domingo, 21 de dezembro de 2025

Lei Rouanet não é o problema: o problema é quem demoniza a política cultural enquanto vive do dinheiro público

Um editorial sobre desinformação, estatismo seletivo e a hipocrisia de artistas e agentes políticos que atacam o Estado em discurso, mas dependem dele na prática


Há algo profundamente errado quando a palavra cultura vira xingamento, política pública vira suspeita moral e Lei Rouanet passa a ser tratada como sinônimo de corrupção automática. Mais errado ainda quando esse discurso é vocalizado — com convicção, aplauso e palco — por quem vive confortável e reiteradamente do dinheiro público. Não se trata de erro conceitual. Trata-se de hipocrisia política estruturada, repetida à exaustão até parecer virtude.


No Brasil recente, a Lei Rouanet foi transformada em bode expiatório perfeito. Complexa o suficiente para confundir, simbólica o suficiente para inflamar. Ela passou a representar, no imaginário de uma guerra cultural fabricada, tudo o que supostamente estaria errado no país: artistas, diversidade, crítica, pluralidade. A ironia — daquelas que só a realidade brasileira produz — é que, quando se olha para onde realmente circulam os maiores volumes de dinheiro público na música, os alvos preferenciais do moralismo digital simplesmente não estão lá.





O truque retórico: chamar tudo de Rouanet



O debate público foi sequestrado por um truque barato: chamar todo dinheiro público ligado à cultura de Lei Rouanet. Cachê pago por prefeitura? Rouanet. Show bancado por emenda parlamentar? Rouanet. Festa municipal com contrato milionário? Rouanet. Tudo vira a mesma coisa, porque o objetivo não é informar — é indignar.


Esse atalho retórico cumpre duas funções perversas. Primeiro, protege os verdadeiros centros de gasto público opaco, especialmente nos municípios, onde contratos milionários são assinados sem qualquer debate qualificado sobre prioridade social. Segundo, demoniza um instrumento legal de política cultural, deslocando a raiva popular para o lugar errado.


Não é ignorância. É conveniência.





“Embolsar” dinheiro público: o verbo da má-fé



Dizer que artistas “embolsa m” dinheiro pela Lei Rouanet é uma forma deliberada de mentir sem precisar falsificar documentos. Na Rouanet, não há depósito automático, não há cheque em branco, não há cofre aberto. Há projeto, análise técnica, teto aprovado, captação incerta, execução fiscalizada e prestação de contas.


Mas isso não rende engajamento.

Não vira meme.

Não mobiliza ressentimento.


Então o verbo escolhido é “embolsa” — curto, agressivo, moralmente carregado. Um verbo que transforma política pública em crime presumido e o leitor em juiz indignado. É assim que se mata o debate antes que ele exista.





O que realmente incomoda: cultura como política pública



O ataque à Lei Rouanet nunca foi, de fato, sobre dinheiro. Foi — e continua sendo — sobre cultura enquanto política pública. Sobre o reconhecimento de que o Estado tem, sim, papel na promoção da diversidade cultural, na preservação da memória e no acesso da população à produção simbólica.


Para setores que transformaram o anti-Estado seletivo em identidade política, isso é intolerável. O Estado pode financiar estrada, agronegócio, subsídio, isenção, emenda, show em praça pública — desde que não financie pensamento crítico, arte plural ou manifestações culturais que escapem do controle ideológico.


O problema nunca foi o gasto. Foi quem gasta e para quê.





Sertanejo, dinheiro público e silêncio conveniente



Há um dado incômodo que os críticos profissionais da Rouanet evitam discutir: o sertanejo se tornou a engrenagem central dos eventos públicos no Brasil. Prefeituras pequenas, médias e grandes destinam milhões a shows, muitas vezes bancados por emendas parlamentares, enquanto serviços essenciais seguem precarizados.


Isso não é Rouanet.

Isso é orçamento direto.

Isso é decisão política local.


Mas curiosamente, esse fluxo de dinheiro raramente provoca indignação organizada. Não gera campanha nacional. Não vira cruzada moral. Por quê? Porque ele não ameaça a narrativa, não desafia a guerra cultural, não exige reflexão sobre prioridades públicas. É gasto que rende aplauso imediato, foto em rede social e capital político local.





A política entra em cena — e a contradição explode



Nos últimos anos, parte expressiva do meio sertanejo assumiu posição política clara, alinhando-se a um discurso que demoniza o Estado, ridiculariza políticas públicas e trata leis sociais como entraves à “liberdade”. O problema não é o posicionamento. Em uma democracia, ele é legítimo.


O problema é a coerência.


Não é aceitável atacar o Estado em abstrato enquanto se depende dele em concreto. Não é aceitável chamar política pública de “mamata” enquanto se recebe cachê de prefeitura. Não é aceitável posar de liberal enquanto se circula confortavelmente pelo circuito das emendas, contratos e incentivos.


Isso não é convicção ideológica. É oportunismo.





Estatismo seletivo: o nome correto da hipocrisia



Há um nome técnico para isso: estatismo seletivo. O Estado é ruim quando financia o outro. É ótimo quando financia a mim. O imposto é roubo quando sustenta políticas sociais. É investimento quando paga meu show.


Essa lógica corrói qualquer debate sério sobre gasto público. Ela transforma a crítica legítima em arma de manipulação. E pior: naturaliza a mentira como linguagem política.





O bode expiatório perfeito



A Lei Rouanet virou o bode expiatório ideal porque reúne tudo o que a guerra cultural precisa:


  • é complexa,
  • é pouco compreendida,
  • envolve arte,
  • envolve diversidade,
  • envolve intelectuais,
  • envolve símbolos.



Enquanto a multidão aponta para a Rouanet, os verdadeiros problemas passam incólumes: contratos sem critério, emendas sem transparência, municípios quebrados bancando espetáculos milionários, ausência total de avaliação de impacto social.


A cortina de fumaça cumpre sua função.





O debate que se recusa a existir



Um país minimamente sério estaria discutindo:


  • por que cidades pobres gastam milhões em shows;
  • quem define esses valores;
  • qual o retorno social real;
  • como democratizar o acesso às políticas culturais;
  • como impedir concentração e captura do sistema.



Mas isso exige jornalismo, dados, confronto com interesses locais e nacionais. É mais fácil gritar “Rouanet” e encerrar o assunto.





Cultura não é luxo. Ignorância, sim.



A cultura brasileira emprega milhões de pessoas, movimenta cadeias produtivas inteiras, preserva memória e constrói identidade. Tratá-la como privilégio é um erro civilizatório. Tratá-la como inimiga é projeto político autoritário.


E atacar políticas culturais enquanto se vive do dinheiro público não é apenas incoerente. É desonesto.





Conclusão: chega de cinismo



O Brasil precisa urgentemente elevar o nível desse debate. Menos slogan, mais responsabilidade. Menos guerra cultural, mais honestidade intelectual. Menos hipocrisia performática, mais compromisso com a verdade.


Quem vive do dinheiro público precisa, no mínimo, respeitar o público. E respeitar o público começa por não tratá-lo como ingênuo.


A cultura brasileira merece crítica séria, política pública bem desenhada e fiscalização rigorosa. O que ela não merece é ser usada como espantalho por quem canta liberdade no palco e pratica dependência nos bastidores.


No Brasil Esfera Pública, a escolha é clara:

não compactuamos com cinismo travestido de moralidade.


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