domingo, 26 de abril de 2026

Quando a violência mira a Presidência

Tentativas de assassinato, ataques políticos e a fragilidade das democracias nos Estados Unidos e no Brasil



Lide


O ataque ocorrido durante o Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, em Washington, em 25 de abril de 2026, reacendeu uma questão antiga e perturbadora: a violência contra presidentes não é apenas um problema policial. É também um sintoma político. Nos Estados Unidos, quatro presidentes foram assassinados no exercício do cargo: Abraham Lincoln, James Garfield, William McKinley e John F. Kennedy (Britannica, 2024). No Brasil, embora não exista uma sequência semelhante de presidentes assassinados, a história registra atentados, conspirações e episódios de violência política que revelam tensões profundas entre democracia, poder, fanatismo e ruptura institucional.


Introdução


A Presidência da República é mais do que um cargo. Em regimes democráticos, ela representa a continuidade institucional, a legitimidade do voto e a própria ideia de Estado. Por isso, toda tentativa de assassinato contra um presidente, presidente eleito ou candidato presidencial deve ser interpretada com extrema seriedade. Não se trata apenas de violência contra uma pessoa. Trata-se de violência contra a ordem política.


Nos Estados Unidos, essa história é longa e trágica. Desde o assassinato de Abraham Lincoln, em 1865, até as recentes tentativas contra Donald Trump, a política norte-americana convive com uma combinação explosiva: polarização ideológica, cultura armamentista, radicalização individual e espetacularização midiática da violência.


No Brasil, o quadro é diferente, mas não menos preocupante. O país não acumulou assassinatos presidenciais consumados como os Estados Unidos, mas conheceu atentados e conspirações que atravessaram momentos decisivos da República: Prudente de Morais em 1897, a crise da Rua Tonelero em 1954, o atentado contra Jair Bolsonaro em 2018 e o plano para assassinar Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes no contexto da trama golpista posterior às eleições de 2022.


A comparação entre os dois países mostra algo essencial: a violência política raramente nasce do nada. Ela costuma florescer quando o adversário deixa de ser visto como concorrente legítimo e passa a ser tratado como inimigo absoluto.


1. Estados Unidos: a presidência sob risco permanente


A história norte-americana registra quatro presidentes assassinados no exercício do cargo: Abraham Lincoln, James Garfield, William McKinley e John F. Kennedy. Além deles, diversos presidentes, ex-presidentes e candidatos sofreram atentados ou foram alvos de planos violentos (Britannica, 2024).


1.1 Abraham Lincoln: a violência depois da guerra civil


Abraham Lincoln foi assassinado em 1865, poucos dias após o fim da Guerra Civil norte-americana. Seu assassinato não pode ser compreendido apenas como ato individual. Ele ocorreu no ambiente de ódio produzido pela guerra, pela derrota dos estados confederados e pela disputa em torno da escravidão e da reconstrução nacional.


Lincoln simbolizava a preservação da União e a derrota política do escravismo. Por isso, seu assassinato representou mais do que a morte de um presidente: foi uma tentativa de ferir simbolicamente o novo pacto político que emergia depois da guerra.


A lição histórica é dura: guerras civis podem terminar militarmente antes de terminarem culturalmente. O ressentimento derrotado no campo de batalha pode sobreviver na memória coletiva e reaparecer como violência política.


1.2 James Garfield: clientelismo, frustração e personalização do poder


James Garfield foi baleado em 1881 por Charles Guiteau, um homem frustrado por não receber cargo público. O episódio revela outra dimensão da violência política: a confusão entre Estado, favor pessoal e recompensa partidária.


O assassinato de Garfield expôs os vícios do sistema político norte-americano da época, fortemente marcado pelo chamado sistema de espólios, no qual cargos públicos eram distribuídos como prêmio político. Nesse ambiente, a Presidência podia ser vista por indivíduos instáveis como fonte direta de favor pessoal.


A violência, nesse caso, não nasceu de uma grande guerra ideológica, mas de uma deformação institucional: quando o Estado é percebido como propriedade de grupos, facções ou indivíduos, a frustração política pode assumir formas destrutivas.


1.3 William McKinley: radicalismo político e proteção presidencial


William McKinley foi assassinado em 1901 por Leon Czolgosz, associado ao anarquismo radical. Depois desse episódio, a proteção presidencial passou a ser tratada de modo mais estruturado, e o Serviço Secreto assumiu papel permanente na segurança dos presidentes dos Estados Unidos (United States Secret Service, 2026).


O caso McKinley marca uma virada: a Presidência deixa de ser vista apenas como cargo político e passa a ser tratada como alvo permanente de risco institucional. Proteger o presidente significava proteger a continuidade do governo.


Essa mudança é típica do Estado moderno. Quanto maior o poder simbólico do chefe de Estado, maior também o risco de que grupos ou indivíduos tentem transformar sua eliminação em gesto político.


1.4 John F. Kennedy: televisão, trauma nacional e desconfiança pública


John F. Kennedy foi assassinado em Dallas, em 1963. O crime ocorreu em uma sociedade já marcada pela Guerra Fria, pela expansão da televisão e por fortes conflitos internos. Sua morte se tornou um trauma nacional e alimentou, durante décadas, teorias conspiratórias e desconfiança nas instituições.


Kennedy não foi apenas um presidente morto. Tornou-se imagem, mito e ruptura emocional. Seu assassinato mostrou que a violência política, na era da comunicação de massa, não se encerra no ato. Ela se prolonga na memória coletiva, nas imagens repetidas, nas dúvidas públicas e na sensação de que algo essencial foi quebrado.


1.5 Ronald Reagan: a sobrevivência e o fortalecimento da segurança presidencial


Ronald Reagan sofreu uma tentativa de assassinato em 1981, em frente ao Washington Hilton, em Washington. O episódio é lembrado como um dos momentos mais dramáticos da segurança presidencial moderna.


A tentativa contra Reagan mostrou a importância da resposta rápida, da proteção institucional e da estrutura médica de emergência. Também reforçou a imagem do Serviço Secreto como barreira entre a violência individual e a estabilidade do Estado.


Curiosamente, o Washington Hilton voltou ao centro das atenções em 2026, durante o incidente no Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, quando Donald Trump foi retirado do evento após uma grave violação de segurança envolvendo um suspeito armado (Reuters, 2026).


1.6 Donald Trump: polarização, armas e mobilização política


Donald Trump sofreu uma tentativa de assassinato durante a campanha de 2024, na Pensilvânia, e enfrentou outro episódio investigado como tentativa de ataque na Flórida, no mesmo ano. Em 25 de abril de 2026, novo incidente ocorreu durante o Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, no Washington Hilton. Segundo a Reuters, Trump foi retirado do local, e autoridades indicaram que ele provavelmente estava entre os alvos do ataque (Reuters, 2026).


O caso Trump precisa ser analisado em um contexto de hiperpolarização. A violência política contemporânea nos Estados Unidos não pode ser separada da radicalização discursiva, da difusão de teorias conspiratórias, do culto à personalidade e da facilidade de acesso a armas.


O risco democrático é duplo. Primeiro, há o risco físico: a possibilidade real de atentados. Segundo, há o risco político: transformar o atentado em combustível de mobilização permanente, como se a violência confirmasse uma narrativa de perseguição e guerra interna.


2. Brasil: menos assassinatos presidenciais, mas forte violência política


O Brasil não possui uma sequência de presidentes assassinados como os Estados Unidos. Ainda assim, a política brasileira registra episódios graves de violência contra presidentes, candidatos e autoridades centrais da República.


A diferença brasileira está no tipo de ameaça. Nos Estados Unidos, a violência presidencial aparece frequentemente ligada à ação individual armada. No Brasil, ela costuma surgir em momentos de crise institucional, tensão militar, radicalização ideológica ou ameaça de ruptura democrática.


3. Prudente de Morais: o atentado contra a República civil


Em 1897, o presidente Prudente de Morais sofreu um atentado durante cerimônia no Rio de Janeiro. Segundo a Agência Senado, um soldado tentou atacá-lo; Prudente escapou, mas o ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, morreu ao intervir. O vice-presidente Manuel Vitorino chegou a ser processado como possível mandante, mas foi inocentado por falta de provas (Agência Senado, 2014).


Esse episódio ocorreu em um contexto de tensão profunda. A República ainda era jovem. O país saía da Guerra de Canudos. Havia ressentimentos militares, disputas entre civis e fardados e forte instabilidade política.


O atentado contra Prudente de Morais não foi apenas ataque contra um presidente. Foi ataque contra a consolidação de uma República civil. Mostrou que, desde cedo, a democracia brasileira conviveu com a dificuldade de subordinar definitivamente a força militar ao poder político constitucional.


4. Getúlio Vargas e a Rua Tonelero: quando a violência contra um opositor derruba um governo


O atentado da Rua Tonelero, em 1954, não teve Getúlio Vargas como alvo direto. O alvo foi Carlos Lacerda, principal opositor do presidente. O ataque resultou na morte do major-aviador Rubens Vaz e agravou a crise política que culminou no suicídio de Vargas. O CPDOC/FGV registra que o episódio teve enorme repercussão política e militar, intensificando a pressão contra o governo (FGV CPDOC, 2026).


Esse caso é fundamental porque mostra que a violência política não precisa atingir diretamente o presidente para abalar a Presidência. Às vezes, um atentado periférico é suficiente para deslocar o centro de gravidade do poder.


A Rua Tonelero revelou uma verdade incômoda: governos em crise podem ser destruídos não apenas por seus atos administrativos, mas pela associação real ou presumida com práticas violentas. A política, nesse caso, deixa de ser disputa parlamentar e passa a ser crise de legitimidade.


5. Jair Bolsonaro: o atentado de 2018 e a política do martírio


Jair Bolsonaro foi esfaqueado em 6 de setembro de 2018, durante ato de campanha em Juiz de Fora. A Agência Brasil registrou que o então candidato foi agredido durante evento público e levado para atendimento hospitalar (Agência Brasil, 2018). Posteriormente, a Justiça arquivou um segundo inquérito após o Ministério Público Federal apontar que as investigações indicavam atuação individual de Adélio Bispo, sem comprovação de cúmplices ou financiamento externo (Agência Brasil, 2020).


O atentado contra Bolsonaro teve impacto direto na eleição de 2018. Reduziu sua presença física na campanha, produziu forte comoção pública e fortaleceu sua imagem entre apoiadores.


A análise política do episódio exige equilíbrio. Nenhuma violência contra candidato pode ser relativizada. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que atentados podem ser incorporados à narrativa eleitoral. A vítima passa a ser apresentada como sobrevivente, perseguida e escolhida por uma missão política.


Essa transformação do sofrimento em capital simbólico é comum em democracias polarizadas. O problema aparece quando a comoção substitui o debate racional sobre programa de governo, instituições, direitos e políticas públicas.


6. Lula, Alckmin e Moraes: quando o alvo é a democracia


O plano para assassinar Luiz Inácio Lula da Silva, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes, investigado no contexto da trama golpista posterior às eleições de 2022, representa uma das ameaças mais graves da história recente do Brasil. Em 2025, a Associated Press noticiou que o Supremo Tribunal Federal condenou militares e um policial federal por participação em plano de golpe e conspiração para matar autoridades centrais da República (Associated Press, 2025).


Esse episódio é qualitativamente diferente de um ataque individual. O alvo não era apenas uma pessoa. O alvo era a linha sucessória, o resultado eleitoral e o funcionamento do Estado Democrático de Direito.


Quando um grupo planeja eliminar presidente eleito, vice-presidente eleito e ministro do Supremo Tribunal Federal, não se trata de violência comum. Trata-se de tentativa de desorganizar o núcleo institucional da democracia.


A gravidade desse caso está exatamente aí. Ele demonstra que a violência política pode sair da esfera do discurso radicalizado e avançar para planejamento operacional contra autoridades. Democracias precisam levar esse tipo de ameaça a sério, porque golpes modernos nem sempre começam com tanques nas ruas. Às vezes, começam com redes de desinformação, contestação artificial do resultado eleitoral, captura emocional de massas e planos clandestinos contra instituições.


7. Comparação entre Estados Unidos e Brasil


A comparação entre Estados Unidos e Brasil permite identificar diferenças importantes.


Nos Estados Unidos, a violência contra presidentes aparece de modo mais frequente e mais diretamente associada à cultura armamentista. A disponibilidade de armas, a tradição da Segunda Emenda, a radicalização individual e o ambiente de polarização produzem cenário de risco permanente.


No Brasil, a violência contra presidentes e candidatos costuma estar mais associada a crises institucionais, instabilidade democrática, militarização da política e disputas sobre legitimidade do poder.


Isso não significa que um país seja simplesmente mais violento politicamente do que o outro. Significa que a violência assume formas diferentes. Nos Estados Unidos, ela aparece muitas vezes como ataque individual contra figuras públicas. No Brasil, aparece frequentemente como parte de uma crise política maior.


Há, porém, um ponto comum: a desumanização do adversário. Quando o opositor é descrito como traidor, inimigo da pátria, ameaça existencial ou encarnação do mal, cria-se ambiente simbólico favorável à violência.


A democracia depende de uma premissa simples: adversários não são inimigos a serem eliminados. São concorrentes a serem derrotados pelo voto, pela argumentação pública e pelas regras constitucionais.


8. A violência política como sintoma de adoecimento democrático


Atentados contra presidentes não surgem apenas de distúrbios individuais. Eles podem envolver fanatismo, ressentimento, radicalização, teorias conspiratórias, crises econômicas, disputas religiosas, conflitos raciais, militarização da linguagem e culto à personalidade.


A violência política cresce quando a palavra pública adoece. Primeiro, o adversário é ridicularizado. Depois, é deslegitimado. Em seguida, é tratado como ameaça. Por fim, alguém passa a acreditar que eliminá-lo seria uma forma de salvação nacional.


É nesse ponto que a linguagem se torna perigosa. Democracias podem suportar críticas duras, oposição vigorosa e disputas intensas. O que não podem normalizar é a ideia de que a morte do adversário resolveria o conflito político.


Conclusão


As tentativas de assassinato contra presidentes dos Estados Unidos e do Brasil revelam uma verdade histórica incômoda: nenhuma democracia está imune à violência política.


Nos Estados Unidos, Lincoln, Garfield, McKinley, Kennedy, Reagan e Trump mostram uma linha de continuidade entre poder, armas, radicalização e trauma nacional. No Brasil, Prudente de Morais, Getúlio Vargas, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva revelam outra dimensão: a violência política como expressão de crises institucionais, disputas de legitimidade e ameaças de ruptura democrática.


O ponto central é que atentados não devem ser usados como espetáculo, slogan ou instrumento de mobilização cega. Eles precisam ser analisados como sinais de alerta. Quando uma sociedade começa a aceitar que o adversário político é inimigo absoluto, ela abandona lentamente o território da democracia e entra no terreno perigoso da guerra interna.


A Presidência pode ser ocupada por diferentes projetos políticos. Essa é a natureza da democracia. O que não pode ser tolerado é a conversão da disputa política em licença para matar, conspirar ou destruir instituições.


A história ensina que democracias não morrem apenas quando são oficialmente derrubadas. Elas começam a morrer quando a violência passa a ser vista como linguagem legítima da política.


Referências


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AGÊNCIA BRASIL. Justiça arquiva segundo inquérito sobre atentado contra Bolsonaro. Brasília: EBC, 16 jun. 2020. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2020-06/justica-arquiva-segundo-inquerito-sobre-atentado-contra-bolsonaro. Acesso em: 26 abr. 2026.


AGÊNCIA SENADO. Prudente de Moraes enfrentou birra do antecessor, trama do vice e até atentado. Brasília: Senado Federal, 3 out. 2014. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2014/10/02/prudente-de-moraes-enfrentou-birra-do-antecessor-trama-do-vice-e-ate-atentado. Acesso em: 26 abr. 2026.


ASSOCIATED PRESS. Brazil’s Supreme Court sentences military officials for planning to kill Lula. New York: AP News, 18 nov. 2025. Disponível em: https://apnews.com/article/b43ad0f4b338931e4d195615232b43b0. Acesso em: 26 abr. 2026.


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REUTERS. Trump was likely target of shooting at White House Correspondents’ dinner, says US official. Londres: Reuters, 26 abr. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/us/trump-removed-white-house-correspondents-dinner-attendees-take-cover-2026-04-26/. Acesso em: 26 abr. 2026.


UNITED STATES SECRET SERVICE. History: timeline. Washington: U.S. Secret Service, 2026. Disponível em: https://www.secretservice.gov/about/history/timeline. Acesso em: 26 abr. 2026.

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