O Brasil, país marcado por desigualdades históricas, sente essa dor de forma profunda. O que se vê é um elo perverso: quanto mais as narrativas religiosas literalistas e políticas conservadoras avançam, maior é a pressão para recolocar as mulheres em posição de obediência. E quanto maior essa pressão, maior é a violência — simbólica, econômica e física.
7.1. Feminicídio como expressão final do controle
O feminicídio é a manifestação mais extrema do machismo estrutural. Ele não surge do nada; ele nasce de uma pedagogia de controle que ensina homens, desde cedo, que a mulher lhes pertence. E ensina mulheres que devem aceitar — ou, ao menos, apaziguar — esse controle.
Por isso o feminicídio não é crime passional, não é exceção, não é fatalidade: é projeto.
É o ápice de uma cultura que:
- tolera a agressão,
- naturaliza o ciúme,
- exalta a autoridade masculina,
- culpabiliza as vítimas,
- desumaniza a autonomia feminina.
Dados recentes mostram que o Brasil permanece entre os países com as maiores taxas de feminicídio do mundo. Esses crimes acontecem, majoritariamente, dentro de casa, cometidos por parceiros ou ex-parceiros que se sentem autorizados a matar quando percebem que perderam o controle.
Esse dado é crucial:
o feminicídio é consequência direta da crença de que homens podem controlar mulheres — crença reforçada por discursos políticos e religiosos conservadores.
Quando Michelle Bolsonaro divulga a ideia de “submissão saudável”, quando líderes religiosos pregam que a esposa deve obedecer ao marido, quando políticos chamam feministas de “destruidoras da família”, todos esses discursos alimentam a mesma raiz: a legitimidade da posse masculina.
E onde há posse, há violência.
7.2. Desigualdade econômica e o mito da improdutividade feminina
O machismo estrutural também opera silenciosamente nas relações econômicas. Ainda hoje, mulheres ganham menos que homens em praticamente todos os setores, são subempregadas em funções de cuidado, sofrem discriminação ao engravidar e enfrentam barreiras estruturais para assumir cargos de liderança.
Esse cenário não se explica apenas por desigualdade econômica. Ele é uma expressão econômica do patriarcado. A sociedade enxerga o trabalho feminino como secundário, porque enxerga a própria mulher como secundária.
Não é coincidência que Jair Bolsonaro tenha afirmado que empregadores preferem homens, porque “mulher engravida e dá problema”. Esse raciocínio — durante décadas tratado como senso comum — é a base da desigualdade salarial e da violência institucional contra mães e gestantes.
A desigualdade econômica é produzida por um imaginário que:
- associa mulheres ao cuidado doméstico,
- desconfia de sua capacidade de liderança,
- supõe instabilidade emocional,
- valoriza homens como provedores naturais.
Resultado:
mulheres trabalham mais, ganham menos e acumulam jornadas múltiplas — tudo isso tratado como se fosse “normal”.
7.3. A educação para a submissão e o silenciamento da voz feminina
A violência simbólica é tão devastadora quanto a física, justamente porque molda a subjetividade. Meninas ainda são educadas — em famílias conservadoras, igrejas, escolas e redes sociais — para:
- não levantar a voz,
- não confrontar,
- não liderar,
- não discordar,
- não ocupar espaço.
A pedagogia da submissão começa cedo: é quando meninas são elogiadas por serem “boazinhas”, enquanto meninos são incentivados a serem “fortes” e “destemidos”. É quando meninas são repreendidas por questionar, enquanto meninos ganham admiração por serem ousados.
Esse conjunto de práticas cria um processo de silenciamento que acompanha a vida adulta. Mulheres passam a duvidar de sua capacidade, a se anular em espaços de liderança e a aceitar relações afetivas, profissionais e políticas marcadas pelo controle.
Quando PL, extremistas e setores religiosos reforçam a ideia de que a mulher deve obedecer, estes discursos encontram eco em uma cultura que já ensinou essas mulheres, desde a infância, a se calarem.
A submissão se torna destino.
O silêncio se torna hábito.
E a desigualdade se torna parte da paisagem.
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