Quando um artista confunde convicção política com agressão pública, o problema deixa de ser opinião e passa a ser responsabilidade. O episódio envolvendo Zezé Di Camargo, o SBT e a presença de Lula em um evento institucional expõe um fenômeno cada vez mais comum nas redes sociais: talento sem tolerância, liberdade de expressão usada como escudo para o ataque e pedidos de desculpas que surgem apenas depois do estrago feito.
Confesso que, ao acompanhar o episódio envolvendo Zezé Di Camargo e o SBT, uma pergunta me atravessou com certa ironia — e um incômodo real: o que aconteceria se um analista político subisse ao palco para cantar? Provavelmente viraríam meme. Mas quando um cantor resolve fazer discurso político agressivo, muitos aplaudem como se fosse coragem. Eis o paradoxo do nosso tempo.
O caso é conhecido. Zezé, artista consagrado, utilizou as redes sociais para atacar duramente a presença do presidente Lula no evento de lançamento do SBT News. Em vídeos e postagens feitas de forma impulsiva, madrugada adentro, anunciou o rompimento com a emissora, pediu o cancelamento do próprio especial de Natal e acusou o SBT — e, de forma direta, as filhas de Silvio Santos — de estarem “se prostituindo” politicamente. Dias depois, diante da repercussão negativa, pediu desculpas. Não pelo conteúdo de sua discordância, mas pela forma. Um recuo parcial. Um pedido de desculpas típico do nosso tempo.
E é exatamente aí que mora o problema.
Vivemos numa era em que a liberdade de expressão foi ampliada, mas a responsabilidade emocional e ética não acompanhou esse crescimento. As redes sociais deram voz — o que é positivo —, mas também dissolveram filtros mínimos de civilidade. O resultado é um ambiente onde a indignação performática rende engajamento, onde a agressão vira “opinião” e onde, depois do estrago feito, basta dizer: “não foi bem isso que eu quis dizer”.
No fundo, não se trata apenas de Zezé Di Camargo. Ele é apenas um exemplo emblemático de um fenômeno mais amplo: influenciadores, artistas, figuras públicas que confundem convicção com intolerância e sinceridade com grosseria. Pessoas que acreditam que ter seguidores equivale a ter razão moral.
Há um ponto que precisa ser dito com clareza, ainda que desagrade: talento não substitui tolerância. Ser um grande artista não concede licença para o discurso de ódio. E sim, chamar decisões institucionais de “prostituição” — ainda mais quando dirigidas a mulheres em posições de poder — ultrapassa o limite da crítica política e entra no campo da agressão simbólica.
Do ponto de vista psicológico, esse comportamento não é aleatório. Ele segue um padrão conhecido. Primeiro, a dissonância cognitiva: quando a realidade entra em choque com crenças rígidas, o indivíduo sente desconforto. Zezé não suportou ver uma emissora com a qual se identifica abrir espaço para um presidente que ele rejeita politicamente. Em vez de tolerar a divergência, atacou a fonte do incômodo. Rompeu. Ofendeu. Tentou “corrigir” o mundo à força.
Depois vem o segundo ato: a reação defensiva ao desgaste público. Quando o aplauso da bolha não é suficiente e a crítica externa cresce, surge o pedido de desculpas estratégico. Não um reconhecimento pleno do erro, mas uma tentativa de controle de danos. O clássico: “errei na forma, não na intenção”. Traduzindo: continuo achando que estou certo, apenas falei alto demais.
Esse tipo de retratação revela mecanismos de defesa muito claros — racionalização, negação parcial, transferência de culpa para o público (“vocês entenderam errado”). É também compatível com traços narcisistas comuns em figuras públicas: dificuldade em lidar com críticas, necessidade de preservar a própria imagem e resistência em admitir falhas reais.
Há ainda um elemento central: a bolha digital. Muitos desses ataques nascem em ambientes onde todos pensam igual. O sujeito fala para os seus, recebe aplausos imediatos e acredita que aquilo representa “o povo”. Quando a fala escapa da bolha e encontra a sociedade real — plural, diversa, contraditória — o choque é inevitável. E aí o agressor tenta se reposicionar como vítima da “interpretação equivocada” ou da “cultura do cancelamento”.
Mas é preciso dizer com franqueza: não se trata de cancelamento. Trata-se de consequência.
A liberdade de expressão não protege ninguém do julgamento público. Ela protege do Estado censor, não da crítica social. Quem ocupa espaços de visibilidade precisa compreender isso com maturidade. O SBT, ao receber Lula, Alexandre de Moraes e outras autoridades, não “se vendeu”; exerceu algo fundamental à democracia: pluralidade. Jornalismo não é torcida organizada. E emissoras não são extensão da convicção política de seus artistas.
Talvez o ponto mais preocupante seja a normalização desse comportamento. A ideia de que é aceitável agredir hoje e pedir desculpas amanhã. De que basta um post bem redigido para apagar a violência simbólica causada. Isso corrói o debate público, alimenta a polarização e transforma a política em espetáculo emocional raso.
Não adianta cantar sobre amor no Natal se, no restante do ano, se cultiva intolerância. Não adianta falar em valores familiares enquanto se desrespeita mulheres no exercício do poder. Coerência não é gritar mais alto; é sustentar princípios mesmo diante da divergência.
No mundo de hoje, talento sem tolerância não é virtude — é risco. E a história recente mostra que, cada vez mais, o público percebe isso. O palco continua lá. O microfone também. O que está em jogo é o que se escolhe fazer com eles.
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