Na entrevista de 3 de abril de 2026, Leonardo Trevisan oferece uma das leituras mais incisivas do conflito entre Estados Unidos e Irã: não se trata apenas de uma guerra no Oriente Médio, mas de um teste histórico à solidez da hegemonia americana e ao lugar estratégico do Brasil no novo tabuleiro global
Há entrevistas que apenas comentam os fatos. E há entrevistas que revelam a lógica subterrânea de uma época. A fala de Leonardo Trevisan em 3 de abril de 2026 pertence ao segundo tipo. Sua análise não se limita a descrever o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã. O que ela faz, com rara precisão, é capturar o instante em que uma superpotência continua devastadora no plano militar, mas já não consegue transformar força em ordem, poder em direção, ameaça em comando. O foco da entrevista, portanto, não é apenas a guerra. É algo mais profundo: o desgaste da capacidade dos Estados Unidos de organizar o mundo segundo os seus próprios termos. Esse diagnóstico se torna ainda mais relevante porque o conflito em curso, iniciado em 28 de fevereiro de 2026, já produziu escalada militar, pressão sobre o Estreito de Ormuz, divergências entre aliados ocidentais e uma crise diplomática sem solução clara.
O conceito-chave mobilizado por Trevisan é certeiro: o de “processo gelatinoso”. A imagem é poderosa porque descreve um poder que segue visível, pesado, ameaçador, mas perdeu consistência estratégica. A gelatina tem corpo, mas não tem firmeza. Mexe-se, oscila, deforma-se ao menor choque. É exatamente assim que o professor enxerga a política externa de Donald Trump nesta fase da guerra: uma sucessão de gestos contraditórios, discursos incompatíveis e ameaças sem forma política estável. Os Estados Unidos continuam capazes de bombardear, punir e destruir; o problema é que já não conseguem fazer disso uma arquitetura coerente de comando global. O que Trevisan identifica é uma crise de hegemonia, não uma simples dificuldade tática. E isso muda tudo.
A guerra que desmente a velha ideia de invulnerabilidade
Um dos pontos mais contundentes da entrevista é a percepção de que o conflito atual expôs um dado incômodo para Washington: o adversário já não pode mais ser tratado como figura regional periférica incapaz de impor custo real à máquina de guerra americana. O centro da argumentação de Trevisan está na ideia de que o Irã deixou de ser apenas um problema político e se converteu em um problema estratégico de primeira grandeza.
Mesmo quando se faz a devida separação entre o que está plenamente confirmado e o que aparece na entrevista como interpretação mais enfática, o pano de fundo da análise permanece robusto. O caso de Diego Garcia é emblemático. Em 20 de março de 2026, dois mísseis iranianos tiveram a base britânico-americana como alvo, a cerca de 2.500 milhas do território iraniano, o que elevou significativamente a percepção internacional sobre o alcance operacional de Teerã. O episódio foi suficientemente sério para constar em documentação oficial do Parlamento britânico.
Isso basta para desmontar uma visão confortável segundo a qual o conflito seria apenas mais um exercício unilateral de projeção americana de força. A guerra revela outra coisa: a erosão do monopólio psicológico da invulnerabilidade. Não se trata apenas de saber quantos mísseis cada lado possui, mas de compreender que a superioridade militar perde parte de sua eficácia quando o adversário demonstra capacidade de atingir nós sensíveis da logística, da defesa e da percepção pública. É nesse sentido que a análise de Trevisan acerta o alvo. O problema americano não é simplesmente militar; é simbólico, diplomático e narrativo.
Trump fala, contradiz-se e expõe a crise
Talvez o trecho mais brilhante da leitura de Trevisan seja aquele em que ele desmonta a fala de Donald Trump não como uma excentricidade pessoal, mas como sintoma político de um poder sem eixo. O professor chama atenção para uma sequência de contradições que, em vez de parecerem acidentes, passam a compor um padrão. Trump diz que a guerra está perto do fim, mas também afirma que os ataques seguirão por semanas. Exalta a economia, mas pede paciência diante da disparada da energia. Fala como quem controla o tabuleiro, mas suas próprias palavras revelam um poder reagindo mais do que conduzindo.
Essa leitura encontra eco em registros públicos do conflito. O Council on Foreign Relations mostra que, em 1º de abril de 2026, Trump afirmou que os EUA atacariam o Irã “extremamente duro” por mais duas ou três semanas, enquanto também falava em objetivos quase concluídos e sugeria que a reabertura de Ormuz seria problema de “outros países”. Não é apenas retórica desorganizada. É um discurso que tenta conciliar, ao mesmo tempo, a imagem de força absoluta e a necessidade de justificar a ausência de uma estratégia clara de saída.
Trevisan percebe o que há de mais grave nisso: quando a fala de uma superpotência perde coerência interna, o problema não é de estilo, mas de comando. Hegemonia exige previsibilidade. Exige que aliados entendam a direção, que mercados consigam calcular risco, que a burocracia de Estado saiba qual é o objetivo final. Quando o discurso presidencial passa a operar por negação, oscilação e improviso, a instabilidade deixa de ser apenas um efeito da guerra; passa a ser a própria linguagem do poder.
A “gelatina” não é fraqueza: é crise de hegemonia
É aqui que a entrevista ultrapassa o comentário conjuntural e alcança uma formulação teórica de maior densidade. O “processo gelatinoso” descrito por Trevisan é, no fundo, uma forma de dizer que os Estados Unidos já não conseguem transformar sua superioridade material em hegemonia estável. Continuam sendo a maior potência militar do planeta, mas uma potência militar, sozinha, não produz ordem internacional duradoura. Para isso, é preciso algo mais: consentimento, coordenação, legitimidade e liderança reconhecida.
A guerra contra o Irã mostra justamente a falha crescente desses elementos. Não há, até aqui, um mandato internacional claro. O briefing da House of Commons Library destaca que os ataques de EUA e Israel ao Irã não receberam endosso do Conselho de Segurança da ONU. Isso significa que Washington atua num ambiente em que a legalidade e a legitimidade internacional permanecem contestadas.
A gelatina, portanto, não significa ausência de força. Significa presença de força sem solidez política. É uma forma particularmente perigosa de poder: ainda tem capacidade destrutiva imensa, mas já não consegue estabilizar o sistema ao seu redor. Age muito, convence pouco. Ataca bastante, organiza menos. Impõe medo, mas não produz alinhamento automático. Essa é a chave mais valiosa da entrevista de Trevisan.
A rebelião europeia e o isolamento de Washington
Outro eixo decisivo da fala do professor é a percepção de que a crise não se limita ao campo de batalha. Ela alcança o interior da própria aliança ocidental. Essa talvez seja a maior notícia geopolítica escondida sob o ruído dos bombardeios: os Estados Unidos continuam liderando militarmente, mas já não comandam politicamente como antes.
A Reuters informou, em 31 de março de 2026, que França, Itália e Espanha impuseram restrições relevantes a operações americanas relacionadas à guerra com o Irã. A Itália restringiu o uso da base de Sigonella para operações ofensivas; a França recusou o uso de seu espaço aéreo para determinados voos de transporte militar americano. Isso não é um detalhe técnico. É uma fissura estratégica.
Trevisan acerta ao ler esse movimento como sintoma de isolamento. O ponto aqui não é saber se a OTAN acabou ou se a Europa rompeu com Washington. Nada disso. O ponto é mais sutil e talvez mais importante: o custo de seguir os Estados Unidos deixou de parecer automaticamente aceitável para aliados históricos. O cálculo europeu é material. Petróleo caro, gás pressionado, inflação energética, opinião pública fatigada e medo de aprofundar uma guerra de resultado incerto pesam mais do que reflexos antigos de submissão estratégica.
Isso produz uma cena inédita: a maior potência militar do Ocidente pressionando por escalada, enquanto parceiros tradicionais tentam limitar danos e reduzir exposição. Quando isso acontece, a hegemonia não caiu, mas entrou em crise aberta.
Irã sozinho? Não exatamente. EUA acompanhados? Cada vez menos.
É nesse contexto que ganha força a frase de Trevisan segundo a qual o Irã aparece “apoiado” enquanto os EUA não. A formulação, tomada ao pé da letra, pode soar excessiva. O Irã não dispõe de uma coalizão militar formal comparável à estrutura atlântica. Não há nada semelhante, por exemplo, a uma OTAN antiocidental operando em seu favor. Mas seria igualmente errado dizer que Teerã está isolado.
O que a conjuntura mostra é outra coisa: o Irã opera em um sistema internacional fragmentado, no qual rivais estratégicos de Washington não têm interesse em entregar à Casa Branca uma vitória limpa e incontestada. O briefing britânico registra que China e Rússia se abstiveram em deliberações relevantes no Conselho de Segurança, recusando-se a converter a ofensiva ocidental em consenso diplomático internacional.
Esse é o ponto substantivo. O Irã talvez não esteja “apoiado” no sentido clássico da palavra, mas tampouco se encontra encurralado por unanimidade global. Já os Estados Unidos, embora disponham de alianças formais vastas, descobrem que ter alianças no papel não significa obter adesão política plena na hora da escalada. É uma diferença brutal. A potência que se habituou a comandar passa a precisar negociar o básico. A potência que queria isolar o adversário vê o isolamento voltar-se parcialmente contra si.
O Brasil como variável estratégica, não como plateia
Na parte mais surpreendente da entrevista, Trevisan desloca o foco para o Brasil e sugere que, no meio do terremoto geopolítico, o país se encontra numa posição relativamente mais favorável do que se imaginava. Não porque seja forte no sentido clássico das grandes potências, mas porque se tornou mais relevante na disputa por recursos críticos, cadeias tecnológicas e autonomia diplomática.
Esse ponto é sólido. O Ministério de Minas e Energia destaca o Brasil entre os países com maiores reservas de minerais críticos e terras raras do planeta, ativos centrais para defesa, eletrônica avançada, transição energética e indústria digital. A classificação exata varia conforme a base utilizada, mas o essencial é incontornável: o Brasil deixou de ser apenas fornecedor periférico de matéria-prima e passou a ser enxergado como peça relevante em uma disputa global por insumos estratégicos.
Isso altera o lugar do país no sistema internacional. Em um cenário de rivalidade tecnológica entre Estados Unidos e China, minerais críticos deixam de ser apenas mercadorias; tornam-se instrumentos de barganha geopolítica. Trevisan percebe que esse é um momento raro em que a soberania brasileira pode deixar de ser apenas palavra de palanque e voltar a ser capacidade concreta de negociação.
O mesmo vale para a dimensão militar e diplomática. A chegada do primeiro UH-60M Black Hawk ao Brasil em novembro de 2025, no âmbito de parceria com os EUA, confirma que Washington segue interessado em manter Brasília próxima em temas sensíveis de defesa. Já no campo comercial-digital, o Brasil adotou posição assertiva na OMC ao bloquear a renovação, nos termos desejados pelos EUA, da moratória sobre tarifas de comércio eletrônico, sinalizando postura menos subordinada em temas de soberania regulatória.
Trevisan interpreta esses sinais como prova de que o Brasil dispõe hoje de uma margem de manobra mais ampla. A formulação é plausível. O país não é senhor do tabuleiro, mas já não é mero peão resignado.
O que a entrevista vê na política brasileira de 2026
A leitura de Trevisan sobre os reflexos internos do conflito também merece atenção. Sua hipótese é que, diante de guerra prolongada, energia cara, instabilidade comercial e reorganização acelerada do poder global, os setores dominantes da economia brasileira tenderão ao pragmatismo. Em outras palavras: aventuras ideológicas que comprometam acesso a mercados, credibilidade diplomática e previsibilidade institucional podem se tornar caras demais.
É uma hipótese consistente. O Brasil de 2026 não decide apenas entre candidaturas; decide também entre estratégias de inserção internacional. Em um mundo tensionado, slogans de alinhamento automático perdem apelo quando confrontados com a necessidade concreta de vender, importar, negociar, atrair investimentos e manter abertura a múltiplos polos de poder. A soberania, nesse ambiente, não é abstração romântica. É gestão racional de interdependências.
A entrevista, nesse sentido, ilumina um aspecto central do momento histórico: o verdadeiro debate não é entre “Ocidente” e “antiocidente”, nem entre neutralidade ingênua e submissão automática. O verdadeiro debate é entre autonomia pragmática e dependência ideológica. E Trevisan, ao que tudo indica, aposta na primeira.
Uma entrevista que expõe a fissura do sistema
O grande mérito da análise de Leonardo Trevisan é oferecer uma moldura ampla para entender por que a guerra EUA–Irã não pode ser tratada como episódio regional isolado. O conflito revelou a vulnerabilidade crescente do comando americano, o esgarçamento das alianças ocidentais, a maior capacidade de resistência de atores antes subestimados e a abertura de espaços estratégicos para países com recursos, escala e diplomacia profissional.
Ao mesmo tempo, uma leitura rigorosa exige distinguir interpretação analítica de comprovação factual absoluta. Alguns dos episódios mais dramáticos mencionados no resumo da entrevista não apareceram, nas fontes mais confiáveis consultadas, com o mesmo grau de confirmação que outros pontos centrais do argumento. Ainda assim, essa ressalva não enfraquece o núcleo da análise. Pelo contrário: o torna mais forte. Mesmo sob filtro crítico, permanece de pé a conclusão principal de Trevisan: os Estados Unidos entraram numa guerra em que continuam poderosos demais para serem ignorados, mas cada vez menos sólidos para serem obedecidos.
Conclusão
A entrevista de Leonardo Trevisan deve ser lida como um diagnóstico político de alta densidade sobre a desorganização do poder americano em 2026. Sua contribuição mais importante está em mostrar que a crise atual não é apenas a de uma guerra difícil, mas a de uma hegemonia que perdeu coesão, previsibilidade e capacidade plena de alinhamento sobre seus próprios aliados. O “processo gelatinoso” de Trump, nessa leitura, não é mero descontrole retórico: é a linguagem de um império que continua armado até os dentes, mas já não consegue converter força em ordem.
E é por isso que a frase do professor — “Irã apoiado e EUA não” — merece ser levada a sério, ainda que com o devido refinamento analítico. O Irã não está apoiado no sentido clássico de uma grande coalizão militar formal. Mas está inserido num ambiente internacional em que Rússia, China e outras potências não entregam aos Estados Unidos o isolamento completo que Washington gostaria de impor a Teerã. Já os EUA, embora ainda cercados de alianças institucionais, encontram resistências concretas, limitações operacionais e recusas explícitas de parceiros históricos. No plano político, esse contraste é devastador. Porque uma superpotência pode até suportar um inimigo armado. O que ela não suporta por muito tempo é descobrir que, no momento decisivo, o adversário encontra margem de sustentação enquanto ela própria já não mobiliza obediência automática nem dentro da própria casa atlântica. Esse é o centro da crítica de Trevisan — e talvez a melhor síntese da crise internacional em curso.
Referências
BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Brazil’s critical minerals: a guide for foreign investors 2026. Brasília: MME, 2026. Disponível em: fonte oficial consultada via web.
COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS. Iran’s war with Israel and the United States. New York: CFR, 2026. Disponível em: fonte consultada via web.
REINO UNIDO. House of Commons Library. US/Israel-Iran conflict 2026. London: House of Commons Library, 31 mar. 2026. Disponível em: fonte oficial consultada via web.
REUTERS. Europe pushes back on U.S. military operations as concerns over Iran war mount. 31 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via web.
REUTERS. France “surprised” by Trump’s criticism on banning U.S. military flights. 31 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via web.
REUTERS. WTO talks end in deadlock after Brazil blocks deal on e-commerce duties. 29 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via web.
UNITED STATES ARMY. Black Hawk arrives ahead of schedule, deepening U.S., Brazil partnership. 10 dez. 2025. Disponível em: fonte oficial consultada via web.
Nenhum comentário:
Postar um comentário