A queda de Dilma Rousseff, primeira mulher eleita presidente do Brasil, não pode ser compreendida apenas como um episódio político ou jurídico. É impossível dissociar o impeachment de 2016 do machismo estrutural que permeia a política brasileira. Dilma não enfrentou apenas uma coalizão de interesses econômicos e parlamentares: ela enfrentou um sistema que, ao longo de séculos, excluiu mulheres do poder e reagiu com violência quando uma delas ousou ocupar o mais alto cargo da República.
Sua queda não foi apenas um golpe parlamentar. Foi um golpe operado também pelo gênero — silencioso, sistêmico, eivado de estereótipos que não têm equivalência no tratamento dado a presidentes homens.
Dilma sofreu o que nenhuma figura masculina na história política brasileira enfrentou: o primeiro golpe político-mediático de gênero.
11.1. A presença inédita de uma mulher no topo do Estado brasileiro
A eleição de Dilma Rousseff, em 2010, representou um marco histórico. Em um país cuja política sempre foi dominada por homens — brancos, ricos, conservadores e associados a estruturas patriarcais — sua vitória significou uma ruptura simbólica. Pela primeira vez, mulheres brasileiras viam uma figura feminina ocupar o cargo máximo da nação. Pela primeira vez, a liderança política deixou de ser monopólio masculino.
Mas nenhuma estrutura patriarcal aceita pacificamente ver seu monopólio ameaçado.
Desde o primeiro mandato, Dilma foi alvo de:
- comentários misóginos,
- questionamentos sobre seu temperamento,
- ataques à sua feminilidade,
- ridicularização de sua postura firme,
- sexualização e desqualificação de sua imagem pública.
O que para um homem seria chamado de “liderança”, em Dilma foi chamado de “histeria”, “incompetência”, “descontrole emocional”.
O que para homens é “autoridade”, nela era tratado como “grosseria”.
O que para homens é “firmeza”, nela virava “temperamento inadequado”.
Esse duplo padrão revela uma das engrenagens centrais do machismo estrutural: mulheres no poder são julgadas não por seus atos, mas pela violação do “lugar social” que o patriarcado lhes reserva.
11.2. A receita do golpe: misoginia, moralismo e deslegitimação pública
O estopim do processo que levou ao impeachment não pode ser explicado apenas por tecnicismos fiscais — tanto que nenhum presidente homem foi afastado por motivos semelhantes. O que diferenciava Dilma não eram as supostas “pedaladas fiscais”, mas o fato de ser mulher em um ambiente que não aceita mulheres exercendo poder em igualdade.
A misoginia que alimentou o golpe se manifestou de múltiplas formas:
1. A construção da “incompetência feminina”
Dilma foi repetidamente retratada como incapaz, confusa, emocionalmente desequilibrada. Críticos e meios de comunicação exploraram cada frase, cada gesto, cada expressão facial como prova de inadequação — algo jamais visto com presidentes homens que cometeram erros muito mais graves.
2. A sexualização e ridicularização da figura feminina
Caricaturas machistas, memes misóginos e violência simbólica inundaram redes sociais e espaços públicos. Sua condição de mulher foi explorada como instrumento de humilhação política.
3. A ausência de redes de proteção masculina
Enquanto presidentes homens têm redes solidárias de apoio político, Dilma enfrentou o isolamento. Em um ambiente dominado por homens que se protegem mutuamente, a única mulher no topo estava desamparada.
4. A demonização da figura feminina no poder
Narrativas sugeriam que Dilma era “mandona”, “autoritária”, “desagradável”, “difícil” — adjetivos raramente aplicados a homens com perfil semelhante. A insistência em questionar sua autoridade reforçava a ideia de que mulheres não pertencem à liderança.
Essa combinação — moralismo, misoginia e deslegitimação — foi fundamental para criar o clima emocional que permitiu a consumação do golpe.
11.3. O golpe como pedagogia: o recado enviado às mulheres
A queda de Dilma enviou um recado nítido às mulheres brasileiras:
“Se você ousar chegar ao topo, será derrubada.”
Esse recado é profundo e perigoso. Ele reforça:
- que mulheres não podem errar;
- que mulheres não devem ocupar espaços de poder;
- que mulheres devem ser punidas quando rompem o script patriarcal;
- que o Estado brasileiro tolera mulheres desde que elas permaneçam em segundo plano.
Não é coincidência que, após o impeachment, a participação feminina na política tenha diminuído e a violência política de gênero tenha aumentado. A democracia brasileira voltou a ser um território ainda mais hostil para mulheres.
O caso Dilma, portanto, não é episódio isolado: é sintoma estrutural de um país onde o patriarcado atua como força política.
11.4. A instrumentalização do machismo pelo conservadorismo e pela extrema direita
Após a queda de Dilma, o discurso misógino se fortaleceu no Brasil. As forças conservadoras e de extrema direita aprenderam que atacar mulheres funciona eleitoralmente — especialmente quando essas mulheres representam projetos progressistas ou democráticos.
O bolsonarismo incorporou essa estratégia de forma explícita:
- ridicularizar mulheres opositoras,
- desqualificar mulheres jornalistas,
- atacar fisicamente e verbalmente deputadas,
- erotizar ou vulgarizar a figura feminina,
- vincular feminismo à “destruição da família”.
O golpe contra Dilma abriu essa porta.
Ele mostrou que, no Brasil, é possível mobilizar ressentimentos patriarcais para derrubar mulheres e ascender ao poder.
Dilma foi o primeiro alvo desse ciclo.
Não o último.
11.5. Dilma como ponto de inflexão: o que a democracia brasileira precisa aprender
Se há algo que a democracia brasileira deve compreender, é que a queda de Dilma não foi apenas um erro histórico — foi um alerta.
O país mostrou, no episódio do impeachment, que ainda opera sob lógicas patriarcais profundas. Mostrou que o gênero pesa mais que argumentos jurídicos. Mostrou que mulheres no poder não são tratadas como iguais — são tratadas como ameaça.
Para avançar, a democracia precisa aprender com esse episódio.
E a lição central é esta:
um país que derruba sua primeira presidenta por razões que jamais derrubariam um homem está dizendo que o poder não é lugar para mulheres.
E enquanto o poder não for lugar para mulheres, a democracia continuará incompleta, frágil e vulnerável ao autoritarismo.
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