A desindustrialização, a dependência do agro e o risco de uma soberania incompleta
Lide
O Brasil é uma potência agropecuária. Isso é fato. Mas o problema começa quando essa força passa a substituir um projeto nacional de industrialização. Desde os anos 1980, o país perdeu densidade industrial, reduziu sua capacidade de produzir tecnologia própria e se tornou cada vez mais dependente da exportação de commodities. O resultado é uma economia forte na produção de bens primários, mas vulnerável aos preços internacionais, ao câmbio, à demanda chinesa, aos juros globais e às decisões das grandes potências. O dilema brasileiro não é escolher entre agro e indústria. O verdadeiro desafio é transformar a riqueza do agro em base para uma nova industrialização tecnológica nacional.
1. A desindustrialização como perda silenciosa de soberania
A desindustrialização brasileira não pode ser compreendida apenas como o fechamento de fábricas ou a redução do número de empregos industriais. Ela representa algo mais profundo: a perda gradual da capacidade nacional de produzir bens complexos, dominar tecnologias estratégicas, formar cadeias produtivas sofisticadas e sustentar um projeto autônomo de desenvolvimento.
A partir dos anos 1980, o Brasil começou a perder participação industrial de forma consistente. Estudos sobre o tema mostram que a indústria brasileira, especialmente a indústria de transformação, perdeu peso relativo na economia e também espaço na estrutura produtiva mundial (Morceiro, 2012). Esse processo foi acompanhado por abertura comercial mal planejada, juros elevados, câmbio frequentemente desfavorável à produção industrial, baixo investimento em inovação e ausência de uma política industrial contínua.
O ponto central é simples: país que perde indústria perde margem de decisão. Passa a depender mais da importação de máquinas, fertilizantes, semicondutores, medicamentos, softwares, equipamentos médicos, componentes eletrônicos e tecnologias críticas. Em outras palavras, exporta produtos de menor valor agregado e importa inteligência embarcada.
Não se trata de romantizar a indústria do passado. O Brasil precisa de uma indústria nova, digitalizada, verde, integrada à inteligência artificial, à biotecnologia, à transição energética e à economia do conhecimento. Mas, sem indústria, não há soberania plena. Há apenas crescimento condicionado pelas oscilações externas.
2. A força do agro e o limite da dependência
O agronegócio brasileiro é um dos setores mais competitivos do mundo. Ele incorpora tecnologia, pesquisa, logística, genética, mecanização, irrigação, ciência do solo e capacidade empresarial. A Embrapa, as universidades, os institutos federais, os produtores rurais e as cadeias agroindustriais construíram uma força real.
O erro, portanto, não está no agro. O erro está em transformar o agro em substituto da indústria.
Quando um país depende excessivamente de commodities, ele se torna um “tomador de preços”. Isso significa que não controla plenamente o valor daquilo que vende. Soja, minério de ferro, petróleo, carne, café e milho são negociados em mercados globais. Seus preços dependem da demanda internacional, da geopolítica, do clima, da China, dos estoques mundiais, dos juros nos Estados Unidos e das crises financeiras.
A UNCTAD alerta que países dependentes de commodities enfrentam maior vulnerabilidade porque sua receita externa fica concentrada em poucos produtos sujeitos à volatilidade dos mercados internacionais (UNCTAD, 2008). A própria organização tem defendido estratégias de diversificação produtiva e agregação de valor como formas de reduzir a fragilidade das economias primário-exportadoras.
Essa é a armadilha: o Brasil produz muito, mas nem sempre captura a parte mais sofisticada do valor. Exporta soja, mas importa fertilizantes. Exporta minério, mas importa equipamentos industriais. Exporta petróleo bruto, mas ainda enfrenta gargalos em derivados, química fina, máquinas, sensores e tecnologias associadas.
É como vender a matéria-prima da inteligência econômica e comprar de volta a inteligência pronta, embalada, patenteada e muito mais cara.
3. A reprimarização da pauta exportadora
A dependência do agro e da mineração se manifesta também na composição das exportações brasileiras. Dados oficiais do Comex Stat mostram que o sistema brasileiro de comércio exterior permite acompanhar, desde 1997, a concentração da pauta exportadora em produtos básicos e semimanufaturados. Entre os principais produtos exportados pelo Brasil aparecem soja, petróleo bruto, minério de ferro, carnes, açúcar, café e celulose.
Esse processo é frequentemente chamado de reprimarização da pauta exportadora. Estudos acadêmicos indicam que as exportações brasileiras passaram, nas últimas décadas, por uma ampliação do peso relativo dos produtos primários em comparação aos manufaturados (Lopes, 2020).
A reprimarização não significa que o Brasil deixou de produzir indústria. Significa que o centro dinâmico da inserção internacional brasileira passou a depender mais de bens primários. O país continua tendo indústria, mas perdeu complexidade relativa, densidade tecnológica e protagonismo em setores estratégicos.
Isso cria uma contradição estrutural: o Brasil é grande demais para aceitar uma posição periférica, mas vulnerável demais para disputar de igual para igual com as grandes potências industriais e tecnológicas.
4. A geopolítica do subdesenvolvimento
Há uma dimensão geopolítica nesse processo. A divisão internacional do trabalho nunca foi neutra. Países centrais historicamente buscaram manter vantagens industriais, financeiras, militares e tecnológicas. Países periféricos, por sua vez, foram frequentemente estimulados a ocupar posições de fornecedores de matérias-primas, alimentos, energia e recursos naturais.
O discurso de que o Brasil deve ser apenas o “celeiro do mundo” parece elogioso, mas pode funcionar como confinamento estratégico. Ser celeiro é importante. Ser apenas celeiro é perigoso.
Uma potência agrícola sem base industrial robusta permanece dependente de máquinas estrangeiras, fertilizantes externos, tecnologias importadas, plataformas digitais internacionais, crédito global e cadeias produtivas controladas por grandes conglomerados.
Esse é o núcleo da geopolítica do subdesenvolvimento: manter países ricos em recursos naturais presos a uma inserção subordinada, vendendo bens primários e comprando produtos tecnológicos.
O Brasil não precisa abandonar sua vocação agrícola. Precisa superar a ideia de vocação única. Um país continental, com população numerosa, universidades, institutos federais, biodiversidade, matriz energética relevante e mercado interno expressivo não pode aceitar um destino econômico estreito.
5. Agro e indústria não são inimigos
A falsa oposição entre agro e indústria empobrece o debate nacional. O Brasil não precisa escolher entre ser potência agrícola ou potência industrial. Precisa ser as duas coisas.
O agro moderno depende de indústria. Tratores, colheitadeiras, drones, sensores, bioinsumos, fertilizantes, satélites, softwares de gestão, irrigação inteligente, máquinas de precisão, sistemas de armazenamento, logística ferroviária e processamento de alimentos são dimensões industriais e tecnológicas do próprio agronegócio.
A pergunta correta não é: “agro ou indústria?”
A pergunta correta é: como transformar o agro em plataforma de industrialização sofisticada?
Isso significa produzir fertilizantes no Brasil, desenvolver máquinas agrícolas nacionais, fortalecer a indústria de alimentos processados, investir em biotecnologia tropical, criar cadeias de bioeconomia, dominar sensores, automação, inteligência artificial aplicada ao campo, rastreabilidade, energia renovável e logística inteligente.
O agro pode ser porta de entrada para uma nova indústria brasileira. Mas isso exige projeto nacional, investimento público e privado, coordenação estatal, pesquisa aplicada, financiamento de longo prazo e integração entre universidades, institutos federais, Embrapa, empresas e produtores.
6. O risco de vender natureza e comprar tecnologia
A grande tragédia econômica brasileira é esta: o país possui recursos naturais imensos, mas ainda captura pouco valor tecnológico sobre eles.
Exportar soja é importante. Mas produzir proteínas vegetais sofisticadas, bioplásticos, biofertilizantes, alimentos funcionais, enzimas, máquinas, sensores e softwares agrícolas seria muito mais estratégico.
Exportar minério é importante. Mas produzir aço especial, ligas metálicas, baterias, semicondutores, equipamentos industriais e tecnologias de transição energética seria muito mais soberano.
Exportar petróleo pode gerar receita. Mas dominar petroquímica, fertilizantes, química fina, materiais avançados e tecnologias energéticas gera poder.
A riqueza natural, quando não é acompanhada de industrialização e conhecimento, pode virar dependência. O país parece rico, mas permanece vulnerável.
7. Um novo projeto nacional
O Brasil precisa de uma estratégia de desenvolvimento que una cinco eixos:
Primeiro, uma política industrial moderna, voltada para setores estratégicos: semicondutores, saúde, defesa, energia, biotecnologia, inteligência artificial, máquinas, fertilizantes e transição ecológica.
Segundo, uma política de ciência, tecnologia e inovação com financiamento estável, integração produtiva e valorização das universidades, institutos federais e centros de pesquisa.
Terceiro, uma política educacional robusta, com expansão da educação técnica, tecnológica e científica. Não há indústria sofisticada sem gente qualificada.
Quarto, uma política de agregação de valor ao agro, transformando o Brasil não apenas em exportador de grãos e carne, mas em produtor de tecnologia agroindustrial.
Quinto, uma política externa soberana, capaz de negociar com China, Estados Unidos, Europa, América Latina, África e Sul Global sem aceitar uma posição subordinada.
Conclusão
A dependência brasileira do agro não é um problema porque o agro seja fraco. Pelo contrário: ela é preocupante justamente porque o agro é forte demais para ser tratado como destino único. Um país do tamanho do Brasil não pode se contentar em vender soja, minério, carne e petróleo enquanto importa máquinas, chips, medicamentos, fertilizantes, softwares e tecnologias críticas.
O Brasil precisa deixar de pensar pequeno. Ser “celeiro do mundo” pode ser parte de uma estratégia nacional. Mas jamais pode ser a totalidade do projeto de país. O verdadeiro desenvolvimento exige indústria, ciência, tecnologia, educação, inovação e soberania. O desafio histórico brasileiro não é negar o agro, mas fazer dele uma ponte para uma economia mais complexa, mais justa e mais independente. Porque uma nação que apenas exporta natureza continua presa ao preço que o mundo decide pagar por ela. Uma nação que transforma natureza em conhecimento passa a disputar o próprio futuro.
Referências
LOPES, Victor Tarifa. A reprimarização das exportações brasileiras em perspectiva histórica de longa duração. Carta Internacional, Belo Horizonte, v. 15, n. 3, p. 174-203, 2020. Disponível em: . Acesso em: 25 abr. 2026.
MORCEIRO, Paulo César. Desindustrialização na economia brasileira no período 2000-2011. São Paulo: UNESP, 2012. Disponível em: . Acesso em: 25 abr. 2026.
UNCTAD. Coping with changing commodity prices. Geneva: United Nations Conference on Trade and Development, 2008. Disponível em: . Acesso em: 25 abr. 2026.
UNCTAD. Report of the Trade and Development Commission. Geneva: United Nations Conference on Trade and Development, 2019. Disponível em: . Acesso em: 25 abr. 2026.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Comex Stat: estatísticas de comércio exterior brasileiro. Brasília: MDIC, 2026. Disponível em: . Acesso em: 25 abr. 2026.
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