segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

7 – Democracia em Disputa – Mídia, Comunicação e a Construção do Militar como Gestor Competente

A imprensa brasileira desempenhou papel crucial na estetização da farda como símbolo de ordem, eficiência e neutralidade. A partir de coberturas históricas, novelas, reportagens e discursos oficiais, consolidou-se uma narrativa que blindou criticamente o militarismo e contribuiu para a legitimação de sua presença política.


A consolidação do imaginário militar como símbolo de competência, neutralidade e moralidade não ocorreu apenas por tradição histórica ou por doutrinação institucional. Ela se intensificou e se atualizou continuamente por meio da mídia corporativa, que desempenhou papel central na reprodução e ampliação dos valores militaristas no imaginário público brasileiro.


Ao longo do século XX e, especialmente, após a redemocratização, a mídia nacional — televisão, rádios, jornais impressos e, mais recentemente, redes sociais — contribuiu para transformar o militarismo em uma resposta quase “natural” a crises políticas. Essa construção simbólica, repetida durante décadas, tornou os militares atores privilegiados do debate público, frequentemente apresentados como solução técnica, moral ou patriótica para problemas complexos.


Essa é uma das principais razões pelas quais o militarismo — mesmo após a ditadura — pôde retornar com força na política entre 2013 e 2022 e culminar em manifestações golpistas como o 8/1.





7.1. A redemocratização, o silêncio sobre a ditadura e o espaço aberto à reinvenção da imagem militar



Diferentemente de países que vivenciaram processos de justiça de transição robustos (como Argentina e Chile), o Brasil optou por um modelo de conciliação durante a redemocratização. A mídia corporativa teve papel decisivo nesse silêncio seletivo.


Com algumas exceções, as emissoras de televisão e jornais evitaram expor:


  • torturas,
  • desaparecimentos,
  • execuções políticas,
  • censura,
  • perseguições,
  • crimes institucionais.



Ao invés disso, reforçaram narrativas suaves, frequentemente apresentando o regime como:


  • “período de ordem”,
  • “governo dos militares”,
  • “era do desenvolvimento”.



Essa omissão deixou espaço simbólico para que novos discursos militaristas florescessem décadas depois. Como explica Muniz Sodré (2012), quando a mídia molda seletivamente a memória coletiva, produz uma “sociedade midiatizada” em que a narrativa dominante se torna a base perceptiva do cidadão.


Assim, quando o bolsonarismo ressuscitou elogios à ditadura, encontrou terreno fértil, não contestado.





7.2. A estética da força: jornalismo policialesco e militarização da linguagem pública



Desde os anos 1990, programas policialescos como “Brasil Urgente”, “Cidade Alerta” e similares criaram um tipo de pedagogia televisiva da violência, na qual:


  • o policial é herói,
  • o militar é símbolo de ordem,
  • o agressor é desumanizado,
  • a punição sumária é moralmente aceitável,
  • o Estado democrático é lento e “passa pano”,
  • o Legislativo e o Judiciário são obstáculos.



Essa formatação editorial transformou a violência cotidiana em espetáculo moralizante, contribuindo para:


  • deslegitimar políticas de direitos humanos,
  • normalizar a brutalidade policial,
  • reforçar o punitivismo social,
  • construir a imagem militar como solução rápida e eficaz.



Essa estética midiática se transformou em uma fábrica de consensos autoritários.


A mídia não criou o militarismo, mas o estetizou — tornando-o emocionalmente atraente, moralmente justificável e politicamente desejável.





7.3. “Os militares são organizados e competentes”: a fabricação do mito tecnocrático



Ao longo das décadas de 1990 e 2000, crises de corrupção envolvendo civis foram amplamente destacadas na mídia, enquanto escândalos envolvendo militares foram sistematicamente minimizados ou invisibilizados.


Desse desequilíbrio narrativo emergiu uma percepção social:

o militar é incorruptível.


Além disso, missões do Exército, como operações em fronteiras, ações de emergência e presença no Haiti, foram repetidamente apresentadas pela mídia como provas de:


  • eficiência logística,
  • disciplina,
  • capacidade de gestão,
  • patriotismo.



Essa fabricação midiática do mito tecnocrático militar serviu como base simbólica para justificar:


  • a presença maciça de militares no governo Bolsonaro,
  • a retórica de que generais deveriam comandar ministérios,
  • a ideia de que o Exército seria capaz de “limpar” os Três Poderes.



No imaginário popular, o militar não era apenas soldado, era gestor especializado — conceito completamente equivocado, mas amplificado pela imprensa.





7.4. A crise política pós-2013 e a legitimação midiática do antipetismo militarizado



Durante a crise política entre 2013 e 2016, a mídia corporativa desempenhou papel central na construção de um clima antipolítico que favoreceu o retorno simbólico dos militares à cena nacional.


A lavajatização da política intensificou a narrativa de que:


  • o Legislativo era corrupto,
  • o Executivo era incompetente,
  • o Judiciário era o único guardião da moral,
  • e os militares seriam “reserva moral da nação”.



Comentaristas televisivos passaram a mencionar “a necessidade de ordem”, “a vergonha da classe política” e “a falência da democracia representativa”.

Essas falas, ainda que não pedissem intervenção militar, prepararam o terreno emocional para que milhões passassem a considerá-la razoável.


A crise mostrou o quanto a mídia brasileira nunca tratou a democracia como valor absoluto — mas como conveniência narrativa.





7.5. O ambiente digital e a amplificação do militarismo nas redes sociais



A partir de 2018, o militarismo se converteu em um produto de alta circulação nas redes digitais:


  • vídeos de generais atacando ministros do STF,
  • influenciadores digitais vestindo fardas,
  • conteúdos que misturavam Bíblia, exército e moral conservadora,
  • fake news sobre intervenção constitucional,
  • discursos sobre o Art. 142 como “gatilho legal” de golpe,
  • cultos militarizados transmitidos ao vivo.



A mídia digital não apenas difundiu o militarismo; ela o viralizou.

Ela transformou o militar em meme, símbolo, identidade.


O militarismo digitalizado se tornou a base simbólica dos acampamentos de 2022 e do ato golpista de 8/1.





7.6. Por que a mídia ajudou a legitimar o 8 de janeiro?



O 8/1 não surgiu do nada. Ele foi construído por:


  • anos de desinformação,
  • décadas de glamourização da força,
  • gerações de jornalismo punitivista,
  • normalização da presença militar na política,
  • omissão histórica dos crimes da ditadura,
  • espetacularização constante da violência,
  • e apresentação da política como “sujeira”.



Assim, quando milhares invadiram os prédios de Brasília acreditando estar “salvando” o país, reproduziam não apenas discursos políticos, mas narrativas construídas e legitimadas pela mídia ao longo de décadas.


Para grande parte dessa população, destruir o STF era tão moralmente defensável quanto “limpar a corrupção”.





ANÁLISE CRÍTICA DA SEÇÃO 7



A seção evidencia como a mídia:


  1. participou da omissão histórica sobre os crimes da ditadura;
  2. produziu uma estética da força, normalizando o punitivismo;
  3. construiu a imagem do militar como gestor neutro e competente;
  4. legitimou a antipolítica, preparando terreno para soluções autoritárias;
  5. amplificou o militarismo nas redes sociais;
  6. contribuiu indiretamente para o ambiente emocional e cognitivo do 8/1.



A crítica central é contundente:


a democracia brasileira não fracassou apenas no campo institucional — ela fracassou também no campo simbólico, onde a mídia consolidou a imagem do militar como antídoto moral contra a política civil.


Enquanto a mídia não for democratizada, e enquanto o jornalismo policialesco não for enfrentado como produtor de violência simbólica, o militarismo continuará funcionando como “solução natural” para crises, multiplicando o risco de novas rupturas.


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