Escrevo esta lide em primeira pessoa porque há momentos em que o silêncio deixa de ser equilíbrio e passa a ser omissão. Diante da tentativa reiterada de transformar o patriotismo em retórica vazia, a fé em instrumento político e a soberania nacional em moeda de troca internacional, sinto-me no dever — como professor e cidadão brasileiro — de afirmar com clareza: não em meu nome. O povo brasileiro não é ingênuo, não é massa de manobra e não precisa de tutela estrangeira nem de bênçãos seletivas para exercer sua democracia; precisa, isso sim, de respeito às instituições, compromisso com o Estado Democrático de Direito e responsabilidade política com o país real.
Escrevo este texto em primeira pessoa, como professor e cidadão brasileiro, porque cheguei a um ponto em que o silêncio deixaria de ser prudência e passaria a ser conivência.
O artigo publicado no Brasil Esfera Pública
(https://brasilesferapublica.blogspot.com/2025/12/patriotismo-terceirizado-fe.html)
não nasce de impulso, nem de raiva momentânea. Ele nasce de acúmulo histórico, de observação rigorosa, de estudo, de compromisso com a democracia e, sobretudo, de indignação ética diante de um tipo de atuação política que se repete, se aprofunda e se normaliza no Brasil: a atuação em benefício próprio, feita fora do país, contra as instituições nacionais, travestida de patriotismo e embalada por retórica religiosa.
Como professor, aprendi — e ensino — que Estado Democrático de Direito não é retórica, não é slogan, não é bandeira usada quando convém. Estado Democrático de Direito é estrutura institucional, é separação de poderes, é respeito ao devido processo legal, é soberania popular. E nada disso se constrói pedindo sanções estrangeiras contra o próprio país, muito menos celebrando ou lamentando decisões de outro governo como se fossem destino inevitável da nação brasileira.
Quando vejo um deputado federal brasileiro, eleito pelo povo, atuando sistematicamente a partir do exterior, buscando constranger o Judiciário brasileiro, tentando enquadrar ministros da Suprema Corte na Lei Magnitsky — uma legislação criada para punir genocidas e torturadores —, não vejo oposição política legítima. Vejo algo muito mais grave: deslegitimação deliberada do Estado brasileiro no cenário internacional.
Isso não é crítica institucional.
Isso é ataque à soberania nacional.
E a nota publicada no X, objeto central do artigo, escancara essa lógica de forma quase didática. Ela encena luto, mas não pelo Brasil. Ela lamenta não uma injustiça democrática, mas o fracasso de uma estratégia externa que pretendia tutelar nossas instituições. O povo brasileiro aparece ali não como sujeito histórico, mas como massa incapaz, desunida, carente de “misericórdia”. Essa palavra não é inocente. Misericórdia não se pede a iguais; pede-se a quem se considera superior.
Como cidadão, isso me revolta profundamente.
Porque o povo brasileiro não é otário.
O povo brasileiro trabalha, paga impostos, sustenta o Estado, respeita — mesmo com críticas — as regras do jogo democrático. O que parece existir, em certos discursos, é a convicção de que o povo só é soberano quando obedece; quando não obedece, passa a ser tratado como problema moral, como falha espiritual, como massa manipulável.
É aí que o artigo toca num ponto que considero central: o cristofascismo.
Quando alguém encerra uma nota política dizendo “Que Deus abençoe a América, e que tenha misericórdia do povo brasileiro”, não está expressando fé pessoal. Está hierarquizando povos, sacralizando uma potência estrangeira e infantilizando sua própria nação. Isso não é cristianismo; é uso político da religião para legitimar submissão, para encobrir derrota política, para substituir argumentos por oração.
Como professor, não posso aceitar a naturalização disso.
Como cidadão, não posso fingir que isso é normal.
Patriotismo não é gritar slogans, usar bandeira ou citar Deus ao final de textos. Patriotismo é defender as instituições nacionais, mesmo quando elas contrariam nossos interesses pessoais ou políticos. Patriotismo é resolver conflitos dentro da democracia, não terceirizá-los para governos estrangeiros. Patriotismo é compreender que soberania não se negocia em Washington, nem se implora no Twitter.
O artigo publicado no Brasil Esfera Pública é, para mim, um dever cívico. Ele não pretende agradar, nem pacificar. Ele pretende nomear o que está acontecendo: a transformação da política em espetáculo moral, da fé em instrumento de poder e do patriotismo em performance vazia.
Escrevo, portanto, com indignação consciente, não com ódio.
Com rigor, não com ressentimento.
Com compromisso democrático, não com submissão ideológica.
Porque quem nunca vai entender o que é um Estado Democrático de Direito é justamente quem acredita que o Brasil pode — ou deve — ser salvo de fora, desde que isso beneficie seus próprios projetos de poder.
E a isso, como professor e como cidadão brasileiro, eu me recuso a aceitar em silêncio.
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