quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

O esquecimento como projeto: morte, cinismo e a política das migalhas no Brasil

A pandemia de COVID-19 começou em março de 2020 e teve sua emergência sanitária internacional encerrada apenas em maio de 2023. Foram mais de três anos marcados por mortes, omissões e decisões políticas que custaram vidas no Brasil. Ainda assim, o país parece ter optado por esquecer. Para não esquecer — e para lembrar em 2026 — é preciso afirmar com clareza: não se tratou apenas de uma tragédia sanitária, mas de um divisor moral e político da história recente. Vidas se perderam não só por causa de um vírus, mas por escolhas deliberadas, desprezo público pela ciência e instrumentalização da fé e do medo. Lembrar não é revanchismo; é responsabilidade histórica. Esquecer, ao contrário, é permitir que o apagamento da memória coletiva e a política das migalhas se repitam, ferindo, desorientando e depois exigindo gratidão, como se nada tivesse acontecido.



Até quando o povo brasileiro correrá atrás das migalhas?

A pandemia de COVID-19 começou oficialmente em março de 2020. O estado de emergência sanitária internacional só foi encerrado pela Organização Mundial da Saúde em maio de 2023. Foram mais de três anos de uma crise que atravessou governos, instituições, famílias e corpos. Ainda assim, o Brasil parece ter decidido apagar essa história recente como se ela fosse um episódio incômodo demais para ser lembrado.

Não houve luto nacional. Não houve memória pública estruturada. Não houve responsabilização proporcional à dimensão da tragédia. Houve pressa. Pressa em “virar a página”, em declarar que “acabou”, em tratar como exagero qualquer tentativa de lembrar que centenas de milhares de mortes não foram apenas consequência de um vírus, mas também de decisões políticas concretas.

O esquecimento, aqui, não é distração. É projeto.


A pandemia não foi apenas sanitária. Foi política.

Entre março de 2020 e maio de 2023, o Brasil viveu uma das maiores crises sanitárias de sua história sob um governo que optou sistematicamente por confrontar a ciência. O negacionismo não foi acidente, foi discurso. O desprezo pela morte não foi deslize, foi método. A desinformação não foi ruído, foi estratégia.

Vacinas foram desdenhadas. Medicamentos ineficazes foram promovidos. Medidas de proteção coletiva foram ridicularizadas. A imprensa foi atacada. Especialistas foram desacreditados. Tudo isso enquanto o número de mortos crescia e a dor se acumulava nos lares brasileiros.

Encerrar o estado de emergência sanitária não encerra a responsabilidade histórica. Decretos expiram; decisões permanecem. Mortes não prescrevem.


A dança dos ministros e a escolha que revelou o método

Durante a pandemia, Jair Bolsonaro trocou sucessivamente os ministros da Saúde. Saíram aqueles que defendiam medidas baseadas em evidências científicas. Saíram os que insistiam em coordenação nacional, diálogo com estados, respeito às orientações sanitárias internacionais. Permaneceram apenas os que aceitavam subordinar a saúde pública à vontade política do presidente.

Ao final, Bolsonaro nomeou um general do Exército, Eduardo Pazuello, para comandar o Ministério da Saúde. Um militar sem formação médica, sem experiência em saúde pública, sem histórico de gestão sanitária. A pergunta precisa ser feita com clareza: por quê?

Porque não se buscava competência técnica. Buscava-se obediência. Um médico poderia resistir. Um sanitarista poderia dizer “não”. Um general obedece. A frase que se tornaria símbolo daquele período — “um manda, outro obedece” — não foi retórica: foi a síntese de uma doutrina de governo.

A militarização da saúde não foi solução; foi blindagem política. Substituiu-se ciência por hierarquia. Debate por ordem. Evidência por disciplina. O resultado foi previsível: descoordenação, caos logístico, atraso na compra de vacinas, colapsos regionais e mortes evitáveis. A população pagou o preço. O poder se protegeu.


O esquecimento como comportamento coletivo induzido

Passada a fase mais aguda da crise, algo ainda mais inquietante se consolidou: o silêncio. A ausência de memória. A normalização do apagamento. Como se lembrar fosse um incômodo moral grande demais para quem preferiu continuar apoiando, justificando ou relativizando.

Esse esquecimento não nasce da ignorância pura. Ele é induzido. Funciona como mecanismo de autoproteção psicológica e política. Esquecer para não confrontar. Esquecer para não admitir cumplicidade. Esquecer para seguir adiante sem ter de responder às perguntas difíceis.

Não é que o povo brasileiro seja incapaz de compreender. É que foi violentado simbolicamente, exaurido emocionalmente e bombardeado por uma guerra permanente de desinformação.


A galinha depenada: da parábola à realidade brasileira

Circula há anos uma história conhecida como a “parábola da galinha depenada”, falsamente atribuída a Hitler ou Stalin. Não há evidência histórica de que tal episódio tenha ocorrido. Mas sua força não está na literalidade — está no que ela descreve.

A alegoria é simples e cruel: primeiro, a violência. Depois, a humilhação. Em seguida, a fome. Por fim, pequenas migalhas lançadas pelo próprio agressor, suficientes para manter a dependência e a obediência.

No Brasil recente, essa não é uma fábula distante. É um padrão político reconhecível. Parte da população, ferida pela perda de familiares, empobrecida, desorientada, segue defendendo o líder que negou a ciência, atacou instituições e tratou a morte com desprezo. Não por lealdade consciente, mas por captura emocional e simbólica.

A galinha não corre atrás das migalhas por gratidão. Corre porque está ferida e com fome.


Fascismo como lógica, não como insulto

Quando se fala em fascismo ou nazismo neste contexto, não se trata de xingamento vazio. Trata-se de lógica de poder. Culto ao líder. Desprezo pela vida do “outro”. Ataque à ciência e à imprensa. Moralismo seletivo. Uso instrumental da fé. Militarização do discurso. Inversão constante entre vítima e algoz.

Essa lógica esteve presente no bolsonarismo. Foi sustentada pela família do ex-presidente, por aliados políticos, por setores do Congresso, por influenciadores digitais e por líderes religiosos que transformaram fé em anestésico político.


Família, princípios e fé depois da morte

É aqui que o cinismo se revela em sua forma mais cruel. Após centenas de milhares de mortes, emergem discursos sobre família, valores, princípios e Deus. A pergunta que se impõe é inevitável: que tipo de fé aceita a morte como método? Que princípio absolve a negligência deliberada? Que defesa da família ignora famílias inteiras destruídas pelo luto?

A fé, quando instrumentalizada politicamente, deixa de ser espiritualidade e passa a ser ferramenta de controle. O sofrimento vira prova de fidelidade. A crítica vira pecado. O silêncio vira virtude.


As migalhas: favor no lugar de direito

Depois da violência, vêm as migalhas. Auxílios tratados como favor pessoal. Políticas emergenciais convertidas em propaganda. Gratidão exigida em troca do mínimo. O mesmo líder que negou a ciência se apresenta como salvador. O mesmo grupo que produziu o caos exige reconhecimento.

É a política da dependência simbólica: retirar, ferir, humilhar — e depois oferecer o suficiente para manter o vínculo.


O ciclo que ameaça se repetir

Quem esquece, absolve. Quem absolve, repete. O apagamento da pandemia prepara o terreno para novas tragédias. A ausência de responsabilização normaliza a morte como custo político aceitável. A democracia se fragiliza quando a memória coletiva é sabotada.



Até quando o povo brasileiro correrá atrás das migalhas?

A emergência sanitária internacional terminou em maio de 2023. A responsabilidade histórica, não. Um povo que esquece seus mortos corre o risco de seguir novamente quem o feriu. Não por maldade, mas por desorientação. Não por burrice, mas por violência simbólica acumulada.

A pergunta que fica não é retórica. É ética e política: até quando aceitaremos migalhas depois da morte, da mentira e do desprezo pela vida?


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