domingo, 7 de dezembro de 2025

5 – Democracia em Disputa – Pedagogia da Violência, Política do Inimigo e Necropolítica Brasileira

A violência estatal, seletiva e sistemática, moldou identidades, afetos e expectativas políticas por décadas. Esta seção demonstra como a lógica do inimigo interno, herdeira direta da Doutrina de Segurança Nacional, transformou corpos socialmente descartáveis em alvo e permitiu que a política brasileira incorporasse traços de necropolítica.


A construção social da violência no Brasil é um elemento estruturante para compreender por que discursos militaristas encontram eco tão facilmente entre amplos setores da população. A adesão à repressão, ao autoritarismo e às rupturas institucionais não é apenas um fenômeno político, mas um produto de longa duração cultural, alimentado por desigualdade extrema, racialização da punição e naturalização da morte como mecanismo de controle social.


Nesta seção, aprofundamos o conceito de pedagogia da violência, articulamos a formação da política do inimigo e analisamos como a lógica da necropolítica permeia o imaginário militarista e contribui diretamente para a legitimação popular de golpes e intervenções, inclusive o 8 de janeiro de 2023.





5.1. A Pedagogia da Violência no Brasil: ensinar a aceitar a força como solução



A sociedade brasileira foi educada historicamente pela violência. Desde o período escravocrata, passando pela República Velha e pela ditadura militar, a hierarquia social foi mantida por meio de:


  • coerção física,
  • vigilância,
  • punição exemplar,
  • eliminação simbólica ou real de “inimigos”.



A redemocratização, embora tenha restabelecido direitos civis, não rompeu com essa pedagogia. Como mostram Teresa Caldeira (2000) e Paulo Arantes (2014), as décadas posteriores à Constituição de 1988 assistiram à intensificação de uma cultura da violência urbana e ao fortalecimento de discursos que legitimam a repressão como forma natural de manter a ordem.


A violência passou a ser narrada como:


  • inevitável,
  • necessária,
  • moralmente justificável,
  • instrumento legítimo de proteção.



Essa educação emocional molda subjetividades e faz com que soluções autoritárias pareçam normais, naturais, quase desejáveis.





5.2. Militarização da vida social: da ditadura à democracia



Durante a ditadura militar, a repressão foi institucionalizada como política de Estado. No entanto, o que poucos reconhecem é que, após 1988, a militarização não desapareceu; apenas se deslocou.


Na redemocratização, o Brasil manteve:


  • polícias militares com lógica de guerra interna,
  • justiça criminal seletiva,
  • encarceramento massivo da população negra,
  • operações policiais que tratam periferias como “territórios inimigos”,
  • cobertura midiática que glorifica ações armadas.



A democracia constitucional convive com práticas autoritárias cotidianas, especialmente contra os segmentos racializados, pobres e marginalizados. Esse convívio cria uma percepção distorcida: enquanto a violência contra “outros” é normalizada, a violência política se torna uma extensão “aceitável” dessa cultura.


Assim, quando surgem discursos militaristas de repressão total — ou mesmo de intervenção federal ou militar — parte da população já está emocionalmente condicionada a aceitá-los.





5.3. A política do inimigo: dividir para governar



A política brasileira contemporânea funciona sob uma lógica profundamente ancorada na figura do “inimigo interno”. Essa lógica, que remonta ao período da Guerra Fria e ao anticomunismo militar, foi reabilitada com força pelo bolsonarismo e pela extrema direita digital.


O inimigo pode ser:


  • o comunista,
  • o petista,
  • o STF,
  • o jornalista,
  • o professor universitário,
  • o LGBTQIA+,
  • o indígena,
  • o movimento social,
  • “o sistema”,
  • “o globalismo”.



A política do inimigo funciona como:


  1. justificativa emocional para a violência;
  2. licença moral para suprimir direitos;
  3. mecanismo de unificação interna do grupo;
  4. ferramenta para mobilização de massas.



Quando a política é narrada como guerra, o militar se torna herói, o civil se torna fraco, e a democracia se torna obstáculo.


Essa lógica foi essencial para legitimar o golpismo de 2022–2023.





5.4. Necropolítica e o valor desigual das vidas no Brasil



Achille Mbembe (2011) define necropolítica como a capacidade do Estado — ou de grupos com poder — de decidir quem deve viver e quem pode morrer. No Brasil, essa lógica é antiga e racializada.


A necropolítica brasileira se expressa em:


  • chacinas policiais,
  • letalidade policial recorde,
  • mortes em operações mal planejadas,
  • políticas de segurança que tratam corpos negros e pobres como descartáveis,
  • violência legitimada por discursos midiáticos e políticos.



Essa desigualdade no valor das vidas cria um cenário em que a democracia é percebida como “excessivamente leniente” e o militarismo, como “eficientemente punitivo”.


O golpe de 8/1 se alimentou desse ethos necropolítico: a vida institucional da democracia — STF, Congresso, governo eleito — foi tratada como descartável diante da “missão superior” de restaurar a ordem militar.





5.5. A naturalização do golpismo e a educação para o autoritarismo



Quando a violência é normalizada e o inimigo é desumanizado, o golpe se torna uma alternativa emocionalmente aceitável.

A população que invadiu e destruiu as sedes dos Três Poderes no dia 8 de janeiro não se via como golpista, mas como parte de uma “guerra justa”. Essa percepção só é possível porque:


  • a democracia não se tornou referência moral;
  • a violência continuou sendo referência de solução;
  • o militarismo permaneceu como referência de ordem;
  • o inimigo foi apresentado como ameaça existencial.



Enquanto a democracia educa para o conflito mediado pela lei, o militarismo educa para o confronto e a eliminação do inimigo.

O 8/1 representa a vitória provisória dessa pedagogia autoritária sobre a cultura democrática ainda incipiente.





5.6. O golpe de 8/1 como capítulo da política do inimigo



O 8 de janeiro foi a radicalização final da política do inimigo no Brasil.

A destruição do STF, do Congresso e do Planalto simboliza o desejo de eliminar:


  • o mediador,
  • o legislador,
  • o juiz,
  • o poder político civil.



Tais instituições foram transformadas em “inimigos” a serem derrotados.

Essa transformação não foi espontânea: ela foi cultivada sistematicamente nas redes sociais, em grupos militares radicalizados, e por lideranças políticas que fazem uso estratégico da necropolítica como discurso mobilizador.


Assim, o 8/1 foi menos um ataque motivado por ideologia racional e mais um ataque movido por uma gramática emocional do ódio, produzida por décadas de pedagogia da violência.





ANÁLISE CRÍTICA DA SEÇÃO 5



A seção 5 aprofunda:


  1. A pedagogia da violência como formação de subjetividades autoritárias.
  2. A permanência da militarização mesmo após a redemocratização.
  3. A construção da política do inimigo e sua função mobilizadora.
  4. A necropolítica como fundamento moral do militarismo brasileiro.
  5. A ligação direta entre violência normalizada e golpes aceitáveis.
  6. A leitura do 8 de janeiro como culminação de uma cultura de violência e ódio.



A crítica central é que não existe democracia sólida enquanto a violência estatal for pedagógica e legitimada. A democracia requer:


  • políticas públicas não punitivas,
  • desmilitarização da segurança,
  • memória histórica,
  • educação cívica,
  • justiça social.



Sem isso, o militarismo continuará oferecendo respostas fáceis e violentas para crises complexas.


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