Como a produção organizada da dúvida ameaça a saúde, o clima e a democracia
Lide
A desconfiança em relação à ciência não nasceu nas redes sociais, nem começou com a pandemia de Covid-19. Mas, nas últimas décadas, ela deixou de ser apenas erro, medo ou desconhecimento e passou a funcionar como técnica política. O negacionismo científico moderno organiza a dúvida, financia a confusão, explora ressentimentos sociais e transforma a ignorância em ferramenta de poder. O que está em disputa não é apenas a verdade científica, mas a capacidade da sociedade de tomar decisões públicas baseadas em evidências.
1. Introdução: quando a dúvida deixa de ser virtude e vira arma
A ciência sempre viveu da dúvida. Nenhuma descoberta séria nasce da obediência cega. Nenhuma teoria científica digna desse nome pode sobreviver sem crítica, revisão, teste, confronto e correção. A dúvida, na ciência, é método. É disciplina intelectual. É cuidado com a verdade.
Mas há outro tipo de dúvida, mais perigosa, mais cínica e mais eficiente politicamente: a dúvida fabricada.
Essa dúvida não busca compreender melhor a realidade. Ela busca paralisar a ação pública. Não quer ampliar o conhecimento, mas impedir que o conhecimento produza consequência política. Não pergunta para descobrir; pergunta para confundir. Não questiona para avançar; questiona para atrasar.
É nesse ponto que o negacionismo científico precisa ser compreendido não como simples ignorância, mas como estratégia de poder.
Durante a pandemia de Covid-19, esse fenômeno se tornou escancarado. Discursos contra vacinas, máscaras, isolamento social e medidas sanitárias circularam com enorme velocidade, muitas vezes associados a interesses políticos, disputas ideológicas e campanhas de desinformação. A Organização Mundial da Saúde classificou esse ambiente como “infodemia”: excesso de informações, incluindo conteúdos falsos ou enganosos, que gera confusão, comportamentos de risco, desconfiança nas autoridades sanitárias e enfraquecimento das respostas de saúde pública (World Health Organization, 2020).
No entanto, a pandemia apenas iluminou um mecanismo que já vinha sendo utilizado há décadas. Antes das vacinas contra a Covid-19, houve o tabaco. Antes das máscaras, houve o amianto. Antes do distanciamento social, houve o aquecimento global. Antes das redes sociais, houve relatórios pagos, especialistas financiados, institutos de fachada, campanhas publicitárias e uma engenharia sofisticada da dúvida.
Naomi Oreskes e Erik Conway demonstraram que determinados grupos econômicos atuaram historicamente para obscurecer consensos científicos em temas como tabagismo, chuva ácida, buraco na camada de ozônio e mudanças climáticas (Oreskes; Conway, 2010). A lógica era simples e brutal: quando a evidência científica ameaça o lucro, a dúvida pode ser transformada em produto político.
A questão, portanto, não é se a ciência pode errar. Claro que pode. A ciência erra, corrige, revisa, abandona hipóteses e muda de posição diante de novas evidências. O problema é outro: quando grupos interessados exploram a própria abertura da ciência para destruir a confiança pública na ciência.
É como se alguém usasse a porta aberta de uma biblioteca para incendiá-la por dentro.
2. O negacionismo não é apenas erro: é método de desorganização da verdade
O erro é humano. A ignorância também. Ninguém sabe tudo. Uma pessoa pode desconfiar de uma vacina por medo, de uma estatística por não compreendê-la, de uma política ambiental por desconhecer suas bases científicas. Isso faz parte da vida social.
O negacionismo, porém, é diferente.
Ele não se limita à ausência de conhecimento. Ele é uma recusa ativa de evidências consolidadas. É a tentativa de colocar no mesmo plano uma conclusão científica sustentada por décadas de pesquisa e uma opinião improvisada, muitas vezes alimentada por medo, ideologia ou interesse econômico.
A Academia Brasileira de Letras define negacionismo como atitude tendenciosa de recusa da validade ou verdade de fatos comprovados, apesar das evidências disponíveis, definição também retomada em materiais de divulgação científica no Brasil (Butantan, 2023).
Essa definição é importante porque separa a dúvida legítima da negação estratégica. Duvidar de um estudo específico é parte da ciência. Negar todo um corpo de evidências porque ele ameaça uma crença, um projeto de poder ou um interesse econômico é outra coisa.
O negacionismo costuma seguir um roteiro conhecido:
primeiro, afirma que “não há consenso”; depois, seleciona exceções como se fossem regra; em seguida, promove falsos especialistas; depois, acusa instituições científicas de conspiração; por fim, apresenta a opinião pessoal como se tivesse o mesmo peso de décadas de pesquisa acumulada.
Esse roteiro não é espontâneo. Ele tem lógica, linguagem, financiamento e repetição.
Por isso, Robert Proctor propôs o conceito de agnotologia, isto é, o estudo da produção social da ignorância. A ignorância, nesse sentido, não é apenas aquilo que ainda não sabemos. Ela pode ser produzida, mantida e distribuída por mecanismos de ocultamento, negligência, segredo, destruição documental, manipulação cultural e interesses políticos (Proctor; Schiebinger, 2008).
Essa ideia é decisiva. Em sociedades complexas, a ignorância pode ser fabricada. Pode ser cultivada como uma plantação. Pode ser financiada como uma campanha. Pode ser distribuída como mercadoria.
E quando a ignorância se torna útil ao poder, ela deixa de ser acidente. Passa a ser projeto.
3. A indústria da dúvida: do cigarro ao aquecimento global
O caso do tabaco é um dos exemplos mais didáticos da produção organizada da dúvida. Durante décadas, a indústria do cigarro enfrentou evidências científicas cada vez mais robustas sobre os efeitos nocivos do tabagismo. Em vez de simplesmente negar tudo de forma grosseira, parte da estratégia consistiu em dizer que “ainda havia dúvidas”, que “mais estudos eram necessários”, que “não se podia afirmar com certeza”.
Essa frase — “mais estudos são necessários” — pode ser honesta em muitos contextos científicos. Mas também pode ser usada cinicamente para impedir políticas públicas.
O problema não estava na defesa da pesquisa. Estava na instrumentalização da incerteza. Enquanto a sociedade discutia se havia certeza absoluta, milhões de pessoas continuavam expostas a riscos já suficientemente demonstrados.
Oreskes e Conway chamaram atenção para esse mecanismo em Merchants of Doubt. O título é preciso: “mercadores da dúvida”. Não se trata de cientistas debatendo honestamente evidências. Trata-se de atores que vendem dúvida como forma de proteger interesses econômicos ameaçados por descobertas científicas (Oreskes; Conway, 2010).
A mesma estrutura aparece no negacionismo climático. O aquecimento global não incomoda apenas porque altera previsões ambientais. Ele incomoda porque exige mudanças econômicas profundas: transição energética, regulação de emissões, revisão de modelos produtivos, redução da dependência dos combustíveis fósseis e responsabilização de setores altamente lucrativos.
Por isso, negar a mudança climática nunca foi apenas negar uma curva de temperatura. Foi defender uma ordem econômica.
Aqui está o coração político do problema: certos fatos científicos têm consequências materiais. Se fumar causa câncer, a indústria do tabaco deve ser regulada. Se emissões de gases de efeito estufa intensificam as mudanças climáticas, a economia fóssil precisa ser transformada. Se vacinas reduzem riscos coletivos, políticas públicas de imunização devem ser fortalecidas.
O negacionismo aparece justamente quando o conhecimento científico ameaça estruturas de lucro, privilégios ou poder.
A frase “não há consenso” passa a funcionar como escudo. O debate público é deslocado artificialmente. Em vez de discutir o que fazer diante das evidências, a sociedade fica presa em uma etapa anterior: “será que o problema existe mesmo?”
É uma estratégia de congelamento político.
4. Pandemia: o laboratório mundial da desinformação
A pandemia de Covid-19 revelou a força contemporânea do negacionismo científico porque reuniu, em uma única crise, todos os elementos do problema: medo social, incerteza científica inicial, polarização política, redes digitais, lideranças populistas, interesses econômicos e desconfiança institucional.
No início de uma emergência sanitária, é natural que a ciência ainda esteja aprendendo. Recomendações podem mudar porque novas evidências surgem. Isso não é fraqueza da ciência; é sua própria força. A ciência muda quando aprende.
O negacionismo explorou essa característica como se fosse contradição moral. Se uma orientação mudava, dizia-se: “estão mentindo”. Se uma recomendação era atualizada, afirmava-se: “não sabem de nada”. Se pesquisadores discordavam sobre detalhes, concluía-se falsamente que todo o conhecimento era inválido.
Essa confusão foi amplificada pelas redes sociais.
A OMS alertou que a infodemia pode intensificar ou prolongar surtos epidêmicos quando as pessoas ficam inseguras sobre o que devem fazer para proteger a própria saúde e a saúde coletiva (World Health Organization, 2020). Estudos sobre a Covid-19 também apontaram que a infodemia impactou negativamente o bem-estar, polarizou o debate público e prejudicou campanhas de saúde (García-Saisó et al., 2021).
No Brasil, esse processo ganhou contornos particularmente graves. A desinformação sobre vacinas, medicamentos sem eficácia comprovada, máscaras e medidas de isolamento foi atravessada por disputas partidárias e por uma retórica de confronto entre “liberdade individual” e “proteção coletiva”.
Mas essa oposição era falsa.
Saúde pública não é inimiga da liberdade. Ao contrário: sem saúde pública, a liberdade vira privilégio dos mais protegidos. Uma sociedade incapaz de organizar respostas coletivas diante de uma pandemia abandona os mais vulneráveis à própria sorte.
O negacionismo pandêmico produziu uma inversão moral. Transformou cuidado em fraqueza. Transformou responsabilidade coletiva em autoritarismo. Transformou evidência em opinião. Transformou cientistas em inimigos.
Essa é uma das marcas centrais do negacionismo: ele não apenas nega fatos; ele reorganiza afetos. Ensina as pessoas a sentirem raiva de quem tenta protegê-las.
5. Redes sociais: a máquina de amplificação da dúvida
O negacionismo científico contemporâneo não depende apenas de discursos. Ele depende de infraestrutura.
As redes sociais não criaram a mentira, a conspiração ou a manipulação política. Tudo isso é antigo. O que mudou foi a velocidade, a escala e a personalização da circulação dessas mensagens.
Antes, uma campanha de desinformação precisava de jornais, rádios, televisão, panfletos, financiamento visível e organizações formais. Hoje, uma narrativa falsa pode circular por aplicativos de mensagem, vídeos curtos, influenciadores digitais, perfis anônimos e comunidades fechadas.
A desinformação se tornou mais barata, mais rápida e mais emocional.
Eli Pariser chamou atenção para o fenômeno das bolhas informacionais, nas quais sistemas personalizados tendem a entregar ao usuário conteúdos compatíveis com seus interesses, crenças e comportamentos anteriores (Pariser, 2011). Cass Sunstein também discutiu como ambientes informacionais fechados podem intensificar polarizações e radicalizar grupos que passam a ouvir apenas versões semelhantes às suas (Sunstein, 2017).
O negacionismo prospera nesse ambiente porque ele não precisa convencer todo mundo. Precisa apenas manter comunidades suficientemente mobilizadas, desconfiadas e impermeáveis ao contraditório.
É assim que se forma uma espécie de tribo epistemológica: um grupo que não apenas compartilha opiniões, mas compartilha critérios próprios de verdade. Nesse ambiente, o especialista vira suspeito, a universidade vira inimiga, o jornalista vira conspirador, a instituição pública vira instrumento de controle, e o influenciador digital passa a ocupar o lugar simbólico da autoridade.
O resultado é devastador. A sociedade deixa de discutir apenas interpretações diferentes da realidade. Passa a disputar a própria realidade.
Quando isso acontece, a democracia adoece.
A democracia pressupõe conflito de ideias, mas depende de algum chão comum de fatos. Pode-se discordar sobre a melhor política ambiental, mas é preciso reconhecer os dados sobre desmatamento, emissão de carbono e aquecimento global. Pode-se debater estratégias sanitárias, mas é preciso reconhecer evidências sobre vacinas, contágio e mortalidade. Pode-se discutir economia, mas é preciso aceitar indicadores, séries históricas e limites materiais.
Sem esse chão comum, a política vira guerra de fantasias.
6. O negacionismo como técnica populista
O negacionismo científico conversa muito bem com certas formas de populismo contemporâneo. Isso ocorre porque ambos trabalham com uma oposição simplificadora: de um lado, “o povo verdadeiro”; de outro, “as elites corruptas”.
Nesse enquadramento, cientistas, universidades, instituições sanitárias, organismos internacionais, imprensa profissional e órgãos ambientais são apresentados como parte de uma elite distante, arrogante e manipuladora. O líder populista, por sua vez, aparece como aquele que “fala a verdade” contra o sistema.
Essa operação é poderosa porque mobiliza ressentimentos reais. Muitas pessoas, de fato, sentem-se abandonadas por instituições públicas, exploradas economicamente, humilhadas culturalmente e ignoradas por especialistas. O negacionismo se aproveita dessa dor.
Ele diz ao cidadão: “você foi enganado”.
Diz também: “os especialistas desprezam você”.
E completa: “só nós temos coragem de revelar a verdade”.
Assim, a dúvida científica é convertida em identidade política.
O sujeito não apenas acredita em uma informação falsa. Ele passa a se reconhecer como parte de uma comunidade que “despertou”. A adesão ao negacionismo deixa de ser apenas cognitiva e passa a ser afetiva, moral e tribal.
É por isso que apresentar dados, muitas vezes, não basta. Para quem transformou a negação em identidade, o dado contrário não corrige; agride. A evidência não ilumina; ameaça. O argumento científico não é recebido como contribuição, mas como ataque.
Esse é um dos grandes desafios da comunicação pública da ciência: não basta produzir informação correta. É preciso reconstruir confiança social.
7. Foucault, biopolítica e a disputa sobre a vida
Michel Foucault ajuda a compreender por que o negacionismo científico é também disputa de poder. Em sua análise sobre biopolítica, Foucault mostrou que a modernidade produziu formas de governo voltadas à gestão da vida: natalidade, mortalidade, saúde, higiene, risco, população, segurança e normalização (Foucault, 2008).
A pandemia evidenciou essa dimensão. O debate sobre máscaras, vacinas, isolamento e hospitais não era apenas técnico. Era também uma disputa sobre quem tem legitimidade para orientar condutas coletivas em nome da vida.
Nesse contexto, o negacionismo aparece como reação contra formas de autoridade científica e estatal. Mas essa reação nem sempre liberta. Muitas vezes, apenas substitui uma autoridade verificável por outra muito menos transparente: o líder carismático, o influenciador, o grupo conspiratório, o canal de mensagem, o falso especialista.
O sujeito pensa que se libertou da autoridade científica, mas se submete a outra forma de condução: mais emocional, menos responsável e frequentemente invisível.
A pergunta central, portanto, não é apenas: “quem está certo?”. A pergunta também é: “quem ganha poder quando a ciência perde credibilidade?”
Quando a confiança em vacinas cai, quem ganha?
Quando políticas climáticas são atrasadas, quem ganha?
Quando órgãos ambientais são desacreditados, quem ganha?
Quando universidades são tratadas como inimigas, quem ganha?
Quando a imprensa profissional é substituída por boatos, quem ganha?
O negacionismo raramente é neutro. Ele tem beneficiários.
8. Saúde, clima e democracia: os três campos mais atingidos
O negacionismo científico produz danos concretos em pelo menos três campos decisivos: saúde, clima e democracia.
Na saúde, o dano aparece na redução da confiança em vacinas, na adesão a tratamentos sem comprovação, no atraso na busca por atendimento adequado e na desorganização de políticas públicas. Durante emergências sanitárias, isso pode custar vidas.
No clima, o dano aparece no atraso de políticas ambientais, na relativização de eventos extremos, na resistência à transição energética e na proteção de modelos econômicos insustentáveis. O negacionismo climático é particularmente grave porque trabalha contra o tempo. Quanto mais se adia a ação, mais caras, difíceis e dolorosas se tornam as respostas futuras.
Na democracia, o dano é mais profundo e menos visível: a destruição da confiança pública. Quando tudo vira conspiração, nenhuma instituição consegue agir. Quando todo dado é tratado como manipulação, toda política pública vira suspeita. Quando toda autoridade técnica é convertida em inimiga, resta apenas a força da opinião organizada.
A democracia não exige unanimidade. Mas exige responsabilidade com a verdade factual.
Hannah Arendt já advertia que a destruição da verdade factual fragiliza o mundo comum da política. Quando os fatos deixam de ter estabilidade, a sociedade perde a capacidade de deliberar racionalmente (Arendt, 2016). O negacionismo científico opera exatamente nessa zona: ele corrói o mundo comum.
E sem mundo comum, resta apenas a guerra permanente de versões.
9. O falso heroísmo do “pensamento independente”
Uma das estratégias mais eficientes do negacionismo é se apresentar como coragem intelectual. O negacionista raramente se vê como alguém enganado. Ele se vê como alguém desperto, livre, crítico, independente.
O problema é que pensamento crítico não é desconfiar de tudo aleatoriamente. Pensamento crítico é saber avaliar evidências, métodos, fontes, interesses, coerência lógica e qualidade argumentativa.
Desconfiar da ciência enquanto se acredita cegamente em um vídeo sem fonte não é pensamento crítico.
Rejeitar universidades inteiras enquanto se aceita a fala de um influenciador sem formação não é autonomia intelectual.
Acusar pesquisadores de interesse político enquanto se ignora o financiamento de campanhas desinformativas não é lucidez.
É apenas troca de autoridade.
A verdadeira atitude crítica não consiste em negar consensos científicos por impulso, mas em compreender como eles foram produzidos, testados, revisados e validados.
A ciência não pede fé. Pede método.
Essa distinção é fundamental. A defesa da ciência não deve ser confundida com idolatria científica. A ciência precisa ser criticada, fiscalizada, democratizada e comunicada melhor. Existem interesses econômicos também dentro da produção científica. Existem desigualdades no acesso à pesquisa. Existem problemas de financiamento, publicação, reprodução de estudos e captura corporativa.
Mas reconhecer esses problemas não autoriza jogar fora a racionalidade científica. Pelo contrário: exige mais ciência, mais transparência, mais método, mais controle público e mais educação científica.
O negacionismo se aproveita das falhas reais da ciência para destruir a confiança na própria possibilidade de conhecimento.
É como condenar toda a medicina porque um médico errou. Como rejeitar toda a engenharia porque uma ponte caiu. Como abandonar toda a educação porque uma escola falhou.
A crítica melhora instituições. O negacionismo as dissolve.
10. Quem financia a dúvida?
Uma pergunta incômoda precisa ser feita: quem paga a conta da desinformação?
Nem todo negacionismo é financiado diretamente. Há pessoas que compartilham conteúdos falsos por medo, convicção, ingenuidade ou pertencimento ideológico. Mas movimentos negacionistas de grande alcance geralmente dependem de algum tipo de estrutura: produção de conteúdo, impulsionamento, redes de influência, canais, organizações, eventos, consultorias, think tanks e estratégias de comunicação.
Oreskes e Conway mostram que a produção da dúvida em temas científicos muitas vezes envolveu alianças entre setores econômicos, especialistas dissidentes, instituições aparentemente independentes e redes políticas conservadoras (Oreskes; Conway, 2010).
A dúvida, nesse caso, não circula sozinha. Ela é empurrada.
Esse ponto é essencial para não cairmos em uma visão ingênua. O problema não é apenas o indivíduo que acredita em uma notícia falsa. O problema é o sistema que produz, organiza, monetiza e distribui essa notícia.
A economia da atenção recompensa conteúdos extremos, emocionais e polarizadores. Plataformas digitais lucram com engajamento. Influenciadores ganham visibilidade. Grupos políticos mobilizam bases. Setores econômicos atrasam regulações.
A desinformação não é apenas uma falha do debate público. É também um mercado.
11. Como enfrentar o negacionismo científico
Combater o negacionismo científico não significa defender censura generalizada nem transformar cientistas em sacerdotes da verdade. Significa reconstruir as condições sociais da confiança.
Isso exige pelo menos cinco frentes.
A primeira é educação científica. Não basta ensinar fórmulas, nomes e conceitos. É preciso ensinar como a ciência funciona: hipótese, método, evidência, revisão por pares, incerteza, probabilidade, consenso, erro e correção.
A segunda é alfabetização midiática. A população precisa aprender a identificar fontes, verificar autoria, reconhecer manipulações emocionais, desconfiar de soluções milagrosas e compreender como algoritmos moldam a circulação da informação.
A terceira é transparência institucional. Autoridades públicas e científicas precisam comunicar melhor suas decisões, inclusive suas dúvidas. Quando a ciência muda de orientação, é necessário explicar por quê. A mudança baseada em evidência não é contradição; é aprendizado.
A quarta é responsabilização das plataformas. Não se pode tratar redes digitais como espaços neutros quando seus sistemas amplificam desinformação em escala. A liberdade de expressão não pode ser convertida em liberdade de manipulação algorítmica irresponsável.
A quinta é reconstrução democrática da confiança. Isso exige diálogo com a população, respeito às angústias sociais e combate às desigualdades que tornam muitas comunidades vulneráveis à desinformação.
A ciência não pode se comunicar apenas com quem já confia nela. Precisa chegar justamente onde a confiança foi rompida.
12. Conclusão: defender a ciência é defender a vida pública
O negacionismo científico se tornou uma das estratégias mais perigosas do nosso tempo porque não ataca apenas uma informação específica. Ele ataca a própria possibilidade de construir decisões coletivas baseadas em evidências.
Quando a dúvida é fabricada, a sociedade paralisa. Quando a ignorância é organizada, o poder se protege. Quando a ciência é desacreditada sistematicamente, saúde pública, política ambiental e democracia entram em risco.
A questão central não é defender uma ciência arrogante, fechada ou infalível. Essa ciência não existe e nem deve existir. A ciência que merece ser defendida é outra: aberta à crítica, submetida ao método, consciente de seus limites, mas comprometida com a honestidade intelectual.
O negacionismo não é excesso de crítica. É ausência de responsabilidade com a verdade.
Por isso, enfrentar o negacionismo científico é mais do que corrigir boatos. É disputar o sentido da vida pública. É afirmar que uma sociedade democrática pode discordar sobre caminhos, prioridades e valores, mas não pode sobreviver quando transforma evidência em inimiga, mentira em opinião e ignorância em projeto político.
A ciência não resolve tudo. Mas sem ela ficamos entregues ao improviso, ao medo, ao fanatismo e aos interesses de quem lucra com a confusão.
No fim, a pergunta decisiva é simples: quem teme uma sociedade capaz de pensar com evidências?
Referências
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2016.
BUTANTAN. O que é negacionismo e por que ele atrasa a evolução do conhecimento? São Paulo: Instituto Butantan, 2023. Disponível em: https://butantan.gov.br. Acesso em: 4 maio 2026.
FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.
GARCÍA-SAISÓ, Sebastián et al. The COVID-19 infodemic. Revista Panamericana de Salud Pública, Washington, 2021.
ORESKES, Naomi; CONWAY, Erik M. Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming. New York: Bloomsbury Press, 2010.
PARISER, Eli. The filter bubble: what the Internet is hiding from you. New York: Penguin Press, 2011.
PROCTOR, Robert N.; SCHIEBINGER, Londa. Agnotology: the making and unmaking of ignorance. Stanford: Stanford University Press, 2008.
SUNSTEIN, Cass R. #Republic: divided democracy in the age of social media. Princeton: Princeton University Press, 2017.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Understanding the infodemic and misinformation in the fight against COVID-19. Geneva: WHO, 2020. Disponível em: https://www.who.int. Acesso em: 4 maio 2026.
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