Como parte da sociedade transformou preconceito, autoritarismo e desprezo democrático em discurso de fé, moral, família e pátria
Lide
O espanto brasileiro não está apenas no fato de Jair Bolsonaro ter chegado à Presidência da República em 2018. Está, sobretudo, no fato de que parte do país viu virtude onde havia agressividade, viu coragem onde havia crueldade retórica, viu moral onde havia intolerância e viu patriotismo onde havia desprezo pelas bases constitucionais da democracia. A questão central não é apenas eleitoral. É civilizatória: como uma sociedade democrática passa a normalizar discursos incompatíveis com a dignidade humana?
1. Introdução: a tese
Imagine uma família reunida diante da televisão. Na tela, um político fala com linguagem dura, debocha de minorias, relativiza a violência de Estado, transforma agressividade em autenticidade e apresenta preconceito como “opinião sincera”. Uma pessoa na sala se incomoda. Outra diz: “Pelo menos ele fala a verdade”. Uma terceira completa: “É disso que o Brasil precisa”.
É nesse pequeno diálogo doméstico que mora o problema político brasileiro.
A tese deste artigo é simples e incômoda: o bolsonarismo não nasceu apenas de uma candidatura; nasceu de uma pedagogia social da brutalidade, na qual preconceito, violência simbólica, nostalgia autoritária e ressentimento foram reinterpretados como fé, moral, família e pátria.
Bolsonaro foi eleito em 2018 com 55,13% dos votos válidos no segundo turno, segundo dados oficiais da Justiça Eleitoral. Portanto, não se trata de fenômeno marginal, mas de uma escolha política massiva, institucional e historicamente relevante.
O problema é que a Constituição brasileira estabelece como fundamentos da República a dignidade da pessoa humana, a cidadania e o pluralismo político. Também fixa como objetivos fundamentais construir uma sociedade livre, justa e solidária e promover o bem de todos sem preconceitos.
Quando um país normaliza discursos que ferem esses fundamentos, ele não está apenas escolhendo um governante. Está revelando uma crise ética profunda.
2. O “homem sincero” como máscara do autoritarismo
Um dos truques mais eficientes da extrema direita contemporânea é transformar agressividade em sinceridade. O sujeito ofende, discrimina, humilha, ameaça simbolicamente e depois se apresenta como alguém “sem filtro”.
Mas sinceridade não é salvo-conduto para a desumanização. Uma democracia não exige que todos pensem igual. Exige, porém, que ninguém seja tratado como menos humano por sua orientação sexual, gênero, origem, raça, religião ou posição política.
A Constituição de 1988 não fundou uma república do insulto. Fundou uma república democrática de direitos. Seu artigo 5º afirma a igualdade de todos perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.
Por isso, quando parte da sociedade diz “ele fala o que pensa”, a pergunta correta deveria ser: e o que exatamente ele pensa sobre quem é diferente?
Porque uma coisa é falar contra corrupção, ineficiência estatal ou privilégios. Outra, muito diferente, é converter grupos sociais em alvos morais. A primeira atitude pertence ao debate público. A segunda corrói a civilização democrática.
3. Fé, moral, família e pátria: palavras sequestradas
Nenhuma dessas palavras é, em si, autoritária. Fé pode significar humildade, compaixão e responsabilidade. Moral pode significar coerência entre discurso e prática. Família pode significar cuidado, afeto e proteção. Pátria pode significar compromisso com o povo, com a soberania e com as instituições.
O problema começa quando essas palavras deixam de ser valores e viram armas.
A fé é sequestrada quando passa a servir como autorização para perseguir adversários. A moral é sequestrada quando passa a conviver com mentira, ódio e desprezo pelos vulneráveis. A família é sequestrada quando passa a excluir famílias reais que não cabem no modelo ideológico do grupo dominante. A pátria é sequestrada quando passa a ser confundida com culto a um líder.
Nesse ponto, o slogan moralista deixa de ser ética e vira embalagem.
A pergunta, então, é inevitável: que moral é essa que tolera a humilhação? Que fé é essa que despreza o próximo? Que família é essa que precisa odiar outras famílias para se afirmar? Que pátria é essa que enfraquece a própria Constituição?
4. Tortura não é opinião: é crime e trauma histórico
A defesa simbólica da tortura talvez seja um dos pontos mais graves desse processo. O Brasil viveu uma ditadura militar, e a Comissão Nacional da Verdade concluiu que o regime praticou prisões ilegais, tortura, execuções e desaparecimentos forçados, caracterizando tais práticas como crimes contra a humanidade.
Além disso, a Lei nº 9.455/1997 define os crimes de tortura no Brasil. Ou seja: tortura não é tema de preferência ideológica. Não é “método duro”. Não é “excesso necessário”. É crime.
Na votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, Bolsonaro homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra, figura associada à repressão durante a ditadura, em sessão oficial da Câmara dos Deputados.
Esse episódio é politicamente pedagógico. Ele mostra como a memória autoritária pode ser reintroduzida no espaço público não como vergonha, mas como orgulho. E quando a violência de Estado vira motivo de aplauso, a democracia já perdeu parte de sua alma.
5. O ressentimento como combustível político
Nenhum projeto autoritário cresce apenas com ideias. Ele precisa de afetos. Medo. Raiva. Insegurança. Humilhação. Ressentimento.
O bolsonarismo compreendeu algo essencial: muita gente não queria apenas uma proposta de governo. Queria uma linguagem que desse nome ao seu incômodo. E essa linguagem foi organizada em torno de inimigos: a esquerda, o professor, a universidade, a imprensa, o movimento LGBT, os direitos humanos, o Supremo, a cultura, a ciência.
Essa operação é poderosa porque simplifica a realidade. Em vez de discutir desigualdade, reforma tributária, segurança pública, educação, saúde, produtividade, industrialização e soberania, oferece-se um culpado moral.
É como se a política virasse uma doença autoimune: o corpo social começa a atacar partes de si mesmo achando que está se defendendo.
6. A doença moral da normalização
O Brasil adoeceu não porque uma pessoa disse coisas absurdas. Toda sociedade produz figuras públicas extremadas. O adoecimento ocorre quando o absurdo deixa de escandalizar.
A normalização tem etapas.
Primeiro, vem o choque: “Ele disse isso mesmo?”
Depois, vem a relativização: “Foi tirado de contexto.”
Depois, vem a justificativa: “Mas ele está certo em parte.”
Depois, vem a identificação: “Ele fala por mim.”
Por fim, vem a inversão moral: quem denuncia o absurdo passa a ser tratado como inimigo, exagerado, comunista, hipócrita ou perseguidor.
Essa é a engenharia da degradação pública.
7. Democracia não é apenas votar
Muitos dizem: “Mas ele foi eleito democraticamente”. Sim, foi eleito pelo voto. Mas democracia não se resume ao procedimento eleitoral.
Democracia é voto, mas também é limite ao poder. É maioria, mas também proteção das minorias. É disputa política, mas também respeito às regras constitucionais. É liberdade de expressão, mas também responsabilidade pública diante da dignidade humana.
A Constituição brasileira não autoriza uma democracia selvagem, em que a maioria pode esmagar quem pensa, vive ou ama de modo diferente. Ela institui um Estado Democrático de Direito.
Essa distinção é decisiva. Sem ela, qualquer líder eleito poderia se sentir autorizado a atacar instituições, perseguir adversários e converter preconceitos em política de Estado.
8. O falso moralismo anticorrupção
Outro elemento central foi a ideia de que Bolsonaro representaria uma purificação moral da política. O problema é que o moralismo político costuma ser seletivo.
Ele não combate a imoralidade como princípio. Combate apenas a imoralidade atribuída ao inimigo.
Quando a ética vira arma partidária, ela deixa de ser ética e vira propaganda. A verdadeira moral pública exige coerência: respeito à lei, transparência, responsabilidade institucional, compromisso com a verdade, defesa da vida e recusa da violência.
Não basta dizer “Deus, família e pátria”. É preciso perguntar: quais práticas concretas acompanham essas palavras?
A política séria começa quando se abandona o encantamento pelo slogan e se examina a conduta.
9. Por que tanta gente aderiu?
A resposta não cabe em uma explicação única. Houve crise econômica, antipetismo, insegurança pública, desgaste institucional, operação midiática, uso intenso das redes sociais, desconfiança nos partidos tradicionais e uma profunda crise de representação.
Mas houve também algo mais íntimo: a liberação de sentimentos reprimidos.
Parte da sociedade encontrou nesse discurso uma autorização para dizer o que antes era socialmente constrangido. Preconceitos antigos ganharam vocabulário político novo. O que antes aparecia como grosseria passou a ser chamado de coragem. O que antes era intolerância passou a ser chamado de defesa de valores.
Esse é o ponto delicado: Bolsonaro não inventou sozinho o Brasil autoritário. Ele revelou, organizou e autorizou uma parte dele.
10. A responsabilidade das instituições e da educação
A saída não é apenas eleitoral. É pedagógica, institucional e cultural.
A escola precisa ensinar democracia não como capítulo decorativo, mas como prática de convivência. A universidade precisa defender o pensamento crítico. A imprensa precisa abandonar a falsa equivalência entre verdade e mentira. As igrejas precisam distinguir fé de manipulação política. O Judiciário precisa defender a Constituição sem medo de pressões populistas. Os partidos precisam reconstruir programas, não apenas campanhas.
E cada cidadão precisa fazer uma pergunta simples antes de apoiar qualquer liderança: essa pessoa amplia ou diminui a humanidade dos outros?
Essa pergunta é mais profunda do que parece.
Conclusão
O absurdo não está apenas no fato de um homem com histórico público de declarações agressivas ter se tornado presidente. O absurdo maior está em parte da sociedade ter reinterpretado essas declarações como virtudes políticas.
O Brasil adoeceu quando confundiu brutalidade com autenticidade, preconceito com coragem, autoritarismo com ordem, violência com justiça, religião com dominação moral e patriotismo com obediência a um líder.
Mas uma sociedade não está condenada à doença. Ela pode diagnosticar seus próprios sintomas. Pode reconhecer que democracia não é apenas escolher governantes, mas proteger a dignidade humana contra o arbítrio. Pode entender que fé sem amor vira instrumento de poder; moral sem coerência vira hipocrisia; família sem afeto vira patrulha; pátria sem Constituição vira culto.
A história talvez explique esse período, sim. Mas não como acidente. Explicará como advertência: quando a democracia deixa de educar seus cidadãos para a dignidade, o autoritarismo educa para o ressentimento.
Referências — ABNT
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: Planalto. Acesso em: 10 jun. 2026.
BRASIL. Lei nº 9.455, de 7 de abril de 1997. Define os crimes de tortura e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1997.
BRASIL. Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. Brasília, DF: Presidência da República, 1989.
BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade. Brasília, DF: CNV, 2014.
BRASIL. Câmara dos Deputados. Notas taquigráficas da sessão deliberativa extraordinária de 17 de abril de 2016. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2016.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Resultados das Eleições 2018. Brasília, DF: TSE, 2018.
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