domingo, 12 de abril de 2026

Da fé herdada à reação intelectual

Bancadas religiosas, tecnocracia capturada e religiosidade líquida no Brasil contemporâneo


Índice 

  1. Lide
  2. O novo quadro religioso brasileiro
  3. Quando a representação religiosa se converte em poder de agenda
  4. Critério técnico, pressão confessional e erosão da confiança pública
  5. Ateísmo, desafiliação e religiosidade líquida: três coisas diferentes
  6. A hipótese sociológica: por que parte dos mais intelectualizados se afasta
  7. O equívoco central do debate brasileiro
  8. Conclusão
  9. Referências


O Brasil vive uma transformação religiosa e política simultânea. De um lado, a religião continua socialmente poderosa, com forte presença institucional, capilaridade eleitoral e influência crescente no Parlamento. De outro, o próprio campo religioso brasileiro se tornou mais fluido: os dados do Censo 2022 mostram queda do catolicismo, expansão evangélica e crescimento da população sem religião, que chegou a 9,3% entre as pessoas de 10 anos ou mais, somando 16,4 milhões de brasileiros.  Nessa conjuntura, a crescente presença de bancadas religiosas e a seleção de candidaturas dentro de igrejas produzem um efeito ambivalente. Para muitos, isso reforça pertencimento e representação; para outros, sobretudo entre segmentos mais escolarizados, urbanos e intelectualmente críticos, isso pode gerar desconfiança, afastamento institucional e até adesão ao ateísmo. Mas o ponto decisivo é outro: em muitos casos, o que cresce não é exatamente a negação do sagrado, e sim a recusa da captura político-institucional da religião. É nesse espaço que a sociologia de Zygmunt Bauman se torna especialmente útil. Sua noção de modernidade líquida ajuda a compreender por que, em vez de desaparecer, a religiosidade pode se tornar mais móvel, seletiva, privada e desconfiada das instituições. O problema, então, não é apenas religioso. É também político, cultural e epistemológico.


O novo quadro religioso brasileiro


O debate sobre religião e política no Brasil precisa começar por um dado elementar: o país mudou. O IBGE informou, com base no Censo 2022, que os católicos caíram para 56,7% da população de 10 anos ou mais, os evangélicos subiram para 26,9% e os sem religião chegaram a 9,3%, com crescimento em relação aos 7,9% registrados em 2010.  Isso significa que o Brasil continua profundamente religioso, mas já não é religiosamente homogêneo nem automaticamente estável.


Essa mudança importa porque quebra a imagem de uma sociedade em que a tradição religiosa se transmite de modo quase automático entre gerações. O cenário brasileiro aproxima-se, ainda que com peculiaridades próprias, de uma tendência mais ampla observada internacionalmente: o aumento da desafiliação religiosa e da categoria dos “sem religião”, que não coincide integralmente com ateísmo. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Pew Research Center registrou em 2025 que 29% dos adultos são religiosamente não afiliados, mas apenas 5% se identificam como ateus, 6% como agnósticos e 19% como “nada em particular”.  A distinção é sociologicamente decisiva: sair da religião institucional não significa, necessariamente, abandonar toda crença, toda espiritualidade ou toda busca de transcendência.


Esse mesmo raciocínio ajuda a interpretar o Brasil. O crescimento dos “sem religião” não autoriza concluir, de forma apressada, que a sociedade esteja se tornando simplesmente ateia. O que os dados sugerem com mais segurança é uma ampliação da distância entre crença e pertencimento formal, entre espiritualidade e instituição, entre experiência do sagrado e submissão duradoura a uma autoridade religiosa organizada. Essa separação é um dos traços mais claros daquilo que Bauman ajuda a pensar como religiosidade líquida.


Quando a representação religiosa se converte em poder de agenda


Ao mesmo tempo em que o campo religioso se pluraliza e se fluidifica, a presença parlamentar religiosa se consolida institucionalmente. A Câmara dos Deputados mantém formalmente a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, com página oficial própria e extensa lista de membros.  Além disso, a própria listagem de frentes parlamentares da 57ª Legislatura mostra a coexistência de frentes de forte marca moral e religiosa, como a Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família, e, mais recentemente, também a Frente Parlamentar em defesa do Estado Laico e da Liberdade Religiosa, criada em 2025. 


Esses dados não provam, por si só, que toda decisão técnico-política esteja submetida à religião. Mas mostram algo muito importante: a religião não está apenas presente na sociedade civil; ela está organizada como força de pressão, articulação e negociação dentro do sistema político. Isso altera a forma como muitos cidadãos percebem o processo decisório.


Quando candidaturas são filtradas ou impulsionadas por redes eclesiais, quando agendas legislativas passam a responder intensamente a sensibilidades confessionais, e quando debates públicos sobre saúde, educação, ciência, gênero, direitos civis ou políticas sociais são enquadrados por gramáticas teológicas ou moralizantes, parte da sociedade começa a perceber que critérios universalizáveis de política pública estão sendo tensionados por critérios de convicção religiosa particular.


O problema não está no fato de religiosos participarem da política. Em uma democracia, isso é legítimo. O problema começa quando a mediação entre convicção privada e decisão pública se enfraquece. Em outras palavras: quando o argumento tecnicamente justificável, publicamente debatível e constitucionalmente universalizável perde espaço para a autoridade da pertença religiosa.


Critério técnico, pressão confessional e erosão da confiança pública


É exatamente nesse ponto que sua hipótese ganha força. Quando decisões que deveriam ser fundamentadas em evidência, impacto social, legalidade, racionalidade administrativa e critérios técnicos passam a ser fortemente pressionadas por bancadas religiosas, cria-se uma crise de confiança em dois níveis.


Primeiro, uma crise de confiança na política. O cidadão passa a suspeitar de que o interesse público foi substituído por barganha moral, clientelismo confessional ou captura simbólica do Estado.


Segundo, uma crise de confiança na própria religião institucional. A fé, que para muitos deveria remeter a transcendência, ética, mistério, interioridade e cuidado com o outro, aparece reduzida a instrumento de recrutamento eleitoral, disciplina de comportamento e guerra cultural. Para uma consciência intelectual mais exigente, isso pode produzir rejeição.


Essa rejeição, porém, não precisa desembocar imediatamente em ateísmo filosófico. Em muitos casos, ela assume a forma de distanciamento institucional: a pessoa continua crendo em Deus, em alguma ordem transcendente, em valores espirituais ou em uma dimensão não redutível da existência, mas se afasta das igrejas, das lideranças e das estruturas religiosas que passaram a confundir sagrado com poder.


Aqui Bauman é especialmente elucidativo. Em sua leitura da modernidade líquida, instituições antes estáveis perdem densidade, e indivíduos passam a desconfiar de vínculos rígidos, totais e duradouros. Essa lógica não atinge apenas casamento, trabalho ou identidade; atinge também religião. A fé pode permanecer, mas a confiança na instituição se dissolve.


Ateísmo, desafiliação e religiosidade líquida: três coisas diferentes


O debate brasileiro se torna pobre quando essas três categorias são tratadas como sinônimas.


Ateísmo é a negação ou não aceitação da existência de Deus ou de uma realidade transcendente.


Desafiliação religiosa é o desligamento de uma instituição, tradição ou comunidade religiosa específica.


Religiosidade líquida é outra coisa: é uma forma contemporânea de viver a espiritualidade de modo mais móvel, seletivo, híbrido, revisável e pouco subordinado a lealdades duradouras.


Essas distinções são indispensáveis. Uma pessoa pode tornar-se ateia após observar a captura política da religião? Sim, isso é possível. Mas também pode ocorrer algo mais frequente e mais sociologicamente fino: a pessoa não abandona a dimensão espiritual da vida, porém abandona a confiança em igrejas e lideranças que lhe parecem excessivamente instrumentalizadas pela política.


Os dados internacionais reforçam a importância dessa cautela. O crescimento dos “não afiliados” não se confunde automaticamente com crescimento dos ateus. O exemplo norte-americano é claríssimo: entre os 29% de não afiliados, só uma parte se define como ateia.  Logo, o afastamento institucional pode significar menos uma morte do sagrado e mais uma crise de legitimidade das formas tradicionais de mediação religiosa.


No Brasil, isso parece particularmente relevante porque o campo religioso segue vibrante e numeroso, ao mesmo tempo em que cresce o contingente sem religião. Essa combinação sugere que a sociedade não está deixando simplesmente de buscar sentido; ela está reconfigurando as formas de pertencimento e de autoridade.


A hipótese sociológica: por que parte dos mais intelectualizados se afasta


Sua percepção sobre “algumas pessoas mais intelectuais” merece ser formulada com precisão. Não se trata de afirmar que inteligência leva ao ateísmo. Isso seria reducionista e empiricamente frágil. O ponto mais defensável é outro: determinados grupos com maior escolarização, maior exigência argumentativa e maior sensibilidade à separação entre esfera pública e convicção privada podem reagir negativamente quando percebem que a religião institucional deixou de ser mediação ética e passou a operar como mecanismo de poder.


Esse afastamento pode ser motivado por pelo menos quatro fatores.


O primeiro é epistemológico: decisões públicas exigem justificativas abertas ao contraditório, não apenas fundamentos confessionais.


O segundo é ético: muitos rejeitam a instrumentalização da fé para obtenção de poder ou controle social.


O terceiro é político: a fusão entre religião e agenda legislativa pode ser percebida como ameaça ao pluralismo e à laicidade.


O quarto é simbólico: quando a religião se torna linguagem de exclusão, policiamento moral ou guerra cultural, ela perde, para certos sujeitos, seu prestígio espiritual.


Nesses casos, a saída pode assumir formas diferentes. Alguns aderem ao ateísmo. Outros migram para o agnosticismo. Outros permanecem espirituais sem igreja. Outros ainda mantêm fé privada, porém recusam pertencimento. Em todos esses casos, a religiosidade herdada cede espaço a trajetórias biográficas mais fluidas. Eis o núcleo da religiosidade líquida.


O equívoco central do debate brasileiro


Talvez o maior erro analítico esteja justamente onde o senhor apontou: confundir os valores místicos da religiosidade humana com o conceito de religiosidade líquida.


Os valores místicos da religiosidade humana dizem respeito à abertura ao transcendente, à experiência do mistério, ao símbolo, ao rito, ao assombro, à interioridade, ao desejo de sentido e à relação com aquilo que ultrapassa o mero cálculo utilitário.


Já a religiosidade líquida não define o conteúdo espiritual em si. Ela define a forma social contemporânea sob a qual esse conteúdo passa a ser vivido. Nessa forma, a fé tende a ser mais instável, mais individualizada, menos herdada, menos obediente a instituições fixas e mais sujeita à lógica da escolha, do consumo simbólico e da revisão permanente.


Portanto, quando alguém rejeita a captura partidária ou parlamentar da religião, isso não significa necessariamente rejeição da mística, do sagrado ou da transcendência. Muitas vezes significa justamente o contrário: tentativa de separar a dimensão espiritual da sua apropriação por máquinas de poder.


Essa distinção é vital para o Brasil de hoje. Se ela não for feita, qualquer crítica à instrumentalização política da religião será lida como ataque à religiosidade em si. E qualquer defesa da experiência espiritual será confundida com apoio automático à expansão do poder religioso institucional sobre o Estado. Essa confusão empobrece o debate e radicaliza posições desnecessariamente.


Conclusão


O Brasil contemporâneo oferece um caso muito expressivo de tensão entre vitalidade religiosa, pluralização do campo de crenças e crescente influência parlamentar de grupos confessionais. Os dados do Censo 2022 mostram que o país continua majoritariamente religioso, mas com expansão dos sem religião e com maior fluidez identitária.  Ao mesmo tempo, a existência formal e robusta de frentes parlamentares religiosas confirma que a religião se converteu também em força organizada de agenda dentro do Estado. 


Nesse cenário, sua hipótese é intelectualmente forte: a intensificação da influência religiosa sobre decisões que deveriam ser justificadas por critérios técnicos e universais pode contribuir para o afastamento de parte dos setores mais críticos e intelectualizados. Mas esse afastamento não deve ser lido de modo simplista como mera explosão de ateísmo. Em muitos casos, ele parece corresponder a algo mais sutil e mais profundo: uma crise de legitimidade da religião institucional e uma migração para formas mais fluidas, privadas e seletivas de espiritualidade.


Em termos baumanianos, o que se vê não é necessariamente o fim da religião, mas sua liquefação. O sagrado não desaparece; ele perde forma fixa. A fé não morre; ela se descola da herança automática e da obediência estável. A experiência religiosa continua possível, mas cada vez menos garantida por instituições sólidas e cada vez mais atravessada por escolhas individuais, desconfiança institucional e reconfigurações culturais. O risco, para a democracia, é que a religião instrumentalizada produza simultaneamente dois efeitos perversos: de um lado, capture a política; de outro, desgaste a própria credibilidade espiritual que afirma defender. O risco, para a análise, é não perceber que entre a crença total e o ateísmo há um vasto território sociológico: o da religiosidade líquida.


Referências


BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.


BAUMAN, Zygmunt. A cultura no mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.


BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar.


BRASIL. Câmara dos Deputados. Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional. Disponível em: portal da Câmara dos Deputados. Acesso em: 11 abr. 2026. 


BRASIL. Câmara dos Deputados. Frentes Parlamentares da 57ª Legislatura. Disponível em: portal da Câmara dos Deputados. Acesso em: 11 abr. 2026. 


IBGE. Censo 2022: católicos seguem em queda; evangélicos e sem religião crescem no país. Agência de Notícias, 6 jun. 2025. 


PEW RESEARCH CENTER. Religious identity in the United States. 26 fev. 2025. 



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