A imprensa brasileira desempenhou papel crucial na estetização da farda como símbolo de ordem, eficiência e neutralidade. A partir de coberturas históricas, novelas, reportagens e discursos oficiais, consolidou-se uma narrativa que blindou criticamente o militarismo e contribuiu para a legitimação de sua presença política.
A consolidação do imaginário militar como símbolo de competência, neutralidade e moralidade não ocorreu apenas por tradição histórica ou por doutrinação institucional. Ela se intensificou e se atualizou continuamente por meio da mídia corporativa, que desempenhou papel central na reprodução e ampliação dos valores militaristas no imaginário público brasileiro.
Ao longo do século XX e, especialmente, após a redemocratização, a mídia nacional — televisão, rádios, jornais impressos e, mais recentemente, redes sociais — contribuiu para transformar o militarismo em uma resposta quase “natural” a crises políticas. Essa construção simbólica, repetida durante décadas, tornou os militares atores privilegiados do debate público, frequentemente apresentados como solução técnica, moral ou patriótica para problemas complexos.
Essa é uma das principais razões pelas quais o militarismo — mesmo após a ditadura — pôde retornar com força na política entre 2013 e 2022 e culminar em manifestações golpistas como o 8/1.
7.1. A redemocratização, o silêncio sobre a ditadura e o espaço aberto à reinvenção da imagem militar
Diferentemente de países que vivenciaram processos de justiça de transição robustos (como Argentina e Chile), o Brasil optou por um modelo de conciliação durante a redemocratização. A mídia corporativa teve papel decisivo nesse silêncio seletivo.
Com algumas exceções, as emissoras de televisão e jornais evitaram expor:
- torturas,
- desaparecimentos,
- execuções políticas,
- censura,
- perseguições,
- crimes institucionais.
Ao invés disso, reforçaram narrativas suaves, frequentemente apresentando o regime como:
- “período de ordem”,
- “governo dos militares”,
- “era do desenvolvimento”.
Essa omissão deixou espaço simbólico para que novos discursos militaristas florescessem décadas depois. Como explica Muniz Sodré (2012), quando a mídia molda seletivamente a memória coletiva, produz uma “sociedade midiatizada” em que a narrativa dominante se torna a base perceptiva do cidadão.
Assim, quando o bolsonarismo ressuscitou elogios à ditadura, encontrou terreno fértil, não contestado.
7.2. A estética da força: jornalismo policialesco e militarização da linguagem pública
Desde os anos 1990, programas policialescos como “Brasil Urgente”, “Cidade Alerta” e similares criaram um tipo de pedagogia televisiva da violência, na qual:
- o policial é herói,
- o militar é símbolo de ordem,
- o agressor é desumanizado,
- a punição sumária é moralmente aceitável,
- o Estado democrático é lento e “passa pano”,
- o Legislativo e o Judiciário são obstáculos.
Essa formatação editorial transformou a violência cotidiana em espetáculo moralizante, contribuindo para:
- deslegitimar políticas de direitos humanos,
- normalizar a brutalidade policial,
- reforçar o punitivismo social,
- construir a imagem militar como solução rápida e eficaz.
Essa estética midiática se transformou em uma fábrica de consensos autoritários.
A mídia não criou o militarismo, mas o estetizou — tornando-o emocionalmente atraente, moralmente justificável e politicamente desejável.
7.3. “Os militares são organizados e competentes”: a fabricação do mito tecnocrático
Ao longo das décadas de 1990 e 2000, crises de corrupção envolvendo civis foram amplamente destacadas na mídia, enquanto escândalos envolvendo militares foram sistematicamente minimizados ou invisibilizados.
Desse desequilíbrio narrativo emergiu uma percepção social:
o militar é incorruptível.
Além disso, missões do Exército, como operações em fronteiras, ações de emergência e presença no Haiti, foram repetidamente apresentadas pela mídia como provas de:
- eficiência logística,
- disciplina,
- capacidade de gestão,
- patriotismo.
Essa fabricação midiática do mito tecnocrático militar serviu como base simbólica para justificar:
- a presença maciça de militares no governo Bolsonaro,
- a retórica de que generais deveriam comandar ministérios,
- a ideia de que o Exército seria capaz de “limpar” os Três Poderes.
No imaginário popular, o militar não era apenas soldado, era gestor especializado — conceito completamente equivocado, mas amplificado pela imprensa.
7.4. A crise política pós-2013 e a legitimação midiática do antipetismo militarizado
Durante a crise política entre 2013 e 2016, a mídia corporativa desempenhou papel central na construção de um clima antipolítico que favoreceu o retorno simbólico dos militares à cena nacional.
A lavajatização da política intensificou a narrativa de que:
- o Legislativo era corrupto,
- o Executivo era incompetente,
- o Judiciário era o único guardião da moral,
- e os militares seriam “reserva moral da nação”.
Comentaristas televisivos passaram a mencionar “a necessidade de ordem”, “a vergonha da classe política” e “a falência da democracia representativa”.
Essas falas, ainda que não pedissem intervenção militar, prepararam o terreno emocional para que milhões passassem a considerá-la razoável.
A crise mostrou o quanto a mídia brasileira nunca tratou a democracia como valor absoluto — mas como conveniência narrativa.
7.5. O ambiente digital e a amplificação do militarismo nas redes sociais
A partir de 2018, o militarismo se converteu em um produto de alta circulação nas redes digitais:
- vídeos de generais atacando ministros do STF,
- influenciadores digitais vestindo fardas,
- conteúdos que misturavam Bíblia, exército e moral conservadora,
- fake news sobre intervenção constitucional,
- discursos sobre o Art. 142 como “gatilho legal” de golpe,
- cultos militarizados transmitidos ao vivo.
A mídia digital não apenas difundiu o militarismo; ela o viralizou.
Ela transformou o militar em meme, símbolo, identidade.
O militarismo digitalizado se tornou a base simbólica dos acampamentos de 2022 e do ato golpista de 8/1.
7.6. Por que a mídia ajudou a legitimar o 8 de janeiro?
O 8/1 não surgiu do nada. Ele foi construído por:
- anos de desinformação,
- décadas de glamourização da força,
- gerações de jornalismo punitivista,
- normalização da presença militar na política,
- omissão histórica dos crimes da ditadura,
- espetacularização constante da violência,
- e apresentação da política como “sujeira”.
Assim, quando milhares invadiram os prédios de Brasília acreditando estar “salvando” o país, reproduziam não apenas discursos políticos, mas narrativas construídas e legitimadas pela mídia ao longo de décadas.
Para grande parte dessa população, destruir o STF era tão moralmente defensável quanto “limpar a corrupção”.
ANÁLISE CRÍTICA DA SEÇÃO 7
A seção evidencia como a mídia:
- participou da omissão histórica sobre os crimes da ditadura;
- produziu uma estética da força, normalizando o punitivismo;
- construiu a imagem do militar como gestor neutro e competente;
- legitimou a antipolítica, preparando terreno para soluções autoritárias;
- amplificou o militarismo nas redes sociais;
- contribuiu indiretamente para o ambiente emocional e cognitivo do 8/1.
A crítica central é contundente:
a democracia brasileira não fracassou apenas no campo institucional — ela fracassou também no campo simbólico, onde a mídia consolidou a imagem do militar como antídoto moral contra a política civil.
Enquanto a mídia não for democratizada, e enquanto o jornalismo policialesco não for enfrentado como produtor de violência simbólica, o militarismo continuará funcionando como “solução natural” para crises, multiplicando o risco de novas rupturas.
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