Três deputados federais do mesmo partido deixam a Câmara em circunstâncias distintas, mas conectadas por um fio comum: desprezo pelo mandato, desrespeito à Constituição e instrumentalização do eleitor. O episódio escancara a fragilidade moral da política brasileira, a distância entre discurso eleitoral e prática parlamentar e o uso recorrente da cidadania como massa de manobra em um sistema que normalizou a irresponsabilidade e flerta perigosamente com a erosão democrática.
1. Introdução
Nos últimos anos, o cenário político brasileiro vem passando por transformações turbulentas e, muitas vezes, preocupantes. Um exemplo emblemático é o recente caso de três deputados federais do mesmo partido – o Partido Liberal (PL) – que deixaram simultaneamente suas cadeiras na Câmara dos Deputados, cada um por um motivo diferente. Carla Zambelli (PL-SP) renunciou ao mandato após ter sua cassação determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) devido a condenação criminal . Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, teve o mandato cassado por excesso de faltas – ele ultrapassou o limite constitucional de ausências ao faltar a quase 79% das sessões de 2025 . Já Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência, perdeu o mandato após ser condenado pelo STF a 16 anos de prisão por envolvimento em tentativa de golpe de Estado, encontrando-se atualmente foragido no exterior (JOTA, 2025) . Os três casos, embora distintos em suas causas – renúncia, cassação por infração constitucional e cassação por condenação criminal –, convergem para um mesmo sintoma: as graves disfunções éticas, institucionais e representativas da política brasileira atual.
Esta introdução contextualiza o fenômeno que será analisado neste artigo: o que as saídas desses parlamentares revelam sobre a política nacional, as fragilidades morais e inconstitucionais do sistema, a incoerência entre as promessas eleitorais e a atuação parlamentar, bem como a manipulação e a miopia do eleitorado. Ao longo do texto, adotaremos um tom crítico e reflexivo, expondo contradições e propondo analogias para tornar claras as complexidades do tema. Questões retóricas serão levantadas para engajar o leitor e encorajá-lo a pensar sobre seu papel enquanto cidadão. Seria a democracia brasileira um “teatro” onde os atores políticos esquecem suas falas assim que termina a eleição? Ou será que parte do problema reside também na plateia – o eleitorado – que aplaude e vai embora sem realmente compreender a peça? A seguir, mergulharemos nos detalhes do caso e em suas implicações mais amplas, mantendo uma linguagem acessível porém firme, embasada em dados e referências segundo a norma ABNT.
2. Contexto: Três Deputados, Um Partido em Xeque
Para compreender a gravidade do fenômeno, é preciso olhar de perto o contexto em que três deputados federais do Partido Liberal (PL) deixaram seus cargos quase ao mesmo tempo. O PL, legenda que ganhou proeminência ao eleger a maior bancada de deputados em 2022, enfrenta atualmente uma verdadeira debandada e crise interna. Desde o início de 2023, 12 parlamentares já deixaram o partido, seja por desfiliação, expulsão ou perda de mandato, reduzindo a bancada de 99 para 88 membros (CURVELLO, 2025) . As razões dessas saídas variam e evidenciam tensões entre a ala ideológica bolsonarista e setores mais pragmáticos da sigla . No caso específico que analisamos, porém, as motivações vão além de divergências políticas – envolvem questões judiciais e constitucionais de grande repercussão.
2.1. Carla Zambelli e a Renúncia Estratégica
Carla Zambelli despontou nacionalmente como uma das aliadas mais fervorosas do bolsonarismo, conhecida por discursos inflamados em defesa de pautas conservadoras e pelo embate direto contra adversários políticos. Paradoxalmente, terminou seu mandato de forma melancólica e controversa: renunciou ao cargo de deputada federal. A renúncia ocorreu em dezembro de 2025, logo após o STF confirmar, em votação unânime, sua condenação criminal e a consequente perda de mandato (SOBREIRA; SOARES, 2025) . Zambelli foi condenada a 10 anos de prisão por envolvimento em atos antidemocráticos – incluindo um episódio em que apareceu armada perseguindo um cidadão às vésperas das eleições de 2022, fato que chocou o país.
Segundo analistas, a renúncia de Zambelli foi uma manobra calculada para tentar preservar alguma dignidade política diante do inevitável (VENCESLAU, 2025) . Houve um impasse institucional: inicialmente, a Câmara dos Deputados – então presidida interinamente pelo deputado Hugo Motta – chegou a votar pela manutenção do mandato de Zambelli, desafiando a decisão judicial, o que escancarou um conflito entre Legislativo e Judiciário (CNN BRASIL, 2025) . Em resposta, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou a imediata perda do mandato, dando 48 horas para empossar o suplente . Diante do risco de uma crise institucional sem precedentes, optou-se pelos bastidores por uma solução menos traumática: Zambelli apresentou sua carta de renúncia, aceita no dia 14 de dezembro de 2025 (SOBREIRA; SOARES, 2025) .
Essa saída “voluntária” permitiu evitar o confronto direto entre os Poderes. No entanto, na prática, o resultado é o mesmo: Carla Zambelli perdeu o mandato e está inelegível por 8 anos, conforme prevê a Lei da Ficha Limpa, seja pela cassação judicial ou pela renúncia posterior (SOBREIRA; SOARES, 2025) . Apesar de aliados tentarem pintar a renúncia como um gesto de resistência ou honra, especialistas observam que foi mero simbolismo: um “afastamento voluntário” para encobrir o fato de que ela já não tinha escolha legal (ALMEIDA, 2025). Em suma, a história de Zambelli ilustra como promessas de luta pela legalidade e moralidade podem terminar em escândalo e fuga – afinal, a parlamentar renunciou estando presa no exterior (Itália) e buscando asilo político (CNN BRASIL, 2025) . Trata-se de uma capitulação que revela muito sobre as contradições que discutiremos adiante.
2.2. Eduardo Bolsonaro e a Cassação por Faltas
Eduardo Bolsonaro, conhecido como o “03” (terceiro filho do ex-presidente), foi eleito pelo estado de São Paulo com votação expressiva impulsionada pelo fenômeno Bolsonaro em 2018 e reeleito em 2022. Durante as campanhas, apresentou-se como defensor ferrenho dos valores conservadores, da família e da Pátria, prometendo atuar incansavelmente contra a corrupção e a “velha política”. Contudo, sua atuação parlamentar recente revelou uma grave incoerência: Eduardo Bolsonaro praticamente abandonou o exercício do mandato em 2025. O deputado passou longos períodos nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, alegando estar lá para evitar uma suposta perseguição judicial no Brasil e para apoiar o pai em questões legais (CORREIO BRAZILIENSE, 2025) .
O resultado dessa ausência prolongada foi que Eduardo ultrapassou o limite permitido de faltas não justificadas nas sessões deliberativas da Câmara. A Constituição Federal determina a perda do mandato do parlamentar que deixa de comparecer a mais de 1/3 das sessões ao longo do ano legislativo (BRASIL, 1988, art. 55§3º). Em 2025 houve 71 sessões de votação; Eduardo faltou 56 sessões, aproximadamente 79% do total (BERNARDES, 2025) . Trata-se de um índice de ausência absolutamente escandaloso para alguém cuja função primária é representar os eleitores no Parlamento. Não comparecer ao trabalho quase quatro em cada cinco dias úteis seria inaceitável em qualquer profissão – e no caso de um deputado federal configura clara quebra de decoro e dever funcional.
Diante desse cenário, a Mesa Diretora da Câmara, em 18 de dezembro de 2025, declarou a perda do mandato de Eduardo Bolsonaro por excesso de faltas (ÁLVARO LUIZ, 2025) . Importante ressaltar que essa cassação administrativa não decorre de crime eleitoral ou sentença judicial; portanto, Eduardo permanece elegível por não envolver condenação criminal (INFOMONEY, 2025). Ainda assim, politicamente, o episódio é extremamente simbólico: um dos expoentes do bolsonarismo foi removido não por perseguição ideológica, como ele alega, mas por não cumprir o básico de suas obrigações legislativas. Enquanto bradava discursos patrióticos nas redes sociais e participava de eventos nos EUA, deixou os problemas reais de seus eleitores de lado. Qual a legitimidade de se dizer representante do povo se o parlamentar sequer aparece para votar as leis de interesse público? Essa é a pergunta que muitos brasileiros se fizeram ao ver o “filho 03” perder o cargo de forma tão prosaica. O caso Eduardo Bolsonaro evidencia um profundo desrespeito à responsabilidade parlamentar e à confiança do eleitorado, tema que exploraremos mais adiante.
2.3. Alexandre Ramagem e a Condenação Judicial
Alexandre Ramagem chegou à Câmara dos Deputados em 2023 surfando na mesma onda bolsonarista. Ex-policial federal e ex-diretor da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) durante o governo Bolsonaro, Ramagem construiu sua imagem como um técnico comprometido com a segurança nacional e fiel ao ex-presidente. Entretanto, seu nome acabou envolvido em um dos capítulos mais sombrios da história política recente: as tentativas de desestabilização do resultado das eleições de 2022 e os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, quando extremistas invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília. Em 2025, Ramagem foi julgado e condenado pelo STF por participação em organização criminosa que visava um golpe de Estado. A Primeira Turma do STF impôs ao deputado uma pena de 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão (JOTA, 2025) .
Condenado e com ordem de prisão expedida, Alexandre Ramagem fugiu do Brasil antes do término do julgamento, encontrando refúgio nos Estados Unidos (MORAES, 2025). Desde setembro de 2025 é considerado foragido da justiça brasileira, o que por si só já inviabiliza o exercício de seu mandato. Afinal, como pode um representante do povo legislar escondido em outro país? Diante dessa situação, a Mesa Diretora da Câmara cassou o mandato de Ramagem na mesma decisão que alcançou Eduardo Bolsonaro, no dia 18/12/2025 (ÁLVARO LUIZ, 2025) . No caso de Ramagem, porém, a perda de mandato é consequência direta da condenação criminal transitada em julgado, o que também acarreta sua inelegibilidade por 8 anos, de acordo com a Lei da Ficha Limpa.
A ironia desse desfecho não passa despercebida: Ramagem integrava o núcleo duro que se dizia defensor da “lei e da ordem”, mas acabou condenado justamente por subverter a ordem democrática. Enquanto em discursos públicos pregava patriotismo e lealdade às instituições, nos bastidores estava envolvido em conspirações inconstitucionais para anular o voto popular. Seu caso ilustra de forma crua as fragilidades morais de parte da classe política e reforça a percepção de que nenhuma instituição está imune – nem mesmo os órgãos de inteligência e segurança – à contaminação por projetos autoritários. A presença de um “deputado-foragido” é por si só um sintoma grave de disfuncionalidade institucional. Nas próximas seções, analisaremos o que estes três episódios, em conjunto, revelam sobre a política brasileira e sobre a relação entre eleitos e eleitores.
3. O Que as Saídas Revelam sobre a Política Brasileira
Os episódios envolvendo Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro e Alexandre Ramagem lançam luz sobre diversos aspectos preocupantes da política brasileira contemporânea. Em primeiro lugar, revelam uma profunda crise de representatividade e de integridade. É sintomático que todos os três parlamentares pertencem ao mesmo partido (PL) e ao mesmo campo político (a extrema-direita bolsonarista). Isso sugere que não se trata de casos isolados ou azarões individuais, mas possivelmente de problemas sistêmicos ligados a um projeto de poder específico. O Partido Liberal elegeu 99 deputados em 2022 na esteira da popularidade de Bolsonaro, mas desde então vem se esfacelando – com numerosas deserções e expulsões – conforme mencionamos anteriormente (CURVELLO, 2025) . As saídas frequentes por “motivos diversos” expõem tensões internas e também uma falta de coesão programática dentro desse partido . Em outras palavras, a sigla ganhou uma grande bancada muito rapidamente, mas talvez sem uma espinha dorsal ética ou ideológica consistente, resultando em conflitos e deslizes.
O caso dos três deputados em questão revela também a prevalência do personalismo e do projeto de poder familiar sobre a política institucional. Dois deles (Zambelli e Ramagem) estavam diretamente envolvidos em ações para proteger ou favorecer o ex-presidente Jair Bolsonaro – seja na tentativa de evitar sua prisão ou reverter sua condenação, seja na retórica de confronto ao Judiciário. O outro (Eduardo) é literalmente parte da família Bolsonaro, cujo mandato parece ter sido usado mais para fins particulares (residir fora do país e defender o pai) do que para servir ao público. Isso ecoa traços antigos da política brasileira, descritos pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda como o “personalismo” e o patrimonialismo do homem cordial, em que as fronteiras entre o público e o privado se dissolvem (HOLANDA, 1936). Quando vemos um deputado faltando deliberadamente às sessões para cuidar dos interesses do clã familiar, ou outros dispostos a afrontar a Constituição por lealdade a um líder, fica claro que valores republicanos básicos – impessoalidade, dever cívico, respeito às instituições – estão sendo solapados por lealdades personalistas.
Outra revelação importante é a fragilidade dos mecanismos de freios e contrapesos quando a política se polariza. O imbróglio entre a Câmara e o STF no caso Zambelli mostrou que existia disposição, por parte de uma maioria política, de confrontar abertamente uma decisão judicial para proteger uma correligionária (CNN BRASIL, 2025) . Ou seja, deputados eleitos – pressionados talvez pela militância bolsonarista – cogitaram ignorar o princípio constitucional de que decisão judicial se cumpre. Esse flerte com o abuso de poder nos diz muito sobre o estado de nossas instituições: evidenciou que parte do Congresso não hesitaria em esticar ou romper as normas constitucionais para salvar aliados, o que configura um preocupante desvio antidemocrático. Só a habilidade de articulação nos bastidores e a renúncia “aos 45 do segundo tempo” evitaram um choque institucional maior (VENCESLAU, 2025) . Isso mostra que nossas instituições, embora resilientes em vários momentos, enfrentam tensões perigosas quando forças políticas radicalizadas testam seus limites.
Por fim, essas saídas expõem a falta de conexão genuína de certos políticos com as demandas da sociedade. A ideia de representação popular fica esvaziada quando um deputado não aparece para votar por quase um ano inteiro, ou quando outro foge do país para não responder por crimes. Que representatividade resta, quando o representante abandona o cargo ou age contra a própria democracia? Torna-se evidente um abismo entre eleitores e eleitos: muitos desses políticos ascenderam embalados por um discurso moralista e antisistema, mas acabaram reproduzindo ou até intensificando vícios do sistema político brasileiro que sempre criticaram. Tal contradição conduz à próxima seção, onde discutiremos as fragilidades morais e inconstitucionais evidenciadas.
4. Fragilidades Morais e Inconstitucionais do Sistema
Os eventos analisados permitem identificar falhas profundas, tanto no campo moral/ético quanto no institucional/constitucional, do sistema político brasileiro. A seguir, discutimos essas fragilidades em dois âmbitos inter-relacionados:
4.1. Desvios Éticos e Hipocrisia Parlamentar
É impossível ignorar o elemento de hipocrisia presente nesses casos. Parlamentares que se elegeram empunhando bandeiras de moralidade, legalidade e família tradicional acabaram envolvidos em escândalos de natureza exatamente oposta aos valores que proclamavam. Essa dissonância entre discurso e prática reflete uma fragilidade moral que corrói a confiança do público. Tomemos exemplos concretos: Carla Zambelli sempre se colocou como paladina anticorrupção e “defensora da vida e da lei”, mas foi condenada por infringir gravemente a lei (portando arma ilegalmente e incitando tumulto eleitoral). Eduardo Bolsonaro, que discursava sobre patriotismo e dedicação, mostrou desprezo pelo mandato conferido pelo povo ao faltar deliberadamente à sua função legislativa. Alexandre Ramagem, oriundo das forças de segurança, deveria zelar pela estabilidade institucional, mas engajou-se em aventuras golpistas que atentam contra a pátria que jurou defender.
Essa duplicidade ecoa um padrão mais amplo na política brasileira, em especial no grupo político dos chamados “bolsonaristas raiz”. O pastor-deputado Sóstenes Cavalcante, também do PL e líder da Frente Evangélica, por exemplo, costumava vociferar no plenário contra a corrupção alheia, apresentando-se como guardião da moral. Entretanto, foi recentemente alvo da Operação Galho Fraco da Polícia Federal, que investiga desvios de recursos públicos de cotas parlamentares – segundo apurações, ele e outro deputado do PL, Carlos Jordy, estariam envolvidos em esquemas de corrupção com verba de gabinete (SANTOS, 2025) . É como se o moralismo ostentatório de certos políticos servisse apenas de cortina de fumaça para práticas antiéticas nos bastidores. “Quem vive de posar de honesto precisa ser honesto de fato, ou a hora da verdade chega” – essa frase satírica circulou nas redes sociais após a PF pegar deputados ditos “éticos” em flagrante delito. A hipocrisia não é acidente; como bem observou o analista Alexandre Santos, ela parece ser um método sistemático de atuação de uma parcela da direita brasileira, que aplica pesos diferentes para julgar a si e aos outros, condenando nos adversários aquilo que perdoa (ou pratica) em seu próprio grupo (SANTOS, 2025) .
A fragilidade moral do sistema político também se revela na impunidade relativa e corporativismo. Por anos, a Câmara dos Deputados desenvolveu uma cultura de autoproteção: inúmeros casos de quebra de decoro ou crimes envolvendo parlamentares terminaram em pizza, arquivados por seus pares. Isso gerou um senso de invulnerabilidade em muitos políticos, levando-os a transgredir limites éticos confiantes de que dificilmente seriam punidos. No entanto, o caso dos três deputados do PL marca um ponto de inflexão interessante: dessa vez, as consequências vieram (por interferência externa do Judiciário ou pela pressão da opinião pública). Ainda assim, questiona-se: e se Carla Zambelli não tivesse sido condenada pelo STF, será que a Câmara a puniria por seus atos? Se Eduardo não tivesse ultrapassado grosseiramente as faltas, será que colegas chamariam sua atenção? A experiência indica que muitas condutas indignas passam batido, o que é sintomático de uma frouxidão ética coletiva.
Em suma, os desvios éticos individuais expostos nesses casos apontam para falhas coletivas de caráter e de cultura política. Existe uma facilidade com que alguns agentes públicos relativizam princípios quando é para benefício próprio ou de aliados. Essa fragilidade moral mina os alicerces da democracia representativa, pois se os representantes não possuem integridade, como esperar que legislem e fiscalizem em prol do bem comum? A seguir, examinaremos as fragilidades no plano institucional e constitucional que também ficaram evidentes.
4.2. Conflitos Institucionais e Erosão da Legalidade
A crise envolvendo as saídas dos deputados do PL também trouxe à tona fragilidades inconstitucionais, no sentido de situações que testam os limites ou brechas de nossa Constituição e das instituições que deveriam guardá-la. Um ponto crítico foi o já mencionado embate entre Legislativo e Judiciário no caso Zambelli. O mero fato de haver uma dúvida se a Câmara acataria ou não uma decisão judicial de cassação reflete uma tensão perigosa. Felizmente, prevaleceu o bom senso nos momentos finais, mas o impasse indicou que nossas salvaguardas institucionais podem ficar por um fio quando interesses políticos de ocasião entram em jogo. Conforme reportado, juristas alertaram que uma insistência da Câmara em proteger a deputada condenada poderia configurar uma crise institucional sem precedentes (CNN BRASIL, 2025) . Ou seja, tivemos uma ameaça real de ruptura da ordem constitucional, que só foi evitada por um arranjo informal (renúncia articulada nos bastidores) e pela clara percepção de que, em última instância, o STF teria meios coercitivos para fazer valer sua decisão (inclusive bloqueando gabinete, etc., algo extremo) .
Outro aspecto é que esses episódios desafiaram a capacidade de reação das instituições em tempo hábil. Veja-se o caso de Eduardo Bolsonaro: a Constituição tinha o dispositivo para cassar por faltas, mas historicamente ele raramente foi usado, pois dependia de iniciativa interna da Casa. Foi preciso chegar a quase 80% de ausências para que algo fosse feito – e mesmo assim, notou-se certa hesitação e manobras protelatórias (licenças médicas questionáveis, pedidos de trabalho remoto, etc.) . A Câmara só agiu quando a situação beirou o absurdo e a pressão externa (mídia, opinião pública) aumentou. Isso sugere uma fragilidade institucional: mecanismos existem no papel, mas sua aplicação efetiva esbarra no corporativismo ou na leniência. No final, a Mesa Diretora decidiu abreviar o processo e cassar ainda em dezembro, sem esperar o rito até março seguinte como seria praxe (BERNARDES, 2025) , possivelmente para evitar mais desgaste diante do claro descaso do deputado. Ou seja, funcionou, mas com atraso e excepcionalidade. Quantos outros parlamentares faltosos ou infratores escaparam ilesos por falta de reação firme? Essa pergunta leva a refletir sobre quantas brechas do sistema ainda estão abertas.
No caso de Ramagem, a situação escancara um desafio constitucional inédito: um deputado condenado a longa pena e foragido. A Constituição não previa explicitamente “cassação automática por condenação criminal” até pouco tempo – a jurisprudência foi se consolidando nos últimos anos no sentido de que a condenação em instância final por certos crimes implica perda de mandato e direitos políticos, mas isso teve que ser afirmado pelos tribunais. Houve momentos, em legislaturas passadas, de enfrentamento quanto a quem caberia dar a palavra final na cassação de condenados (Parlamento ou STF). Hoje se aceita que é consequência automática, porém a execução disso ainda depende de ações coordenadas (a Câmara declarar a vacância, etc.). No intervalo, chegamos à bizarrice de termos um parlamentar fugitivo, recebendo salário público enquanto postergava a própria destituição. Aliás, noticiou-se que só em dezembro a Câmara finalmente bloqueou o salário de Ramagem, após ordem do ministro Moraes (G1, 2025). Essa demora mostra que até mesmo diante de um caso claro, as engrenagens institucionais às vezes rangem.
Ademais, a facilidade com que Ramagem saiu do país e permanece lá aponta fragilidades na cooperação internacional e na execução penal envolvendo autoridades de alto escalão. O STF pediu sua extradição, mas até que ela ocorra (se ocorrer), fica uma sensação de impunidade no ar – algo corrosivo para a confiança na justiça.
Portanto, as fragilidades inconstitucionais reveladas incluem: a disposição de agentes políticos em tensionar a lei máxima em favor próprio, a lentidão ou relutância das Casas legislativas em aplicar sanções previstas na Constituição, e lacunas procedimentais no afastamento de parlamentares criminosos. Esses pontos fracos precisam ser corrigidos ou continuamente vigiados, caso contrário abrirão caminho para crises maiores. A democracia se apoia em respeito mútuo entre Poderes e no cumprimento das regras do jogo; quando jogadores poderosos tentam trapacear ou mudar as regras durante o jogo, todo o edifício fica abalado.
5. Incoerência entre Discurso de Campanha e Prática Parlamentar
Um dos traços mais evidentes nestes casos – e em tantos outros na política – é a profunda incoerência entre o que muitos candidatos prometem ao eleitor durante as campanhas e o que efetivamente fazem (ou deixam de fazer) no exercício do mandato. Essa desconexão entre discurso e prática não é novidade na história política, mas merece destaque aqui pela sua dimensão e descaramento.
Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro e Alexandre Ramagem fizeram parte de uma onda eleitoral que pregava a “nova política”, a ética, a defesa intransigente dos valores nacionais e da família, bem como o combate implacável à corrupção. Foram eleitos sob essa plataforma de suposta renovação moral. Entretanto, suas trajetórias no Parlamento e fora dele traíram esses compromissos de forma acintosa. É difícil imaginar contraste maior: Zambelli, que tanto vociferou contra a corrupção do PT e pedia punição exemplar aos “bandidos”, terminou condenada por crime comum e precisou renunciar para não ser expulsa; Eduardo, que falava em “Deus, Pátria e Família”, negligenciou sua pátria ao faltar no Parlamento e deixou na mão as famílias que dependem de políticas públicas discutidas na Câmara; Ramagem, cujo discurso técnico era de servir à segurança do país, enveredou em conspiração para subverter a vontade popular expressa nas urnas – algo profundamente anti-patriótico e anti-democrático.
Essa incoerência não apenas evidencia problemas de caráter individual, mas reflete também um fenômeno mais amplo: a política do marketing vazio, na qual candidatos adotam retóricas eficazes eleitoralmente – muitas vezes calcadas em emoção, revolta ou medo – mas que não correspondem a um compromisso real com aquelas pautas. Em campanha tudo é preto no branco; no mandato, tudo vira tons de cinza (quando não escuridão completa). Esse comportamento gera cinismo e desalento na população. Afinal, como levar a sério as promessas de futuros candidatos quando exemplos como esses mostram que pode haver um abismo entre a palavra e a ação?
Um caso ilustrativo da incoerência generalizada é o do orçamento secreto (as chamadas emendas de relator) que vigorou até 2022: muitos dos mesmos parlamentares que se elegeram atacando a corrupção e a “velha política” aderiram alegremente a um dos esquemas mais opacos de distribuição de verbas já vistos, garantindo verbas escondidas para suas bases em troca de apoio político. Ou seja, combateram a velha política discursivamente, mas praticaram-na quando conveniente. Não é exatamente isso o que vimos com Zambelli, Eduardo e Ramagem? – combateram inimigos “contra a corrupção” enquanto em família se articulavam esquemas (como as rachadinhas – vale lembrar, Eduardo Bolsonaro foi citado no escândalo das rachadinhas na Alerj anos atrás), ou enquanto fechavam os olhos para a corrupção dos “amigos do rei”.
A incoerência entre campanha e mandato também se manifesta no fenômeno do “estelionato eleitoral moral”. O eleitor vota atraído por valores – honestidade, trabalho duro, patriotismo –, mas recebe do eleito práticas imorais, ausência e subversão. É como se muitos políticos vissem a campanha como um palco de encenação, desconectado da governança real. Isso fere profundamente o princípio da representação. Representar não é apenas estar fisicamente ocupando uma cadeira, mas agir conforme o mandato que o povo lhe outorgou, honrando as pautas defendidas. Quando esse pacto de autenticidade é quebrado, o mandato perde legitimidade moral, ainda que legalmente dure até uma cassação ou renúncia.
Em síntese, a lição amarga aqui é: discursos inflamados não garantem práticas íntegras. O eleitor brasileiro tem sido seduzido por narrativas simplistas e heróis de ocasião, apenas para descobrir que muitos eram “lobos em pele de cordeiro” ou, no mínimo, políticos tradicionais travestidos de novidade. No próximo tópico, veremos como essa incoerência é facilitada pela forma como o eleitorado é manipulado e mantido desinformado – praticamente usado como massa de manobra.
6. Manipulação do Eleitor como Massa de Manobra
A manipulação do eleitor é um fenômeno tão antigo quanto a própria democracia, mas assumiu contornos especialmente sofisticados e preocupantes na era da informação – ou da desinformação – em massa. No Brasil, o período recente evidenciou estratégias coordenadas para tratar o eleitorado como uma massa de manobra, a ser conduzida por narrativas emocionais, fake news e apelos simplórios que obscurecem os fatos.
Os três deputados do PL cujas saídas analisamos fizeram parte de um movimento político que frequentemente recorreu a teorias da conspiração, notícias falsas e retóricas incendiárias para mobilizar sua base. Carla Zambelli era figura constante em redes sociais disseminando denúncias infundadas contra adversários (como teorias de fraude eleitoral, ou acusações mirabolantes contra ministros do STF). Eduardo Bolsonaro também atuou como um influenciador digital propagando pautas radicalizadas e informações sem comprovação – chegou a sugerir “soluções” autoritárias, como o infame vídeo em que citou um “novo AI-5” anos atrás. Alexandre Ramagem, por sua vez, mesmo no parlamento, ecoou a retórica de que o país vivia uma perseguição injusta aos conservadores e que era preciso “salvar o Brasil” de um suposto complô comunista. Essas narrativas criam um clima de pânico moral e de guerra política permanente, fazendo com que parte do eleitorado se sinta justificada a aceitar qualquer meio (até golpista) para um fim salvacionista.
Ao manipular medos e esperanças, líderes políticos transformam cidadãos em peões de um jogo de poder. O eleitor vira massa de manobra quando deixa de ser um agente crítico e vira torcida organizada manipulada. Por exemplo, muitos apoiadores de Zambelli e Ramagem foram às ruas protestar contra o STF e a “prisão política” de seus ídolos, bradando palavras de ordem fornecidas pelos próprios políticos. Esses eleitores agiram movidos mais por paixão e informação distorcida do que por entendimento concreto dos fatos jurídicos. Foram levados a crer que “salvar Zambelli era salvar a liberdade de expressão” ou que “Ramagem estava sendo injustiçado pelo regime” – narrativas convenientemente plantadas para evitar que enxergassem as faltas reais desses parlamentares.
Esse processo de manipulação é facilitado por um cenário de polarização extrema e identitária. Muitos brasileiros passaram a se identificar tão fortemente com um campo político que desligaram os filtros racionais: se “o meu político” faz algo errado, eu relativizo ou culpo uma conspiração; se “o político do outro lado” faz qualquer coisa, mesmo correta, eu rejeito. Essa dinâmica tribal é um prato cheio para demagogos. No caso brasileiro, vimos a explosão de grupos de WhatsApp, canais do YouTube e perfis no Facebook disseminando teorias infundadas dia e noite, criando uma realidade paralela. E assim, manipula-se o eleitor transformando-o em massa acrítica, pronta para aplaudir ou vaiar conforme a batuta do líder.
É importante frisar que essa manipulação não é exclusividade de um espectro ideológico. No passado, outros grupos políticos também trataram eleitores como massa de manobra, usando máquina pública, clientelismo ou propaganda enganosa. Porém, o período bolsonarista exacerbou isso de modo singular, combinando carisma personalista com uso intenso de redes sociais e desinformação digital. Quantos eleitores não foram levados a acreditar, por exemplo, que vacinas transformariam pessoas em jacaré, ou que adversários planejavam fechar igrejas? Essas fantasias, repetidas por figuras de autoridade, servem para desviar o foco de debates reais e manter o eleitor mobilizado por causas artificiais – enquanto, nos bastidores, políticos podem agir sem prestar contas.
Tratar o eleitor como massa de manobra é duplamente perverso: além de enganar as pessoas, enfraquece-se a própria ideia de cidadania informada, crucial para uma democracia saudável. Quando eleitores são manipulados, as eleições deixam de ser um exercício de julgamento racional dos governantes e viram um plebiscito passional sobre identidades e slogans. Isso abre espaço para aventureiros e autoritários. No próximo tópico, veremos como a falta de visão crítica do eleitor – a “miopia política” – conecta-se a esse problema e alimenta o ciclo vicioso de má representação.
7. Miopia Política do Eleitor Brasileiro
Muitos analistas apontam que parte significativa do eleitorado brasileiro sofre de uma espécie de miopia política – uma dificuldade de enxergar além do imediatismo ou de ver através das lentes da manipulação. Essa miopia se manifesta em diversos comportamentos: pouca memória do voto passado, desconhecimento sobre o funcionamento das instituições e dos deveres dos eleitos, e tendência a personalizar a política em vez de avaliar programas e resultados.
Os dados empíricos corroboram essa avaliação preocupante. Uma pesquisa revelou que cerca de 69% dos eleitores brasileiros não lembram em quem votaram para deputado federal na última eleição (MARCELINO, 2023). Outra sondagem, da Quaest/RenovaBR, indicou que dois em cada três eleitores (66%) não se recordavam do próprio voto para cargos do Legislativo apenas quatro anos após a eleição (PITTA, 2022) . Ou seja, passadas as campanhas e a euforia do pleito, a maioria simplesmente esquece a escolha que fez – o que sugere que talvez essa escolha nem tenha sido feita de forma consciente ou informada desde o início. Some-se a isso o fato de que 55% dos brasileiros admitem não saber exatamente o que faz um deputado federal (PITTA, 2022) . Se mais da metade não conhece o papel básico do cargo para o qual vota, fica claro o abismo educacional e cívico a ser superado.
A miopia política se reflete também na baixa cobrança e acompanhamento dos mandatos. Eleitores em geral acompanham obsessivamente a figura do presidente da República, mas demonstram pouca disposição ou conhecimento para fiscalizar seus representantes no Congresso. Por isso, casos como o de Eduardo Bolsonaro podem acontecer: ele esteve ausente quase o ano inteiro e poucos de seus 741 mil votantes originais pareceram notar ou se importar até que a mídia noticiasse a cassação. Muitos brasileiros só percebem o que um parlamentar fez (ou deixou de fazer) quando algum escândalo estoura. Há uma cultura de personalização na política, onde se vota em “nomes” ou “legendas de estimação” sem um escrutínio real das propostas ou do histórico do candidato. A consequência é óbvia: abre-se espaço para oportunistas e para a perpetuação de estruturas clientelistas e coronelistas, pois um eleitor pouco atento pode ser facilmente aliciado por favores pontuais ou discursos vazios.
Outro sintoma da miopia política é a ideia equivocada de que o eleitor não tem um papel ativo contínuo na democracia. Muitos acreditam que sua obrigação cívica se resume a votar de dois em dois anos e pronto. Esquecem-se de que cidadania vai muito além do voto: envolve acompanhar votações, engajar-se em movimentos, cobrar vereadores, deputados, senadores, participar de debates públicos, etc. Essa passividade pós-eleitoral é terreno fértil para a atuação sem vigilância de maus políticos. Um cidadão que “dorme” após as eleições acorda, anos depois, com pesadelos como esses que relatamos.
Há também a questão da educação política formal, que é deficiente no Brasil. Falta instrução nas escolas sobre instituições, Constituição, direitos e deveres cívicos. Resultado: gerações de eleitores aprendendo sobre política apenas via notícias sensacionalistas ou correntes de WhatsApp. Sem ferramentas críticas, tornam-se vulneráveis (como vimos na seção anterior) à manipulação fácil. Em certo sentido, a miopia do eleitor é uma condição induzida: o próprio sistema político tradicionalmente não investiu em esclarecimento, talvez por conveniência daqueles que se beneficiam do eleitorado desinformado.
Mas seria injusto colocar toda a culpa no povo. Afinal, como exigirmos que o eleitor médio – enfrentando dificuldades econômicas e educacionais – tenha tempo e recursos para se aprofundar em política, se muitas vezes mal tem acesso a informação de qualidade? A responsabilidade é compartilhada: governos, escolas, mídia, todos deveriam contribuir para ampliar a visão política do cidadão. Entretanto, os casos discutidos neste artigo mostram que alguns políticos preferem um eleitor míope, pois assim continuam agindo sem ser notados até que seja tarde.
Quebrar esse ciclo exige esforços de conscientização e participação. Felizmente, parcelas crescentes da população têm demonstrado algum despertar – vide a pressão por ética na política que ganhou força em diferentes momentos da história recente. Porém, ainda há um longo caminho para transformarmos a massa manipulável em um corpo cidadão esclarecido e atuante. A próxima seção discute os impactos que esses fenômenos trazem para a democracia brasileira e como podem ameaçá-la ou, quem sabe, fortalecer seu amadurecimento, dependendo de nossas ações coletivas.
8. Impactos Sociopolíticos para a Democracia
Os eventos e tendências analisados até aqui trazem implicações profundas para a saúde da democracia brasileira. Cada dimensão – a crise de representatividade, as fragilidades morais e institucionais, a incoerência política, a manipulação do eleitor e sua miopia – atua como uma peça em um dominó que, se não controlado, pode levar a retrocessos democráticos sérios. Vamos delinear alguns dos principais impactos sociopolíticos:
a) Descrédito nas Instituições: Quando deputados eleitos protagonizam escândalos de corrupção, ausentam-se do mandato ou conspiram contra a ordem democrática, o cidadão tende a perder a confiança no Parlamento e na política em geral. A sensação de “todos são iguais, nada presta” se espalha. Pesquisas já mostram um alto grau de desaprovação popular ao desempenho dos deputados: por exemplo, dois terços dos brasileiros desaprovavam o trabalho da Câmara e do Senado em 2022 (PITTA, 2022) . Casos como esses apenas reforçam tal descrédito. O perigo é que esse desencanto pode levar à apatia (pessoas desistindo de votar ou de se importar) ou, pior, a soluções autoritárias (“já que o Congresso não presta, melhor fechar”). Assim, cada político que trai seu mandato não mancha apenas sua biografia – ele corrói um pouquinho do edifício democrático, alimentando discursos antidemocráticos que dizem que a representação popular é uma farsa.
b) Ciclo Vicioso de Má Representação: O descrédito e a manipulação do eleitor criam um ciclo difícil de romper. Eleitores desiludidos podem votar em branco/nulo ou eleger “qualquer um” como protesto, muitas vezes caindo no canto de sereia de populistas ou candidatos extremistas que prometem soluções fáceis. Isso renova o mandato de políticos ruins ou traz novos aventureiros que repetem os mesmos erros, fechando o círculo vicioso. A “miopia” do eleitor, somada à malícia de certos candidatos, faz com que a renovação parlamentar quantitativa (troca de nomes) nem sempre signifique melhoria qualitativa. Vimos isso em 2018: uma grande renovação trouxe pessoas novatas, mas nem todas comprometidas com ética – alguns dos quais protagonizaram justamente os escândalos que analisamos. Renovar sem conscientizar pode ser trocar seis por meia dúzia.
c) Polarização e Radicalização: Os casos do PL mostram também como situações de crise podem acirrar a polarização. A cassação de Eduardo Bolsonaro e a condenação de Ramagem, por exemplo, geraram reações furiosas em segmentos bolsonaristas, que acusam as instituições de “perseguição política”. Ao mesmo tempo, opositores vibraram com a “queda” desses ícones. Esse clima de torcida organizada faz com que cada evento alimente narrativas de lado a lado, dificultando um debate sóbrio. A democracia sofre quando fatos claros (como violar a Constituição ou faltar ao trabalho) são relativizados por filtros ideológicos. Se metade da sociedade vê um criminoso condenado como “herói injustiçado” e a outra metade enxerga qualquer hesitação institucional como “conluio golpista”, o diálogo se rompe. A radicalização pode levar a confrontos nas ruas, a mais tentativas de ruptura (como vimos em 8 de janeiro de 2023), e cria um ambiente de instabilidade permanente, nada saudável para a governança e desenvolvimento.
d) Intervenção do Judiciário e Riscos ao Equilíbrio dos Poderes: Interessantemente, a incapacidade ou demora do Legislativo em punir seus membros desviantes fez com que o Judiciário assumisse um protagonismo garantidor da ordem. O STF precisou agir para afastar criminosos e manter a eficácia da lei. Em certa medida isso foi positivo para impor limites. Porém, há também um risco: caso o Judiciário extrapole ou seja visto como extrapolando sua competência, pode gerar acusações de “ativismo judicial” e alimentar ressentimentos políticos. Encontrar o equilíbrio entre deixar a política resolver seus problemas e intervir para proteger a Constituição é um desafio constante. O ideal democrático é que cada Poder exerça autocontenção responsável – mas quando não o fazem (como a Câmara quase não fez com Zambelli e Eduardo), outro Poder preenche o vácuo. Precisamos estar atentos para que essa dinâmica não descambe para um desequilíbrio institucional crônico.
e) Potencial de Reforma e Aprendizado: Nem todo impacto é necessariamente negativo. Crises também podem servir de catalisador para reformas e amadurecimento democrático. A enorme repercussão desses casos na sociedade – com cobertura jornalística intensa, debates nas redes e indignação popular – pode pressionar por mudanças. Por exemplo, após a vergonha de ter que cassar um deputado por faltas, discute-se apertar regras de frequência ou transparência; após ver parlamentares conspirando contra o regime, pode-se reforçar mecanismos de defesa da democracia (como cláusulas de inelegibilidade mais rígidas para golpistas). Além disso, a própria opinião pública aprende: parcelas do eleitorado bolsonarista moderado talvez passem a questionar seus líderes ao ver tantas contradições e fracassos. A democracia brasileira, apesar dos solavancos, mostrou resiliência – a casa não caiu, mesmo com membros tentando derrubá-la por dentro. Talvez saiamos mais vacinados contra certos discursos e atentos a sinais de alerta em futuros candidatos.
Em suma, os impactos sociopolíticos das fragilidades expostas vão desde o abalo na confiança popular até potenciais ajustes institucionais. É um período de teste para a democracia: ou aprendemos e corrigimos rumos, ou abrimos brecha para retrocessos. A seguir, na conclusão, refletiremos sobre o que cada ator – políticos, instituições e cidadãos – pode fazer para que essa crise se converta em oportunidade de fortalecimento democrático, em vez de prelúdio de tempos sombrios.
9. Conclusão e Reflexões Finais
Os acontecimentos analisados – a renúncia de Carla Zambelli, a cassação de Eduardo Bolsonaro e a condenação/cassação de Alexandre Ramagem, todos do PL – funcionam como um espelho incômodo da política brasileira. O reflexo que vemos nele não é bonito: percebe-se a imagem de um sistema com sérios problemas de coerência, integridade e representatividade. No entanto, reconhecer essas falhas é o primeiro passo para corrigi-las. Este artigo procurou dissecar as múltiplas camadas desse fenômeno, adotando um olhar crítico e abrangente, mas também didático, na esperança de contribuir para um debate público qualificado.
Fica evidente que a democracia brasileira convive com fragilidades morais – políticos dispostos a sacrificar princípios éticos em prol de interesses pessoais ou de grupo – e fragilidades institucionais – brechas e tensões na aplicação das regras do jogo democrático. Vimos como promessas de renovação podem degenerar em práticas antigas ou mesmo inéditos ataques à ordem constitucional. Observamos também que por trás de políticos ruins muitas vezes há um eleitorado desinformado ou manipulado, o que realça a importância vital da educação política e da responsabilidade cidadã.
Mas nem tudo é motivo de desalento. A exposição desses casos à luz do dia, com consequente punição (ainda que tardia) dos envolvidos, mostra que ainda há anticorpos na sociedade e nas instituições. A imprensa livre cumpriu seu papel ao trazer denúncias e pressionar por respostas (como notado pela repercussão internacional da cassação de Eduardo ), o Judiciário atuou para fazer valer a lei, e parte da população reagiu com indignação justa. Isso reforça que, apesar dos pesares, nossa democracia está viva e reagindo.
Quais seriam, então, os caminhos para fortalecer nossa democracia contra esses males? Em tom de reflexão final, podemos apontar alguns:
- Reforço da integridade pública: É urgente aprimorar mecanismos de prevenção e punição à corrupção e ao abuso de poder. Isso inclui desde reforma nos códigos de ética parlamentares até fortalecimento de órgãos de controle. A sociedade deve demandar tolerância zero com a hipocrisia e o mau uso do mandato. Se um deputado falta demais, que soe o alarme; se é suspeito de corrupção, que haja investigação célere.
- Reforma política e partidária: Parte dos problemas nasce do nosso sistema eleitoral e partidário. Listas personalistas, partidos de aluguel e financiamento mal fiscalizado criam ambiente propício a aventureiros. Debates sobre voto distrital misto, cláusulas de desempenho (já em curso) e incentivo à democracia intrapartidária podem ser retomados, buscando partidos mais programáticos e accountability dos eleitos.
- Combate à desinformação: A manipulação do eleitor não se combate com censura, mas com esclarecimento e responsabilidade das plataformas. Políticos e grupos que deliberadamente espalham fake news precisam ser responsabilizados (como já ocorre via TSE em alguns casos). E a educação midiática do público deve ser promovida, para que as pessoas aprendam a checar fatos e não cair em falácias facilmente.
- Educação para cidadania: Em última instância, a visão míope do eleitor só mudará com investimento sério em educação. Isso significa incluir conteúdo de formação cívica no currículo escolar, promover debates públicos acessíveis, e mesmo campanhas institucionais que expliquem ao cidadão comum o funcionamento do Estado e a importância de seu engajamento. Um povo esclarecido reduz as chances de ser massa de manobra e passa a ser agente de mudança.
- Valorização da política boa: É preciso também difundir exemplos positivos. Existem parlamentares éticos e eficientes, projetos de lei benéficos, iniciativas de participação popular funcionando. Dar visibilidade a quem cumpre bem seu papel ajuda a quebrar o cinismo generalizado. Mostra que a política não precisa ser necessariamente o “vale-tudo” imoral que tantos condenam. Assim, o eleitor pode comparar e perceber diferenças, premiando os bons e punindo os ruins nas urnas.
Encerramos com uma analogia para fixar a ideia: a democracia é como um grande barco onde políticos são os timoneiros e o povo, ao mesmo tempo, passageiros e proprietários do navio. Nos últimos tempos, vimos alguns timoneiros tentando sabotar a embarcação – seja furando o casco (corrupção), brigando com o capitão (conflito entre poderes) ou abandonando o leme (omissão do mandato). O barco aderna, balança perigosamente. Cabe aos passageiros-proprietários acordarem e exigirem a substituição dos maus condutores, reparos no casco e respeito às cartas de navegação (a Constituição). Se ficarmos dormindo no convés enquanto o barco faz água, todos afundaremos juntos. Mas se assumirmos nosso papel de vigilância e comando final, poderemos colocar o navio novamente na rota segura.
A política brasileira vive momentos decisivos. Que este período sirva não para naufragar a democracia, mas para purificá-la e fortalecê-la. Como bem disse Raymundo Faoro, no clássico Os Donos do Poder, o Brasil precisa superar o patrimonialismo e consolidar instituições impessoais (FAORO, 1975). E como alerta Jessé Souza em A Elite do Atraso, é preciso quebrar as falsas narrativas que mantêm privilégios históricos e manipulações (SOUZA, 2017). Aprendamos com nossos erros e não percamos de vista que, numa democracia verdadeira, o poder emana do povo – e a ele deve servir (Constituição Federal, art. 1º, parágrafo único).
10. Perguntas Comuns sobre o Tema
- Quais foram os motivos das saídas dos três deputados do PL? – Carla Zambelli renunciou após condenação pelo STF; Eduardo Bolsonaro foi cassado por excesso de faltas; Alexandre Ramagem foi cassado após condenação por participação em tentativa de golpe.
- O que esses casos indicam sobre a política brasileira atual? – Indicam crise de representatividade, conflitos entre poderes, fragilidades éticas e forte incoerência entre discurso e prática de certos políticos.
- Como a manipulação do eleitor ocorre na prática? – Através de fake news, discursos de ódio ou medo, teorias conspiratórias e personalização da política, levando o eleitor a apoiar cegamente certos líderes ou causas sem análise crítica.
- O eleitor também é responsável por essa situação? – Em parte sim, pois muitos votam sem pesquisar os candidatos e não cobram depois. Mas essa responsabilidade é compartilhada com falta de educação cívica e manipulação proposital feita por líderes.
- O que pode ser feito para melhorar esse cenário? – Reformas políticas, punição exemplar a desmandos, educação cidadã, combate à desinformação e maior engajamento popular no acompanhamento da atuação dos eleitos.
11. Pontos Relevantes Abordados
- Três deputados federais do mesmo partido (PL) deixaram seus cargos quase simultaneamente, cada um por razões distintas: renúncia pós-condenação (Zambelli), cassação por faltas (Eduardo Bolsonaro) e cassação por crime contra a ordem democrática (Ramagem).
- Revelação de falhas sistêmicas: Esses casos expõem tanto a hipocrisia e falta de ética de parte da classe política quanto tensões institucionais entre Legislativo e Judiciário, indicando fragilidades na aplicação das normas constitucionais.
- Incoerência político-eleitoral: Houve destaque para a diferença entre os valores e promessas defendidos por esses políticos em campanha (moralidade, patriotismo, diligência) e suas condutas reais (escândalos, ausências, golpismo), evidenciando traição à confiança do eleitor.
- Eleitorado vulnerável: Discutiu-se como a desinformação e a falta de educação política transformam o eleitor em massa de manobra, apontando dados de que a maioria não lembra em quem votou ou desconhece as funções dos cargos eletivos (MARCELINO, 2023; PITTA, 2022).
- Impactos na democracia: Analisaram-se as consequências desses fenômenos para a democracia brasileira – desde o aumento do descrédito nas instituições e polarização extremada, até a oportunidade de aprendizado e mobilização para reformas que fortaleçam a integridade pública.
12. Livros Recomendados
- FAORO, Raymundo (1975). Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro.
Clássico da ciência política brasileira, esta obra examina as raízes históricas do patrimonialismo e da apropriação privada do poder público no Brasil. Ajuda a entender a continuidade de práticas anti-republicanas nas elites políticas. - HOLANDA, Sérgio Buarque de (1936). Raízes do Brasil.
Obra seminal que introduz o conceito de “homem cordial” e analisa traços da cultura política brasileira, como o personalismo e o peso das relações pessoais, lançando luz sobre por que valores prometidos nem sempre se traduzem em ações institucionais impessoais. - SOUZA, Jessé (2017). A Elite do Atraso: da Escravidão à Lava Jato.
Livro contemporâneo que debate as narrativas sobre corrupção e desigualdade no Brasil, criticando as explicações simplistas e apontando como as elites constroem discursos para manipular a população e manter privilégios – relevante para compreender a manipulação do eleitor e incoerências morais na política atual.
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