terça-feira, 2 de dezembro de 2025

4- Pseudodemocracia Patriarcal: A Extrema Direita Global e o Renascimento das “Tradwives”

 O avanço da extrema direita nas últimas décadas não apenas reconfigurou os debates políticos globais — ele também reativou um conjunto de ideais de gênero que pareciam, até pouco tempo atrás, restritos aos livros de história. Entre esses ideais está a figura da mulher submissa, dedicada exclusivamente ao lar e emocionalmente dependente do marido. A novidade é que, agora, esse modelo retorna com uma estética renovada, discursos profissionalizados e ampla circulação digital. Não se trata de um resgate espontâneo, mas de um movimento articulado que responde ao crescimento dos direitos das mulheres no século XXI.


É nesse contexto que emerge, em países democráticos e autoritários, a mulher idealizada pela extrema direita: delicada, obediente, silenciosa, religiosa e disposta a abdicar da autonomia em nome da estabilidade familiar. Essa imagem atravessa fronteiras e se apresenta tanto nos Estados Unidos de Donald Trump quanto na Hungria de Viktor Orbán, na Argentina de Javier Milei e no Brasil do bolsonarismo.


Ela possui um nome — e um símbolo — que ajuda a entender sua função social e política.



4.1. O fenômeno das tradwives e a nova roupagem da velha submissão

As traditional wives, popularizadas como tradwives, tornaram-se um fenômeno global nas redes sociais. São influenciadoras que exibem, com estética impecavelmente produzida, uma vida dedicada ao lar: roupas longas, cozinhas iluminadas, filhos impecavelmente vestidos, rotina doméstica romantizada, moral cristã rígida e, principalmente, a defesa explícita da submissão feminina como escolha livre e empoderadora.


Essa estética cumpre dois papéis complementares:


  1. Romantiza a renúncia: transforma a abdicação da autonomia feminina em estilo de vida desejável.
  2. Neutraliza críticas: ao afirmar que são “livres para escolher ser submissas”, as tradwives convertem opressão estrutural em preferência pessoal.


O que poderia parecer uma expressão individual se transforma em movimento político. Em diversos países, as tradwives funcionam como braço cultural da extrema direita, ajudando a expandir a ideia de que o feminismo destruiu famílias, que a igualdade de gênero é “antibiológica” e que a salvação moral da sociedade depende de mulheres que aceitam seu papel submisso.


Essa estética, porém, é enganosa. Por trás da doçura das legendas e da polidez das imagens, há a reafirmação explícita da hierarquia patriarcal, com mulheres ensinando mulheres a “voltar ao seu lugar”, reforçando padrões que há décadas lutamos para superar.



4.2. Conservadorismo como reação ao avanço das mulheres


A extrema direita global não surge em um vácuo histórico; ela responde diretamente ao avanço das mulheres na educação, no mercado de trabalho, na política e na vida pública. Quanto mais as mulheres ampliam sua presença em espaços de poder, mais setores conservadores percebem isso como ameaça a uma ordem tradicional — e se mobilizam para restaurá-la.


É nesse ambiente de “ameaça imaginária” que floresce a retórica antifeminista. Não se trata de um detalhe discursivo, mas de um elemento central da agenda de poder:


  • O feminismo é pintado como inimigo da família.
  • A igualdade de gênero é retratada como aberração moral.
  • Mulheres independentes são tratadas como disfuncionais, egoístas ou “desviadas”.
  • A autonomia feminina é apresentada como causa da “crise civilizacional”.


Enquanto mulheres se tornam mais escolarizadas, conquistam direitos reprodutivos, acessam cargos antes impensáveis e lideram transformações sociais, há uma reação visceral que tenta impedir esse avanço. Essa reação se articula estética, moral, religiosa e politicamente — e a figura da “mulher tradicional” é seu ícone mais eficiente.



4.3. O caso brasileiro: Damares, Michelle e o “menina veste rosa” como política pública


No Brasil, essa agenda ganhou rostos muito específicos. Damares Alves e Michelle Bolsonaro tornaram-se os principais vetores de uma política de gênero ancorada no passado. Ambas desempenham funções simbólicas diferentes, mas complementares.


Damares Alves representa a face institucional da guerra cultural. Sua frase “menina veste rosa e menino veste azul” — aparentemente simples — não é apenas um comentário sobre cores. É a síntese de um programa político de restauração de papéis de gênero rígidos. Sob seu comando, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos se orientou não para ampliar a proteção de mulheres, mas para desestimular políticas que promoviam autonomia feminina, diversidade e igualdade.


Michelle Bolsonaro, por sua vez, representa o braço emocional e espiritual do mesmo projeto. Enquanto Damares age pela normatização estatal, Michelle age pelo convencimento afetivo. Sua estética religiosa, sua performance de submissão ao esposo e sua retórica de obediência “saudável” produzem identificação emocional com milhões de mulheres brasileiras. Ela é a “tradwife tropical” — uma figura que atualiza a submissão com linguagem de fé, pureza e devoção, tornando-a politicamente palatável.


Ambas convergem para a mesma lógica: resgatar valores do passado e apresentá-los como solução para o presente, mesmo quando isso significa restringir direitos, silenciar vozes e dar sustentação ideológica ao machismo estrutural.




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