“A democracia ferida, marcada por uma placa pendurada no pescoço, sangra diante do Palácio do Planalto enquanto três galinhas — o povo — repetem o gesto da ignorância coletiva: não ouvir, não ver, não falar. Ao fundo, a cobra enrolada no mastro da bandeira brasileira vigia o cenário, simbolizando o fascismo e o cristofascismo que se infiltram nas instituições. À esquerda, os livros queimando representam o ataque ao conhecimento, à ciência e à educação — pilares essenciais de qualquer democracia. E, atrás de tudo, a igreja destruída evidencia a distorção da fé usada como arma política para justificar a barbárie.”
Parábolas sempre acompanharam a história humana. Antes de sermos sociedades digitais, fomos sociedades contadoras de histórias. E, em momentos de crise, essas narrativas simbólicas reaparecem como ferramentas para interpretar o mundo. Nos últimos anos, uma parábola anônima circulou silenciosamente pelas redes sociais brasileiras: a história da galinha picada pela cobra e abandonada pelo próprio galinheiro. Para muitos, parece apenas uma fábula sobre ingratidão. Mas, lida com atenção, ela revela camadas profundas sobre a forma como comunidades tratam aqueles que mais precisam — e sobre o preço devastador da omissão coletiva.
A versão original conta que uma galinha é mordida por uma cobra e, ferida, tenta voltar ao galinheiro buscando acolhimento. Em vez de amparo, encontra o medo, o egoísmo e a rejeição das outras galinhas, que preferem expulsá-la para evitar problemas. A galinha parte sozinha, agoniza numa caverna distante e morre sem que ninguém se disponha a ajudá-la. Somente depois de sua morte o galinheiro inteiro se mobiliza, tomado pelo arrependimento tardio. É, ao mesmo tempo, uma história simples e brutal.
Mas parábolas não existem apenas para entreter; servem para iluminar realidades. Ao transpor essa narrativa para o campo político, percebemos que ela fala diretamente ao Brasil de hoje. Nesta releitura, a galinha ferida é a democracia — imperfeita, lenta, cheia de falhas, mas fundamental à vida coletiva. A cobra que a ataca é o fascismo, em suas versões contemporâneas: o autoritarismo, o cristofascismo que usa o nome de Deus para justificar o ódio, a necropolítica que decide quem pode morrer. O galinheiro é o país. E as outras galinhas são o povo — nós — com nossa mistura de ignorância, medo, indiferença e hipocrisia.
O objetivo deste texto é reconstruir a parábola em uma versão literária mais elaborada e utilizá-la como lente crítica para refletir sobre o Brasil contemporâneo. A fábula se transforma aqui em ferramenta filosófica, psicológica e política. Ao final, permanece uma mensagem inequívoca: democracias não morrem por causa de inimigos fortes, mas por causa de sociedades que deixam de defendê-las. E a única fortificação real contra isso — o único antídoto verdadeiro contra o veneno — é a educação pública, crítica e universal, sustentada por orçamento robusto e contínuo. Sem isso, o país continuará repetindo o ciclo do abandono, da negação e do arrependimento tardio.
1. A picada da cobra: quando o fascismo chega disfarçado
A cobra mordeu a galinha ao entardecer, quando o galinheiro já se recolhia para a noite. Foi uma picada rápida, silenciosa, quase discreta – como são, aliás, os ataques do fascismo. Ele não chega gritando o próprio nome. Apresenta-se como “ordem”, “defesa da família”, “salvação moral”, “segurança contra o caos”. Quando a democracia percebe, o veneno já está correndo nas veias.
Essa galinha não era uma qualquer: era aquela que, com todos os defeitos, havia aprendido a organizar o espaço, a dividir o milho, a tentar impedir que o mais forte esmagasse o mais fraco. Era lenta, às vezes confusa, frequentemente contraditória – como toda democracia real. Mas era ela que, de algum modo, mantinha o frágil equilíbrio entre o galinheiro e a barbárie.
Ao sentir o veneno queimando por dentro, a galinha fez o que qualquer organismo ferido faz: tentou voltar para casa, para o galinheiro, na esperança de ser acolhida. Democracias, quando atacadas, também fazem isso: buscam o povo, esperam proteção, imaginam que aqueles em nome de quem existem vão se posicionar.
Não foi o que aconteceu.
2. O galinheiro fecha a porta: medo, egoísmo e negação
As outras galinhas recuaram. Primeiro, com medo instintivo:
— Se o veneno se espalhar, vai sobrar pra nós — cacarejou uma.
— Eu tenho ovos para pôr, não posso me envolver — disse outra.
— Isso é problema dela com a cobra. Melhor não se meter — completou uma terceira, olhando para o chão.
Nesta cena, a parábola deixa de ser apenas fábula e se torna diagnóstico. A galinha ferida é a democracia brasileira: atacada pelo fascismo, pelo cristofascismo que usa o nome de Deus para justificar o ódio, pela necropolítica que calcula vidas como se fossem descartáveis. O galinheiro é o país. As outras galinhas são o povo — com sua mistura de medo, ignorância, egoísmo, culpa deslocada e covardia cotidiana.
2.1 Psicologia do recuo: o conforto de “não é comigo”
A psicologia social já ensinou: grupos tendem a se proteger negando o problema. É mais confortável imaginar que o perigo está “lá fora” do que admitir que ele corre por dentro, nas palavras que repetimos sem pensar, nos discursos que aplaudimos, nas “brincadeiras” que normalizamos.
A recusa em acolher a galinha é, no fundo, a recusa em admitir que a democracia pode morrer – e que isso tem tudo a ver com o que fazemos (ou deixamos de fazer) todos os dias.
2.2 Democracia ferida pela indiferença
A galinha foi empurrada para fora. Tinha medo da noite, da escuridão, da solidão. Mas, mais do que da cobra, doía-lhe o abandono. Democracias não morrem apenas com golpes, armas e decretos. Morrem de indiferença. Morrem quando a sociedade olha para o outro lado e diz: “Não é comigo”.
A cada passo trôpego, a galinha derramava uma lágrima que se misturava ao pó do caminho. Não chorava por ter sido atacada. Chorava porque, ferida, descobria que o galinheiro – o país – não a reconhecia mais como necessária.
A democracia sangrava e o povo, confortavelmente, preferia acreditar que tudo era exagero, que “sempre foi assim”, que “não vai dar em nada”.
3. O beija-flor mensageiro: a consciência que tenta avisar
Passaram-se dias, talvez meses. No tempo político, isso é pouco, mas suficiente para normalizar horrores. O galinheiro voltou à rotina: ovos, milho, disputas pequenas. O veneno da cobra era agora um rumor distante. Afinal, a vida segue – é o que sempre se diz.
Até que um beija-flor apareceu batendo as asas na entrada do galinheiro. Pequeno, aparentemente frágil, mas carregando uma notícia que pesava como um livro de história sobre a consciência de um país:
— Sua irmã está viva — disse. — Mora numa caverna distante. Perdeu uma pata, cambaleia, tem dificuldade para encontrar comida. Precisa de ajuda.
3.1 Quem é o beija-flor na vida real?
O beija-flor, nessa parábola, é a consciência crítica: jornalistas que ainda investigam, educadores que insistem em ensinar, pesquisadores que se recusam a falsificar dados, cidadãos que não aceitam o discurso pronto. É a voz que diz: “A democracia ainda respira, mas está mutilada. Se não cuidarmos dela agora, não haverá retorno.”
No galinheiro, seguiu-se um silêncio desconfortável. As galinhas se entreolharam, mas não por compaixão – por cálculo.
— Eu não posso ir, estou pondo ovos — murmurou uma, ocupada com a própria sobrevivência.
— Tenho milho a buscar. Se eu sair, quem vai garantir meu alimento? — justificou outra.
— Meus pintinhos precisam de mim — disse uma terceira, escondendo o egoísmo sob o verniz da responsabilidade.
3.2 A racionalização da omissão
Na política, é mais ou menos assim: empresas dizem que não podem se comprometer com a defesa da democracia porque precisam “proteger seus negócios”; líderes religiosos evitam o enfrentamento porque “não querem dividir a igreja”; cidadãos alegam “cansaço da política” para justificar a omissão.
Entra em cena o mecanismo clássico da racionalização: cada uma inventa uma justificativa aparentemente razoável para mascarar a verdade dura – a verdade de que a democracia está sozinha, abandonada, lutando para sobreviver em ambientes inóspitos, enquanto o país finge normalidade.
O beija-flor retorna à caverna sozinho. É a imagem de quem insiste na defesa de direitos, da ciência, da educação, mesmo quando a maioria se refugia na comodidade da omissão.
4. A notícia final: o luto que chega tarde demais
O tempo avançou um pouco mais. Até que, um dia, o beija-flor voltou ao galinheiro. As asas batiam mais devagar. Nos olhos, o peso de quem traz uma notícia que não quer dar:
— Sua irmã morreu — disse. — Morreu sozinha, abandonada. Não houve quem a alimentasse, quem vigiasse seu sono, quem segurasse sua asa no último suspiro. Não há ninguém para velar o corpo, nem para chorar por ela.
O galinheiro emudeceu. As galinhas que antes estavam ocupadas com ovos, milho e pintinhos congelaram. Elas sabiam, por dentro, que aquela morte também passava por elas.
4.1 Quando o país percebe que deixou a democracia morrer
É neste ponto que a parábola encontra a política brasileira: quando parte da sociedade só percebe o que perdeu depois que a democracia foi destruída por dentro. Quando liberdade de imprensa é corroída, quando instituições são cooptadas, quando direitos sociais são desmontados em silêncio, é comum ouvir: “Eu não achei que fosse chegar tão longe”.
Chega. Sempre chega, quando o fascismo, o cristofascismo e a necropolítica não encontram resistência firme. A necropolítica – a gestão da morte como política de Estado – se expressa em cada corpo deixado para trás, em cada vida considerada descartável, em cada “não é comigo” sussurrado para justificar o abandono.
As galinhas se levantaram, agora tomadas por uma urgência tardia.
— Por que não fomos antes? — repetiam, em coro, com a voz embargada.
Esse é o grito da história pós-ditaduras, pós-golpes, pós-tragédias anunciadas. O arrependimento sempre chega, mas quase nunca em tempo de salvar a democracia que se deixou morrer.
5. A carta na caverna: autópsia moral de um país
Sem medir distância nem cansaço, partiram em direção à caverna. Curiosamente, agora todas tinham tempo. A postura mudou: lágrimas, lamentações, discursos emocionados. As mesmas que não atravessaram o terreiro para ajudar a galinha viva agora cruzavam léguas para ver a galinha morta.
Chegando à caverna, encontraram apenas o vazio. E uma carta.
A carta estava manchada pela umidade da caverna e pelo esforço de quem a escreveu com pouca força. As palavras, no entanto, cortavam com precisão cirúrgica, como uma autópsia moral:
“Na vida, muitas vezes as pessoas não atravessam a rua para te ajudar enquanto estás vivo,
mas atravessam o mundo para te enterrar quando morres.
E a maioria das lágrimas nos funerais não é de dor, mas de remorso e arrependimento.”
5.1 As lágrimas da omissão
Transposta para o campo político, a frase ganha contornos ainda mais duros:
Os mesmos que se omitiram diante do ataque à democracia costumam, depois, escrever notas de pesar, postar homenagens, falar em “excessos dos dois lados”, convocar à reconciliação nacional. São as lágrimas tardias de quem não quis pagar o preço da coragem quando ainda havia tempo.
Filosoficamente, há aqui um ponto crucial: a democracia não é um dado, é um processo. Não é um presente guardado na estante; é um organismo vivo que adoece se não for cuidado. Exige, todos os dias, educação crítica, participação ativa, compromisso com a verdade, disposição para o conflito democrático. Exige que o povo entenda que não existe neutralidade em tempos de veneno.
Psicologicamente, a parábola revela o mecanismo coletivo da negação, seguido do remorso. Primeiro, o povo se recusa a ver o perigo – “isso é exagero”, “é mimimi”, “é briga política”. Depois, quando a destruição é irreversível, abraça o luto como forma tardia de aliviar a culpa. Mas culpa tardia não reconstrói instituições.
6. Educação como antídoto: o investimento que define quem vive e quem morre
Se há um ponto em que essa parábola toca diretamente a vida real é quando olhamos para a raiz de tudo: a formação do povo. Um galinheiro incapaz de reconhecer o valor da galinha que organizava a vida comum é um país que não entende o valor da democracia. E isso não é acidente – é produto de uma educação negada, sabotada, subfinanciada.
Fascismo, cristofascismo e necropolítica não crescem no vazio. Alimentam-se de ignorância, preconceito, medo, ressentimento. Usam a linguagem religiosa para sacralizar a violência; a linguagem patriótica para legitimar o ódio; a linguagem “da ordem” para justificar a morte de quem sobra na conta.
Só há um antídoto consistente contra esse veneno: educação pública de qualidade, laica, crítica, universal, sustentada por políticas de Estado e orçamento estável. Uma educação que ensine a:
- ler o mundo e não apenas o texto;
- reconhecer manipulações e desinformação;
- duvidar de discursos fáceis e messiânicos;
- confrontar o ódio travestido de “cuidado”;
- perceber quando a cobra se apresenta com a pele lustrosa do “salvador da pátria”.
Isso não se faz com slogans, mas com investimento público. Democracia não se sustenta com frases bonitas em pronunciamentos; sustenta-se com escolas bem equipadas, professores valorizados, universidades fortes, ciência respeitada, cultura viva.
O maior investimento que um país democrático pode fazer não é em armas, não é em subsídios para quem já é rico, não é em marketing de governo. É em educação. Orçamento público dedicado à educação não é gasto: é infraestrutura democrática. Cada corte nessa área é um corte direto nas defesas da sociedade contra o veneno autoritário.
Conclusão: ou o país atravessa a rua pela democracia viva, ou atravessará o mundo para enterrá-la
A parábola da galinha picada pela cobra poderia ser apenas mais uma história compartilhada em redes sociais. Mas, lida com seriedade, ela nos obriga a uma pergunta incômoda: que tipo de galinheiro o Brasil quer ser? Aquele que expulsa a democracia ferida e depois chora sobre sua cova, ou aquele que reconhece o perigo a tempo e constrói, pela educação, a capacidade de resistir?
Um povo educado reconhece o veneno antes da mordida. Não abandona a galinha na porta do galinheiro. Entende que a democracia pode ser lenta, cansativa, cheia de falhas – mas é ela que impede que a cobra dite quem vive e quem morre.
No fim, a escolha é simples e brutal:
Se o orçamento público não atravessar o caminho em direção à educação, o país atravessará o mundo em busca de explicações para enterrar, mais uma vez, a própria democracia. E serão, de novo, lágrimas de arrependimento – não de surpresa.
Desta vez, porém, ninguém poderá dizer que não foi avisado.
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