sábado, 4 de abril de 2026

Quando o império já não manda como antes

Na entrevista de 3 de abril de 2026, Leonardo Trevisan transforma a soberania em linguagem popular, expõe a crise de autoridade dos Estados Unidos e recoloca o Brasil diante de uma escolha histórica: agir como nação estratégica ou aceitar a condição de área de influência



Há momentos em que uma frase popular explica melhor o mundo do que páginas inteiras de jargão diplomático. Foi exatamente isso que Leonardo Trevisan fez ao condensar uma crise geopolítica de grande escala numa imagem que qualquer brasileiro entende sem esforço: “Na minha casa mando eu.” O que parece apenas uma expressão coloquial revela, na verdade, o coração político da guerra entre Estados Unidos e Irã e, mais do que isso, o centro da transição internacional em curso. O que está em disputa já não é apenas o resultado de uma campanha militar. É o direito de decidir, o limite da ingerência externa e a solidez de uma hegemonia que continua armada, mas já não se impõe com a mesma naturalidade. O conflito iniciado em 28 de fevereiro de 2026 produziu ataques cruzados, pressão sobre o Estreito de Ormuz e uma escalada diplomática ainda sem solução estável.


A força da análise de Trevisan está justamente aí. Ele percebe que o conflito não pode ser reduzido a mísseis, drones ou bombardeios. O que a guerra expõe é o esgotamento progressivo de uma forma de mando. Durante décadas, Washington se acostumou a agir como se sua vontade fosse, por definição, a moldura dentro da qual os demais países precisariam se mover. O problema é que essa moldura começou a rachar. O Irã reagiu. A Europa hesitou. Os aliados recalcularam custos. E o mundo passou a responder, em diferentes sotaques, algo que até pouco tempo atrás poucos ousavam dizer em voz alta: a casa dos outros já não aceita com a mesma facilidade ordens vindas de fora. Essa leitura é compatível com o quadro geral descrito por centros de análise e documentos públicos sobre a guerra, que registram simultaneamente escalada militar, ambiguidade política americana e divergências entre aliados ocidentais.



A frase que o povo entende e parte da elite finge não ouvir



Quando Trevisan sugere que o brasileiro comum talvez não saiba política internacional, mas entende perfeitamente a frase “na minha casa mando eu”, ele está fazendo uma operação intelectual das mais eficazes: traduz soberania em experiência cotidiana. O país vira casa. O Estado vira o sujeito legítimo do mando. A potência externa vira o intruso que entra, impõe, pressiona e tenta redesenhar a vontade alheia dentro de um espaço que não lhe pertence. Em uma única imagem, desaparece o verniz técnico e sobra a essência moral do problema.


Essa tradução importa porque a política internacional costuma fracassar quando fala apenas para iniciados. O excesso de terminologia diplomática muitas vezes esconde aquilo que é mais simples e decisivo: quem decide? quem manda? até onde vai a cooperação e onde começa a tutela? O brasileiro pode não dominar a linguagem da geopolítica, mas reconhece sem dificuldade a diferença entre uma visita respeitosa e alguém que entra na casa dos outros como se fosse dono. É por isso que a frase comunica tanto. Ela converte soberania em dignidade concreta.


Há, nisso, uma crítica implícita a parcelas da elite brasileira que tratam a dependência como pragmatismo inevitável e a autonomia como fantasia retórica. Trevisan inverte essa lógica. Ao recorrer a uma fórmula simples, ele mostra que o senso comum, às vezes, compreende o essencial antes mesmo das elites supostamente sofisticadas. O povo talvez não fale em autodeterminação ou hegemonia. Mas entende muito bem o gesto da intromissão e o direito ao limite.



O Irã não aceitou ser objeto passivo da vontade americana



Aplicada ao conflito, a frase ajuda a decifrar a postura iraniana. O ponto não é afirmar que o Irã superou militarmente os Estados Unidos ou que aboliu a assimetria material entre os dois países. O que Trevisan enxerga é outra coisa: Teerã recusou o papel de alvo passivo de uma coerção unilateral. Em vez de apenas absorver a ofensiva e recalcular sua sobrevivência dentro dos limites fixados por Washington, respondeu de modo a impor custo, desgaste e incerteza.


Isso não é mera interpretação abstrata. O próprio desenvolvimento da guerra aponta nessa direção. O briefing da House of Commons Library registra que o Irã respondeu aos ataques de EUA e Israel com contra-ataques a Israel, a bases americanas na região e a outros alvos, ampliando a escala do confronto. O mesmo documento registra que, em 20 de março de 2026, dois mísseis iranianos tiveram como alvo a base de Diego Garcia, um dos pontos mais estratégicos da infraestrutura militar anglo-americana no Índico. Um foi interceptado e o outro falhou em voo, mas o fato central é que a tentativa, por si só, elevou dramaticamente o significado geopolítico do conflito.


Esse episódio basta para desfazer uma leitura confortável segundo a qual a campanha seria apenas mais uma demonstração unilateral de força americana. O que a guerra passou a mostrar é que a invulnerabilidade psicológica dos EUA e de seus aliados já não opera do mesmo modo. O adversário regional antes tratado como problema contornável tornou-se capaz de atingir, ou ao menos ameaçar, pontos sensíveis da arquitetura militar ocidental. Em termos políticos, isso equivale a dizer: vocês podem atacar, mas não definirão sozinhos as regras do meu espaço estratégico.



Trump fala como império, mas governa em modo de improviso



Um dos aspectos mais agudos da leitura de Trevisan é seu foco no discurso de Donald Trump. O professor não trata as contradições verbais do presidente apenas como excentricidade temperamental. Ele as lê como sintoma de uma potência que continua enorme, mas já não consegue transformar força em direção clara.


O Council on Foreign Relations registrou que, em 1º de abril de 2026, Trump afirmou que os Estados Unidos atacariam o Irã “extremely hard” por mais duas ou três semanas, ao mesmo tempo em que falava em metas quase concluídas e deixava em aberto a questão de Ormuz, sugerindo que sua reabertura poderia ser problema de “outros países”. Esse tipo de formulação expõe um padrão: o discurso quer transmitir controle absoluto, mas revela indecisão estratégica.


É justamente aí que a imagem do processo “gelatinoso” ganha potência analítica. O poder continua pesado, ameaçador e destrutivo, mas perde consistência. Quer parecer ao mesmo tempo paz e escalada, firmeza e ambiguidade, comando e improviso. Em vez de organizar o sistema internacional em torno de uma direção nítida, passa a oscilar entre públicos, pressões e objetivos inconciliáveis. O eleitor americano cansado de guerra ouve uma promessa de encerramento. O complexo militar-industrial escuta o anúncio de continuidade. Os aliados recebem insegurança. Os adversários enxergam brechas. Quando isso acontece, a fala presidencial deixa de ser instrumento de hegemonia e passa a ser evidência de sua crise.



Washington ainda ameaça, mas já não arrasta o mundo com a mesma facilidade



A grande notícia geopolítica do momento talvez não esteja apenas nos ataques, mas na dificuldade crescente de Washington em transformar sua decisão em alinhamento automático entre aliados históricos. Esse é um ponto central da análise de Trevisan e encontra base concreta em fontes públicas.


A Reuters informou, em 31 de março de 2026, que França, Itália e Espanha impuseram restrições significativas a operações militares americanas relacionadas à guerra com o Irã. A Itália limitou o uso da base de Sigonella para missões ofensivas; a França recusou o uso de seu espaço aéreo para determinados voos de transporte militar americano; e a Espanha também adotou medidas restritivas quanto ao uso de sua infraestrutura.


Esse dado tem peso histórico. A hegemonia americana nunca dependeu apenas de sua capacidade bélica. Sempre dependeu também da disponibilidade de aliados em fornecer legitimidade, território, espaço aéreo, bases, retaguarda diplomática e naturalização política do comando de Washington. Quando aliados começam a dizer “não”, ainda que parcialmente, o problema deixa de ser tático e se torna sistêmico.


O mais importante é a razão do recuo europeu. Não se trata de uma rebelião ideológica, mas de cálculo material. Petróleo mais caro, risco energético, instabilidade econômica, fadiga social diante de guerras prolongadas e ausência de clareza sobre o objetivo final da campanha tornam o alinhamento automático cada vez mais custoso. O briefing da House of Commons Library também indica que os ataques de EUA e Israel ao Irã não receberam endosso explícito do Conselho de Segurança da ONU, o que aprofunda a fragilidade diplomática da escalada.



O mundo não está “com” o Irã — mas já não está automaticamente com os EUA



Aqui entra uma nuance importante. Quando Trevisan afirma, em formulação forte, algo como “Irã apoiado e EUA não”, o ponto não deve ser lido literalmente como se houvesse uma aliança formal espelhada à máquina atlântica operando em favor de Teerã. Não é isso. O sentido político da frase é outro: o Irã não está isolado do modo como Washington desejaria, enquanto os Estados Unidos já não conseguem converter sua ofensiva em adesão universal do campo ocidental.


O documento do Parlamento britânico mostra que China e Rússia se abstiveram em deliberações relevantes no Conselho de Segurança, recusando-se a dar cobertura plena à narrativa americana e israelense sobre a guerra. Isso não equivale a uma aliança militar aberta pró-Irã, mas impede que Washington enquadre o conflito como cruzada legitimada por consenso internacional.


Ou seja: o Irã talvez não esteja “apoiado” no sentido clássico, porém encontra margens de respiração diplomática, tolerância estratégica e fragmentação sistêmica suficientes para não ser transformado em pária completamente encurralado. Já os EUA, embora disponham de alianças formais gigantescas, descobrem que ter alianças no papel não significa obter obediência plena na hora da escalada. Para uma superpotência, esse contraste é corrosivo.



Soberania não é slogan: é recurso, diplomacia e capacidade de dizer não



A entrevista se torna especialmente relevante para o Brasil quando desloca a questão da soberania do terreno abstrato para a esfera concreta dos ativos estratégicos. Trevisan sugere que o país dispõe hoje de instrumentos reais para sustentar autonomia, desde que saiba usá-los politicamente.


O guia oficial de 2026 do Ministério de Minas e Energia destaca o Brasil como país-chave em minerais críticos, incluindo terras raras, grafite, lítio, níquel e nióbio, insumos fundamentais para defesa, eletrônica avançada, transição energética e cadeias tecnológicas de alto valor agregado. Independentemente da classificação exata entre segunda ou terceira maior reserva em determinados recortes, o dado central é inequívoco: o Brasil se tornou peça relevante na disputa global por recursos indispensáveis ao século XXI.


Isso altera a natureza da soberania brasileira. O país não pode mais ser pensado apenas como exportador genérico de commodities. Passa a ocupar posição estratégica em cadeias industriais e tecnológicas cujo controle tende a definir parte importante da rivalidade entre grandes potências. Dizer “na minha casa mando eu”, nesse contexto, significa também: os recursos localizados em território nacional não podem ser negociados como senha de subordinação geopolítica. A soberania deixa de ser frase de cerimônia e passa a significar política mineral, inteligência industrial e capacidade de negociação internacional.



O Itamaraty ainda sabe o que é interesse nacional



A leitura de Trevisan sobre o Brasil ficaria incompleta sem o papel do Itamaraty. O professor parece atribuir à diplomacia brasileira um papel central na preservação da autonomia nacional num cenário de reconfiguração global. E há sinais concretos de que, ao menos em alguns temas, Brasília tem buscado preservar espaço próprio.


A Reuters registrou que, em março de 2026, o Brasil bloqueou, na OMC, a renovação da moratória sobre tarifas de transmissões eletrônicas nos termos defendidos pelos Estados Unidos, contribuindo para o impasse final da rodada. Pode parecer um tema técnico, mas seu significado é amplo: trata-se de soberania regulatória, capacidade tributária futura, autonomia digital e recusa a aceitar, sem negociação, regras permanentes desenhadas conforme os interesses das grandes empresas e potências já dominantes no comércio eletrônico global.


Esse episódio mostra que a soberania contemporânea não se limita a fronteiras e quartéis. Ela inclui infraestrutura digital, regras de comércio, governança tecnológica e liberdade de formular posições nacionais em arenas multilaterais. Um Itamaraty que opera com clareza estratégica sabe que o mundo atual não permite ingenuidade nem alinhamento cego. Trevisan parece reconhecer exatamente isso: a diplomacia profissional brasileira é um dos poucos instrumentos capazes de transformar recursos e posição geográfica em autonomia efetiva.



Nem Itamaraty, nem militares brasileiros existem para administrar vassalagem



Um dos pontos mais instigantes da leitura de Trevisan é a observação de que os militares brasileiros, quando o tema é Brasil, não têm postura de submissão. Essa afirmação precisa ser lida com sobriedade. Ela não significa antiamericanismo automático, nem romantização da instituição militar. Significa algo mais importante: há uma cultura estratégica de soberania que impõe limites à lógica da vassalagem.


A cooperação com os EUA é real. O Exército americano informou oficialmente, em dezembro de 2025, que o primeiro de 12 helicópteros UH-60M Black Hawk chegou ao Brasil em 20 de novembro de 2025, antes do previsto, no contexto de um caso de Foreign Military Sales, destacando o aprofundamento da parceria bilateral.


Mas o ponto de Trevisan é precisamente este: parceria não é submissão. Um Estado soberano compra, treina, negocia, coopera e coordena. O que não pode fazer é transferir a outro o comando de suas decisões fundamentais. Quando o assunto envolve Amazônia, Atlântico Sul, integridade territorial, defesa, minerais estratégicos e autonomia nacional, a cultura militar brasileira tende a pensar em termos de Estado, não de adesão servil a interesses externos.


Essa distinção é crucial no debate brasileiro. Em parte do discurso público, cooperação com Washington costuma ser tratada como se implicasse, inevitavelmente, alinhamento político profundo ou aceitação tácita de tutela. Trevisan sugere o contrário: a instituição militar brasileira, com todas as suas ambiguidades históricas, conserva um senso de soberania que dificulta a naturalização da vassalagem. Esse dado não resolve o problema brasileiro, mas ajuda a delimitar o campo do possível.



O povo entende o que parte da elite desaprendeu



Há um ponto de alta densidade política na formulação de Trevisan: talvez o povo entenda melhor o problema da soberania do que parcelas da elite que se acostumaram a tratá-la como conceito antiquado. O cidadão comum talvez não acompanhe reuniões do Conselho de Segurança, não conheça detalhes técnicos da guerra aérea no Oriente Médio nem saiba enumerar minerais críticos. Mas reconhece o gesto. Sabe quando alguém entra mais do que deveria. Percebe quando a visita passa a se comportar como dona da casa. Intui quando a cooperação se converte em pressão, e a pressão em comando.


Essa intuição popular é valiosa porque devolve a política internacional ao terreno do respeito. O mundo atual tenta frequentemente esconder relações de força sob a retórica elegante das parcerias inevitáveis, das modernizações alinhadas e dos consensos de mercado. Trevisan rompe essa névoa. Sua frase reintroduz o problema do mando em estado bruto. Quem decide? Quem impõe? Quem aceita? Quem recusa? Nessa hora, o povo entende.



O verdadeiro teste brasileiro não é ideológico; é civilizacional



O que emerge da entrevista, ao fim, é uma pergunta maior do que a guerra entre Estados Unidos e Irã. A questão central é: o Brasil quer agir como sujeito estratégico ou aceitar a condição de área de influência? Essa não é uma escolha entre propaganda antiamericana e subserviência pró-americana. É uma escolha entre autonomia pragmática e dependência travestida de modernização.


O país dispõe de recursos relevantes, de tradição diplomática sólida, de posição geográfica singular e de instituições que ainda carregam, em alguma medida, uma ideia de interesse nacional. Mas nada disso se converte automaticamente em soberania real. É preciso projeto. É preciso coordenação. É preciso saber quais ativos não podem ser entregues, quais alianças podem ser úteis sem se tornarem algemas e quais temas exigem dizer “não”, mesmo sob pressão.


Nesse sentido, Trevisan não oferece apenas uma análise do conflito. Oferece uma pedagogia política da autonomia. E essa pedagogia começa numa frase simples, mas de enorme alcance histórico: quem não manda na própria casa termina, mais cedo ou mais tarde, morando no projeto de poder dos outros.



Conclusão



A força da entrevista de Leonardo Trevisan está em condensar a crise internacional contemporânea em uma fórmula que o povo entende e as potências temem: “Na minha casa mando eu.” Nessa frase cabem o Irã recusando o papel de objeto passivo da coerção americana, a Europa começando a impor limites ao automatismo atlântico, o Brasil sendo chamado a reconhecer o valor estratégico de seus recursos e instituições, e os Estados Unidos descobrindo que a força militar, por si só, já não garante o mesmo grau de obediência geopolítica.


Durante décadas, Washington se habituou a agir como se pudesse dizer ao mundo inteiro, de forma explícita ou implícita, que mandava também na casa dos outros. O conflito de 2026 mostrou que esse tempo entrou em erosão. O Irã responde. Os aliados hesitam. O sistema fragmenta-se. E o Brasil, se quiser existir como algo além de território disponível para disputa alheia, precisará compreender que soberania não é palavra vazia, nem nostalgia diplomática, nem ornamento retórico. Soberania é capacidade de definir interesse, preservar margem de decisão e impor limite à vontade dos outros.


No fim, talvez esse seja o ponto mais perturbador da análise de Trevisan. O império continua de pé. Continua perigoso. Continua capaz de devastar. Mas já não parece sólido como antes. E quando até o povo entende que ninguém deve mandar na casa alheia, talvez a verdadeira crise do poder americano esteja justamente aí: o mundo começou a responder, em diferentes idiomas e com intensidades variadas, aquilo que por muito tempo teve medo de dizer em voz alta.



Referências



BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Brazil’s critical minerals: a guide for foreign investors 2026. Brasília: MME, 2026. Disponível em: fonte oficial consultada via web.


COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS. Iran’s war with Israel and the United States. New York: CFR, 2026. Disponível em: fonte consultada via web.


REINO UNIDO. House of Commons Library. US/Israel-Iran conflict 2026. London: House of Commons Library, 31 mar. 2026. Disponível em: fonte oficial consultada via web.


REUTERS. Europe pushes back on U.S. military operations as concerns over Iran war mount. 31 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via web.


REUTERS. France “surprised” by Trump’s criticism on banning U.S. military flights. 31 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via web.


REUTERS. WTO talks end in deadlock after Brazil blocks deal on e-commerce duties. 29 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via web.


UNITED STATES ARMY. Black Hawk arrives ahead of schedule, deepening U.S., Brazil partnership. 10 dez. 2025. Disponível em: fonte oficial consultada via web.



Trump em gelatina, guerra sem direção

Na entrevista de 3 de abril de 2026, Leonardo Trevisan oferece uma das leituras mais incisivas do conflito entre Estados Unidos e Irã: não se trata apenas de uma guerra no Oriente Médio, mas de um teste histórico à solidez da hegemonia americana e ao lugar estratégico do Brasil no novo tabuleiro global



Há entrevistas que apenas comentam os fatos. E há entrevistas que revelam a lógica subterrânea de uma época. A fala de Leonardo Trevisan em 3 de abril de 2026 pertence ao segundo tipo. Sua análise não se limita a descrever o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã. O que ela faz, com rara precisão, é capturar o instante em que uma superpotência continua devastadora no plano militar, mas já não consegue transformar força em ordem, poder em direção, ameaça em comando. O foco da entrevista, portanto, não é apenas a guerra. É algo mais profundo: o desgaste da capacidade dos Estados Unidos de organizar o mundo segundo os seus próprios termos. Esse diagnóstico se torna ainda mais relevante porque o conflito em curso, iniciado em 28 de fevereiro de 2026, já produziu escalada militar, pressão sobre o Estreito de Ormuz, divergências entre aliados ocidentais e uma crise diplomática sem solução clara.


O conceito-chave mobilizado por Trevisan é certeiro: o de “processo gelatinoso”. A imagem é poderosa porque descreve um poder que segue visível, pesado, ameaçador, mas perdeu consistência estratégica. A gelatina tem corpo, mas não tem firmeza. Mexe-se, oscila, deforma-se ao menor choque. É exatamente assim que o professor enxerga a política externa de Donald Trump nesta fase da guerra: uma sucessão de gestos contraditórios, discursos incompatíveis e ameaças sem forma política estável. Os Estados Unidos continuam capazes de bombardear, punir e destruir; o problema é que já não conseguem fazer disso uma arquitetura coerente de comando global. O que Trevisan identifica é uma crise de hegemonia, não uma simples dificuldade tática. E isso muda tudo.



A guerra que desmente a velha ideia de invulnerabilidade



Um dos pontos mais contundentes da entrevista é a percepção de que o conflito atual expôs um dado incômodo para Washington: o adversário já não pode mais ser tratado como figura regional periférica incapaz de impor custo real à máquina de guerra americana. O centro da argumentação de Trevisan está na ideia de que o Irã deixou de ser apenas um problema político e se converteu em um problema estratégico de primeira grandeza.


Mesmo quando se faz a devida separação entre o que está plenamente confirmado e o que aparece na entrevista como interpretação mais enfática, o pano de fundo da análise permanece robusto. O caso de Diego Garcia é emblemático. Em 20 de março de 2026, dois mísseis iranianos tiveram a base britânico-americana como alvo, a cerca de 2.500 milhas do território iraniano, o que elevou significativamente a percepção internacional sobre o alcance operacional de Teerã. O episódio foi suficientemente sério para constar em documentação oficial do Parlamento britânico.


Isso basta para desmontar uma visão confortável segundo a qual o conflito seria apenas mais um exercício unilateral de projeção americana de força. A guerra revela outra coisa: a erosão do monopólio psicológico da invulnerabilidade. Não se trata apenas de saber quantos mísseis cada lado possui, mas de compreender que a superioridade militar perde parte de sua eficácia quando o adversário demonstra capacidade de atingir nós sensíveis da logística, da defesa e da percepção pública. É nesse sentido que a análise de Trevisan acerta o alvo. O problema americano não é simplesmente militar; é simbólico, diplomático e narrativo.



Trump fala, contradiz-se e expõe a crise



Talvez o trecho mais brilhante da leitura de Trevisan seja aquele em que ele desmonta a fala de Donald Trump não como uma excentricidade pessoal, mas como sintoma político de um poder sem eixo. O professor chama atenção para uma sequência de contradições que, em vez de parecerem acidentes, passam a compor um padrão. Trump diz que a guerra está perto do fim, mas também afirma que os ataques seguirão por semanas. Exalta a economia, mas pede paciência diante da disparada da energia. Fala como quem controla o tabuleiro, mas suas próprias palavras revelam um poder reagindo mais do que conduzindo.


Essa leitura encontra eco em registros públicos do conflito. O Council on Foreign Relations mostra que, em 1º de abril de 2026, Trump afirmou que os EUA atacariam o Irã “extremamente duro” por mais duas ou três semanas, enquanto também falava em objetivos quase concluídos e sugeria que a reabertura de Ormuz seria problema de “outros países”. Não é apenas retórica desorganizada. É um discurso que tenta conciliar, ao mesmo tempo, a imagem de força absoluta e a necessidade de justificar a ausência de uma estratégia clara de saída.


Trevisan percebe o que há de mais grave nisso: quando a fala de uma superpotência perde coerência interna, o problema não é de estilo, mas de comando. Hegemonia exige previsibilidade. Exige que aliados entendam a direção, que mercados consigam calcular risco, que a burocracia de Estado saiba qual é o objetivo final. Quando o discurso presidencial passa a operar por negação, oscilação e improviso, a instabilidade deixa de ser apenas um efeito da guerra; passa a ser a própria linguagem do poder.



A “gelatina” não é fraqueza: é crise de hegemonia



É aqui que a entrevista ultrapassa o comentário conjuntural e alcança uma formulação teórica de maior densidade. O “processo gelatinoso” descrito por Trevisan é, no fundo, uma forma de dizer que os Estados Unidos já não conseguem transformar sua superioridade material em hegemonia estável. Continuam sendo a maior potência militar do planeta, mas uma potência militar, sozinha, não produz ordem internacional duradoura. Para isso, é preciso algo mais: consentimento, coordenação, legitimidade e liderança reconhecida.


A guerra contra o Irã mostra justamente a falha crescente desses elementos. Não há, até aqui, um mandato internacional claro. O briefing da House of Commons Library destaca que os ataques de EUA e Israel ao Irã não receberam endosso do Conselho de Segurança da ONU. Isso significa que Washington atua num ambiente em que a legalidade e a legitimidade internacional permanecem contestadas.


A gelatina, portanto, não significa ausência de força. Significa presença de força sem solidez política. É uma forma particularmente perigosa de poder: ainda tem capacidade destrutiva imensa, mas já não consegue estabilizar o sistema ao seu redor. Age muito, convence pouco. Ataca bastante, organiza menos. Impõe medo, mas não produz alinhamento automático. Essa é a chave mais valiosa da entrevista de Trevisan.



A rebelião europeia e o isolamento de Washington



Outro eixo decisivo da fala do professor é a percepção de que a crise não se limita ao campo de batalha. Ela alcança o interior da própria aliança ocidental. Essa talvez seja a maior notícia geopolítica escondida sob o ruído dos bombardeios: os Estados Unidos continuam liderando militarmente, mas já não comandam politicamente como antes.


A Reuters informou, em 31 de março de 2026, que França, Itália e Espanha impuseram restrições relevantes a operações americanas relacionadas à guerra com o Irã. A Itália restringiu o uso da base de Sigonella para operações ofensivas; a França recusou o uso de seu espaço aéreo para determinados voos de transporte militar americano. Isso não é um detalhe técnico. É uma fissura estratégica.


Trevisan acerta ao ler esse movimento como sintoma de isolamento. O ponto aqui não é saber se a OTAN acabou ou se a Europa rompeu com Washington. Nada disso. O ponto é mais sutil e talvez mais importante: o custo de seguir os Estados Unidos deixou de parecer automaticamente aceitável para aliados históricos. O cálculo europeu é material. Petróleo caro, gás pressionado, inflação energética, opinião pública fatigada e medo de aprofundar uma guerra de resultado incerto pesam mais do que reflexos antigos de submissão estratégica.


Isso produz uma cena inédita: a maior potência militar do Ocidente pressionando por escalada, enquanto parceiros tradicionais tentam limitar danos e reduzir exposição. Quando isso acontece, a hegemonia não caiu, mas entrou em crise aberta.



Irã sozinho? Não exatamente. EUA acompanhados? Cada vez menos.



É nesse contexto que ganha força a frase de Trevisan segundo a qual o Irã aparece “apoiado” enquanto os EUA não. A formulação, tomada ao pé da letra, pode soar excessiva. O Irã não dispõe de uma coalizão militar formal comparável à estrutura atlântica. Não há nada semelhante, por exemplo, a uma OTAN antiocidental operando em seu favor. Mas seria igualmente errado dizer que Teerã está isolado.


O que a conjuntura mostra é outra coisa: o Irã opera em um sistema internacional fragmentado, no qual rivais estratégicos de Washington não têm interesse em entregar à Casa Branca uma vitória limpa e incontestada. O briefing britânico registra que China e Rússia se abstiveram em deliberações relevantes no Conselho de Segurança, recusando-se a converter a ofensiva ocidental em consenso diplomático internacional.


Esse é o ponto substantivo. O Irã talvez não esteja “apoiado” no sentido clássico da palavra, mas tampouco se encontra encurralado por unanimidade global. Já os Estados Unidos, embora disponham de alianças formais vastas, descobrem que ter alianças no papel não significa obter adesão política plena na hora da escalada. É uma diferença brutal. A potência que se habituou a comandar passa a precisar negociar o básico. A potência que queria isolar o adversário vê o isolamento voltar-se parcialmente contra si.



O Brasil como variável estratégica, não como plateia



Na parte mais surpreendente da entrevista, Trevisan desloca o foco para o Brasil e sugere que, no meio do terremoto geopolítico, o país se encontra numa posição relativamente mais favorável do que se imaginava. Não porque seja forte no sentido clássico das grandes potências, mas porque se tornou mais relevante na disputa por recursos críticos, cadeias tecnológicas e autonomia diplomática.


Esse ponto é sólido. O Ministério de Minas e Energia destaca o Brasil entre os países com maiores reservas de minerais críticos e terras raras do planeta, ativos centrais para defesa, eletrônica avançada, transição energética e indústria digital. A classificação exata varia conforme a base utilizada, mas o essencial é incontornável: o Brasil deixou de ser apenas fornecedor periférico de matéria-prima e passou a ser enxergado como peça relevante em uma disputa global por insumos estratégicos.


Isso altera o lugar do país no sistema internacional. Em um cenário de rivalidade tecnológica entre Estados Unidos e China, minerais críticos deixam de ser apenas mercadorias; tornam-se instrumentos de barganha geopolítica. Trevisan percebe que esse é um momento raro em que a soberania brasileira pode deixar de ser apenas palavra de palanque e voltar a ser capacidade concreta de negociação.


O mesmo vale para a dimensão militar e diplomática. A chegada do primeiro UH-60M Black Hawk ao Brasil em novembro de 2025, no âmbito de parceria com os EUA, confirma que Washington segue interessado em manter Brasília próxima em temas sensíveis de defesa.  Já no campo comercial-digital, o Brasil adotou posição assertiva na OMC ao bloquear a renovação, nos termos desejados pelos EUA, da moratória sobre tarifas de comércio eletrônico, sinalizando postura menos subordinada em temas de soberania regulatória.


Trevisan interpreta esses sinais como prova de que o Brasil dispõe hoje de uma margem de manobra mais ampla. A formulação é plausível. O país não é senhor do tabuleiro, mas já não é mero peão resignado.



O que a entrevista vê na política brasileira de 2026



A leitura de Trevisan sobre os reflexos internos do conflito também merece atenção. Sua hipótese é que, diante de guerra prolongada, energia cara, instabilidade comercial e reorganização acelerada do poder global, os setores dominantes da economia brasileira tenderão ao pragmatismo. Em outras palavras: aventuras ideológicas que comprometam acesso a mercados, credibilidade diplomática e previsibilidade institucional podem se tornar caras demais.


É uma hipótese consistente. O Brasil de 2026 não decide apenas entre candidaturas; decide também entre estratégias de inserção internacional. Em um mundo tensionado, slogans de alinhamento automático perdem apelo quando confrontados com a necessidade concreta de vender, importar, negociar, atrair investimentos e manter abertura a múltiplos polos de poder. A soberania, nesse ambiente, não é abstração romântica. É gestão racional de interdependências.


A entrevista, nesse sentido, ilumina um aspecto central do momento histórico: o verdadeiro debate não é entre “Ocidente” e “antiocidente”, nem entre neutralidade ingênua e submissão automática. O verdadeiro debate é entre autonomia pragmática e dependência ideológica. E Trevisan, ao que tudo indica, aposta na primeira.



Uma entrevista que expõe a fissura do sistema



O grande mérito da análise de Leonardo Trevisan é oferecer uma moldura ampla para entender por que a guerra EUA–Irã não pode ser tratada como episódio regional isolado. O conflito revelou a vulnerabilidade crescente do comando americano, o esgarçamento das alianças ocidentais, a maior capacidade de resistência de atores antes subestimados e a abertura de espaços estratégicos para países com recursos, escala e diplomacia profissional.


Ao mesmo tempo, uma leitura rigorosa exige distinguir interpretação analítica de comprovação factual absoluta. Alguns dos episódios mais dramáticos mencionados no resumo da entrevista não apareceram, nas fontes mais confiáveis consultadas, com o mesmo grau de confirmação que outros pontos centrais do argumento. Ainda assim, essa ressalva não enfraquece o núcleo da análise. Pelo contrário: o torna mais forte. Mesmo sob filtro crítico, permanece de pé a conclusão principal de Trevisan: os Estados Unidos entraram numa guerra em que continuam poderosos demais para serem ignorados, mas cada vez menos sólidos para serem obedecidos.



Conclusão



A entrevista de Leonardo Trevisan deve ser lida como um diagnóstico político de alta densidade sobre a desorganização do poder americano em 2026. Sua contribuição mais importante está em mostrar que a crise atual não é apenas a de uma guerra difícil, mas a de uma hegemonia que perdeu coesão, previsibilidade e capacidade plena de alinhamento sobre seus próprios aliados. O “processo gelatinoso” de Trump, nessa leitura, não é mero descontrole retórico: é a linguagem de um império que continua armado até os dentes, mas já não consegue converter força em ordem.


E é por isso que a frase do professor — “Irã apoiado e EUA não” — merece ser levada a sério, ainda que com o devido refinamento analítico. O Irã não está apoiado no sentido clássico de uma grande coalizão militar formal. Mas está inserido num ambiente internacional em que Rússia, China e outras potências não entregam aos Estados Unidos o isolamento completo que Washington gostaria de impor a Teerã. Já os EUA, embora ainda cercados de alianças institucionais, encontram resistências concretas, limitações operacionais e recusas explícitas de parceiros históricos. No plano político, esse contraste é devastador. Porque uma superpotência pode até suportar um inimigo armado. O que ela não suporta por muito tempo é descobrir que, no momento decisivo, o adversário encontra margem de sustentação enquanto ela própria já não mobiliza obediência automática nem dentro da própria casa atlântica. Esse é o centro da crítica de Trevisan — e talvez a melhor síntese da crise internacional em curso.



Referências



BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Brazil’s critical minerals: a guide for foreign investors 2026. Brasília: MME, 2026. Disponível em: fonte oficial consultada via web.


COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS. Iran’s war with Israel and the United States. New York: CFR, 2026. Disponível em: fonte consultada via web.


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