domingo, 7 de dezembro de 2025

4 – Democracia em Disputa – Medo Social, Ansiedade Coletiva e a Atração Popular pelo Autoritarismo

Crises econômicas, violência urbana e sensação permanente de insegurança alimentaram um imaginário coletivo predisposto a soluções de força. O autoritarismo, nesses momentos, aparece não como ameaça, mas como promessa emocional de proteção — razão pela qual golpes e rupturas encontram tanta aceitação popular no Brasil contemporâneo.



Medo Social, Ansiedade Coletiva e a Atração Popular pelo Autoritarismo no Brasil Democrático


Se a herança autoritária (Seção 2) e a tutela militar (Seção 3) constituem as bases históricas da influência do militarismo, é no terreno emocional — medo, incerteza e ansiedade — que essa influência ganha potência na política contemporânea. A adesão popular ao autoritarismo não se explica apenas por fatores racionais ou ideológicos, mas também por dinâmicas afetivas profundamente estruturadas na sociedade brasileira.


Na perspectiva sociológica de Jessé Souza (2017), o Brasil possui uma classe média frágil, economicamente vulnerável e moralmente ansiosa. Essa classe média vive sob o constante receio de “descer na hierarquia social”, o que produz uma busca incessante por mecanismos de controle, ordenamento e disciplina — elementos centrais do imaginário militarista.


O medo social torna-se, portanto, o elo invisível entre a fragilidade da democracia brasileira e a receptividade popular ao militarismo, criando disposições psicológicas e políticas que pavimentam o caminho para momentos de ruptura, como o 8 de janeiro de 2023.





4.1. A insegurança como estrutura permanente da vida social



A redemocratização brasileira ocorreu sem um amplo pacto de combate às desigualdades e sem reformas estruturais que garantissem bem-estar, segurança social e estabilidade econômica às camadas populares e médias. Diferentemente de democracias consolidadas, onde direitos sociais funcionam como base emocional da confiança pública, a democracia brasileira nasceu em plena era neoliberal, marcada por:


  • desemprego estrutural,
  • precarização,
  • violência urbana crescente,
  • serviços públicos fragilizados.



O resultado é que grande parte da população vive em estado permanente de incerteza, especialmente:


  • medo da criminalidade,
  • medo da perda econômica,
  • medo da corrupção,
  • medo da desordem social,
  • medo do colapso institucional.



A democracia, que deveria reduzir o medo, acabou sendo associada por muitos ao caos, enquanto as Forças Armadas foram associadas ao restabelecimento da ordem.


Essa associação emocional é um dos pilares da adesão popular ao militarismo.





4.2. Medo, punitivismo e a promessa autoritária de segurança



A sociologia urbana, especialmente em Caldeira (2000), mostra que o Brasil construiu uma cultura política fortemente marcada pelo punitivismo, isto é, pela crença de que violência se combate com mais violência. Essa lógica punitiva cria um imaginário onde:


  • a polícia deve matar mais,
  • o inimigo interno deve ser eliminado,
  • a punição deve ser exemplar,
  • a política deve ser forte,
  • o Estado deve ser duro.



Nesse ambiente, discursos militaristas prosperam porque oferecem uma solução emocionalmente reconfortante: a promessa de eliminar a incerteza.


É por isso que, diante de conflitos, a população recorre a slogans como:


  • “bandido bom é bandido morto”,
  • “falta ordem”,
  • “precisamos de pulso firme”,
  • “intervenção militar já”.



A democracia aparece, então, como “fraca”, enquanto o militarismo aparece como “forte”.





4.3. A ansiedade moral e o medo da “desordem” política



A crise política iniciada em 2013 ampliou enormemente a sensação de instabilidade. A polarização, a criminalização da política, os escândalos de corrupção e a judicialização da vida pública foram interpretados não como crises democráticas, mas como crises da democracia.

Para setores médios e populares, acostumados à pedagogia militar da ordem, a solução parecia evidente: alguém “acima da política” deveria intervir.


O militarismo reaparece, então, como uma alternativa simbólica:


  • um ator neutro,
  • moralmente incorruptível,
  • defensor da ordem,
  • capaz de “limpar” a política.



Essa fantasia de “limpeza moral” sustentou parte das jornadas de 2015–2016 e encontrou seu ápice psicológico no bolsonarismo. Eventos como:


  • motociatas com generais,
  • vídeos com militares “alertando” a nação,
  • discursos de intervenção baseados no Art. 142,



alimentaram a ansiedade moral e apresentaram os militares como “antídoto” contra a corrupção e a desordem.





4.4. O medo como combustível do 8 de janeiro



O golpe malogrado de 8/1 não foi movido apenas por ideologia; foi movido por medo:


  1. medo de que “o comunismo tomasse o Brasil”;
  2. medo de perder privilégios sociais;
  3. medo do “fim da moral e da família”;
  4. medo da derrota eleitoral;
  5. medo de uma democracia que exige convivência com o outro;
  6. medo do fim da tutela militar.



A população mobilizada no dia 8/1 acreditava que a democracia — especialmente o STF e o TSE — havia se tornado uma ameaça à ordem. Esse é o sinal mais claro de que a democracia brasileira não conseguiu se legitimar como fonte de estabilidade emocional.


Em vez disso, o medo encontrou nos quartéis e na retórica militar seu ponto de referência simbólico. Por isso, milhares de pessoas acamparam diante de quartéis pedindo que os militares “salvassem” o Brasil.


Essa “fé militar” é a demonstração de que:


  • a redemocratização não transformou os militares em instituição republicana;
  • o medo continua sendo o motor emocional da política brasileira;
  • a sociedade continua buscando “pais protetores” em vez de confiar nas instituições;
  • a democracia não internalizou valores de segurança existencial.






4.5. O medo como antídoto contra a democracia



O medo impede a confiança social, e sem confiança social não há democracia sólida.

Nesse sentido, o Brasil vive um paradoxo:


  • a democracia brasileira abriu espaço para direitos, diversidade e participação,
  • mas a sociedade brasileira não foi educada emocionalmente para conviver com o conflito democrático.



O resultado é que, em momentos de crise, a população tende a:


  • rejeitar a pluralidade;
  • buscar saídas autoritárias;
  • aceitar discursos militares;
  • apoiar rupturas institucionais.



O medo social — econômico, moral, urbano, político — torna-se assim a ponte direta entre:


  • a fragilidade da redemocratização
    e
  • a facilidade com que o militarismo se converte em discurso hegemônico.






ANÁLISE CRÍTICA DA SEÇÃO 4



Esta seção aprofundou a dimensão emocional e afetiva do autoritarismo brasileiro, articulando:


  1. insegurança social estrutural,
  2. punitivismo e violência legitimada,
  3. ansiedade moral da classe média,
  4. crises políticas interpretadas como crises da democracia,
  5. o papel do medo no golpe de 8/1.



O argumento fundamental é que a democracia brasileira não foi capaz de substituir o militarismo como referência de segurança emocional.

Portanto:


o medo é o principal combustível da adesão popular ao militarismo — ontem em 1964, hoje em 2023.


A crítica central é que, sem políticas de bem-estar, justiça de transição e educação cívica profunda, o medo continuará funcionando como força antidemocrática.


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