Da novela de 1989 ao algoritmo eleitoral contemporâneo, o Brasil enfrenta uma questão decisiva: escolherá projetos verificáveis de governo ou continuará vulnerável ao mito do líder providencial?
Lide
A figura de Sassá Mutema, personagem central de O Salvador da Pátria, permanece atual porque revela uma fragilidade estrutural da política brasileira: a tendência de transformar carência social, medo coletivo e desinformação em matéria-prima para a fabricação de líderes messiânicos. Em 1989, essa fabricação passava pelo rádio, pela televisão, pelos coronéis locais e pelos palanques. Em 2026, passa também pelos algoritmos, pela inteligência artificial, pelos vídeos curtos, pelas bolhas digitais, pelos disparos segmentados e pela manipulação emocional do eleitor. O problema não é apenas escolher mal um presidente. O problema é quando a sociedade deixa de escolher projetos e passa a consumir personagens.
1. Sassá Mutema e o velho mito do redentor popular
Sassá Mutema não é apenas um personagem marcante da teledramaturgia brasileira. Ele é uma metáfora política. Em O Salvador da Pátria, Lauro César Muniz construiu um personagem simples, vulnerável, socialmente marginalizado, que passa a ser usado por forças políticas mais poderosas. A novela foi exibida em 1989, ano da primeira eleição presidencial direta após quase três décadas, e dialogava com aquele ambiente de redemocratização, incerteza institucional e disputa pela imaginação popular.
A potência crítica da novela está justamente aí: Sassá não nasce como líder plenamente consciente. Ele é convertido em símbolo. E símbolo, quando manipulado, pode substituir o debate racional. A política deixa de ser disputa entre projetos e passa a ser teatro emocional.
Essa lógica permanece viva. A política brasileira continua marcada por personagens apresentados como “homens do povo”, “salvadores”, “outsiders”, “gestores milagrosos”, “defensores da moral” ou “última esperança nacional”. A embalagem muda; a estrutura permanece.
O perigo é evidente: quando o eleitor busca um redentor, ele abre mão de exigir programa, orçamento, equipe, planejamento, avaliação de políticas públicas e compromisso institucional. A fé política substitui a cidadania.
2. De 1989 à era dos algoritmos
Em 1989, rádio, televisão, jornal impresso e comícios eram os grandes mediadores da política. Hoje, o centro da disputa deslocou-se para plataformas digitais, redes sociais, aplicativos de mensagem, inteligência artificial generativa e sistemas de recomendação.
A diferença é profunda. Antes, a manipulação era mais centralizada e visível. Hoje, ela é descentralizada, personalizada e muitas vezes invisível. O eleitor acredita estar vendo “o que todo mundo está vendo”, mas frequentemente está preso a uma bolha construída a partir de seus próprios medos, preferências e hábitos digitais.
A política contemporânea não disputa apenas votos. Disputa percepção. Disputa atenção. Disputa emoção.
É por isso que a eleição de 2026 no Brasil precisa ser analisada para além da pergunta “quem será o próximo presidente?”. A questão mais importante é outra: em que condições informacionais o eleitor brasileiro formará sua decisão?
O TSE já reconheceu a gravidade desse cenário ao aprovar regras sobre uso de inteligência artificial, deepfakes e propaganda eleitoral. A Resolução nº 23.732/2024 passou a exigir maior controle sobre conteúdos sintéticos e proibiu manipulações capazes de degradar a integridade do processo eleitoral.
Esse dado é decisivo: se a Justiça Eleitoral precisou regulamentar IA e deepfakes, é porque a democracia já entrou em uma nova fase de vulnerabilidade.
3. O “Sassá digital”
O “Sassá digital” não precisa ser pobre, analfabeto ou ingênuo. Pode ser sofisticado, midiático, rico, religioso, militarizado, tecnocrático ou populista. O que o define não é sua origem social, mas sua função política: ocupar o lugar simbólico do salvador.
Esse personagem costuma operar por simplificações brutais:
“vou acabar com a corrupção”;
“vou resolver a segurança pública”;
“vou salvar a economia”;
“vou moralizar o país”;
“vou derrotar os inimigos da nação”.
São frases fortes, mas insuficientes. Nenhuma delas responde às perguntas fundamentais da gestão pública:
Com qual orçamento?
Com qual equipe?
Com qual base legal?
Com qual articulação federativa?
Com quais indicadores?
Com qual prazo?
Com qual controle social?
Com quais efeitos colaterais?
O “Sassá digital” vive da recusa da complexidade. Ele vende clareza onde há conflito, rapidez onde há processo, punição onde deveria haver política pública e identidade emocional onde deveria haver projeto nacional.
4. A tecnopolítica como nova fábrica do salvador
A tecnopolítica não é apenas o uso de redes sociais em campanhas. É a reorganização da política pela lógica dos dados, dos algoritmos, da visibilidade digital e da manipulação da atenção.
Na política tradicional, o candidato tentava convencer multidões. Na política algorítmica, tenta-se atingir indivíduos ou grupos específicos com mensagens moldadas para suas emoções particulares.
Isso muda tudo.
O eleitor religioso recebe uma mensagem.
O eleitor inseguro recebe outra.
O jovem recebe outra.
O empresário recebe outra.
O servidor público recebe outra.
O trabalhador precarizado recebe outra.
O eleitor revoltado recebe outra.
A democracia deixa de ter uma esfera pública comum e passa a ser fragmentada em pequenas realidades emocionais. Cada bolha recebe sua própria versão do país.
Esse fenômeno enfraquece o debate público porque impede a construção de consensos mínimos. A sociedade deixa de discutir problemas comuns e passa a disputar narrativas privadas.
No limite, a tecnopolítica pode transformar a eleição em uma guerra de percepções, não em uma escolha racional entre projetos de Estado.
5. O eleitor como alvo de engenharia emocional
O eleitor contemporâneo não é visto apenas como cidadão. É visto como perfil de dados.
Suas curtidas, buscas, medos, ressentimentos, hábitos religiosos, consumo de notícias, localização e preferências culturais podem ser usados para prever comportamentos e moldar mensagens políticas.
Essa engenharia emocional não precisa convencer pela razão. Basta ativar medo, raiva, ressentimento, humilhação, nostalgia ou sensação de ameaça.
A política do salvador precisa de uma sociedade emocionalmente cansada. Quanto maior o medo, maior a demanda por autoridade. Quanto maior a insegurança, maior a sedução por soluções duras. Quanto maior a frustração econômica, maior a chance de prosperarem discursos contra “inimigos internos”.
Aqui está o ponto crítico: uma população economicamente pressionada, educacionalmente fragilizada e digitalmente exposta torna-se mais vulnerável à promessa autoritária.
É por isso que a democracia não depende apenas de urnas funcionando. Depende de cidadãos com condições materiais, cognitivas e informacionais para escolher livremente.
6. A Professora Clotilde como metáfora da emancipação
Na novela, a professora Clotilde representa mais do que uma personagem afetiva. Ela simboliza a educação como ruptura da manipulação.
Sassá começa a se transformar quando deseja aprender. A alfabetização, nesse sentido, não é apenas técnica. É política. Quem aprende a ler deixa de depender completamente da interpretação dos outros.
Hoje, essa alfabetização precisa ser ampliada. O cidadão precisa aprender a ler textos, números, imagens, vídeos, discursos, estatísticas, plataformas e algoritmos.
A nova alfabetização democrática envolve três dimensões:
alfabetização política, para compreender Estado, Constituição, orçamento, políticas públicas e instituições;
alfabetização midiática, para diferenciar jornalismo, propaganda, opinião, manipulação e mentira;
alfabetização algorítmica, para entender que as redes sociais não mostram “a realidade”, mas uma realidade filtrada por interesses econômicos, políticos e tecnológicos.
Sem isso, o eleitor vota, mas não necessariamente escolhe. Apenas reage.
7. O papel da educação na defesa da democracia
A educação é o principal antídoto contra o messianismo político. Não porque transforme todos em especialistas, mas porque cria condições para que a população não seja facilmente capturada por slogans, boatos, falsas promessas e personagens fabricados.
O papel da educação deve ser compreendido em sentido amplo.
Primeiro, a educação básica precisa formar leitores competentes. Um país que não lê bem interpreta mal a política. Quem não compreende texto, gráfico, orçamento, notícia e argumento torna-se presa fácil de frases de efeito.
Segundo, a educação científica precisa ensinar método. Ciência não é apenas conteúdo; é forma de pensar. Ensinar ciência é ensinar dúvida, evidência, comparação, causalidade, hipótese, teste e revisão. Isso é essencial para enfrentar fake news e manipulações eleitorais.
Terceiro, a educação histórica precisa mostrar que democracias morrem também por dentro. Não é necessário haver tanques nas ruas para que uma democracia adoeça. Ela pode ser corroída por ataques às instituições, desprezo à imprensa, culto ao líder, naturalização da violência política e deslegitimação permanente do processo eleitoral.
Quarto, a educação política precisa deixar de ser tabu. Escola não deve fazer doutrinação partidária, mas deve formar consciência constitucional. Ensinar democracia não é ensinar em quem votar. É ensinar por que o voto deve ser livre, informado, plural e protegido.
Quinto, a educação digital tornou-se indispensável. Não basta colocar internet na escola. É preciso ensinar como plataformas funcionam, como algoritmos recomendam conteúdo, como discursos extremistas se espalham, como imagens podem ser manipuladas e como a inteligência artificial pode produzir textos, vozes e vídeos falsos.
Sexto, a educação profissional e tecnológica deve formar trabalhadores capazes de compreender o mundo produtivo contemporâneo. Instituições como os Institutos Federais têm papel estratégico porque unem ciência, técnica, cidadania e desenvolvimento regional. Elas podem formar jovens capazes de usar tecnologia, mas também de criticá-la.
Sétimo, a formação docente precisa ser profundamente atualizada. O professor não pode ser reduzido a operador de ferramentas digitais. Ele precisa compreender sociologia das redes, economia política das plataformas, inteligência artificial, desinformação e cultura democrática.
A UNESCO tem insistido que a IA na educação precisa preservar agência humana, pensamento crítico, ética e inclusão, especialmente diante da inteligência artificial generativa.
Portanto, a educação democrática do século XXI precisa formar o cidadão que pergunta:
isso é verdade?
quem produziu essa mensagem?
quem ganha com minha raiva?
há evidências?
há orçamento?
há projeto?
há respeito às instituições?
há compromisso com a Constituição?
Quando essas perguntas entram na cultura política, o salvador perde força.
8. Contra o salvador, o projeto
A política democrática não deve ser baseada em fé pessoal. Deve ser baseada em projeto público.
O salvador promete.
O projeto demonstra.
O salvador emociona.
O projeto calcula.
O salvador acusa.
O projeto diagnostica.
O salvador personaliza.
O projeto institucionaliza.
O salvador pede lealdade.
O projeto aceita fiscalização.
Essa diferença precisa orientar o debate eleitoral de 2026. O Brasil não deve analisar candidaturas apenas por carisma, rejeição, identidade ideológica ou força nas redes. Deve exigir programa, viabilidade, respeito institucional e compromisso democrático.
Isso vale para qualquer país que escolha seu chefe do Executivo por voto popular. Democracias presidencialistas são especialmente vulneráveis ao mito do líder providencial porque concentram enorme expectativa simbólica na figura do presidente.
Quando o presidente é tratado como “pai”, “mito”, “salvador”, “ungido”, “predestinado” ou “único capaz”, a democracia enfraquece. O Executivo deixa de ser uma função republicana e passa a ser objeto de culto político.
9. A política atual e o risco de 2026
O Brasil chega a 2026 em um ambiente de forte polarização, desgaste institucional e disputa intensa pela narrativa pública. Relatórios internacionais ainda classificam o país como democracia competitiva, com debate público vibrante, mas também apontam problemas como violência política, ataques a jornalistas, exclusão econômica e desconfiança pública alimentada por corrupção e polarização.
Esse quadro exige cautela analítica. A eleição de 2026 não deve ser tratada como disputa comum de marketing. Ela ocorrerá em um mundo de inteligência artificial generativa, manipulação audiovisual, radicalização digital e crise global das democracias.
A experiência brasileira recente demonstrou que discursos contra instituições, ataques ao sistema eleitoral e tentativas de deslegitimar resultados podem produzir efeitos concretos. Em 2025, veículos internacionais noticiaram a condenação de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe, fato que agravou a polarização e colocou o debate democrático brasileiro sob observação mundial.
Esse dado não deve ser usado como propaganda partidária, mas como alerta institucional: democracias precisam de lideranças que aceitem limites, regras, derrotas eleitorais e alternância de poder.
A questão de 2026, portanto, não é apenas quem vencerá. É se a população escolherá com base em projetos verificáveis ou se será conduzida novamente pela estética do salvador.
Conclusão
O Brasil de 2026 estará diante de uma escolha que ultrapassa nomes, partidos e campanhas. A questão central será saber se a sociedade brasileira amadureceu o suficiente para distinguir liderança democrática de messianismo político, projeto nacional de espetáculo eleitoral, coragem pública de autoritarismo performático, crítica legítima de destruição institucional.
A figura de Sassá Mutema permanece viva porque o país ainda convive com a tentação de transformar frustração social em devoção política. O problema não está em desejar mudança. Toda democracia precisa de mudança. O problema está em acreditar que mudança real virá de um personagem providencial, imune à crítica, superior às instituições e dispensado de apresentar projeto consistente.
Nas eleições presidenciais de 2026, a população brasileira terá a responsabilidade de avaliar não apenas promessas, mas a qualidade democrática de quem as faz. Um presidente da República não é um salvador. É um agente constitucional temporário, submetido à lei, ao controle público, à imprensa, ao Congresso, ao Judiciário, à sociedade civil e aos limites do Estado Democrático de Direito.
Essa análise também vale para qualquer país que escolha seu chefe do Executivo em contexto democrático. Onde há medo, desigualdade, desinformação e baixa educação política, sempre haverá espaço para falsos redentores. Onde há cidadania crítica, educação robusta, imprensa livre, instituições respeitadas e cultura democrática, o mito do salvador perde terreno.
A pergunta decisiva para 2026 não será apenas “quem vencerá?”. A pergunta mais profunda será: o eleitorado escolherá um projeto de país ou uma fantasia de salvação?
A democracia brasileira não precisa de um novo Sassá Mutema fabricado por algoritmos. Precisa de cidadãos capazes de reconhecer quando estão tentando fabricá-lo.
Referências
FREEDOM HOUSE. Brazil: Freedom in the World 2025 Country Report. Washington, DC: Freedom House, 2025.
MEMÓRIA GLOBO. O Salvador da Pátria. Rio de Janeiro: Globo, 2021.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Resolução nº 23.732, de 27 de fevereiro de 2024. Brasília, DF: TSE, 2024.
UNESCO. Guidance for generative AI in education and research. Paris: UNESCO, 2023.
V-DEM INSTITUTE. Democracy Report 2025. Gothenburg: University of Gothenburg, 2025.
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