domingo, 26 de abril de 2026

Desenvolvimento não é apenas crescimento: o Brasil entre a armadilha das commodities e a urgência da industrialização

A economia brasileira pode crescer vendendo soja, minério e petróleo, mas só se desenvolverá plenamente quando transformar conhecimento, ciência, tecnologia e indústria em soberania nacional.




Lide


O Brasil ainda confunde crescimento econômico com desenvolvimento. O aumento do PIB, embora importante, não garante inovação, distribuição de renda, autonomia tecnológica nem soberania produtiva. A lição de Celso Furtado permanece atual: uma nação pode crescer mantendo estruturas de dependência. Para superar a condição periférica, o país precisa reindustrializar sua economia, agregar valor ao agronegócio, investir em ciência, educação e tecnologia, e construir uma estratégia nacional capaz de transformar riqueza natural em desenvolvimento humano e produtivo.




1. Crescer não é o mesmo que desenvolver


O Brasil vive, há décadas, uma confusão conceitual que custa caro ao seu futuro: tratar crescimento econômico como sinônimo de desenvolvimento. O crescimento aparece nos números do PIB, nas exportações, nos superávits comerciais e nas manchetes otimistas sobre safras recordes ou alta das commodities. Mas desenvolvimento é algo muito mais profundo.


Crescimento é quantidade. Desenvolvimento é qualidade histórica.


Uma economia cresce quando produz mais. Mas ela só se desenvolve quando muda sua estrutura produtiva, amplia sua capacidade científica, eleva a produtividade, distribui renda, gera empregos qualificados, fortalece sua indústria, reduz sua dependência externa e melhora concretamente a vida da população.


Celso Furtado compreendeu essa diferença com rara lucidez. Para ele, o subdesenvolvimento não era uma etapa atrasada pela qual todos os países passariam antes de se tornarem desenvolvidos. Era uma formação histórica específica, produzida pela inserção subordinada das economias periféricas no capitalismo mundial (Furtado, 2009).


Essa é uma ideia central: o Brasil pode crescer e continuar dependente. Pode exportar muito e continuar tecnologicamente subordinado. Pode ter agronegócio forte e, ainda assim, perder capacidade industrial. Pode aumentar o PIB e, mesmo assim, manter desigualdade, baixa complexidade produtiva e fragilidade externa.


É por isso que a discussão sobre desenvolvimento precisa voltar ao centro do debate nacional.



2. A armadilha das commodities


O Brasil é uma potência agrícola, mineral, energética e ambiental. Isso é uma vantagem extraordinária. O problema começa quando o país transforma essa vantagem em destino único.


A dependência excessiva de commodities coloca o Brasil em posição vulnerável. Soja, milho, minério de ferro, petróleo e carne são produtos fundamentais, mas seus preços são definidos majoritariamente no mercado internacional. O país vende muito, mas raramente controla o preço. Em outras palavras, torna-se tomador de preços.


Essa condição limita a soberania econômica. Quando os preços internacionais sobem, o país respira. Quando caem, a economia sofre. Quando há crise global, guerra, retração chinesa ou mudança nos fluxos financeiros, o Brasil sente rapidamente os impactos.


Raúl Prebisch já havia alertado para esse problema ao analisar a relação entre centro e periferia. Países periféricos exportam produtos primários e importam bens industriais e tecnológicos de maior valor agregado. Com o tempo, essa relação tende a reproduzir dependência, pois os produtos industrializados incorporam mais conhecimento, mais tecnologia e maiores margens de lucro (Prebisch, 1949).


A questão, portanto, não é negar o agronegócio. O agronegócio brasileiro é produtivo, tecnológico e relevante. A questão é entender que nenhum país se torna soberano apenas vendendo produtos primários.


O Brasil precisa fazer com o agro o que os países desenvolvidos fizeram com seus recursos estratégicos: transformar produção em cadeia tecnológica. Isso significa produzir máquinas, sensores, softwares, fertilizantes, biotecnologia, satélites, inteligência artificial aplicada ao campo, logística avançada e pesquisa científica nacional.


Sem isso, continuaremos exportando riqueza natural e importando inteligência industrial.



3. A industrialização como eixo do desenvolvimento


A industrialização não é nostalgia do passado. É condição de soberania no presente.


Quando se fala em indústria, não se trata apenas de fábricas antigas, linhas de montagem ou chaminés. A indústria contemporânea envolve semicondutores, fármacos, defesa, energia limpa, inteligência artificial, robótica, biotecnologia, nanotecnologia, equipamentos médicos, química fina, softwares embarcados e ciência dos materiais.


Nicholas Kaldor defendia que a manufatura funciona como motor do crescimento econômico porque gera ganhos de produtividade, economias de escala, aprendizado tecnológico e encadeamentos produtivos (Kaldor, 1966). Uma indústria forte cria demanda por engenheiros, técnicos, pesquisadores, universidades, centros de inovação e fornecedores especializados.


É por isso que a desindustrialização é tão grave. Quando um país perde indústria, não perde apenas fábricas. Perde conhecimento acumulado. Perde engenharia. Perde capacidade de projetar máquinas. Perde empregos qualificados. Perde autonomia tecnológica. Perde capacidade de disputar a fronteira do futuro.


A indústria é o setor que mais conecta ciência, tecnologia e produção. Ela transforma conhecimento em produto, pesquisa em inovação, educação em produtividade e trabalho qualificado em renda.


Sem indústria, a economia tende a se especializar em atividades menos complexas, com menor valor agregado e menor capacidade de elevar os salários médios.



4. Desenvolvimento exige inovação


Joseph Schumpeter ensinou que o desenvolvimento econômico nasce da inovação. Não basta produzir mais do mesmo. É preciso criar novos produtos, novos processos, novos mercados, novas formas de organização e novas combinações produtivas (Schumpeter, 1982).


Essa ideia é decisiva para o Brasil. Um país que apenas amplia sua produção de commodities pode crescer, mas não necessariamente se desenvolver. O desenvolvimento exige salto tecnológico.


Quem domina tecnologia domina margens de lucro. Quem domina patentes domina cadeias globais. Quem domina máquinas, plataformas digitais, semicondutores, medicamentos, softwares e sistemas industriais complexos domina o poder econômico do século XXI.


A riqueza contemporânea está cada vez menos na matéria-prima isolada e cada vez mais na inteligência incorporada ao produto.


O minério de ferro vale muito menos que o aço especial. A soja vale menos que a biotecnologia agrícola. O petróleo bruto vale menos que a química fina. O dado bruto vale menos que o algoritmo. A produção primária vale menos que a cadeia tecnológica que a transforma.


Essa é a diferença entre participar do mercado mundial como fornecedor subordinado ou como potência produtiva.



5. A dependência como projeto histórico


A dependência brasileira não é acidente. Ela foi construída historicamente.


Desde o período colonial, o Brasil foi organizado para exportar produtos primários e importar bens de maior valor. Açúcar, ouro, café, borracha, minério, soja e petróleo representam ciclos diferentes de uma mesma lógica: a riqueza natural sai, a tecnologia volta cara.


A teoria da dependência mostrou que países periféricos podem crescer sem romper sua subordinação. Fernando Henrique Cardoso, Enzo Faletto, Theotonio dos Santos e Ruy Mauro Marini analisaram como a integração ao capitalismo mundial pode ocorrer de forma dependente, mesmo quando há modernização econômica.


Celso Furtado foi ainda mais profundo ao mostrar que o subdesenvolvimento combina modernidade e atraso. Setores modernos convivem com pobreza estrutural. Ilhas de produtividade convivem com vastas regiões de baixa renda. Exportações sofisticadas convivem com dependência tecnológica.


Essa é uma das marcas brasileiras: modernização sem transformação estrutural completa.


O país pode ter um agronegócio altamente mecanizado e, ao mesmo tempo, uma indústria enfraquecida. Pode ter universidades de excelência e baixo investimento em inovação empresarial. Pode formar engenheiros e não ter parques industriais capazes de absorvê-los. Pode produzir conhecimento e não transformar esse conhecimento em soberania produtiva.



6. O falso dilema entre agro e indústria


O debate público brasileiro frequentemente cai em uma armadilha: colocar agronegócio e indústria como inimigos. Esse é um erro estratégico.


O Brasil não precisa escolher entre agro e indústria. Precisa integrar os dois em uma estratégia nacional de desenvolvimento.


Um agronegócio verdadeiramente soberano precisa de indústria nacional forte. Precisa de tratores, colheitadeiras, drones, fertilizantes, defensivos, bioinsumos, sensores, softwares, irrigação inteligente, satélites, energia, logística ferroviária e pesquisa aplicada.


Sem indústria, o agro fica dependente de tecnologia externa. Produz muito, mas compra caro os instrumentos de sua própria produtividade.


A questão não é reduzir o agro. É sofisticá-lo. Agregar valor. Industrializar suas cadeias. Transformar o Brasil em potência agroindustrial, biotecnológica e tecnológica.


A soja não pode ser apenas grão. Precisa gerar proteína, óleo, biodiesel, química verde, bioplásticos, pesquisa genética e indústria alimentar avançada.


O minério não pode ser apenas exportado bruto. Precisa gerar aço especial, máquinas, equipamentos, componentes e tecnologia.


O petróleo não pode ser apenas barril. Precisa gerar petroquímica, fertilizantes, polímeros, pesquisa energética e transição industrial.


Desenvolvimento é isso: transformar vantagem natural em capacidade produtiva complexa.



7. O papel do Estado no desenvolvimento


Outro equívoco recorrente é imaginar que o desenvolvimento nasce espontaneamente do mercado. A história mostra o contrário.


Ha-Joon Chang demonstrou que os países hoje desenvolvidos usaram políticas industriais, proteção estratégica, subsídios, compras públicas, financiamento estatal e planejamento para construir suas economias (Chang, 2002). Depois de se desenvolverem, muitos passaram a recomendar aos países periféricos o livre mercado irrestrito, como se eles próprios tivessem enriquecido sem intervenção estatal.


Mariana Mazzucato também mostrou que o Estado foi decisivo em grandes revoluções tecnológicas. Internet, GPS, semicondutores, biotecnologia, energia limpa e várias tecnologias digitais dependeram de investimento público de longo prazo e alto risco (Mazzucato, 2014).


Portanto, desenvolvimento não é fruto de improviso. Exige projeto nacional.


O Estado precisa coordenar, induzir, financiar, regular e planejar. Não para substituir a iniciativa privada, mas para criar condições para que ela invista em setores estratégicos.


No caso brasileiro, isso significa fortalecer instituições como BNDES, Finep, Embrapa, universidades públicas, Institutos Federais, centros tecnológicos e empresas nacionais inovadoras.


Significa também usar compras públicas para estimular inovação, proteger setores estratégicos de forma inteligente, exigir conteúdo tecnológico nacional, financiar pesquisa aplicada e criar políticas industriais compatíveis com os desafios do século XXI.



8. Educação, ciência e tecnologia como base da soberania


Não existe desenvolvimento sem educação.


Uma economia baseada em conhecimento precisa de trabalhadores qualificados, engenheiros, pesquisadores, técnicos, professores, gestores e cientistas. Precisa de educação básica forte, ensino técnico robusto, universidades produtivas e integração entre pesquisa e setor produtivo.


A industrialização contemporânea exige uma nova formação humana. Não basta alfabetizar. É preciso formar pessoas capazes de programar, projetar, pesquisar, inovar, interpretar dados, operar sistemas complexos e compreender problemas sociais e tecnológicos.


Nesse ponto, os Institutos Federais, universidades públicas e centros de pesquisa são estratégicos. Eles podem ser a ponte entre juventude, território, ciência e desenvolvimento regional.


O Brasil precisa transformar educação em política industrial. E transformar política industrial em projeto educacional.


Isso significa formar técnicos para a nova indústria, engenheiros para a transição energética, cientistas de dados para a economia digital, pesquisadores para a biotecnologia, especialistas em inteligência artificial aplicada ao agro, à saúde, à gestão pública e à infraestrutura.


Sem capital humano, não há soberania tecnológica.



9. Distribuição de renda e empregos qualificados


O desenvolvimento não pode ser medido apenas pela produção. Precisa ser medido também pela qualidade dos empregos e pela distribuição da renda.


Uma economia primário-exportadora tende a gerar riqueza concentrada. Grandes propriedades, grandes mineradoras e grandes exportadores podem movimentar bilhões, mas isso nem sempre se traduz em salários elevados para a maioria da população.


A indústria, quando bem articulada, possui maior capacidade de criar empregos qualificados, elevar salários médios e dinamizar serviços complexos. Ela demanda engenheiros, operadores técnicos, pesquisadores, administradores, profissionais de tecnologia, logística, manutenção, design e gestão.


Esses empregos irradiam renda para o conjunto da economia.


Quando há indústria forte, há mais massa salarial qualificada. Quando há massa salarial qualificada, há mercado interno mais forte. Quando há mercado interno mais forte, há mais consumo, mais investimento, mais arrecadação e mais capacidade de financiar políticas públicas.


Desenvolvimento, portanto, não é apenas produzir riqueza. É internalizar riqueza.



10. O Brasil diante de uma escolha histórica


O Brasil está diante de uma encruzilhada.


Pode continuar como grande fornecedor de commodities, celebrando safras recordes enquanto importa tecnologia cara. Pode aceitar a desindustrialização como destino. Pode acreditar que crescimento ocasional do PIB basta para resolver seus problemas históricos.


Ou pode reconstruir uma estratégia nacional de desenvolvimento.


Essa estratégia precisa partir de alguns consensos mínimos:


o Brasil precisa reindustrializar sua economia;

o agronegócio deve ser integrado a cadeias tecnológicas nacionais;

a educação deve ser tratada como infraestrutura produtiva;

a ciência precisa ser financiada de forma contínua;

o Estado deve atuar como indutor do desenvolvimento;

a inovação precisa ser política nacional;

a soberania tecnológica deve ser prioridade estratégica;

a distribuição de renda deve ser consequência planejada do modelo produtivo.


O país que não controla tecnologia não controla seu futuro.



Conclusão: crescer é pouco para um país do tamanho do Brasil


O Brasil não pode se contentar em crescer. Crescer é necessário, mas insuficiente. O desafio verdadeiro é desenvolver.


Desenvolver significa romper a armadilha histórica da dependência. Significa deixar de ser apenas exportador de natureza e passar a ser produtor de conhecimento, tecnologia, indústria e inovação. Significa transformar soja em biotecnologia, minério em engenharia, petróleo em química fina, biodiversidade em ciência, juventude em inteligência produtiva e educação em soberania.


Celso Furtado permanece atual porque entendeu que o drama brasileiro não está apenas na falta de riqueza, mas na forma como a riqueza é produzida, apropriada e distribuída. O Brasil é rico em território, água, energia, alimentos, minérios e gente. Mas desenvolvimento não nasce automaticamente da abundância. Desenvolvimento exige projeto.


A pergunta decisiva não é se o Brasil vai crescer no próximo trimestre. A pergunta decisiva é: que tipo de país o Brasil quer ser nas próximas décadas?


Um país que exporta produtos baratos e importa tecnologia cara?

Ou uma nação capaz de transformar sua riqueza natural em potência científica, industrial, educacional e humana?


Sem industrialização, ciência, educação e inovação, o Brasil poderá continuar crescendo em alguns ciclos. Mas continuará distante do desenvolvimento real.



Referências


CHANG, Ha-Joon. Kicking away the ladder: development strategy in historical perspective. London: Anthem Press, 2002.


FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


FURTADO, Celso. Teoria e política do desenvolvimento econômico. São Paulo: Abril Cultural, 2009.


KALDOR, Nicholas. Causes of the slow rate of economic growth of the United Kingdom. Cambridge: Cambridge University Press, 1966.


MAZZUCATO, Mariana. O Estado empreendedor: desmascarando o mito do setor público versus setor privado. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2014.


PREBISCH, Raúl. O desenvolvimento econômico da América Latina e alguns de seus principais problemas. Santiago: CEPAL, 1949.


SCHUMPETER, Joseph A. Teoria do desenvolvimento econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

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