A violência estatal, seletiva e sistemática, moldou identidades, afetos e expectativas políticas por décadas. Esta seção demonstra como a lógica do inimigo interno, herdeira direta da Doutrina de Segurança Nacional, transformou corpos socialmente descartáveis em alvo e permitiu que a política brasileira incorporasse traços de necropolítica.
A construção social da violência no Brasil é um elemento estruturante para compreender por que discursos militaristas encontram eco tão facilmente entre amplos setores da população. A adesão à repressão, ao autoritarismo e às rupturas institucionais não é apenas um fenômeno político, mas um produto de longa duração cultural, alimentado por desigualdade extrema, racialização da punição e naturalização da morte como mecanismo de controle social.
Nesta seção, aprofundamos o conceito de pedagogia da violência, articulamos a formação da política do inimigo e analisamos como a lógica da necropolítica permeia o imaginário militarista e contribui diretamente para a legitimação popular de golpes e intervenções, inclusive o 8 de janeiro de 2023.
5.1. A Pedagogia da Violência no Brasil: ensinar a aceitar a força como solução
A sociedade brasileira foi educada historicamente pela violência. Desde o período escravocrata, passando pela República Velha e pela ditadura militar, a hierarquia social foi mantida por meio de:
- coerção física,
- vigilância,
- punição exemplar,
- eliminação simbólica ou real de “inimigos”.
A redemocratização, embora tenha restabelecido direitos civis, não rompeu com essa pedagogia. Como mostram Teresa Caldeira (2000) e Paulo Arantes (2014), as décadas posteriores à Constituição de 1988 assistiram à intensificação de uma cultura da violência urbana e ao fortalecimento de discursos que legitimam a repressão como forma natural de manter a ordem.
A violência passou a ser narrada como:
- inevitável,
- necessária,
- moralmente justificável,
- instrumento legítimo de proteção.
Essa educação emocional molda subjetividades e faz com que soluções autoritárias pareçam normais, naturais, quase desejáveis.
5.2. Militarização da vida social: da ditadura à democracia
Durante a ditadura militar, a repressão foi institucionalizada como política de Estado. No entanto, o que poucos reconhecem é que, após 1988, a militarização não desapareceu; apenas se deslocou.
Na redemocratização, o Brasil manteve:
- polícias militares com lógica de guerra interna,
- justiça criminal seletiva,
- encarceramento massivo da população negra,
- operações policiais que tratam periferias como “territórios inimigos”,
- cobertura midiática que glorifica ações armadas.
A democracia constitucional convive com práticas autoritárias cotidianas, especialmente contra os segmentos racializados, pobres e marginalizados. Esse convívio cria uma percepção distorcida: enquanto a violência contra “outros” é normalizada, a violência política se torna uma extensão “aceitável” dessa cultura.
Assim, quando surgem discursos militaristas de repressão total — ou mesmo de intervenção federal ou militar — parte da população já está emocionalmente condicionada a aceitá-los.
5.3. A política do inimigo: dividir para governar
A política brasileira contemporânea funciona sob uma lógica profundamente ancorada na figura do “inimigo interno”. Essa lógica, que remonta ao período da Guerra Fria e ao anticomunismo militar, foi reabilitada com força pelo bolsonarismo e pela extrema direita digital.
O inimigo pode ser:
- o comunista,
- o petista,
- o STF,
- o jornalista,
- o professor universitário,
- o LGBTQIA+,
- o indígena,
- o movimento social,
- “o sistema”,
- “o globalismo”.
A política do inimigo funciona como:
- justificativa emocional para a violência;
- licença moral para suprimir direitos;
- mecanismo de unificação interna do grupo;
- ferramenta para mobilização de massas.
Quando a política é narrada como guerra, o militar se torna herói, o civil se torna fraco, e a democracia se torna obstáculo.
Essa lógica foi essencial para legitimar o golpismo de 2022–2023.
5.4. Necropolítica e o valor desigual das vidas no Brasil
Achille Mbembe (2011) define necropolítica como a capacidade do Estado — ou de grupos com poder — de decidir quem deve viver e quem pode morrer. No Brasil, essa lógica é antiga e racializada.
A necropolítica brasileira se expressa em:
- chacinas policiais,
- letalidade policial recorde,
- mortes em operações mal planejadas,
- políticas de segurança que tratam corpos negros e pobres como descartáveis,
- violência legitimada por discursos midiáticos e políticos.
Essa desigualdade no valor das vidas cria um cenário em que a democracia é percebida como “excessivamente leniente” e o militarismo, como “eficientemente punitivo”.
O golpe de 8/1 se alimentou desse ethos necropolítico: a vida institucional da democracia — STF, Congresso, governo eleito — foi tratada como descartável diante da “missão superior” de restaurar a ordem militar.
5.5. A naturalização do golpismo e a educação para o autoritarismo
Quando a violência é normalizada e o inimigo é desumanizado, o golpe se torna uma alternativa emocionalmente aceitável.
A população que invadiu e destruiu as sedes dos Três Poderes no dia 8 de janeiro não se via como golpista, mas como parte de uma “guerra justa”. Essa percepção só é possível porque:
- a democracia não se tornou referência moral;
- a violência continuou sendo referência de solução;
- o militarismo permaneceu como referência de ordem;
- o inimigo foi apresentado como ameaça existencial.
Enquanto a democracia educa para o conflito mediado pela lei, o militarismo educa para o confronto e a eliminação do inimigo.
O 8/1 representa a vitória provisória dessa pedagogia autoritária sobre a cultura democrática ainda incipiente.
5.6. O golpe de 8/1 como capítulo da política do inimigo
O 8 de janeiro foi a radicalização final da política do inimigo no Brasil.
A destruição do STF, do Congresso e do Planalto simboliza o desejo de eliminar:
- o mediador,
- o legislador,
- o juiz,
- o poder político civil.
Tais instituições foram transformadas em “inimigos” a serem derrotados.
Essa transformação não foi espontânea: ela foi cultivada sistematicamente nas redes sociais, em grupos militares radicalizados, e por lideranças políticas que fazem uso estratégico da necropolítica como discurso mobilizador.
Assim, o 8/1 foi menos um ataque motivado por ideologia racional e mais um ataque movido por uma gramática emocional do ódio, produzida por décadas de pedagogia da violência.
ANÁLISE CRÍTICA DA SEÇÃO 5
A seção 5 aprofunda:
- A pedagogia da violência como formação de subjetividades autoritárias.
- A permanência da militarização mesmo após a redemocratização.
- A construção da política do inimigo e sua função mobilizadora.
- A necropolítica como fundamento moral do militarismo brasileiro.
- A ligação direta entre violência normalizada e golpes aceitáveis.
- A leitura do 8 de janeiro como culminação de uma cultura de violência e ódio.
A crítica central é que não existe democracia sólida enquanto a violência estatal for pedagógica e legitimada. A democracia requer:
- políticas públicas não punitivas,
- desmilitarização da segurança,
- memória histórica,
- educação cívica,
- justiça social.
Sem isso, o militarismo continuará oferecendo respostas fáceis e violentas para crises complexas.
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