quinta-feira, 23 de abril de 2026

A política da destruição simbólica

Como a extrema direita converte Paulo Freire, o Papa e outras autoridades morais em alvos de guerra cultural para corroer a mediação institucional, sequestrar a atenção pública e governar pela indignação


Índice

  1. Lide
  2. Introdução: o poder que precisa destruir símbolos
  3. Nota conceitual I — o que é guerra cultural
  4. Paulo Freire como inimigo imaginário da extrema direita brasileira
  5. Nota conceitual II — populismo, antagonismo e líder carismático
  6. Trump, JD Vance e o esforço de rebaixar o Papa Leão XIV
  7. Nota conceitual III — tecnopolítica e gestão algorítmica do conflito
  8. As engrenagens da desconstrução retórica
  9. O ganho político imediato e o custo institucional duradouro
  10. Instituições federais e a urgência de uma defesa comunicacional republicana
  11. Conclusão
  12. Referências

Lide

A extrema direita contemporânea entendeu algo decisivo sobre o nosso tempo: destruir símbolos dá mais resultado político imediato do que disputar argumentos complexos. É mais simples chamar Paulo Freire de “energúmeno” do que estudar a crise estrutural da educação brasileira. É mais eficiente, para mobilizar paixões digitais, dizer que o Papa deve “ficar na moralidade” do que discutir eticamente guerras, bombardeios, migração forçada e sofrimento humano. O método é brutal, mas funcional: primeiro, rebaixa-se a pessoa; depois, esvazia-se o lugar institucional que ela representa; em seguida, transforma-se a agressão em espetáculo circulável nas redes. O alvo aparente é o indivíduo. O alvo real é a mediação que limita o poder.  


Introdução: o poder que precisa destruir símbolos

Toda ordem autoritária precisa resolver um problema fundamental: como governar sem aceitar freios morais, intelectuais ou institucionais? A resposta clássica foi a censura, a perseguição aberta, a violência estatal. A resposta contemporânea, mais sofisticada e muitas vezes mais eficaz, é a corrosão simbólica. Não é preciso prender Paulo Freire para tentar neutralizar sua influência; basta transformá-lo em caricatura. Não é necessário silenciar formalmente o Papa; basta empurrá-lo para o lugar do “líder religioso metido em política”, como se denunciar guerra e sofrimento não fosse precisamente matéria ética. O poder populista de extrema direita não quer apenas vencer eleições. Ele quer desmoralizar toda autoridade que possa lembrar à sociedade que o Estado não é dono da verdade, que a força não substitui o juízo moral e que a democracia exige instâncias de mediação.  

Essa dinâmica ficou evidente no Brasil com a transformação de Paulo Freire em inimigo ritual da direita radical, e reapareceu nos Estados Unidos em abril de 2026, quando Donald Trump e JD Vance reagiram ao Papa Leão XIV com a linguagem típica do rebaixamento simbólico. Nos dois casos, o roteiro é muito parecido. A figura de autoridade é deslocada do plano do pensamento, da ética ou da tradição institucional e lançada no plano rasteiro da suspeita moral, do insulto, da ridicularização e da disputa identitária. Não se debate a obra de Freire. Não se responde seriamente à doutrina social da Igreja. Fabricam-se inimigos convenientes.  

O ponto central deste artigo é simples e grave: a destruição de autoridades simbólicas não é excesso de linguagem; é técnica de poder. E, como toda técnica de poder, produz efeitos. Ela mobiliza bases, sequestra atenção, simplifica o mundo e cria um ambiente em que qualquer mediação crítica pode ser apresentada como sabotagem do “povo verdadeiro”. O preço, porém, é devastador: erosão institucional, empobrecimento do debate público, fragilização da gestão estatal e normalização de uma cultura política em que insultar vale mais do que argumentar.  


Nota conceitual I — o que é guerra cultural

“Guerra cultural” não é apenas divergência moral entre grupos da sociedade. O conceito, no uso contemporâneo, designa uma forma de disputa política em que valores, costumes, símbolos, narrativas históricas e referências intelectuais são convertidos em campo permanente de combate. Em vez de discutir somente orçamento, infraestrutura, política pública ou desenho institucional, a extrema direita desloca a arena para um terreno emocionalmente explosivo: família, religião, escola, sexualidade, patriotismo, história nacional, autoridade do professor, legitimidade da ciência, papel da arte, liberdade de expressão e suposta ameaça de elites culturais. A guerra cultural funciona porque muda o eixo da política. Em vez de perguntar “o que resolve?”, pergunta “de que lado você está?”.  

Nesse terreno, símbolos importam mais do que diagnósticos. Paulo Freire não é atacado porque seus detratores tenham estudado cuidadosamente sua pedagogia. Ele é atacado porque passou a condensar, para a imaginação reacionária, tudo aquilo que a extrema direita deseja denunciar como ameaça: crítica social, emancipação, diálogo, consciência histórica, leitura política da desigualdade. Do mesmo modo, o Papa não é rebaixado porque tenha perdido densidade teológica, mas porque encarna uma autoridade moral transnacional capaz de dizer que a violência do império não se torna justa só porque foi proclamada em nome da civilização, da segurança ou da pátria. A guerra cultural vive de condensações simbólicas. Ela fabrica atalhos emocionais para evitar o trabalho duro do pensamento.  

Há aqui uma lógica quase teatral. O conflito precisa ser visível, repetível e simplificável. Uma crise educacional de raízes históricas, federativas e socioeconômicas é difícil de explicar em um vídeo curto ou em uma postagem de alto engajamento. Já a frase “Paulo Freire destruiu a educação” cabe perfeitamente na gramática do ódio digital. Uma reflexão séria sobre guerra, ética, direito internacional e doutrina social cristã exige densidade. Já a acusação de que o Papa é “fraco” ou “político” cabe na economia afetiva das redes. A guerra cultural, portanto, não é só uma ideologia; é uma tecnologia narrativa adaptada às condições de circulação contemporânea.  


Paulo Freire como inimigo imaginário da extrema direita brasileira

Paulo Freire foi declarado Patrono da Educação Brasileira pela Lei nº 12.612, de 13 de abril de 2012. Sua obra ultrapassou amplamente as fronteiras nacionais e Pedagogia do Oprimido tornou-se uma das referências mais relevantes das ciências humanas no mundo. Isso não impediu — ao contrário, talvez tenha estimulado — sua transformação em alvo predileto da extrema direita brasileira. Em dezembro de 2019, Jair Bolsonaro chamou Freire de “energúmeno”, numa fala que condensa todo um método político: a troca do debate público pelo rebaixamento verbal. O insulto não buscava demonstrar nada; buscava produzir efeito. Era menos uma frase sobre educação do que uma senha de pertencimento para a base ideológica.  

É preciso insistir nisso: chamar Freire de “energúmeno” não é um deslize retórico lateral. É um ato de gestão simbólica. O governante não examina políticas de alfabetização, condições de trabalho docente, desigualdades regionais, subfinanciamento da educação básica, formação de professores, infraestrutura escolar ou efeitos da pobreza sobre a aprendizagem. Ele oferece ao público uma dramaturgia compensatória. A crise é personificada. O fracasso educacional, histórico e estrutural, passa a ter um culpado central, convenientemente morto e simbolicamente inflável. O que é complexo vira enredo moral. O que exigiria política de Estado vira culto à execração.  

A literatura sobre a circulação de Paulo Freire nas redes mostra precisamente esse processo de deslocamento. Sua imagem deixa de operar apenas como referência pedagógica e passa a funcionar como signo político-identitário. Ana Julia Guimarães Souza demonstrou como a representatividade de Freire foi reprocessada digitalmente, transformando-o em emblema de antagonismos que ultrapassam a leitura efetiva de sua obra. Isso ajuda a compreender um fenômeno curioso: quanto menos o pensamento freiriano é estudado em profundidade pelos seus detratores, mais ele é mobilizado como ameaça abstrata. O nome permanece, mas a obra desaparece. Em seu lugar entra um espantalho útil à guerra cultural.  

No caso de Abraham Weintraub, a radicalização desse procedimento tornou-se explícita. A posterior censura ética aplicada pela Comissão de Ética Pública da Presidência, em 2023, ligada a ofensas contra Paulo Freire e instituições de ensino superior, mostra que não se tratava apenas de bravata eleitoral ou de irreverência ministerial. Havia uma prática continuada de desmoralização de referências educacionais e acadêmicas. O que estava em jogo não era apenas o gosto pela polêmica, mas a tentativa de corroer a legitimidade de um campo inteiro de saber. Quando o patrono da educação é ridicularizado pelo próprio comando político do ministério, a mensagem enviada ao corpo institucional é clara: a técnica, a tradição intelectual e a história da área podem ser humilhadas em praça pública sem custo político relevante.  

O efeito dessa estratégia vai muito além da imagem de um autor. Ao atacar Freire, a extrema direita tenta desacreditar a própria ideia de que educação forma cidadania, consciência crítica e capacidade de leitura do mundo. O objetivo é rebaixar a escola a treinamento funcional, despolitizar a reflexão sobre desigualdade e substituir a pedagogia por disciplina social. Isso explica por que Freire incomoda tanto. Sua obra lembra que ensinar nunca foi apenas transmitir conteúdo; é também mediar a relação do sujeito com o mundo, com a linguagem, com o poder e com a possibilidade de transformar a realidade. Para projetos autoritários, essa lembrança é insuportável.  


Nota conceitual II — populismo, antagonismo e líder carismático

O conceito de populismo é disputado e não deve ser usado de modo preguiçoso. Há abordagens distintas, mas uma chave importante, presente tanto em leituras contemporâneas quanto em discussões sobre Laclau, Mouffe e Mudde, vê o populismo como forma de construção de fronteira política: de um lado, o “povo puro”; de outro, a “elite corrupta”, os inimigos internos, os traidores, os mediadores suspeitos, as instituições que supostamente sequestraram a vontade popular. O populismo, nesse sentido, não é mera grosseria. É uma lógica de simplificação antagonista do espaço político.  

Quando essa lógica se articula à extrema direita, ela ganha traços adicionais: nacionalismo excludente, moralização persecutória, política do ressentimento, autoritarismo cultural e culto ao líder que fala “diretamente” ao povo contra todos os filtros. A mediação institucional passa a ser tratada como fraude. O especialista vira cúmplice. O professor vira doutrinador. O jornalista vira militante. O juiz vira conspirador. O Papa vira político. O sentido do populismo de extrema direita, aqui, não é ampliar a democracia, mas estreitar o repertório de legitimidades aceitáveis. Só é legítimo aquilo que confirma a narrativa do líder e da sua comunidade afetiva.  

É por isso que o ataque a figuras simbólicas é tão central nesse tipo de política. O líder carismático precisa tornar-se a principal fonte de verdade emocional do seu campo. Para isso, autoridades concorrentes precisam ser rebaixadas. O patrono da educação, a universidade, a imprensa, a ciência, a Igreja, os organismos multilaterais, os tribunais: todos podem ser enquadrados como obstáculos ao “povo” sempre que não reforcem a fronteira amigo-inimigo montada pelo discurso populista. O que se procura não é coexistência de legitimidades, mas monopólio afetivo da lealdade política.  


Trump, JD Vance e o esforço de rebaixar o Papa Leão XIV

Em abril de 2026, os Estados Unidos forneceram um exemplo quase didático desse método. O Papa Leão XIV, primeiro pontífice norte-americano da história, passou a criticar a escalada militar envolvendo o Irã, condenou a lógica de conquista, retomou linguagem fortemente ética contra a guerra e não recuou diante da pressão política da administração Trump. Reuters e outros veículos registraram esse endurecimento do discurso papal, inclusive em sua viagem à África, quando o pontífice reforçou a condenação de conflitos e abusos de poder.  

A resposta de Trump e JD Vance não foi uma controvérsia teológica séria nem uma defesa intelectual consistente de uma doutrina de guerra justa. Veio na forma exata esperada pela gramática populista. Trump passou a retratar o Papa como “fraco” e “político”, enquanto Vance insistiu que o Vaticano deveria ficar no campo da moralidade, deixando a política pública aos governantes eleitos. A operação retórica aqui é cristalina: reduzir a autoridade moral do pontífice à condição de intrusão indevida. Em outras palavras, se o Papa fala de paz, bombardeio, sofrimento civil ou migração, ele é acusado de ter ultrapassado sua jurisdição simbólica.  

Mas o artifício é mais perverso do que parece. Dizer que o Papa deve cuidar “apenas” de moralidade é, na verdade, uma forma de esvaziar a própria moralidade. Afinal, de que matéria deveria falar uma ética pública consequente, senão de guerra, morte, deslocamento forçado, humilhação de povos, culto à força e indiferença diante do sofrimento? A tentativa de expulsar o Papa do debate geopolítico revela não um apreço pela separação entre Igreja e Estado, mas um desejo de blindar a ação estatal contra juízos morais incômodos. Não é secularismo republicano; é enclausuramento estratégico da crítica.  

O aspecto mais revelador desse episódio, porém, talvez esteja na inversão narcísica da legitimidade. Ao insinuar que Leão XIV só estaria no Vaticano porque Trump estava na Casa Branca, o presidente americano produziu uma fantasia de centralidade absoluta: o mundo institucional deveria orbitar o ego do líder. A Igreja, nesse delírio, não teria autonomia histórica, sucessão própria ou lógica interna; seria apenas resposta ao campo gravitacional do poder trumpista. Essa inversão é típica do populismo radicalizado: tudo é reordenado para caber no mito do líder como centro interpretativo do real.  


Nota conceitual III — tecnopolítica e gestão algorítmica do conflito

Falar em tecnopolítica não é apenas dizer que a política acontece na internet. É reconhecer que as infraestruturas digitais moldam os modos de visibilidade, circulação, legitimação e disputa simbólica no espaço público. A tecnopolítica envolve a forma como plataformas, redes, métricas, interfaces e lógicas algorítmicas reorganizam o que ganha atenção, como ganha atenção e com que intensidade afetiva circula. A extrema direita compreendeu isso cedo. Ela percebeu que o ambiente digital recompensa simplificação, antagonismo, espetáculo moral, escândalo e repetição. Não é um detalhe operacional. É parte da própria forma contemporânea da luta política.  

Nesse ambiente, o insulto é uma peça de alta performance. Ele é curto, memorizável, reproduzível e emocionalmente carregado. “Energúmeno” circula melhor do que uma análise de políticas educacionais. “Papa fraco” circula melhor do que uma reflexão teológica sobre guerra e paz. A tecnopolítica da extrema direita, portanto, não opera apesar da vulgaridade; opera por meio dela. O conteúdo agressivo não é um ruído lamentável num sistema sério. Ele é um ativo de circulação. O algoritmo não exige coerência epistemológica; exige retenção, clique, reação, partilha, comentário, choque.  

Esse ponto é decisivo para compreender por que tantas instituições reagem tarde ou mal. Universidades, institutos federais, centros de pesquisa, escolas e órgãos públicos foram construídos para outra ecologia comunicacional. Seu tempo é o do procedimento, da nota técnica, da fundamentação, do trâmite, da prova, da prudência. Já a tecnopolítica extremista vive do impacto. Enquanto a instituição formula resposta equilibrada, o dano simbólico já viralizou. O que se estabelece, então, é uma assimetria brutal entre a velocidade do ataque e a lentidão legítima da verificação. A consequência é que a verdade institucional passa a correr atrás da mentira mobilizadora.  


As engrenagens da desconstrução retórica

A primeira engrenagem é a aniquilação semântica. O alvo é reduzido verbalmente à condição de incapaz, ridículo, suspeito ou insignificante. Não se rebate a pedagogia de Freire; xinga-se Freire. Não se enfrenta a crítica moral do Papa; diminui-se o Papa. Esse rebaixamento serve para suspender a necessidade de argumentar. Uma vez degradada a pessoa, o conteúdo que ela enuncia já chega ao público contaminado pela caricatura.  

A segunda engrenagem é o confinamento do campo de fala. O adversário passa a ser advertido sobre onde deveria ou não deveria falar. O Papa pode falar de salvação, mas não de guerra. O educador pode falar de método, mas não de poder. O professor pode ensinar conteúdo, mas não formar consciência. O procedimento é autoritário porque tenta amputar a própria natureza das instituições. Educação sem crítica e moralidade sem mundo são apenas versões domesticadas do que essas esferas realmente significam.  

A terceira engrenagem é a inversão da legitimidade. O agressor se apresenta como revelador da fraude supostamente escondida por trás da autoridade do outro. Paulo Freire seria famoso não por sua obra, mas por um complô cultural da esquerda. O Papa seria relevante não por sua posição histórica, mas pela conjuntura política americana. Em vez de reconhecer instituições autônomas, o líder populista tenta convertê-las em sombras projetadas por seu próprio poder. É um narcisismo político de vocação totalizante.  

A quarta engrenagem é a algoritmização da indignação. O ataque não termina na fala original; ele é projetado para ser capturado, editado, recortado, compartilhado e metabolizado por comunidades digitais em busca de reafirmação identitária. A ofensa torna-se ritual. A repetição produz familiaridade. A familiaridade produz crença. E a crença, uma vez afetivamente estabilizada, passa a dispensar verificação. O insulto vira verdade comunitária.  


O ganho político imediato e o custo institucional duradouro

Do ponto de vista eleitoral e mobilizatório, esse método é eficiente. Ele cria clareza emocional onde a realidade oferece ambiguidade. Produz inimigos identificáveis. Mantém a base permanentemente excitada. Desvia o foco de fracassos administrativos concretos. Substitui debate difícil por guerra de sinais. Em termos de curto prazo, é uma máquina poderosa de coesão simbólica. O seguidor sente que participa de um combate histórico, mesmo quando o que efetivamente consome são slogans, vídeos curtos e performances de humilhação pública.  

Mas o preço cobrado às instituições é severo. A administração pública depende de confiança procedimental, memória técnica, estabilidade interpretativa e reconhecimento da autoridade profissional. Quando tudo isso é corroído por uma política de execração simbólica, instala-se um ambiente de medo, ressentimento e paralisia. Técnicos recuam. Especialistas são vistos como ameaça. Servidores evitam exposição. O saber deixa de ser patrimônio público e passa a ser risco reputacional. A gestão de longo prazo, que precisa de continuidade, cuidado e planejamento, fica prisioneira de um presente histérico.  

No caso da educação, isso é especialmente destrutivo. Não se desmoraliza Paulo Freire sem desmoralizar, ao mesmo tempo, a ideia de que aprender envolve pensamento crítico, linguagem, história e leitura do mundo. Não se humilha o patrono da educação sem produzir um efeito pedagógico regressivo sobre a própria sociedade: o ensinamento de que pensar demais é suspeito, problematizar é militância, e refletir sobre poder é ideologia. Trata-se, no fundo, de um projeto de estreitamento cognitivo do espaço público.  

No caso da Igreja e do Papa, o mesmo raciocínio vale. Quando o pontífice é ridicularizado por condenar guerras e abusos, não se ataca apenas uma pessoa ou uma confissão religiosa. Ataca-se a própria ideia de que existe um juízo moral superior ao cálculo geopolítico. O que se tenta consolidar é um mundo em que a força se legitima por si, o Estado responde apenas a si mesmo e a ética é tolerada apenas enquanto ornamento decorativo, jamais como crítica real do poder.  


Instituições federais e a urgência de uma defesa comunicacional republicana

As instituições federais brasileiras, sobretudo as de ensino e pesquisa, enfrentam um desafio novo em escala e intensidade. Foram estruturadas para produzir conhecimento, formar pessoas, prestar contas, respeitar a legalidade e operar segundo critérios de universalidade, impessoalidade e responsabilidade pública. Nada disso as preparou integralmente para um ambiente em que o ataque simbólico é contínuo, emocionalmente calibrado e tecnicamente favorecido pela infraestrutura digital. A velha crença de que a qualidade do trabalho fala por si já não basta. Hoje, trabalho excelente pode ser engolido por narrativas agressivas e simplificadoras.  

Isso não significa que instituições devam imitar a brutalidade do seu agressor. Significa que precisam abandonar a ingenuidade comunicacional. É possível ser republicano sem ser burocraticamente invisível. É possível ser impessoal sem ser anódino. É possível defender a verdade institucional sem cair em propaganda personalista. Para isso, será necessário desenvolver estratégias de tradução pública do valor institucional: humanização de resultados, comunicação pedagógica, narrativas socialmente ancoradas, resposta rápida a desinformação, formação tecnopolítica de gestores e fortalecimento de canais próprios de interlocução com a sociedade.  

Há aqui uma tarefa civilizatória. A extrema direita compreendeu que o combate não é apenas por votos, mas por imaginação pública. Quem define quais instituições merecem confiança, quais saberes merecem respeito e quais vozes podem falar com legitimidade já começou a moldar o futuro antes mesmo da próxima eleição. Se universidades, institutos federais, escolas e centros de pesquisa não aprenderem a defender sua verdade institucional em linguagem socialmente circulável, continuarão usando escudos de papel contra mísseis digitais.  


Conclusão

A desconstrução de Paulo Freire, do Papa Leão XIV e de outras figuras de autoridade moral ou intelectual não é acidente de percurso da extrema direita. É método. É governo do sensível. É política do rebaixamento. É pedagogia autoritária aplicada ao espaço público. Ao transformar referências complexas em caricaturas fáceis de odiar, a extrema direita consegue três coisas ao mesmo tempo: simplifica o mundo, concentra lealdade no líder e enfraquece as mediações que sustentam a vida democrática. Ela troca pensamento por instinto, responsabilidade por performance, debate por pertencimento agressivo.  

Por isso o problema é maior do que a grosseria de uma fala ou a indignação passageira de uma polêmica. O que está em disputa é a própria possibilidade de uma sociedade reconhecer autoridades legítimas que não coincidam com o poder do governante de turno. Quando o educador crítico, o pesquisador, o jornalista, a universidade, o professor e o líder religioso passam a ser vistos como suspeitos por definição, a democracia perde seus anticorpos. E quando a democracia perde seus anticorpos, o autoritarismo já não precisa chegar com botas; pode chegar em postagens, slogans, cortes de vídeo, insultos memoráveis e campanhas permanentes de destruição simbólica.  

Defender Paulo Freire, defender o direito do Papa de julgar moralmente a guerra e defender a legitimidade das instituições de ensino e pesquisa não é, nesse contexto, culto a personalidades. É defesa da mediação civilizatória. É defesa do direito de a sociedade não ser reduzida ao grito do líder mais barulhento. É defesa da política como espaço de argumentação e não como arena de humilhação ritual. E isso, no Brasil e fora dele, tornou-se uma urgência histórica.  


Referências

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