seus líderes. É preciso olhar para a infraestrutura da vida cotidiana.

Salário, emprego, inflação, crédito, comida, transporte, moradia e energia continuam sendo os pilares silenciosos da legitimidade política. Quando esses pilares tremem, a retórica institucional também treme.

Isso vale para os Estados Unidos, para o Brasil e para qualquer governo. A população pode até se mobilizar por valores abstratos, identidades ideológicas e disputas culturais. Mas, quando a sobrevivência econômica entra em risco, a política volta ao chão.

O “voto do estômago” não é ignorância popular. É uma forma direta de avaliação do poder. O eleitor pode não dominar os conceitos técnicos, mas sabe quando a conta não fecha.


Conclusão

A frase de Leonardo Trevisan sintetiza uma verdade incômoda para qualquer governante: a política pode manipular símbolos, construir inimigos, dramatizar ameaças e tentar transformar crises em capital eleitoral, mas há um limite material para a narrativa. Quando o custo de vida sobe, o eleitor sente antes de teorizar. E, quando sente perda, tende a procurar culpados.

No caso de Trump em 2026, a alta dos combustíveis, a guerra no Irã e a pressão inflacionária revelam a fragilidade de uma política baseada na promessa de força e controle. Um atentado, uma crise externa ou um discurso patriótico podem produzir comoção momentânea. Mas, se o cidadão comum continua pagando mais caro para viver, a comoção cede lugar à cobrança.

No fim, a democracia tem uma sabedoria dura: governos são julgados menos pelo que dizem sobre si mesmos e mais pelo que a população consegue comprar, pagar, abastecer e sustentar. A gestão da percepção pode vencer uma semana de notícias. A gestão da realidade decide uma eleição.


Referências

BAKER, William D.; ONEAL, John R. The nature and origins of the “rally ’round the flag” effect. Journal of Conflict Resolution, 2001.

FIORINA, Morris P. Economic retrospective voting in American national elections: a micro-analysis. American Journal of Political Science, 1978.

KAHNEMAN, Daniel; TVERSKY, Amos. Prospect theory: an analysis of decision under risk. Econometrica, 1979.

REUTERS. Trump says energy chief “wrong,” expects lower gas prices as soon as Iran war ends. 20 abr. 2026.

TVERSKY, Amos; KAHNEMAN, Daniel. Loss aversion in riskless choice: a reference-dependent model. The Quarterly Journal of Economics, 1991.


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