quinta-feira, 16 de abril de 2026

O risco de retrocesso subjetivo no Brasil de 2026

A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, o avanço nas pesquisas e a permanência da racionalidade neoliberal como ameaça à democracia


Índice

  1. Lide
  2. Introdução
  3. O que está em jogo em 2026
  4. A herança do bolsonarismo e a tentativa de reposicionamento de Flávio Bolsonaro
  5. Por que o risco de retrocesso não é apenas eleitoral, mas subjetivo
  6. Neoliberalismo, simplificação e autoritarismo: a engrenagem continua ativa
  7. Pesquisas, viabilidade e alerta democrático
  8. Conclusão
  9. Referências


Lide

A ascensão de Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência em 2026, somada ao desempenho competitivo nas pesquisas recentes, recoloca no centro do debate uma questão que vai muito além da disputa eleitoral: o Brasil corre o risco de aprofundar o empobrecimento subjetivo e a racionalidade neoliberal já analisados como bases de erosão democrática. O problema não está apenas em um nome de família ou em uma marca política. Está na sobrevivência de um ambiente social em que a linguagem é simplificada, a política é tratada como guerra moral, a informação circula como mercadoria e a democracia perde densidade crítica. Nesse cenário, uma candidatura competitiva vinculada ao legado bolsonarista não deve ser lida apenas como fato eleitoral, mas como sintoma de que as estruturas culturais, comunicacionais e afetivas que favoreceram o autoritarismo continuam vivas.  


1. Introdução


Há momentos em que uma eleição deixa de ser apenas uma escolha entre projetos administrativos e passa a funcionar como teste histórico sobre a capacidade de uma sociedade de aprender com seus próprios traumas. O Brasil parece estar entrando novamente nessa zona de risco. A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro não é um episódio isolado nem um movimento banal de sucessão partidária. Ela se inscreve num contexto em que o bolsonarismo busca sobreviver por meio de uma reembalagem discursiva: menos explosão verbal, mais cálculo; menos choque permanente, mais aparência de moderação; menos figura do pai, mais tentativa de herança reorganizada. 


O dado mais politicamente relevante é que essa tentativa não pode ser descartada como fantasia de bastidor. Pesquisas recentes apontam Flávio Bolsonaro em posição competitiva. Na rodada Genial/Quaest divulgada em 15 de abril de 2026, ele apareceu com 42% contra 40% de Lula em um eventual segundo turno, em cenário de empate técnico dentro da margem de erro. No levantamento Futura/Apex divulgado um dia antes, apareceu com 48% contra 42,6% de Lula. Já a CNT/MDA, também divulgada em abril, mostrou Lula à frente, com 44,9% contra 40,2% de Flávio. O ponto central, portanto, não é afirmar uma vitória inevitável, o que seria analiticamente precipitado, mas reconhecer que existe viabilidade competitiva real. 


É exatamente aí que o debate sobre empobrecimento subjetivo e racionalidade neoliberal ganha nova atualidade. Quando uma candidatura ligada a um campo político associado à radicalização, à hostilidade contra mediações democráticas e à exploração sistemática da simplificação moral reaparece com força, o problema não é só partidário. O problema é civilizatório.


2. O que está em jogo em 2026


O cenário de 2026 não repete mecanicamente 2018, mas guarda continuidades importantes. Flávio Bolsonaro é senador pelo Rio de Janeiro e preside, desde fevereiro de 2025, a Comissão de Segurança Pública do Senado, espaço a partir do qual afirmou priorizar pautas de endurecimento penal. Em março de 2026, declarou à CNN que seria candidato mesmo se Jair Bolsonaro revertesse sua inelegibilidade, e em abril apareceu publicamente já como pré-candidato, defendendo redução de carga tributária e reforma do Judiciário. Esses movimentos indicam que sua presença na disputa não é apenas especulação externa; ela vem sendo construída como estratégia política efetiva. 


A questão decisiva, porém, não é apenas institucionalizar uma candidatura. É compreender o que ela representa. Flávio não surge no vazio. Surge como tentativa de continuidade de um campo político que procura manter coeso o eleitorado bolsonarista, ao mesmo tempo em que busca reduzir rejeições por meio de uma imagem supostamente mais moderada. A própria cobertura política recente registra esse esforço de “suavização” e a tentativa de apresentar o senador como figura menos radical que o pai, embora parcela relevante da opinião pública não compre essa distinção. Pesquisa Quaest divulgada em abril mostrou que 45% dos entrevistados não o consideram mais moderado que sua família, contra 39% que pensam o contrário. 


Esse dado importa muito. Ele mostra que a operação em curso não é simples troca de nomes, mas disputa pela memória política do país. A pergunta de fundo é quase brutal em sua simplicidade: o Brasil está disposto a normalizar de novo, agora sob outra embalagem, a mesma matriz que degradou o debate público, ampliou a violência verbal e tentou converter a democracia em guerra permanente?


3. A herança do bolsonarismo e a tentativa de reposicionamento de Flávio Bolsonaro


A força analítica do conceito de empobrecimento subjetivo, desenvolvido por Rubens Casara, está em mostrar que o bolsonarismo não foi mero desvio de percurso ou simples acidente personalista. Ele encontrou solo fértil numa sociedade já marcada pela simplificação da linguagem, pela hostilidade à complexidade, pela recusa da alteridade e pela disposição crescente a consumir slogans no lugar de pensamento. O autor sustenta que discursos de ódio, adesão a fake news, desprezo pela nuance e desconsideração de valores democráticos decorrem desse empobrecimento, articulado à racionalidade neoliberal, que trata pessoas e relações como mercadorias e concorrentes.


Sob essa chave, o avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas não deve ser lido apenas como reposicionamento eleitoral de um sobrenome conhecido. Deve ser lido como evidência de que a base subjetiva do bolsonarismo não desapareceu. Ela apenas busca nova forma de expressão. A marca da família segue operando como polo de identificação para setores que continuam desejando ordem punitiva, linguagem simples, antagonismo moral e soluções de força. Ao mesmo tempo, a tentativa de reconfigurar Flávio como versão mais palatável da mesma tradição permite a setores conservadores experimentar continuidade sem o custo simbólico integral da figura paterna. 


O risco político, aqui, é evidente. Quando um projeto autoritário aprende a modular a própria aparência, ele pode se tornar ainda mais perigoso. A brutalidade explícita assusta; a brutalidade administrada negocia, avança por camadas e se normaliza com mais facilidade. Não raro, a história mostra que os maiores retrocessos não chegam sempre gritando. Às vezes, chegam sorrindo, falando em responsabilidade, eficiência e moderação.


4. Por que o risco de retrocesso não é apenas eleitoral, mas subjetivo


É importante marcar com precisão: o retrocesso em discussão não se resume à hipótese de derrota eleitoral de um campo democrático. O retrocesso mais profundo é o da estrutura mental do debate público. É a volta de uma sociedade treinada para reagir, não para pensar; para punir, não para compreender; para consumir indignação, não para disputar projetos coletivos.


Os dados atuais sobre informação e esfera pública ajudam a entender esse perigo. A pesquisa do DataSenado divulgada em 2024 mostrou que 72% dos brasileiros disseram ter visto notícias falsas ou suspeitas de falsidade nos seis meses anteriores, 81% acreditavam que fake news influenciam muito as eleições e cerca de metade admitia dificuldade para diferenciar conteúdos falsos e verdadeiros. Isso significa que o espaço público brasileiro continua amplamente vulnerável à manipulação informacional. 


Ao mesmo tempo, o CGI.br divulgou em 2026 resultados do Painel TIC 2025 indicando que as plataformas digitais já são o principal meio de acesso à informação entre brasileiros, superando rádio e TV, e que a população reconhece fortemente a lógica de visibilidade, polêmica e publicidade que organiza esses ambientes. Quando a informação passa a circular sobretudo em ecossistemas guiados por atenção e engajamento, a simplificação deixa de ser defeito secundário e vira vantagem competitiva. 


É aqui que o artigo anterior encontra o presente com enorme precisão. A racionalidade neoliberal precisa de um sujeito que funcione rápido, julgue depressa, compare tudo em termos de utilidade, veja adversários como inimigos e tolere a transformação de toda experiência em mercadoria. Esse sujeito é o terreno ideal para projetos políticos que prometem eficiência sem democracia densa, autoridade sem reflexão e ordem sem justiça.


5. Neoliberalismo, simplificação e autoritarismo: a engrenagem continua ativa


Uma leitura superficial poderia imaginar que a ameaça de retrocesso se resume ao retorno de costumes autoritários ou ao endurecimento discursivo na segurança pública. Isso é pouco. O problema é mais amplo e mais estrutural. Como Casara argumenta, a racionalidade neoliberal esvazia a linguagem, reduz o espaço da empatia e substitui o sujeito crítico pelo consumidor acrítico. Nesse ambiente, a democracia formal pode até permanecer, mas sua substância se deteriora.


Essa percepção encontra respaldo em pesquisas internacionais recentes. O relatório da OCDE sobre integridade da informação afirma que desinformação e misinformation ameaçam a confiança em governos, instituições e eleições, além de prejudicar a participação democrática informada. O estudo do IDOS sobre o Brasil, publicado em 2025, sustenta que a poluição informacional alimentou polarização afetiva, desconfiança, hostilidade e violência, enfraquecendo respeito a contra-argumentos, accountability e apoio à democracia. O V-Dem, por sua vez, insiste em 2025 na relação entre desinformação, polarização e autocratização. 


Traduzindo isso para a conjuntura de 2026: uma candidatura competitiva de Flávio Bolsonaro não representa apenas a volta de um nome conservador ao centro da disputa. Ela representa a possibilidade de nova ativação de uma engrenagem em que neoliberalismo, simplificação discursiva, guerra cultural, desconfiança institucional e punitivismo se alimentam mutuamente. Mesmo quando a retórica se apresenta mais “polida”, o núcleo pode permanecer o mesmo: esvaziar mediações, enfraquecer o dissenso crítico e tratar a democracia como obstáculo quando ela contraria o projeto de poder.


6. Pesquisas, viabilidade e alerta democrático


Não seria intelectualmente sério afirmar, neste momento, que Flávio Bolsonaro será eleito. As próprias pesquisas apontam cenários distintos e, em vários casos, dentro da margem de erro. A Quaest mostra empate técnico com leve vantagem numérica para Flávio em um cenário de segundo turno; a Futura/Apex mostra vantagem maior; a CNT/MDA mostra vantagem de Lula. Em março, a própria Quaest já indicava empates em vários cenários de primeiro e segundo turnos. Portanto, há competitividade, mas não determinismo. 


Mas justamente por não haver determinismo é que o alerta precisa ser feito agora. Eleições são disputas de narrativa, economia, alianças, rejeições e expectativas. Uma candidatura competitiva do campo bolsonarista mostra que a sociedade brasileira ainda não elaborou plenamente os efeitos políticos, institucionais e culturais do período recente. Mais do que isso: mostra que parcelas relevantes do eleitorado seguem dispostas a apostar num repertório que já produziu degradação democrática.


Esse ponto precisa ser dito com toda clareza. O risco não está apenas em Flávio como indivíduo, mas no que sua viabilidade expressa sociologicamente: a permanência de um público receptivo à simplificação punitiva, à estetização da política como confronto moral e à continuidade de uma racionalidade que mede tudo por força, desempenho, utilidade e lealdade de grupo. Em termos do debate iniciado por Casara, isso significa que o empobrecimento subjetivo não foi superado; ele continua estruturando o horizonte do possível.


7. Conclusão


A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro e seu desempenho competitivo nas pesquisas de 2026 devem ser lidos como muito mais que um episódio eleitoral. Eles funcionam como termômetro de uma permanência histórica incômoda: o Brasil ainda convive com as condições subjetivas que permitiram a ascensão do bolsonarismo. A linguagem simplificada, a mercantilização da informação, a desconfiança institucional, a polarização afetiva e a naturalização da dureza continuam presentes no tecido social.  


É por isso que o risco de retrocesso precisa ser pensado com profundidade. Não se trata apenas de impedir a vitória de um nome. Trata-se de enfrentar uma forma de subjetivação que empobrece a democracia por dentro. Uma sociedade que perde a capacidade de interpretar a complexidade também perde a capacidade de proteger a liberdade. Uma sociedade que troca debate por slogan, política por guerra moral e cidadania por torcida abre caminho para que projetos autoritários retornem sempre, às vezes com a mesma face, às vezes com rosto aparentemente mais moderado.


A lição central é dura, mas necessária: o retrocesso democrático não começa no dia da posse. Ele começa antes, quando a sociedade volta a achar normal o que deveria ser inaceitável.


Referências


CASARA, Rubens R. R. Bolsonaro: o mito e o sintoma. São Paulo: Contracorrente, 2020. 


CNN BRASIL. Flávio diz que será candidato mesmo se Bolsonaro reverter inelegibilidade. São Paulo, 24 mar. 2026. 


CNN BRASIL. Flávio defende redução da carga tributária do país e reforma no Judiciário. São Paulo, 10 abr. 2026. 


CNN BRASIL. Quaest: Flávio vai a 42% no 2º turno; Lula tem 40%. São Paulo, 15 abr. 2026. 


CNN BRASIL. Futura/Apex: Flávio venceria Lula no 2º turno por 48% a 42,6%. São Paulo, 14 abr. 2026. 


CNN BRASIL. Pesquisa CNT/MDA: Lula tem 44,9%, e Flávio, 40,2% no 2º turno. São Paulo, 14 abr. 2026. 


CNN BRASIL. Quaest: 45% não acham que Flávio é mais moderado que a família; 39% acham que sim. São Paulo, 15 abr. 2026. 


COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL. Plataformas da internet são o principal meio de acesso à informação entre brasileiros e superam rádio e TV, aponta nova pesquisa. São Paulo, 2026. 


PODER360. Flávio tem 42% no 2º turno contra 40% de Lula, diz Quaest. Brasília, 15 abr. 2026. 


SENADO FEDERAL. Senador Flávio Bolsonaro – perfil parlamentar. Brasília, [s.d.]. 


SENADO FEDERAL. Flávio Bolsonaro é eleito presidente da CSP. Brasília, 19 fev. 2025. 



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