quarta-feira, 10 de junho de 2026

Flávio Bolsonaro, o mercado e a reconstrução regressiva do Estado brasileiro

Que tipo de Estado, de sociedade e de soberania emerge da agenda política já sinalizada pelo candidato da direita?


Índice

  1. Introdução: a pergunta que precisa ser feita
  2. Lide: quando a soberania deixa de ser bandeira e vira orçamento
  3. O candidato do mercado: entre herança política e promessa econômica
  4. A agenda declarada: privatizações, corte de gastos e Estado mínimo social
    • 4.1 Privatizar quase tudo: o Estado como obstáculo
    • 4.2 Cortar gastos: quando o ajuste fiscal vira projeto de sociedade
    • 4.3 Reduzir impostos: para quem e a que custo?
  5. Previdência, trabalho e reforma fiscal: o núcleo duro da agenda regressiva
    • 5.1 A nova reforma da Previdência
    • 5.2 A revisão da reforma trabalhista
    • 5.3 A suspensão da reforma tributária
  6. Saúde e educação: os alicerces constitucionais sob tensão
  7. O Estado que essa agenda constrói
  8. A sociedade que essa agenda produz
  9. A soberania que essa agenda enfraquece
  10. O paradoxo do nacionalismo dependente
  11. Conclusão: soberania real ou soberania performática?
  12. Referências


1. Introdução: a pergunta que precisa ser feita

Toda eleição presidencial é, no fundo, uma disputa sobre o futuro. Não apenas sobre nomes, partidos ou slogans. Uma eleição decide que tipo de Estado será fortalecido, que tipo de sociedade será tolerada e que tipo de soberania será possível. Por isso, diante da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República em 2026, a pergunta mais importante não é apenas se ele será competitivo eleitoralmente, se herdará integralmente o espólio político do pai ou se conseguirá convencer o mercado financeiro de que possui previsibilidade econômica. A pergunta central é mais profunda: que tipo de Brasil a agenda política já sinalizada por Flávio Bolsonaro pretende construir?

Essa questão se tornou ainda mais relevante porque Flávio Bolsonaro não surge como um candidato isolado. Ele aparece como herdeiro direto do bolsonarismo, como representante de uma direita radicalizada, como interlocutor de setores do mercado financeiro e como figura política que tenta combinar três elementos: fidelidade simbólica ao projeto de Jair Bolsonaro, promessa de moderação estética e reafirmação de uma agenda econômica liberal-fiscalista. Em outras palavras, apresenta-se como um “Bolsonaro mais centrado”, mas preservando a matriz fundamental de um projeto que associa conservadorismo moral, redução do Estado social, privatizações, desregulamentação econômica e prioridade absoluta à confiança dos investidores.

A tese deste artigo é direta: a agenda já declarada ou sinalizada por Flávio Bolsonaro aponta para a construção de um Estado mínimo para os direitos sociais, forte para a ordem, submisso ao mercado financeiro e frágil como instrumento de desenvolvimento nacional soberano. Trata-se de uma agenda que pode parecer moderna quando fala em eficiência, corte de gastos, privatizações e melhora do ambiente de negócios, mas que carrega um risco profundo: reduzir o Brasil a uma economia administrada para satisfazer expectativas do capital, enquanto enfraquece os mecanismos constitucionais de proteção social, de universalização de direitos e de construção de autonomia nacional.

É necessário reconhecer, desde o início, uma distinção metodológica importante. Até o momento, não há programa oficial de governo registrado na Justiça Eleitoral com todos os detalhes da plataforma presidencial de Flávio Bolsonaro. Portanto, não seria rigoroso afirmar como fato consumado que determinadas medidas serão implementadas exatamente nos termos descritos por críticos ou analistas. O que existe são declarações públicas do próprio Flávio, falas de seu coordenador político, Rogério Marinho, reportagens sobre encontros com investidores, promessas feitas a empresários e sinalizações de continuidade da matriz econômica associada a Paulo Guedes.

A análise aqui desenvolvida parte dessas evidências disponíveis. Não se trata de adivinhar o futuro, mas de interpretar politicamente uma agenda em formação. Quando um pré-candidato fala em privatizar a imensa maioria das estatais, cortar gastos, reduzir impostos, retomar reformas previdenciárias e trabalhistas, suspender a reforma tributária para rediscuti-la e compor sua equipe econômica com nomes ligados à ortodoxia liberal do governo Bolsonaro, há elementos suficientes para perguntar: qual é o projeto de Estado embutido nessa linguagem?

A resposta não está apenas na economia. Está na filosofia política. Está na Constituição de 1988. Está na disputa entre dois modelos de país: de um lado, o Estado social, ainda incompleto e desigual, mas comprometido formalmente com saúde, educação, previdência, assistência social, trabalho e dignidade; de outro, o Estado gerencial-financeiro, que transforma direitos em custos, políticas públicas em entraves e soberania em promessa retórica.


2. Lide: quando a soberania deixa de ser bandeira e vira orçamento

Imagine uma pequena cidade brasileira em uma manhã comum. A escola pública abre os portões antes das sete. O posto de saúde já tem fila. Um aposentado espera a farmácia popular liberar o remédio. Uma mãe confere se o ônibus escolar passou. Um professor prepara aula com internet instável. Um jovem pensa em sair da cidade porque não vê emprego. Um agricultor familiar depende de crédito, assistência técnica e estrada para escoar sua produção. Tudo parece cotidiano, simples, quase invisível.

Mas ali está o Estado brasileiro em sua forma mais concreta. Não o Estado dos discursos em Brasília, nem o Estado abstrato das planilhas fiscais. O Estado real é a vacina, a escola, o benefício previdenciário, a universidade, o instituto federal, a estrada, o crédito rural, a pesquisa científica, o hospital, a vigilância sanitária, o programa social e a presença pública mínima que impede que milhões de pessoas sejam abandonadas à própria sorte.

Quando uma agenda política promete cortar gastos, privatizar estatais, revisar direitos previdenciários, flexibilizar relações trabalhistas e reduzir o papel do Estado, ela não está mexendo apenas em números. Está redesenhando a vida concreta dessa cidade. Está decidindo se o aposentado continuará comprando remédio, se a escola terá professor, se o SUS terá orçamento, se a universidade pública produzirá ciência, se o trabalhador terá proteção e se o país terá instrumentos para decidir seu próprio destino.

É por isso que a pergunta sobre Flávio Bolsonaro não pode ser reduzida à disputa eleitoral. A pergunta real é civilizatória: o Brasil será tratado como uma nação a ser desenvolvida ou como um ativo a ser ajustado?


3. O candidato do mercado: entre herança política e promessa econômica

A expressão “candidato do mercado” precisa ser usada com cuidado. O mercado não é uma pessoa, nem pensa de modo unificado. Há bancos, fundos, empresários, rentistas, industriais, exportadores, varejistas, setores nacionais, capital estrangeiro, liberais ortodoxos e pragmáticos. Ainda assim, na linguagem política brasileira, dizer que alguém é “o candidato do mercado” significa afirmar que esse nome busca representar uma agenda de estabilidade fiscal, previsibilidade regulatória, privatizações, redução do Estado, reformas pró-negócios e contenção dos gastos públicos.

Flávio Bolsonaro passou a ser tratado por parte da imprensa e de analistas como um nome capaz de ocupar esse espaço por alguns motivos. Primeiro, porque foi apresentado como herdeiro político direto de Jair Bolsonaro na disputa presidencial. Segundo, porque sua pré-campanha se movimentou para dialogar com bancos, fundos e empresários. Terceiro, porque sinalizou continuidade da matriz econômica de Paulo Guedes, cuja imagem foi central para dar credibilidade liberal à candidatura de Jair Bolsonaro em 2018. Quarto, porque passou a falar em privatização ampla, corte de gastos, redução de impostos e reformas estruturais.

Há aqui uma operação política clara. Flávio tenta vender ao mercado a ideia de que pode ser, simultaneamente, o herdeiro legítimo do bolsonarismo e uma versão mais previsível, moderada e palatável para setores econômicos. A tentativa é dizer: o radicalismo simbólico permanece para mobilizar a base; a agenda econômica liberal permanece para tranquilizar os investidores; a estética de moderação aparece para reduzir resistências.

Essa triangulação é politicamente sofisticada. Ela permite que o candidato fale à base bolsonarista com a linguagem da lealdade familiar, ao mercado com a linguagem do ajuste fiscal e ao eleitor de centro com a promessa de moderação. Mas essa composição carrega uma contradição: pode haver moderação no tom, mas a substância da agenda econômica sinalizada permanece profundamente regressiva do ponto de vista social.

A aproximação com o mercado, portanto, não é apenas um dado eleitoral. É uma chave interpretativa do projeto. Quando um candidato busca legitimação prioritária junto a bancos, fundos e empresários antes de apresentar de modo robusto um pacto social com trabalhadores, professores, profissionais da saúde, servidores públicos, pequenos produtores, estudantes e usuários do SUS, ele já indica quem são seus interlocutores preferenciais. A política sempre revela sua alma pela audiência que escolhe primeiro.


4. A agenda declarada: privatizações, corte de gastos e Estado mínimo social

A agenda já sinalizada por Flávio Bolsonaro pode ser organizada em três eixos principais: privatização ampla, corte de gastos públicos e redução de impostos. Esses três elementos formam o vocabulário clássico do liberalismo econômico de matriz fiscalista. Em abstrato, cada um deles pode ser discutido tecnicamente. O problema é quando deixam de ser instrumentos e passam a funcionar como dogmas.

Privatização pode fazer sentido em determinados setores, sob regulação pública forte, quando há ganho real de eficiência, universalização do serviço e preservação do interesse nacional. Corte de gastos pode ser necessário quando há desperdício, ineficiência, captura corporativa ou má alocação orçamentária. Redução de impostos pode estimular atividade econômica quando acompanhada de justiça tributária, compensação fiscal e redistribuição adequada da carga. Porém, quando esses três elementos aparecem como núcleo moral de um projeto político, sem debate profundo sobre desigualdade, soberania, desenvolvimento e direitos sociais, deixam de ser medidas de gestão e se transformam em visão de mundo.

Essa visão de mundo parte de uma premissa: o Estado é, por natureza, ineficiente; o mercado é, por natureza, mais racional; o gasto social é, por natureza, suspeito; e o investimento privado é, por natureza, virtuoso. Essa premissa não é neutra. Ela rebaixa a política democrática e eleva o mercado a árbitro da vida nacional.

4.1 Privatizar quase tudo: o Estado como obstáculo

A promessa de privatizar grande parte das estatais revela uma concepção muito específica de Estado. Nessa concepção, empresas públicas não são vistas como possíveis instrumentos estratégicos de desenvolvimento, mas como ativos a serem transferidos. A pergunta deixa de ser “qual função estratégica esta empresa cumpre?” e passa a ser “quanto ela vale no mercado?”.

Esse deslocamento é perigoso. Um país continental, desigual e periférico como o Brasil não pode abrir mão de instrumentos públicos sem avaliar suas consequências de longo prazo. Energia, crédito, infraestrutura, tecnologia, comunicação, logística, defesa, saneamento e pesquisa não são setores comuns. São áreas ligadas à capacidade de planejamento nacional.

O debate sério sobre privatizações não pode ser religioso. Nem toda estatal é eficiente. Nem toda privatização é ruim. Nem todo serviço público direto é superior. Mas o inverso também é verdadeiro: nem toda estatal é inútil, nem toda privatização melhora a vida do cidadão, nem todo investidor privado age segundo o interesse público. Por isso, privatizar “95% das estatais”, como promessa política geral, soa menos como política pública e mais como ideologia de liquidação patrimonial.

O Estado que emerge dessa promessa é um Estado sem braços produtivos, sem empresas estratégicas e cada vez mais dependente de contratos, concessões, agências reguladoras fragilizadas e decisões privadas tomadas segundo critérios de rentabilidade. A soberania nacional, nesse cenário, fica condicionada ao humor dos investidores e à capacidade do Estado de regular aquilo que ele já não controla diretamente.

4.2 Cortar gastos: quando o ajuste fiscal vira projeto de sociedade

A expressão “cortar gastos” tem forte apelo popular. Ninguém deseja desperdício. Ninguém defende corrupção, privilégios injustificáveis ou ineficiência. O problema é que, na política brasileira, “corte de gastos” frequentemente funciona como eufemismo para compressão de políticas sociais, congelamento de investimentos públicos e redução da capacidade estatal.

A pergunta decisiva é: cortar o quê, de quem e para quê?

Cortar desperdícios administrativos é uma coisa. Cortar orçamento da saúde, da educação, da ciência, da assistência social, da fiscalização ambiental, da cultura, da moradia e da agricultura familiar é outra. Quando a régua do ajuste fiscal não distingue gasto improdutivo de investimento social, o Estado passa a amputar as próprias pernas em nome da elegância contábil.

A Constituição de 1988 instituiu direitos sociais exatamente porque reconheceu que o mercado, sozinho, não produz cidadania universal. Educação, saúde, trabalho, previdência, proteção à infância, assistência aos desamparados e dignidade não podem depender apenas da capacidade individual de compra. O Brasil não criou o SUS, a educação pública e a seguridade social porque era rico; criou porque era desigual. E exatamente por ser desigual, precisava de políticas universais.

Quando o corte de gastos se transforma em princípio superior, o pacto constitucional é rebaixado. O orçamento deixa de ser instrumento de concretização de direitos e passa a ser mecanismo de contenção permanente das demandas sociais. O cidadão deixa de aparecer como sujeito de direitos e passa a ser visto como pressão fiscal.

4.3 Reduzir impostos: para quem e a que custo?

Reduzir impostos pode parecer sempre positivo. Mas a tributação é uma das expressões mais concretas do pacto social. Todo Estado precisa arrecadar para financiar bens públicos, garantir direitos, manter infraestrutura, investir em ciência, proteger os vulneráveis e assegurar segurança institucional. A questão não é simplesmente pagar menos impostos. A questão é quem paga, quanto paga, sobre o que paga e quem se beneficia do gasto público.

O Brasil possui uma estrutura tributária historicamente regressiva, concentrada no consumo e menos eficiente na tributação de renda e patrimônio. Portanto, uma agenda séria de redução de impostos deveria começar pela justiça fiscal: aliviar os mais pobres, simplificar o sistema, combater privilégios, tributar melhor altas rendas e patrimônio, reduzir distorções e preservar capacidade de financiamento do Estado.

Quando a promessa de reduzir impostos vem acompanhada de corte de gastos e privatizações, mas sem desenho claro de justiça tributária, ela pode significar apenas redução da capacidade pública de ação. O Estado arrecada menos, investe menos, regula menos, protege menos e transfere mais responsabilidades ao indivíduo. O resultado é uma sociedade em que quem pode compra saúde, educação, segurança, previdência e mobilidade; quem não pode espera, improvisa ou desiste.


5. Previdência, trabalho e reforma fiscal: o núcleo duro da agenda regressiva

O ponto mais sensível da agenda sinalizada por Flávio Bolsonaro está nas reformas previdenciária, trabalhista e fiscal. Elas formam o núcleo duro de qualquer projeto de reorganização do Estado social. Não são temas técnicos isolados. São escolhas sobre o tempo de vida do trabalhador, o valor da aposentadoria, a proteção contra a exploração, a distribuição de renda e a capacidade do Estado de financiar direitos.

5.1 A nova reforma da Previdência

Rogério Marinho, coordenador da pré-campanha de Flávio Bolsonaro, sinalizou a necessidade de nova reforma da Previdência. A justificativa usual é conhecida: envelhecimento populacional, pressão sobre as contas públicas e necessidade de sustentabilidade fiscal. Esses argumentos não podem ser ignorados. O Brasil, como outros países, terá de lidar com mudanças demográficas e com o equilíbrio de seu sistema previdenciário.

Mas a questão é outra: que tipo de reforma se propõe? Uma reforma previdenciária pode buscar justiça, combater privilégios, proteger os mais pobres, garantir sustentabilidade e preservar dignidade. Ou pode simplesmente empurrar o custo do ajuste para trabalhadores, idosos, mulheres, pessoas com deficiência e populações mais vulneráveis.

A Previdência não é apenas despesa. É renda. É proteção. É economia local. Em milhares de municípios brasileiros, aposentadorias e pensões sustentam famílias inteiras, movimentam o comércio e impedem colapso social. Reduzir o valor real de benefícios ou dificultar excessivamente o acesso à aposentadoria não afeta apenas planilhas fiscais; afeta a circulação econômica, a dignidade do idoso e a segurança das famílias.

A agenda previdenciária, portanto, precisa ser lida como parte de uma visão de sociedade. Quando a velhice passa a ser tratada como problema fiscal, e não como etapa da vida a ser protegida, há uma regressão civilizatória.

5.2 A revisão da reforma trabalhista

A sinalização de revisar a reforma trabalhista de 2017 também deve ser analisada com cuidado. A reforma de 2017 foi apresentada como caminho para modernizar relações de trabalho, reduzir litígios e estimular empregos. Seus críticos, porém, apontam que ela contribuiu para maior precarização, fragilização sindical e ampliação de formas instáveis de contratação.

Quando a campanha de Flávio fala em “revisitar” essa reforma, a direção provável, pelo campo político em que se insere, não é ampliar proteção ao trabalhador, mas aprofundar flexibilizações. Isso significa que o trabalhador pode ser colocado em posição ainda mais assimétrica diante do empregador.

É evidente que o mundo do trabalho mudou. Plataformas digitais, inteligência artificial, automação, terceirização e novas formas de prestação de serviço exigem atualização normativa. Mas modernizar não pode significar abandonar o trabalhador. Um país que precariza sua força de trabalho não se torna moderno; torna-se barato. E há enorme diferença entre ser competitivo pela inovação e ser competitivo pela exploração.

Uma sociedade soberana precisa de trabalhadores qualificados, protegidos, produtivos e capazes de consumir. A precarização permanente corrói o tecido social e transforma a sobrevivência em empreendimento individual angustiante.

5.3 A suspensão da reforma tributária

A proposta de suspender por um ano a implementação da reforma tributária para rediscuti-la revela outro aspecto da agenda: a tentativa de reorganizar o sistema fiscal segundo os interesses de setores empresariais que se sentem prejudicados pelo modelo aprovado. Toda reforma tributária pode e deve ser aperfeiçoada. Nenhuma legislação complexa nasce perfeita. O problema é quando a suspensão se transforma em instrumento de incerteza.

O Brasil levou décadas para aprovar uma reforma ampla sobre o consumo. Interromper sua implementação pode atender a certos grupos, mas também pode gerar insegurança jurídica, atrasar simplificações e manter distorções históricas. Se a rediscussão tiver como objetivo melhorar justiça fiscal, proteger os mais pobres e racionalizar a transição, o debate é legítimo. Se tiver como objetivo preservar privilégios, reduzir contribuição de setores de alta renda e enfraquecer fundos de compensação regional, o resultado será regressivo.

Mais uma vez, a pergunta não é apenas técnica. A pergunta é política: a reforma tributária será redesenhada para tornar o país mais justo ou para reduzir custos dos mais influentes?


6. Saúde e educação: os alicerces constitucionais sob tensão

A Constituição de 1988 estabeleceu saúde e educação como direitos fundamentais e deveres do Estado. A saúde, no artigo 196, é direito de todos e dever do Estado. A educação, no artigo 205, é direito de todos e dever do Estado e da família. Esses dispositivos não são enfeites jurídicos. São escolhas civilizatórias.

O Brasil criou um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. O SUS atende milhões de pessoas diariamente e é indispensável para a população brasileira. Ao mesmo tempo, a educação pública sustenta desde a alfabetização até universidades, institutos federais, pesquisa científica e formação técnica. Sem esses sistemas, o Brasil deixaria de ser uma República social minimamente integrada e se transformaria em uma sociedade de acesso segmentado: serviços de qualidade para quem pode pagar, precariedade para quem depende do público.

Por isso, qualquer agenda que trate saúde e educação apenas como pressão fiscal ameaça o núcleo da Constituição de 1988. Os pisos constitucionais existem porque, sem vinculação mínima, essas áreas ficam vulneráveis ao ciclo político e às pressões de curto prazo. Em momentos de crise fiscal, governos tendem a cortar exatamente aquilo que produz resultado de longo prazo: educação, prevenção em saúde, ciência, cultura, infraestrutura e pesquisa.

A desvinculação ou compressão indireta desses recursos teria impacto profundo. No SUS, significaria maior tempo de espera, redução de capacidade hospitalar, dificuldade na compra de medicamentos, piora da atenção básica e maior desigualdade regional. Na educação, significaria escolas mais frágeis, professores menos valorizados, menor expansão da educação integral, universidades pressionadas e institutos federais com menos capacidade de inovação.

Um país que enfraquece saúde e educação não economiza; acumula dívida social. E dívida social cobra juros altos: violência, baixa produtividade, dependência tecnológica, desigualdade, adoecimento, evasão escolar e desesperança.


7. O Estado que essa agenda constrói

A agenda sinalizada por Flávio Bolsonaro constrói um Estado seletivo. Mínimo para garantir direitos sociais, mas forte para proteger propriedade, ordem e interesses do mercado. É o Estado que se retrai quando o cidadão pede saúde, educação, trabalho digno e previdência; mas se expande quando se trata de segurança, repressão, garantias ao capital e estabilidade para investidores.

Esse modelo não elimina o Estado. Essa é uma ilusão. Nenhum projeto neoliberal elimina o Estado; ele apenas muda sua função. O Estado deixa de ser indutor do desenvolvimento e garantidor de direitos para se tornar gestor de austeridade, garantidor de contratos, disciplinador social e administrador de riscos para o mercado.

Em vez de planejar o desenvolvimento, o Estado passa a “criar ambiente de negócios”. Em vez de coordenar políticas industriais e tecnológicas, passa a atrair investimentos. Em vez de universalizar direitos, passa a focalizar mínimos. Em vez de reduzir desigualdades estruturais, passa a responsabilizar o indivíduo por sua própria vulnerabilidade.

Esse Estado é funcional para uma economia financeirizada, mas insuficiente para uma nação desigual. Ele pode agradar aos investidores no curto prazo, mas enfraquece a capacidade nacional de enfrentar problemas complexos: transição energética, reindustrialização, inteligência artificial, soberania alimentar, crise climática, desigualdade educacional, dependência tecnológica e segurança sanitária.

Um Estado soberano precisa arrecadar, investir, planejar, regular, proteger e inovar. Um Estado reduzido à tesoura fiscal perde densidade histórica.


8. A sociedade que essa agenda produz

Toda política econômica produz uma pedagogia social. Ela ensina às pessoas o que esperar da vida coletiva. Uma agenda de Estado mínimo social ensina que cada indivíduo deve se virar sozinho. Quem tem dinheiro compra proteção. Quem não tem, depende da sorte, da caridade ou de serviços públicos enfraquecidos.

A sociedade produzida por essa agenda é mais desigual, mais ansiosa e mais competitiva em sentido predatório. O trabalhador teme perder direitos. O idoso teme perder renda. O jovem teme não ter emprego. A família teme não conseguir pagar saúde, escola, transporte e moradia. O pequeno empreendedor teme instabilidade. O professor teme desvalorização. O servidor público vira inimigo simbólico. O pobre vira custo. O beneficiário vira suspeito. O Estado vira problema.

Esse tipo de sociedade não fortalece liberdade. Pelo contrário, destrói as condições materiais da liberdade. A liberdade real exige algum grau de segurança social. Um cidadão com fome, desempregado, endividado, doente ou sem acesso à educação não é plenamente livre. Ele pode votar, mas vota sob medo. Pode empreender, mas empreende por desespero. Pode trabalhar, mas aceita qualquer condição.

A promessa liberal de autonomia individual, quando aplicada em uma sociedade profundamente desigual, pode virar abandono organizado. Dizer “cada um por si” em um país em que alguns nascem com tudo e outros nascem sem saneamento, escola adequada e segurança alimentar não é meritocracia; é legitimação da desigualdade hereditária.

A sociedade que emerge dessa agenda é uma sociedade de cidadania estratificada. Direitos universais são substituídos por serviços comprados. O comum se desfaz. A ideia de República perde força. A nação deixa de ser comunidade de destino e se transforma em condomínio de interesses privados.


9. A soberania que essa agenda enfraquece

Soberania não é apenas território, bandeira, hino ou Forças Armadas. Soberania é capacidade de decidir o próprio futuro. E essa capacidade depende de orçamento público, ciência, tecnologia, indústria, educação, saúde, infraestrutura, energia, alimentos, dados, defesa, diplomacia e coesão social.

Um país que não controla setores estratégicos, não investe em ciência, não fortalece universidades, não possui política industrial, não desenvolve tecnologia própria, não protege sua população e não reduz desigualdades estruturais pode até manter aparência formal de soberania. Mas sua soberania será frágil.

A agenda de privatizações amplas e corte de gastos tende a enfraquecer instrumentos de soberania. Se empresas estratégicas são vendidas sem critério, se investimentos públicos são comprimidos, se ciência e educação são tratadas como despesa, se saúde depende de importações críticas, se dados ficam sob domínio de plataformas estrangeiras, se infraestrutura é controlada por interesses privados transnacionais, o país perde autonomia material.

Soberania real exige capacidade estatal. O Estado não precisa fazer tudo, mas precisa poder orientar o desenvolvimento. Precisa ter instrumentos para coordenar setores estratégicos. Precisa regular mercados com força. Precisa proteger o interesse público diante do poder econômico. Precisa investir onde o retorno social é enorme, mesmo quando o retorno privado é lento.

O Brasil não será soberano apenas por discursos nacionalistas. Será soberano se tiver indústria avançada, universidades fortes, institutos federais bem financiados, complexo econômico-industrial da saúde, política energética estratégica, agricultura sustentável, defesa tecnológica, inteligência artificial própria, infraestrutura integrada e povo educado.

Sem isso, a soberania vira decoração retórica.


10. O paradoxo do nacionalismo dependente

Há um paradoxo no bolsonarismo econômico: fala-se muito em pátria, mas entrega-se pouco em termos de projeto nacional. O discurso é nacionalista nos símbolos, mas frequentemente dependente na economia. Exalta-se a bandeira, mas subordina-se o orçamento ao mercado. Fala-se em soberania, mas enfraquece-se o Estado. Invoca-se liberdade, mas reduz-se a proteção concreta que permite ao cidadão viver com dignidade.

Esse é o nacionalismo dependente: muito gesto patriótico, pouca autonomia estrutural.

O nacionalismo real não deveria ser medido pela intensidade do discurso, mas pela capacidade de construir independência material. Um projeto verdadeiramente nacional deveria perguntar: como reduzir a dependência tecnológica? Como fortalecer a indústria brasileira? Como ampliar a capacidade científica? Como garantir soberania alimentar? Como desenvolver inteligência artificial com interesse público? Como proteger dados nacionais? Como tornar o SUS menos dependente de insumos externos? Como transformar educação pública em motor de inovação? Como fazer da transição energética uma oportunidade de desenvolvimento?

A agenda sinalizada por Flávio Bolsonaro, ao contrário, parece responder a outra pergunta: como reduzir o Estado para liberar espaço ao mercado?

Essa pergunta pode interessar a investidores. Mas é insuficiente para uma nação.

Um país como o Brasil não pode ser pensado apenas como plataforma de negócios. É uma sociedade complexa, desigual, continental, com desafios históricos de integração territorial, justiça social, desenvolvimento tecnológico e autonomia internacional. Reduzir esse país à lógica do ajuste fiscal é uma forma de empobrecimento político.


11. Conclusão: soberania real ou soberania performática?

A agenda política já declarada ou sinalizada por Flávio Bolsonaro permite identificar um projeto de país. Esse projeto combina privatizações amplas, corte de gastos, redução de impostos, revisão previdenciária, aprofundamento da flexibilização trabalhista, rediscussão da reforma tributária e aproximação com setores do mercado financeiro. Em sua superfície, apresenta-se como modernização econômica. Em sua estrutura profunda, aponta para uma reconstrução regressiva do Estado brasileiro.

O Estado que essa agenda constrói é mínimo para os direitos sociais e forte para o mercado. A sociedade que ela produz é mais individualizada, insegura e desigual. A soberania que ela promete é mais simbólica do que real, porque enfraquece justamente os instrumentos materiais que permitem a uma nação decidir seu destino: orçamento público, empresas estratégicas, ciência, educação, saúde, infraestrutura, trabalho protegido e capacidade estatal.

É evidente que o Brasil precisa de reformas. Precisa combater desperdícios, modernizar a administração pública, simplificar tributos, melhorar a eficiência do gasto, avaliar políticas públicas, reduzir privilégios injustificáveis e ampliar produtividade. Mas reforma não pode ser sinônimo de desmonte. Eficiência não pode significar abandono. Responsabilidade fiscal não pode ser convertida em irresponsabilidade social. E soberania não pode ser confundida com performance patriótica.

O grande risco da agenda de Flávio Bolsonaro é substituir o pacto constitucional de 1988 por um pacto financeiro de austeridade permanente. No primeiro, o Estado existe para garantir direitos e reduzir desigualdades. No segundo, o Estado existe para tranquilizar investidores e conter demandas sociais. No primeiro, a cidadania é fundamento. No segundo, a cidadania é custo. No primeiro, soberania é projeto nacional. No segundo, soberania é retórica eleitoral.

A pergunta que deve orientar o debate público brasileiro em 2026 não é apenas quem vencerá a eleição. É o que restará do Brasil depois da vitória de determinado projeto. Porque uma nação não se perde apenas quando suas fronteiras são invadidas. Uma nação também se perde quando abre mão de sua capacidade de cuidar do próprio povo, formar suas crianças, proteger seus idosos, financiar sua ciência, regular sua economia e decidir seu futuro.

Soberania real é SUS forte, escola pública digna, universidade viva, instituto federal atuante, trabalhador protegido, aposentadoria decente, ciência nacional, indústria estratégica, energia segura, tecnologia própria e democracia substantiva. Soberania performática é bandeira na janela enquanto o orçamento público é entregue à lógica do corte permanente.

Se a agenda sinalizada por Flávio Bolsonaro for implementada em sua forma mais radical, o Brasil não caminhará para uma modernização soberana. Caminhará para uma regressão sofisticada: uma regressão com linguagem técnica, roupa de eficiência, aplauso do mercado e custo social profundo.

A disputa, portanto, não é entre Estado eficiente e Estado inchado. Essa é uma falsa alternativa. A disputa verdadeira é entre um Estado democrático de desenvolvimento social e um Estado financeirizado de contenção social. Entre uma sociedade de direitos e uma sociedade de sobrevivência individual. Entre soberania real e soberania de propaganda.

E a história ensina que países que abrem mão de proteger seu povo acabam abrindo mão de si mesmos.


12. Referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

BRASIL. Ministério da Fazenda. Gasto da União com manutenção e desenvolvimento do ensino alcança 102% do mínimo constitucional em 2024. Brasília, DF: Ministério da Fazenda, 2025.

BRASIL. Ministério da Saúde. Viva o SUS! O maior sistema público de saúde do mundo é gratuito, universal e do Brasil. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025.

BRASIL. Senado Federal. Senador Flávio Bolsonaro: perfil parlamentar. Brasília, DF: Senado Federal, 2026.

FOLHA DE S.PAULO. Flávio Bolsonaro vai suspender reforma tributária por um ano para rediscuti-la, diz coordenador. São Paulo: Folha de S.Paulo, 2026.

NEOFEED. As promessas de Flávio Bolsonaro: privatização de 95% das estatais e corte de gastos e de impostos. São Paulo: NeoFeed, 2026.

PODER360. Sem Guedes, Flávio quer manter “espinha dorsal” na economia. Brasília, DF: Poder360, 2026.

REUTERS. Brazil Senator Flavio Bolsonaro woos business leaders ahead of presidential run. Londres: Reuters, 2025.



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