domingo, 7 de dezembro de 2025

1 – Democracia em Disputa – A Herança Autoritária e a Formação da Cultura Política Brasileira

A política brasileira ainda opera sob a longa sombra deixada por séculos de autoritarismo, militarização e desigualdade estrutural. Esta seção revela como essa herança moldou o imaginário social, naturalizou a tutela militar e criou terreno fértil para a recorrência de aventuras golpistas ao longo da história republicana.



A Adesão Social ao Militarismo no Brasil: Raízes Sociológicas, Heranças Autoritárias e Produções Contemporâneas de Sentido




1. Introdução



A recorrente adesão de parcelas significativas da população brasileira a discursos militaristas, autoritários e antidemocráticos não é um fenômeno novo, tampouco episódico. Trata-se de uma construção histórica longa, marcada por continuidades institucionais, imaginários coletivos e dinâmicas sociais que atravessam a formação do Estado brasileiro desde o século XIX. Como demonstram autores clássicos e contemporâneos da sociologia brasileira, o país convive com uma permanência estrutural de valores hierárquicos, personalistas e autoritário-patrimonialistas, que moldam a percepção popular sobre ordem, autoridade, política e conflito social. Esses elementos explicam por que movimentos militares — e, mais recentemente, pseudomilitares ou militarizados — encontram terreno favorável para difusão de suas ideias.


Este capítulo busca analisar, com base no debate sociológico, os fatores históricos, culturais, institucionais e comunicacionais que favorecem a aceitação social do militarismo no Brasil, articulando autores como Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, Florestan Fernandes, José Murilo de Carvalho, Lilia Schwarcz, Jessé Souza, Paulo Arantes, Teresa Caldeira, Esther Solano, Camila Rocha, Ricardo Mariano e Ronaldo de Almeida. A análise inclui também o papel contemporâneo das redes digitais, da mídia e das igrejas na amplificação dessas narrativas.





2. Heranças Autoritárias e a Modernização Conservadora



A literatura clássica da sociologia brasileira identificou que a transição do Brasil para a modernidade ocorreu sob bases não democráticas. Para Florestan Fernandes (1976), o país viveu uma “revolução burguesa inacabada”, que incorporou elementos formais da modernidade capitalista sem romper com a estrutura autoritária e escravocrata herdada da Colônia. Nessa perspectiva, a sociedade brasileira internalizou padrões de dominação hierárquica que se projetam no campo político e institucional contemporâneo.


Sérgio Buarque de Holanda (2006) argumenta que a cordialidade — entendida não como gentileza, mas como personalismo — favoreceu a construção de um Estado fraco, permeado por relações privadas e avesso à autoridade impessoal da lei. Para Faoro (2001), as raízes patrimonialistas nunca foram desmontadas e moldaram uma elite estatal e social que desconfia da participação popular e valoriza instituições hierárquicas.


Esse ambiente sociocultural tornou plausível, para amplos setores da população, a idealização de agentes armados como representantes da ordem e da moral, e a naturalização da violência estatal contra grupos considerados “desviantes” ou “inimigos”.





3. O Personalismo Tutelar e a Construção do Militar como Guardião da Nação



José Murilo de Carvalho (2005) demonstra que a população brasileira foi historicamente excluída da vida política durante o Império e a Primeira República, o que gerou uma cultura de desconfiança da política civil e de admiração por instituições tidas como disciplinadas e impessoais, especialmente as Forças Armadas.


O Exército, ao longo da história, construiu uma autoimagem de “poder moderador”, herdeiro simbólico da tradição imperial, e apresentou-se como protetor da nacionalidade em momentos de crise. Parte da população internalizou essa narrativa, passando a perceber os militares como agentes neutros, técnicos e moralmente superiores à instabilidade da política civil.


Como observa Schwarcz (2019), a construção simbólica do militar como sujeito ordeiro, disciplinado e incorruptível é uma peça fundamental para compreender por que discursos de intervenção militar encontram ressonância social em momentos de polarização intensa.





4. Medo Social, Ansiedade Coletiva e a Atração pelo Autoritarismo



Jessé Souza (2017) argumenta que a classe média brasileira vive sob constante ansiedade moral e econômica, marcada pelo medo da perda de status, da violência urbana e da instabilidade política. Essa ansiedade produz uma demanda simbólica por ordem e autoridade, frequentemente preenchida pelo militarismo.


Para Souza, esse medo se transforma em uma gramática moral punitivista, onde se privilegia a punição, a força e o controle como formas de lidar com a complexidade social. Laymert Garcia dos Santos (2006) aponta ainda que a insegurança cotidiana é manipulada politicamente para justificar práticas autoritárias.


Nesse contexto, o militarismo aparece como uma solução simples para problemas complexos. A figura do militar, associada à disciplina e à força, é apresentada como oposição à “desordem” associada à política civil.





5. A Pedagogia da Violência e a Política do Inimigo



A naturalização da violência é um ponto-chave para compreender a aceitação popular do militarismo. Teresa Caldeira (2000), estudando a violência urbana em São Paulo, demonstra que o discurso da “tolerância zero” e o elogio a ações policiais violentas foram incorporados à cultura urbana como ferramentas de autopreservação.


Achille Mbembe (2011), embora não trate especificamente do Brasil, oferece o conceito de necropolítica, que se adapta ao contexto brasileiro contemporâneo: o Estado e suas forças armadas são autorizados — simbolicamente e às vezes explicitamente — a decidir quem deve viver e quem pode morrer. Paulo Arantes (2014) identifica essa lógica como parte de uma “sociedade em estado de guerra permanente”, na qual o militarismo se torna solução emocional diante de uma sensação estrutural de colapso.


A adesão social a discursos militares ocorre, portanto, porque eles se alinham a uma cultura preexistente de violência legitimada, voltada especialmente contra grupos marginalizados.





6. Religiosidade Conservadora, Moral Militar e a Lógica da Guerra Espiritual



Setores das igrejas neopentecostais e pentecostais — não todas, mas segmentos significativos — reforçam retóricas de autoridade, disciplina moral e combate ao mal. Conforme demonstram Ricardo Mariano (2014) e Ronaldo de Almeida (2017), há uma aproximação entre a retórica religiosa e a retórica militar em contextos políticos polarizados.


A figura do “soldado de Cristo”, central em muitos sermões neopentecostais, se aproxima da figura do soldado nacional que combate inimigos internos. Essa convergência cria uma adesão emocional ao militarismo, que passa a ser visto como força divina, ordeira e moralizadora.





7. Mídia, Esfera Pública e a Construção do Militar como Gestor Competente



Durante décadas, a mídia comercial brasileira reforçou a imagem do militar como gestor eficiente e moralmente superior, especialmente na cobertura da segurança pública. Muniz Sodré (2012) e João Brant (2019) explicam como a narrativa midiática naturalizou a ideia de que a violência deve ser combatida com força e que instituições militares são mais confiáveis do que instituições civis.


Essa construção simbólica facilitou a ascensão política de agentes militares no século XXI e a receptividade popular a discursos de “intervenção” ou “ordem e progresso”.





8. Redes Digitais, Pós-Verdade e Militarismo como Identidade Política



Pesquisas contemporâneas de Esther Solano, Camila Rocha e Pablo Ortellado apontam que, desde 2014, a cultura política digital brasileira se reorganizou a partir de afetos violentos, moralização extrema e construção de inimigos internos — todos elementos que dialogam com o imaginário militar.


Nas redes, o militarismo foi transformado em:


  • identidade política,
  • símbolo moral,
  • linguagem de guerra cultural,
  • promessa de purificação nacional.



Esse ambiente torna ideias autoritárias mais palatáveis e as transforma em bandeiras de engajamento emocional.





9. Conclusão



A facilidade com que parte da população brasileira aceita discursos militaristas não é produto de manipulação momentânea, mas resultado de camadas históricas profundas da formação social do país. O militarismo encontra terreno fértil porque dialoga com:


  1. heranças autoritárias e patrimonialistas (HOLANDA, 2006; FAORO, 2001; FERNANDES, 1976);
  2. idealização simbólica do Exército como guardião da nação (CARVALHO, 2005; SCHWARCZ, 2019);
  3. medo social, ansiedade econômica e insegurança urbana (SOUZA, 2017);
  4. pedagogias da violência e políticas do inimigo (CALDEIRA, 2000; ARANTES, 2014; MBEMBE, 2011);
  5. moral religiosa conservadora que se articula com a retórica da guerra (MARIANO, 2014; ALMEIDA, 2017);
  6. discursos midiáticos que glorificam autoridade e repressão (SODRÉ, 2012; BRANT, 2019);
  7. ecossistemas digitais que transformam o militarismo em identidade política (SOLANO; ROCHA; ORTELLADO).



Esses elementos, articulados, demonstram que o militarismo no Brasil é mais do que um fenômeno político: é uma estrutura cultural, uma gramática emocional e uma lente de interpretação do mundo profundamente enraizada na sociedade brasileira.


Assim, compreender a adesão popular ao militarismo é compreender os limites e desafios da democracia brasileira, bem como as tensões históricas que moldam o presente político do país.





Referências (ABNT)



ALMEIDA, Ronaldo de. A onda quebrada: evangélicos e conservadorismo moral na política brasileira. São Paulo: Editora da Unicamp, 2017.


ARANTES, Paulo. O novo tempo do mundo. São Paulo: Boitempo, 2014.


BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.


BRANT, João. A pós-democracia na comunicação. São Paulo: Editora Intermeios, 2019.


CALDEIRA, Teresa. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania. São Paulo: Editora 34, 2000.


CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e Política no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.


FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.


FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.


MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 2014.


MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2011.


SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


SODRÉ, Muniz. A Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro: Vozes, 2012.


SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.


SOLANO, Esther; ROCHA, Camila; ORTELLADO, Pablo. Guerras culturais e política no Brasil contemporâneo. São Paulo: Boitempo, 2020.


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