sexta-feira, 3 de abril de 2026

Da tutela à contenção: como os Estados Unidos influenciaram o Brasil da Guerra Fria à crise democrática contemporânea

Entre golpe, reforma educacional, espionagem, pressão judicial e alinhamento ideológico, a relação Brasil-EUA revela uma longa história de ingerência, cálculo estratégico e disputa pela soberania brasileira


Índice

  1. Introdução
  2. O paradigma de 1964: quando a ingerência foi aberta
    2.1 IPES, IBAD e a guerra política contra João Goulart
    2.2 Operação Brother Sam e o respaldo logístico ao golpe
  3. Educação como campo de reorganização ideológica
    3.1 Os acordos MEC-USAID
    3.2 Reforma universitária, tecnocratização e esvaziamento crítico
  4. Da força militar ao controle informacional
    4.1 A espionagem da NSA sobre Dilma e a Petrobras
    4.2 Lava Jato, cooperação internacional e controvérsias de soberania
  5. O paradoxo recente: os EUA como freio à ruptura de 2022
    5.1 Sullivan, Burns, Austin e a pressão pela normalidade eleitoral
    5.2 O reconhecimento relâmpago da vitória de Lula
  6. O bolsonarismo e a lógica do alinhamento subordinado
    6.1 Jair Bolsonaro e a ruptura com a tradição diplomática de autonomia
    6.2 Concessões unilaterais: vistos, OMC e Alcântara
    6.3 Eduardo Bolsonaro, sanções e a internacionalização do conflito contra o Judiciário
    6.4 Flávio Bolsonaro e o “conservadorismo 2.0” pró-Washington
  7. Conclusão
  8. Pontos centrais do artigo
  9. Livros para aprofundamento
  10. Referências



Lide


A relação entre Brasil e Estados Unidos nunca foi apenas diplomática. Ela sempre esteve atravessada por assimetrias de poder, interesses econômicos, disputas ideológicas e estratégias de contenção geopolítica. Em 1964, Washington apoiou a derrubada de um governo brasileiro eleito; décadas depois, interferiu por meio de reformas educacionais, espionagem e cooperação judicial controversa; e, em 2022, passou a atuar para impedir uma ruptura institucional no país. O que muda ao longo do tempo não é a existência da influência norte-americana, mas a linguagem por meio da qual ela se exerce. O dado decisivo, porém, talvez seja outro: nenhuma potência externa opera sozinha. Toda tutela duradoura depende, também, de atores internos dispostos a aceitá-la, normalizá-la ou mesmo solicitá-la. 




1. Introdução


A história das relações entre Brasil e Estados Unidos é, ao mesmo tempo, uma história de aproximação e de assimetria. Em linguagem diplomática, costuma-se falar em “parceria”, “cooperação” ou “interesses comuns”. Mas uma observação mais rigorosa mostra que, em diferentes conjunturas, Washington tratou o Brasil não como um igual, mas como peça estratégica em sua arquitetura hemisférica de poder. Esse padrão não surgiu por acaso. Ele se inscreve numa longa tradição de política externa norte-americana para a América Latina, marcada pela doutrina de contenção, pela defesa de áreas de influência e pela tentativa de impedir que governos periféricos escapem de certos limites considerados aceitáveis pela potência hegemônica. 


O caso brasileiro é emblemático porque reúne quase todas as formas clássicas e contemporâneas de influência externa: apoio político a forças desestabilizadoras, preparo de suporte militar, indução de reformas educacionais, vigilância tecnológica, cooperação judicial assimétrica e pressão diplomática de alto nível. Em alguns momentos, essa influência foi abertamente reacionária, como em 1964. Em outros, assumiu contornos mais sofisticados, travestida de assistência técnica, cooperação institucional ou defesa da democracia. O fio de continuidade está menos no discurso e mais na lógica: preservar interesses estratégicos norte-americanos num país-chave da América do Sul. 




2. O paradigma de 1964: quando a ingerência foi aberta



2.1 IPES, IBAD e a guerra política contra João Goulart


O golpe de 1964 continua sendo o episódio mais documentado de intervenção norte-americana na política brasileira. O governo de João Goulart passou a ser visto por Washington como uma ameaça potencial em plena Guerra Fria, sobretudo por defender reformas estruturais, ampliação de direitos sociais e maior autonomia nacional diante dos Estados Unidos. Nesse contexto, a batalha contra Jango não se travou apenas nos quartéis. Antes do movimento militar, houve uma guerra política, ideológica e midiática para criar no espaço público a imagem de que o governo estava conduzindo o país ao caos e ao comunismo. 


É nesse cenário que ganham relevo o IPES e o IBAD. Esses organismos operaram como centros de propaganda anticomunista, articulação empresarial e financiamento de candidaturas e posições conservadoras. A literatura histórica discute em detalhe a conexão entre essas estruturas, o empresariado brasileiro e a estratégia hemisférica dos EUA. O ponto central é que o golpe não caiu do céu: ele foi preparado por uma combinação de medo ideológico, interesses de classe e suporte internacional. Não se tratou apenas de uma crise interna brasileira, mas de uma crise lida e explorada dentro da gramática geopolítica da Guerra Fria. 


2.2 Operação Brother Sam e o respaldo logístico ao golpe


A expressão mais contundente desse apoio foi a Operação Brother Sam. Documentos oficiais do Departamento de Estado dos EUA mostram que o governo Lyndon Johnson autorizou o deslocamento de recursos navais e logísticos para oferecer respaldo aos golpistas, caso fosse necessária uma intervenção mais direta ou apoio material ao movimento contra Goulart. Os registros históricos indicam que a operação previa envio de combustível, armamentos e presença naval nas proximidades do litoral brasileiro. O golpe foi rápido o bastante para que a presença militar norte-americana não precisasse consumar-se em combate, mas a simples preparação da operação já demonstra que Washington não era observador neutro: era parte interessada no desfecho. 


Aqui está uma chave de leitura importante. O apoio dos EUA ao golpe de 1964 não foi um desvio acidental. Foi uma decisão coerente com a política hemisférica do período. O Brasil era grande demais, populoso demais e estrategicamente importante demais para ser deixado à possibilidade de um governo reformista autônomo. Em outras palavras, a democracia brasileira era tolerável apenas enquanto não ameaçasse interesses considerados centrais pela potência do Norte. 




3. Educação como campo de reorganização ideológica



3.1 Os acordos MEC-USAID


Se o golpe consolidou o alinhamento político-militar, a educação tornou-se um dos campos preferenciais de reorganização de longo prazo. Os acordos MEC-USAID, assinados no contexto do pós-1964, expressaram uma tentativa de remodelar a educação brasileira segundo parâmetros de racionalidade administrativa, produtividade e formação técnica compatíveis com o projeto de modernização conservadora então em curso. A bibliografia especializada mostra que esses acordos não foram apenas instrumentos de “ajuda” educacional. Eles representaram também um modo de influenciar prioridades, currículos e estruturas de gestão, aproximando a universidade de uma lógica funcionalista e mercadológica. 


É preciso nuance aqui. Não seria rigoroso dizer que toda a Reforma Universitária de 1968 foi simples imposição estrangeira. O processo envolveu elites burocráticas e acadêmicas brasileiras, militares, técnicos e disputas internas. Mas seria igualmente ingênuo ignorar que os acordos com a USAID forneceram orientação, recursos, modelos e legitimação para uma reforma que favoreceu a departamentalização, o sistema de créditos, a racionalização gerencial e a ideia de eficiência como valor superior. A influência externa operou como catalisador e vetor de direção. 


3.2 Reforma universitária, tecnocratização e esvaziamento crítico


O efeito mais profundo dessa reorientação foi cultural e político. A universidade deixou de ser concebida prioritariamente como espaço de formação humanística ampla e passou a ser pressionada a funcionar como engrenagem da produtividade. Em paralelo, durante a ditadura, disciplinas como Filosofia e Sociologia foram desvalorizadas ou removidas de partes do sistema escolar, enquanto conteúdos de civismo autoritário ganharam centralidade. O resultado foi um ambiente educacional mais afeito à disciplina, à tecnicização e ao esvaziamento crítico. Não era apenas uma mudança curricular. Era uma disputa sobre que tipo de sujeito político o país deveria formar. 


Em termos mais amplos, os acordos MEC-USAID ajudam a mostrar que a influência norte-americana não se limitava ao domínio da força. Ela também operava pela modelagem institucional. Quem controla a forma como um país ensina, administra e seleciona prioridades intelectuais não precisa sempre recorrer a tanques. Às vezes, basta alterar os incentivos, os critérios de eficiência e a gramática da modernização.




4. Da força militar ao controle informacional



4.1 A espionagem da NSA sobre Dilma e a Petrobras


No século XXI, a intervenção assumiu formas mais tecnológicas e discretas. Em 2013, as revelações derivadas dos vazamentos de Edward Snowden mostraram que a NSA espionou comunicações da então presidente Dilma Rousseff, de seus assessores e da Petrobras. Reuters registrou a reação do governo brasileiro, que qualificou a espionagem contra a estatal como, se comprovada, uma forma de espionagem industrial sem justificativa de segurança nacional. A crise foi de tal magnitude que Dilma cancelou visita de Estado a Washington, e o episódio se transformou em símbolo da vulnerabilidade brasileira diante da vigilância digital norte-americana. 


A relevância desse caso é dupla. Primeiro, ele desmonta a ficção de que a cooperação entre Estados se dá num terreno de confiança recíproca entre parceiros democráticos. Segundo, mostra que os interesses dos EUA sobre o Brasil não eram apenas ideológicos, mas também econômicos e energéticos. A Petrobras e o pré-sal tinham importância estratégica evidente. Em geopolítica, informação vale poder. Vigiar a presidência da República e uma empresa central do setor energético significa acessar antecipadamente decisões, cálculos, vulnerabilidades e oportunidades. 


4.2 Lava Jato, cooperação internacional e controvérsias de soberania


A discussão sobre a Lava Jato exige mais precisão do que slogans. O ponto mais sólido não é afirmar, de forma absoluta, uma conspiração total desenhada externamente, mas reconhecer que reportagens e investigações jornalísticas revelaram cooperação informal e controversa entre agentes brasileiros e autoridades norte-americanas, inclusive com questionamentos sobre a observância dos canais oficiais previstos para esse tipo de intercâmbio. Essas revelações alimentaram o debate sobre soberania jurídica, seletividade institucional e efeitos geoeconômicos da operação. 


O aspecto decisivo, do ponto de vista analítico, é que a Lava Jato se tornou um ponto de encontro entre moralização interna, judicialização da política e inserção internacional assimétrica. O combate à corrupção, em si, é necessário. O problema surge quando ele passa a operar em moldes que podem desestruturar setores estratégicos nacionais, produzir cooperação opaca e deslocar centros de decisão para fora dos controles institucionais transparentes. A questão, portanto, não é defender impunidade, mas perguntar: combate à corrupção, sim — sob quais regras, com quais limites e a serviço de que efeitos estruturais? 




5. O paradoxo recente: os EUA como freio à ruptura de 2022



5.1 Sullivan, Burns, Austin e a pressão pela normalidade eleitoral


Entre 2021 e 2022, a história pareceu inverter-se. Diante dos reiterados ataques de Jair Bolsonaro ao sistema eleitoral brasileiro, autoridades norte-americanas passaram a enviar mensagens explícitas em defesa da lisura do processo e da necessidade de respeito ao resultado das urnas. Reuters informou que Jake Sullivan, assessor de segurança nacional de Joe Biden, levou pessoalmente a Bolsonaro a mensagem de que não era aceitável minar as eleições brasileiras. Mais tarde, Reuters revelou que William Burns, diretor da CIA, também transmitiu a autoridades brasileiras que Bolsonaro deveria parar de lançar dúvidas sobre o sistema de votação. E, em julho de 2022, Lloyd Austin afirmou em Brasília que Forças Armadas eficazes devem estar sob firme controle civil. 


Isso significa que Washington se tornou guardião desinteressado da democracia brasileira? Evidentemente não. O mais plausível é outra leitura: no cenário geopolítico recente, uma ruptura institucional no Brasil interessava menos aos EUA do que a preservação de uma ordem previsível na maior economia latino-americana. Um colapso democrático fortaleceria narrativas autoritárias globais, ampliaria a instabilidade regional e abriria mais espaço para a influência chinesa e russa na América do Sul. O apoio à normalidade eleitoral brasileira, portanto, coincide com um cálculo de estabilidade favorável aos interesses estratégicos norte-americanos. 


5.2 O reconhecimento relâmpago da vitória de Lula


Esse cálculo ficou ainda mais evidente quando diplomatas dos EUA sinalizaram previamente que reconheceriam rapidamente o vencedor da eleição. Reuters reportou, ainda antes do pleito, que Washington planejava reconhecer com rapidez o resultado para reduzir o espaço de contestação golpista. Depois da vitória de Lula, Joe Biden declarou que as eleições haviam sido livres, justas e críveis. O gesto teve peso político imediato: enfraqueceu tentativas de internacionalizar uma narrativa de fraude e ajudou a cercar diplomaticamente qualquer ensaio de ruptura. 


O paradoxo, então, é real, mas não deve ser mal compreendido. Em 1964, os Estados Unidos atuaram para desestabilizar a democracia brasileira. Em 2022, atuaram para preservá-la. O elemento estável entre os dois momentos não é o valor “democracia”, mas o interesse estratégico. Potências não agem por coerência moral linear; agem por conveniência histórica.




6. O bolsonarismo e a lógica do alinhamento subordinado



6.1 Jair Bolsonaro e a ruptura com a tradição diplomática de autonomia


Se Washington recalibrou sua posição, o bolsonarismo fez movimento inverso: aprofundou o alinhamento ideológico com a direita norte-americana e rompeu, em boa medida, com a tradição diplomática brasileira de autonomia relativa. Jair Bolsonaro transformou a aproximação com Donald Trump em ativo simbólico, afetivo e programático. Não se tratava apenas de afinidade entre governos. Havia ali a construção de uma visão segundo a qual o Brasil deveria abandonar pretensões de autonomia estratégica e se reposicionar como aliado preferencial de uma agenda conservadora transnacional liderada pelos EUA. 


6.2 Concessões unilaterais: vistos, OMC e Alcântara


Essa orientação apareceu em decisões concretas. O governo Bolsonaro concedeu isenção de vistos a cidadãos norte-americanos sem reciprocidade equivalente para brasileiros; abriu mão do tratamento especial de país em desenvolvimento na OMC em troca de promessa de apoio à entrada na OCDE; e assinou o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas de Alcântara, amplamente criticado por seus limites à autonomia brasileira no uso estratégico da base. Cada uma dessas medidas pode ser debatida tecnicamente, mas, vistas em conjunto, compõem um padrão de concessão unilateral. O problema não é cooperar com os EUA; o problema é cooperar sem contrapartida proporcional e ainda chamar isso de soberania. 


6.3 Eduardo Bolsonaro, sanções e a internacionalização do conflito contra o Judiciário


Nos anos seguintes, esse alinhamento adquiriu forma ainda mais aguda. Reuters informou, em 2025, que Eduardo Bolsonaro passou a atuar nos Estados Unidos buscando apoio e mais sanções contra autoridades brasileiras, especialmente no contexto do julgamento e da condenação de Jair Bolsonaro por trama golpista. Em outra reportagem, a agência registrou que Eduardo se reuniu com autoridades norte-americanas e defendeu aumento de pressão contra membros do Judiciário brasileiro. Trata-se de um deslocamento politicamente grave: um agente interno apela a uma potência estrangeira para constranger instituições do próprio país. 


Esse é o ponto em que a retórica do “patriotismo” se desfaz. Patriotismo não é pedir tutela estrangeira quando as instituições nacionais contrariam interesses de um grupo político. Quando uma liderança busca no exterior mecanismos de pressão sobre o Judiciário de seu próprio país, o que se vê não é defesa da pátria, mas terceirização da soberania.


6.4 Flávio Bolsonaro e o “conservadorismo 2.0” pró-Washington


Em 2026, Flávio Bolsonaro emergiu como nome eleitoral competitivo da direita. Reuters mostrou que ele aparece em empate técnico com Lula em simulações de segundo turno e vem sendo tratado como principal herdeiro político do bolsonarismo. Ao mesmo tempo, sua tentativa de se apresentar como versão mais moderada do campo bolsonarista ocorre sem romper com o eixo internacional da família. Reportagens recentes apontam sua presença na CPAC de 2026 e a defesa de uma relação estratégica com os EUA em torno de minerais críticos e terras raras, dentro de uma retórica antichinesa e de aproximação com a direita conservadora norte-americana. 


O “moderado”, aqui, parece menos uma mudança de conteúdo do que de embalagem. O discurso se torna mais institucional, mais polido, mais vendável ao mercado e ao centro político, mas preserva o núcleo do alinhamento geopolítico subordinado. Sai a estética do confronto bruto; entra a gramática da parceria estratégica. A pergunta decisiva permanece: parceria em benefício de quem e sob quais termos?



7. Conclusão


A relação entre Estados Unidos e Brasil, observada em perspectiva histórica, revela uma constante desconfortável: a ingerência externa muda de forma, mas não desaparece. Em 1964, veio acompanhada de desestabilização política e preparo militar. No pós-golpe, passou pela modelagem educacional e pela racionalidade tecnocrática. No século XXI, assumiu a forma de espionagem digital, cooperação judicial controversa e diplomacia preventiva em defesa de uma ordem eleitoral conveniente aos interesses de Washington. O traço comum entre esses momentos não é uma fidelidade norte-americana a valores universais, mas a defesa variável de sua posição estratégica no sistema internacional. 


Mas o artigo não se sustenta apenas na denúncia da potência. Seu ponto mais profundo está em outro lugar: potências só exercem tutela duradoura onde encontram elites, grupos e lideranças locais dispostos a funcionar como intermediários internos de interesses externos. Foi assim em 1964, quando setores civis e militares brasileiros operaram em convergência com a estratégia dos EUA. E volta a ser assim quando agentes políticos contemporâneos recorrem a Washington para pressionar instituições nacionais, oferecer ativos estratégicos ou reconfigurar a soberania brasileira segundo expectativas estrangeiras. O problema, portanto, não é somente o império. É também o dependencismo doméstico que o acolhe. 


Em linguagem mais direta: não existe soberania real onde o poder nacional é tratado como moeda de troca por quem deveria defendê-lo. A história ensina que a ameaça à autonomia brasileira raramente vem apenas de fora. Ela prospera, sobretudo, quando encontra por dentro quem a confunda com modernização, ordem, combate ao inimigo ou oportunidade eleitoral. A tutela estrangeira, afinal, quase nunca entra pela porta da frente. Em geral, ela é convidada.




8. Pontos centrais do artigo


  1. O apoio dos EUA ao golpe de 1964 é historicamente documentado e incluiu preparação logística e militar.  
  2. A influência norte-americana também operou pela educação, especialmente por meio dos acordos MEC-USAID e da tecnocratização universitária.  
  3. No século XXI, espionagem digital e cooperação judicial assimétrica passaram a integrar o repertório de pressão sobre o Brasil.  
  4. Em 2022, os EUA atuaram para desestimular ruptura institucional no Brasil, não por altruísmo, mas por cálculo estratégico.  
  5. O bolsonarismo representa, em muitos aspectos, a forma contemporânea de alinhamento ideológico subordinado aos EUA.  




9. Livros para aprofundamento


  1. Dreifuss, René Armand. 1964: a conquista do Estado.
    Obra clássica para compreender a articulação entre empresariado, elites civis, aparato ideológico e golpe.
  2. Moniz Bandeira, Luiz Alberto. Presença dos Estados Unidos no Brasil.
    Referência importante para analisar a longa duração da influência norte-americana no país.
  3. Fico, Carlos. O golpe de 1964: momentos decisivos.
    Livro fundamental para leitura histórica rigorosa do golpe e da participação externa no contexto brasileiro.



10. Referências


BIDEN envoy told Brazil’s Bolsonaro important not to undermine elections, source says. Reuters, 8 ago. 2021. Disponível em: fonte consultada via base Reuters. Acesso em: 2 abr. 2026. 


BRAZIL’S Lula says U.S. will quickly recognize election result. Reuters, 27 set. 2022. Disponível em: fonte consultada via base Reuters. Acesso em: 2 abr. 2026. 


BRAZIL’S Lula, Flavio Bolsonaro seen tied in presidential run-off, poll shows. Reuters, 30 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via base Reuters. Acesso em: 2 abr. 2026. 


BRAZIL lawmaker Eduardo Bolsonaro meets U.S. Treasury chief amid push for sanctions. Reuters, 15 ago. 2025. Disponível em: fonte consultada via base Reuters. Acesso em: 2 abr. 2026. 


BRAZIL lawmaker Eduardo Bolsonaro warns of more U.S. sanctions, maybe tariffs. Reuters, 14 ago. 2025. Disponível em: fonte consultada via base Reuters. Acesso em: 2 abr. 2026. 


BRAZIL’S Bolsonaro discharged from hospital, placed under house arrest. Reuters, 27 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via base Reuters. Acesso em: 2 abr. 2026. 


BRAZIL. In: Foreign Relations of the United States, 1964–1968, Volume XXXI, South and Central America; Mexico. U.S. Department of State, Office of the Historian. Disponível em: fonte consultada via history.state.gov. Acesso em: 2 abr. 2026. 


CIA chief told Bolsonaro government not to mess with Brazil election. Reuters, 5 maio 2022. Disponível em: fonte consultada via base Reuters. Acesso em: 2 abr. 2026. 


FÁVERO, Maria de Lourdes de Albuquerque. A universidade no Brasil: das origens à Reforma Universitária de 1968. Educar em Revista, Curitiba, n. 28, 2006. Disponível em: fonte consultada via SciELO. Acesso em: 2 abr. 2026. 


NSA spying on Petrobras, if proven, is industrial espionage, Rousseff says. Reuters, 9 set. 2013. Disponível em: fonte consultada via base Reuters. Acesso em: 2 abr. 2026. 


ROSSI, Pedro. O movimento estudantil e os acordos MEC-USAID. Revista Brasileira de História da Educação, 2025. Disponível em: fonte consultada via SciELO. Acesso em: 2 abr. 2026. 


SILVA, D. A. Hegemonia global estadunidense e os acordos MEC-USAID. Revista Educação, 2024. Disponível em: fonte consultada via SciELO. Acesso em: 2 abr. 2026. 


U.S. tells Lula it plans to quickly recognize Brazil election winner, sources say. Reuters, 23 set. 2022. Disponível em: fonte consultada via base Reuters. Acesso em: 2 abr. 2026. 


IN Brazil, Biden’s defense chief says militaries must be under firm civilian control. Reuters, 26 jul. 2022. Disponível em: fonte consultada via base Reuters. Acesso em: 2 abr. 2026. 


FLÁVIO diz que Brasil é “solução para EUA ter minerais de terras raras”. CNN Brasil, 30 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via CNN Brasil. Acesso em: 2 abr. 2026. 



quinta-feira, 2 de abril de 2026

Patriotismo de vitrine, dependência de fundo: O bolsonarismo fala em soberania, mas oferece ao Brasil o papel de fornecedor mineral de uma estratégia desenhada em Washington

 


O bolsonarismo gosta de falar grosso em nome da pátria. Invoca bandeira, hino, Deus, ordem, autoridade, tradição e soberania. Faz do patriotismo uma estética permanente. Mas, quando se observa o conteúdo material de seu projeto de poder, o que aparece não é um plano de fortalecimento nacional. O que aparece é outra coisa: um país empurrado para a condição de fornecedor de recursos estratégicos, de parceiro subalterno dos Estados Unidos e de economia resignada à baixa densidade industrial. A retórica é nacionalista; a prática é dependente.


Essa contradição ficou quase didaticamente exposta quando Flávio Bolsonaro afirmou, em março de 2026, em conferência nos Estados Unidos, que o Brasil seria “a solução dos EUA” para o acesso a minerais críticos e terras raras. A frase não é um detalhe, nem mero exagero de palco. Ela revela um modo de pensar. Em vez de apresentar o Brasil como nação que deve transformar seus recursos estratégicos em base de industrialização, inovação e autonomia tecnológica, a declaração o coloca como peça funcional de uma engrenagem externa: a estratégia norte-americana de reduzir dependências em relação à China. É uma fala que desloca o centro do problema. O foco deixa de ser o desenvolvimento brasileiro e passa a ser a conveniência geopolítica de Washington (CNN Brasil, 2026; Estado de Minas, 2026). 


É exatamente aí que se revela a pobreza estrutural do bolsonarismo como projeto nacional. Um país sério pergunta: como converter terras raras, lítio, nióbio, grafita, níquel e outros minerais críticos em cadeias industriais, centros de pesquisa, capacidade tecnológica, empregos qualificados e soberania produtiva? O bolsonarismo, ao que tudo indica, pergunta outra coisa: como usar esses ativos para reforçar vínculos políticos com os Estados Unidos? A diferença entre uma pergunta e outra é a diferença entre projeto de país e mentalidade colonial.


A questão mineral não é secundária. O próprio Estado brasileiro vem reconhecendo, por meio de estudos e documentos oficiais recentes, que os minerais estratégicos ocupam posição central na transição energética, na indústria de alta tecnologia, nas cadeias globais de valor e nas disputas geoeconômicas contemporâneas. Em março de 2026, a Casa Civil divulgou estudo com dados atualizados sobre reservas, produção e potencial brasileiro para nióbio, grafita, níquel, terras raras e lítio; no mesmo período, o Ministério de Minas e Energia destacou o papel desses insumos nas cadeias da transição energética e publicou um guia voltado a investimentos na cadeia mineral. Em outras palavras: o tema é estratégico para o século XXI, não apenas comercial (Casa Civil, 2026; MME, 2026a; MME, 2026b). 


Mas recursos estratégicos, por si sós, não fazem uma nação soberana. Essa é uma ilusão primária, quase geológica. O minério sai do subsolo; o desenvolvimento, não. Desenvolvimento exige Estado, coordenação, investimento, política industrial, ciência, engenharia, infraestrutura, crédito, conteúdo nacional, adensamento tecnológico e visão histórica. Sem isso, a riqueza mineral apenas muda de mãos. Sai da terra brasileira e entra na cadeia produtiva alheia. O país fica com o buraco, a dependência e, em muitos casos, a devastação territorial. Outros ficam com a tecnologia, a indústria, as patentes e o valor agregado.


É por isso que o debate sobre industrialização precisa voltar ao centro. O Brasil já conhece, há décadas, o custo da reprimarização e da perda de densidade manufatureira. Os dados do Banco Mundial mostram a longa redução da participação da indústria de transformação no PIB brasileiro, e a CNI voltou a alertar em 2026 para sinais que reacendem o risco de desindustrialização. Não se trata de nostalgia de fábrica nem de fetiche desenvolvimentista. Trata-se de reconhecer um fato elementar: países que não dominam etapas relevantes da produção complexa tornam-se estruturalmente vulneráveis, tecnologicamente dependentes e politicamente mais frágeis (World Bank, 2026; CNI, 2026). 


Nesse contexto, o histórico bolsonarista pesa contra qualquer pretensão de se apresentar como força comprometida com a reconstrução produtiva do país. Ainda antes da posse de Jair Bolsonaro, a proposta de extinguir o Ministério da Indústria e absorver suas funções no superministério da Economia foi criticada pela Confederação Nacional da Indústria e noticiada pela Agência Brasil. O gesto tinha valor simbólico e institucional: num país já marcado por enfraquecimento industrial, reduzir a centralidade política da indústria não era modernização; era rebaixamento estratégico (Agência Brasil, 2018a; Agência Brasil, 2018b). 


O contraste com a retomada recente da política industrial é eloquente. A Nova Indústria Brasil, lançada em janeiro de 2024, recolocou oficialmente no centro do debate metas de desenvolvimento produtivo, tecnológico e industrial até 2033, com missões definidas e instrumentos públicos articulados. Pode-se discutir sua execução, sua escala, seus gargalos e seus limites. Mas há nela um reconhecimento essencial: o Brasil não sairá da armadilha da dependência apenas exportando commodities, ainda que sejam commodities sofisticadas do ponto de vista geológico. É preciso transformar recursos em capacidade nacional (MDIC, 2024; Ministério da Fazenda, 2026). 


É aqui que a retórica patriótica do bolsonarismo começa a ruir como cenário de papelão. Porque não existe soberania real sem soberania produtiva. Não existe independência nacional baseada apenas em exportação mineral. Não existe projeto de potência em uma economia que aceita para si o papel de almoxarifado de insumos estratégicos de outros países. Falar em pátria enquanto se oferece o país como solução mineral para interesses externos não é nacionalismo. É marketing político aplicado à dependência.


Alguns dirão que isso é exagero, que negociar com os Estados Unidos é natural, que o Brasil deve vender para quem paga melhor. Em tese, sim. Nenhum país vive de isolamento. O problema não é comerciar; é se posicionar no comércio mundial como quem já aceitou o próprio lugar subalterno. Há uma diferença profunda entre negociar com firmeza e se apresentar como peça de reposição da geopolítica alheia. Uma coisa é vender com estratégia nacional. Outra, muito diferente, é discursar como se o destino brasileiro fosse ser útil ao rearranjo industrial e militar de Washington.


Esse traço não surge do nada. Ele dialoga com a lógica mais ampla do bolsonarismo na política externa. Desde 2019, análises e reportagens registraram o alinhamento fortemente ideológico de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos, inclusive em detrimento de uma tradição diplomática brasileira mais pragmática e mais plural. O problema desse tipo de alinhamento não é apenas simbólico. Ele estreita a margem de manobra do país, embaralha interesse nacional com afinidade ideológica e transforma política externa em fidelidade de facção (Reuters, 2019). 


O efeito final é perverso. O bolsonarismo vende ao público interno a imagem de força, altivez e patriotismo, mas projeta externamente um Brasil disponível, útil e funcional aos interesses de uma potência estrangeira. É como se a bandeira servisse para ocultar o contrato implícito. Grita-se “soberania” no palanque, enquanto se naturaliza a subordinação na prática. O país aparece não como sujeito estratégico, mas como território de oferta: terras, minérios, commodities, mercado consumidor e adesão política.


Esse é o ponto central que precisa ser dito sem rodeios: um projeto que trata as terras raras brasileiras como ativo prioritariamente voltado a atender a ansiedade estratégica dos Estados Unidos, sem colocar no centro a industrialização nacional, não é um projeto de soberania; é um projeto de dependência ornamentado por retórica patriótica.


Não se trata de ser “contra os EUA”. Essa formulação infantiliza um debate sério. Trata-se de ser a favor do Brasil. E ser a favor do Brasil, neste caso, significa defender pelo menos seis compromissos elementares: controle nacional sobre recursos estratégicos; agregação de valor no território brasileiro; metas de processamento e transformação industrial; exigências de conteúdo local e transferência tecnológica; integração entre mineração, ciência e indústria; e inserção internacional guiada por interesse nacional, não por servilismo ideológico. Sem isso, terras raras podem até enriquecer alguns grupos econômicos, mas não construirão soberania.


O Brasil está diante de uma escolha histórica. Pode repetir seu velho roteiro periférico — exportar riqueza bruta e importar dependência sofisticada — ou pode usar sua base mineral como alicerce de reindustrialização, autonomia tecnológica e reconstrução do poder nacional. O bolsonarismo, até aqui, tem indicado com clareza de que lado está. Não do lado da industrialização brasileira, mas do lado da utilidade brasileira. Não do lado da soberania substantiva, mas do lado da obediência ideológica travestida de patriotismo.



Conclusão



A contradição do bolsonarismo não é acidental; é estrutural. Sua linguagem pública é a do nacionalismo, mas sua imaginação econômica e geopolítica é a da subordinação. Ao apresentar o Brasil como “solução” para a demanda estratégica dos Estados Unidos por minerais críticos, sem vincular esse ativo a um projeto robusto de industrialização, tecnologia e poder nacional, esse campo político confirma que seu patriotismo é mais cênico do que programático. O país que daí emerge não é soberano: é útil. Não é industrialmente ambicioso: é extrativamente disponível. Não é protagonista: é peça auxiliar. E um Brasil reduzido a fornecedor estratégico de potências externas pode até vestir a fantasia da grandeza, mas continuará preso à velha condição periférica que as elites dependentes sempre aceitaram com excessiva facilidade.



Referências



AGÊNCIA BRASIL. CNI quer permanência de ministério ameaçado de extinção por Bolsonaro. Brasília, 22 out. 2018a. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


AGÊNCIA BRASIL. CNI volta a se manifestar contra extinção do Ministério da Indústria. Brasília, 30 out. 2018b. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


CASA CIVIL. Estudo detalha panorama do potencial de minerais estratégicos no Brasil. Brasília, 3 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


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MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. MME publica Guia do Investidor 2026 para fortalecer atração de investimentos estrangeiros em minerais críticos. Brasília, 2 mar. 2026b. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS. Brasil ganha nova política industrial com metas e ações para o desenvolvimento até 2033. Brasília, 22 jan. 2024. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


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